sábado, 14 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Dois Apontamentos



                                                       DOIS APONTAMENTOS

1.
Estou a ouvir a moça a cantar Djonzinho Cabral, composição gravada pelos Tubarões. 
Vejam com é traiçoeira a oralidade ou seja aprender de ouvido, caso usual e Cabo Verde.

A letra cantada é assim:
Maria di Djonzinho es po'l na cadia
es pol na cadia pamodi é kebra brinco. 
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

A letra original é assim:
Maria di Djonzinho es kre pol na kadia
Po'l na cadia pamo é ka ntrega brinco.
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

História:
Maria era mulher di Djonzinho e tinha de arrendamento uma porção de terra para sementeira. Deitou à terra as sementes e não choveu e seu morgado reivindicou o pagamento da renda. Maria não tinha como pagar. Nho morgado insistia no pagamento da renda e quis que ela deixasse ficar o par de brincos de penhora o que ela que recusou fazer. Assim sendo, Nho Morgado ameaçou-lhe com cadeia. Djonzinho Cabral, seu companheiro, conhecendo a situação, mandou dizer a Nho Morgado que, por causa da Maria, vendia o boi para pagar a renda da propriedade semeada e que nada rendeu, por faltar chuva.
Há uma tendência em não perguntar e nem sequer saber a letra e o enredo, resultando dai invenções e deturpações perigosas do sentido da história que o autor do texto contou e musicou, por isso, não devemos cair na tentação de truncar os originais. Música não é só ritmo e melodia. É também mensagem e comunicação. É vinculação de uma realidade expressa, vivida por alguém ou pelo autor.

2.
Não devemos ter medo do moderno desde que ele tenha assento no pensar reflexivo sobre as bases do passado. O presente é todo nosso e ninguém nos tira isso. Mas ele é sempre o passado, o ido, na medida em que inovamos ou criamos o novo. No tocante à nossa música, só com estudo, tratamento adequado das experiencias dos outros e  dos empréstimos úteis podemos construir com segurança o moderno (futuro) dos nossos géneros musicais. O bom compositor não deverá permitir desregramentos, mas, sim, dar continuidade no respeito á memória e às heranças que tornaram a nossa música inimitável.
Afinal a música é uma espécie de literatura escrita por acordes no braço do violão caboverdiano que narra o estado da alma, a estrada das emoções e as relações com a natura e com a vida, sendo o compositor a ponte de ligação entre o sentir e a realidade, conforme o relógio do tempo e a geografia da vida o nortear. Ser fiel às raízes é pedir demasiado, mas ser leal é o que aconselho aos que consideram e amam a nossa música.


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