sábado, 21 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Picos, Um Altar Garboso



            PICOS, UM ALTAR GARBOSO

No coração da Ilha de Santiago, para lá da Cruz dos Picos, estende-se o rugoso território do município e freguesia de São Salvador do Mundo, em cerca de trinta e um quilómetros quadrados, tendo por centro Achada Igreja, sede municipal, contornado por bonitos regatos e ribeiras cujas águas pluviais correm veloz para as várzeas de Santa Cruz, município vizinho. O concelho é marcado pelo rochedo Nguli Lança que se transfigura em cavaleiro, perfil basáltico natural que atrai a atenção dos visitantes, símbolo desafiador que cunha de forma ímpar a paisagem desta região ante a altivez do Pico de António, por isso mesmo, Picos, eira de uma identidade própria que vincou nos naturais uma forma peculiar de ser e de estar, Picos – Achada Igreja – terra de boa gente, de bons costume, honrada e trabalhadora, de gente que goza de muito prestígio, atributo herdado do passado que a iliba de ser pedinchão. É na mítica ribeira dos Leitõezinhos que viviam as gigantescas e centenárias árvores o Tamarindeiro e o Poilão motivo de muitos comentários.
A igreja de Nhô São Salvador do Mundo, santo padroeiro da freguesia, ergue-se no centro da Vila de Achada Igreja, monumento apreciado de diversos pontos da estrada nacional que liga o concelho às cidades de Assomada e da Praia. O dia deste Santo é, desde sempre, tido como a maior festa religiosa de Santiago, celebração que congregava participantes de diferentes pontos da Ilha, para pagar promessas, ofertando géneros, aves e pequenos animais, de seguida leiloados pela paróquia. As festas eram uma espécie de romagem aos ritos e às tradições antigas, em que o colorido das vestimentas davam cor e tom ao paisagístico, a música, a gastronomia, o prazer e os galanteios enchiam as pessoas de ânimo, amalgamadas, gozavam a vida abençoada pelo Salvador de todos. A música de salão era produzida pelos instrumentos de corda e clarinete comandada por Cesáreo Boca ou Manuel Clarinete, enquanto nas tabernas e barracas improvisadas era o baile nacional (baile popular) por conta dos tocadores de gaita e ferrinho que, ao ar livre, celebravam na sabura, sem embaraços, a vida vivida.
A vizinha Achada Leitão, belo aldeamento, era terra de Nhô Djonsinho Cabral, grande mestre de serralharia, sabedor famoso dentro e fora da freguesia, importante proprietário de terras, dono de conhecimentos técnicos, principal criador da célebre oficina de Txada Liton, lugar onde se reparava utensílios domésticos e de lavoura, peças de carro, onde se armava tachos e alambiques e se fundia peças de trapiches, se fazia e se reparava armas de fogo, serviços prestados a pessoas de todos os quadrantes da sociedade santiaguense da época, além de ser autêntica escola de artes e ofícios, onde se aprendia a conhecer o teor dos metais, a lidar com a forja, fundição e serralharia, disciplinas obrigatórias para os aprendizes, oficina, também, onde se fabricavam ferramentas e apetrechos para servir os pequenos ofícios, tais como, pesos, medidas, facas, maxins, enxadas, funis, tachos, cunhas, alavancas, martelos de pedreiro, colheres de cal, picaretas, ponteiros, dobradiças, etc.
As chuvas abundantes de outrora e os bons resultados agrícolas conferiam vida desafogada aos salvadorenses que raramente deixavam as suas ribeiras para viverem noutros lugares. No entanto, as mudanças causadas pela carência das águas alteraram um pouco a vida e a fisionomia da região, obrigando alguns à dispersão, mesmo assim, os que ficaram jamais abstiveram-se de lutar pela construção de um futuro melhor para si e para os seus filhos. A penúria de água, o êxodo para as cidades, a emigração, afectaram bastante a vida económica e social do concelho, com impacto nos festejos que se afastaram dos costumes e hábitos antigos, passando a ser oficiosos ou oficiais, programados de acordo com proveitos políticos dos poderes instituídos.  
  Os tempos mudaram e com eles a realidade também. Os festejos são outros porque as pessoas, os hábitos e os costumes, também, viram outros, apesar disso, as celebrações de Nhô São Salvador do Mundo, também, Dia do Município, continuaram muito participadas, com outros conteúdos é claro, destacando-se, além da parte religiosa, programação diversa, desporto, recreação, festival musical, exposição de artesanato, antiguidades, restauração, que se encaradas com realismo e exploradas com inteligência valorizam a cultura e o bom nome do concelho, sendo a civilidade, a singularidade do paisagístico mais-valias que fazem do concelho um destino turístico indiscutível. Picos - Achada Igreja é um altar garboso.


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RAPIZIUS

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