quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

RAPIZIUS- Porto de Nhô Raul


PORTO DE NHO RAUL
O porto da Ribeira da Barca fora durante vários anos um dos melhores ancoradouros da Ilha de Santiago, ponto importante de trânsito de passageiros e de escoamento de mantimentos, especialmente, para o Porto Grande de São Vicente e outras ilhas. Em contrapartida recebia mercadorias diversas como cal, madeira, ferragens, sal, tintas, ferramentas e outros utensílios como bidões, vasilhames de metal e de vidro, armações para os trapiches, alambiques etc.  Ribeira da Barca ou simplesmente Porto tinha-se tornado num aldeamento muito afamado. Ao sul era o mar de águas profundas e ao norte era Ganchemba zona agrícola de regadio de bela nascente de água. 
Foi por iniciativa do Céza, (Cesário Semedo) chofer de Nene di Nha Munda, pai do falecido Presidente António Mascarenhas, que eu e Zezé, meu irmão, fomos autorizados a conhecer e banhar-nos pela primeira vez no mar da Ribeira da Barca, no Porto, após tanto ouvir falar do mar do ancoradouro dos afamados veleiros Rex, Maria Sony, Senhor da Areias, Novas de Alegria, Ernestina, Mar Novo, e tantos outros e Santa Rita pertencente aos Santa Rita Vieira comerciantes firmados em Assomada, coube-nos, assim, a sorte grande de ver o mar e apreciar os meninos que nadavam longe da praia.  
Este porto de mar contribuiu bastante para a importância da Vila de Assomada para a sua economia e para o ambiente sociocultural, sendo certo que era através dele que o concelho recebia mercadorias diversas e contactava pessoas e mercadores de outras ilhas, inclusive a tripulação dos navios, muitos deles instruídos e músicos, que a convite de amigos visitavam a Vila em horas vagas. Lembro-me de uma bela tocatina havida em nossa casa. Do grupo apenas o nome Pantxol ficou-me na memória. No entanto, músicos como Luis Rendal, Tazinho, Bana, B. Leza, Bilak, Bala, Djédje Matias, Djódja, Anu Nobu, entre outros, eram músicos conhecidos.
Tinha eu mais ou menos doze anos de idade (1959) quando conheci Nho Raul de Ribeira da Barca, violinista. Ele vinha tocar nas festas dançantes do fim do ano e do carnaval que se realizavam no Cine Clube de Assomada. Eram festas muito concorridas e animadas ora com músicos trazidos da Praia, liderados por Cesáreo e outras vezes por Manuel Clarinete, músicos que traziam muito ritmo nos seus repertórios: tchá-tchá-tchá, mambo, tango, suingue, bolero, morna, coladera, valsa, mazurca, marcha, merengue, etc., havendo impedimento, recorria-se a músicos locais Aristides (pai de Norberto) ou Nho Raul da Ribeira da Barca, violinistas experimentados que sabiam animar as noites dançantes. Nho Raul era um bom executante do violino. Era um entusiasta. Era um músico que vivia ardentemente o que fazia. Torneava o seu corpo conforme fosse o tom da melodia arrancada pelo arco no pequeno braço do instrumento.
Há bem pouco tempo, em visita à localidade, passei uma tarde inteira a ouvi-lo contar coisas do passado, a viagem e estada em Alemanha, as suas actuações, como foi a receptividade das músicas que tocava. Contou de um sujeito que queria tirá-lo o instrumento (violino supostamente Estradivários) por uma bagatela. Disse-me ele: «Um dia eu toquei com músicos estrangeiros e eles admiraram como é que eu, um analfabeto, por assim dizer, sem escola de música, a tocar assim. Expliquei-lhes: música é ouvido e tudo está na minha cabeça. Toquei música da terra deles sem nenhum problema. Mas, eles não. Enrascaram-se quando lhes pedi para me acompanharem numa morna. Olhas, levei este violino aqui que tem para cima de cem anos». Abriu e tirou o instrumento da caixa de protecção e deu-me a ler a etiqueta bem legível, provavelmente, do fabrico. «Olha, este instrumento está cá, comigo, faz anos. Ninguém o tira daqui-p’ra-fora. Esse alemão, que falava espanhol, foi ao meu quarto de hotel e pediu-me para trocar o meu violino com o dele. Estás a ver uma coisa. Dali, o homem pediu-me que fossemos à casa dele. Mas quando vi que ele queria mesmo era tirar-me o meu violino de graça, disse-lhe: - se o senhor quiser o violino terá de me indemnizar convertendo a idade do violino mais a minha em horas multiplicando cada hora por cem do vosso dinheiro. Se tiver esse dinheiro o violino é seu. O homem viu logo que não estava perante um burranco, apesar de, eu, Raul, viver sempre metido neste cantinho à beira mar». Mandou vir a garrafa de circunstância, serviu-me do bom aguardente para visitantes especiais, ele já não usava álcool, apenas fumava.
Nho Raul é um pai músico que conseguiu trazer gente nova para a música e prepará-la para a música, incitando-a aplicarem-se e a tirar o melhor proveito dos escassos instrumentos musicais que o exótico recanto do Porto possuía. Tcheca é um dos músicos emergentes do sossego das noites do Porto. É um dos ouvidos onde o professor depositou as afinações dos primeiros acordes. É um dos saídos do Porto e que ocupa um lugar de destaque no panorama musical das ilhas.
Ribeira da Barca é dona de um mar de águas profundas, é lugar onde o sol cambando repousa diariamente os seus raios no verniz azul-marinho a separar os lábios rochosos de duas ilhas oriundas da mesma cintura vulcânica, Fogo – Mosteiros -, terra natal de Nho Raul e Santiago, terra adoptiva. Nho Raul viveu, cumpriu e deixou Porto senhor e detentor de um património que a memória colectiva deve preservar e as gentes devem acarinhar e imortalizar. Ribeira da Barca, confidência do mar, é onde o Homem distinto e patriota se consagrou, onde soube dar o seu contributo para o bom-nome e na formação de boa imagem social da sua localidade. Porto e o seu mar não pararão de celebrar o nome do músico-violinista, não cessarão de espumar branco no sopé rochoso do fresco planalto, onde, bem alto, em absoluto silêncio, repousa a alma do ardente músico cabo-verdiano Nho Raul de Ribeira da Barca.

                         

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