quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Entre duas Vidas (2)


                                             ENTRE DUAS VIDAS (2)


Era de madrugada. Exercitava textos no máximo quinhentas palavras, a lembrar o saudoso poeta Mário Fonseca, quem me espertou para este tipo de texto, estilo de Virgílio Pires, cultor deste género literário, tido como pai do conto curto caboverdiano. Ao pé de mim a minha viola – Peregrino - e por detrás do armário a Osga Rosa a cantar no habitual Fá Maior. Concentrado estava eu a formatar as ideias para o texto - Entre duas Vidas – quando apareceu a sombra que sempre me acompanha nestes momentos a movimentar-se na sala: sapato polimento preto, calças escuras, camisa branca manga comprida, passo longo e lento, num vai vem tranquilo. A figura aparece-me sempre do mesmo lado. Do lado do canto do olho direito. Não se lhe ouve a voz. Falávamos por instinto, mas, desta vez, foi desdobramento. Era eu sem ser eu a traçar na tela do computador os contornos da narrativa. De súbito, tive o texto pela frente que começava assim: olha, eu e tu somos o mesmo espirito. Usas nome diferente. Tens tua vida. Eu a minha. Mas interligamo-nos, sempre. O que nos separa é caso menor. Nas condições em que vivo não me é permitido revelar quem e onde estou. Mas, vivo. Podes dar-me nome que pretenderes, não levo a mal. Sempre que posso, venho. Por amizade e afeição. Não te preocupes comigo. Sinto-me bem onde estou. Mas é difícil o teu viver. Acautela-te. Eu morri há algum tempo. Na altura começavas a abrir os olhos. Aquela terra fez-te bem. Deu outro rumo à tua vida. As pessoas das tuas relações eram gente de bem. Os lugares visitados foram benéficos. Tudo isso ajudou-te muito. Mas, o ambiente onde vives é diferente. Há gente e procedimentos inúteis. De todo o modo, vive. Vivo em outra vida, sem ser visto. Mas, vivo, convivo, a cumprir o meu dever de vivo para com os vivos mortos. Sinto que falta óbito aos vivos a caminho da morte. Gostaria de estar morto para não ver os vivos mortos, que sei estarem extintos antes de morrerem. Passei o tempo todo a pensar morrer por eles. Mas, depois de ela acontecer, descobri que viver pelos mortos vivos não vale, nem após a morte. Não me julgues mal. Morri de coisa grave. Fui ao médico, estive internado e medicado por sintomas que não conseguiram diagnosticar. Achou-se que era doença de sono porque não dormia havia meses. De seguida, comentou-se que podia ser obra de espírito encalhado. Mais tarde, reuniu-se a junta médica e acabaram por aumentar a dose do sedativo. Tiveram de consultar o banco de dados, meu ficheiro tinha sumido. O operador confirmou ter registado tudo. Insistiram, nada. Chamaram o técnico informático para proceder a busca. Minutos depois, acharam. A descrição aludia que o paciente tinha morrido uma semana atrás, óbito justificado por insonolência crónica e anemia exacerbada. O confrade foi-se embora assim como veio. Deixou o texto pronto. Li, conferi e apurei. Eram quinhentas palavras. Assim foi a madrugada de ontem. 

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