terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Rapizius - Ananita

     
                                                                   
                                                                    ANANITA


Sentada na borda do canteiro comprido que servia de divisória da rua, Ananita segurava na mão direita a caixa de fósforo. Queria tanto fumar. Tinha horas que ela não via a cor do fumo de um cigarro. Levantou-se e pediu um ao homem que saía do café, mesmo em frente. Ia suplicar, justo no momento em que o homem recuava uns passos para agradá-la. Pediu-lhe um pau de fósforo, mas o homem tinha isqueiro. Agradeceu na mesma. Começou a maldizer sem olhar a quem. Pois não aguentava ficar calada. Mas antes que ela pudesse falar outra vez viu o toco de cigarro atirado por alguém, fumado acima da metade. Apanhou e acendeu o dela. Ananita vivia da bondade das pessoas. Escolheu ficar nesta parte do bairro desde o dia em que descobriu o café - livraria e a loja de frutas, sítio frequentado, onde podia abordar pessoas e obter auxílios. Ficava durante o dia e ausentava-se ao escurecer. Um dia convidei-a para um café. Sentiu-se bem e encorajada. Achava-se artista. Por acaso tinha jeito para arrumar palavras com alguma rima. Enquanto recitava, gesticulava como mandava as regras do rap. Eu estava a fim de aprender mais da vida com ela. Pelo sim ou pelo não o natural da rua faz falta a uma cidade. Ele ocupa a parte em que vida opera pelo avesso. Precisa da vida para viver à sua maneira. Nunca o contrário. Que seria de uma urbe só com gente saciada e emancipada? Que sentido teria a própria liberdade? Se desdém fosse rio teria como origem abastança. Não ter mata-bicho não é condição para se ser menos digno. Com dezasseis anos de idade levaram-me para uma barraca, dois homens, cada um de um lado, seguravam minhas pernas abertas, o outro abusava-me. Alternavam-se. Emprenhei sem saber de qual deles. A vida tinha perdido sentido. Os nove meses pareceram uma eternidade. Desmaiava todos os dias. Ficava sem força para nada. Tinha findado o internamento hospitalar. Não tinha onde ficar, para me safar esbofeteei o polícia de serviço. Fui detida. Passei uma semana na esquadra. Ali tinha tudo. No dia em que me entregaram a trouxa com minhas coisas senti-me desconsolada. Estava em dias de ter o menino e tinha vontade de entrar na maternidade. Decidi ficar na sala de espera do banco de urgência. As pessoas olhavam por mim, davam-me de comer. Dei entrada na maternidade. Estava ansiosa, mas temia o futuro do meu filho. Após o parto disseram-me que o anjo nasceu com a corda enrolada no pescoço e não se salvou. Vi ele, mas sem sinal de vida. Senti que ia morrer também, mas Santa Ana das Paridas socorreu-me. Larguei o corpo e meti-me na bebida, no fumo e droga leve. Assim como entrei, deixei tudo, sozinha. Podia estar a trabalhar, mas não confiam em mim. Mas, uma coisa, nunca dei meu corpo a mais ninguém. Não sei porquê te contei minha vida. Quantos capítulos têm um livro? Tenho trinta anos, se cada dia for um, faz as contas. 

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