domingo, 25 de junho de 2017

POEMAS MARGINAIS


                                               
DEIXEM O PATIO FESTEJAR E DANÇAR

Festeja e dança o meu pátio
Até embebedar a mão e a viola
Mesmo se tudo parar… dança
Nos braços loucos do Peregrino
Amo e sempre amarei meu pátio
De grilos a romancear a janela
De basalto rubescido de Maio
De sol a escoar como formigas
Festejo e danço com o meu pátio
Até o entardecer das paredes
Mesmo quando tudo para… festejo
O chegamento dos pardais
Olho para dentro do lá debaixo
Há bancos vazios e beatas de charro
Olho demoradamente o envolvente
Sinto-me como eu sou… bailante
Sem mistérios p’ra guardar
Sinto-me cem por cento peregrino
Bêbado de indiferença de como sou
Os vagabundos falam sem sentido
Ouve-se e não se abrange… vazam-se
Palavras até o fim das palavras
Olho para o subido das paredes
O corpo do pátio traz flores no falo
O vapor escarlate no sexo da tarde
Quero lá saber de quem dorme nesta hora
Se o Peregrino tem o Bemol e um Sus
E Dobrado Bemol á espera do tempo
Finjo não saber que sou maestro
Para a terça não sofrer de desafino   
Se acontecer o destoar de mim  
Deixem o pátio festejar e dançar.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Txabeta Em Estado de Alerta

                                                         
                                                        
                                                               Txabeta em Estado de Alerta

Amputado de um pé, sem poder mexer, sem reconhecer direito um amigo, só na maior parte do dia, vigiado pela mulher e pela vizinha Mery que cuida da higiene dele, de-longe-em-longe uma visitinha de amigos de outras paragens, em detrimento dos de São Domingos. 
O ditado bíblico é vero e severo ao mencionar que ninguém é profeta na sua terra. Denti d'Oro é grande por conta própria. Dispensa altares. Ontem vim de lá triste e chocado. Antoni Denti d’Oro está ali, encolhido nos seus 91 anos de idade, por conta de um silêncio trágico e perturbador. Ele reconheceu-me. 
Os olhos dele faiscavam como lamparinas nos terreiros onde improvisava refrão do batuko, onde exaltava as máximas populares no seu invulgar finason, o brilho baço dos seus olhos pareciam de alegria, daquela que denuncia dever cumprido, da que consuma o reconhecimento por parte de tantos quantos o admira, o visita, o apoia e o dá o merecido valor de um santiaguense destacado, que tem nome e figura espalhados pelo mundo. 
O momento critica em que esta lenda do Batuko e do Finason, em que esta figura carismática de São Domingos, em que este talentoso mestre cursado na escola da vida atravessa, põe a Txabeta em Estado de Alerta, põe todas as formações do batuko em stand by, põe todos os amigos e admiradores em estado de vigilância, põe São Domingos, em particular, em cautela permanente, põe santiago em posição de guarda. 
Quando morre um grande, tardiamente, levantam-se vozes de todos os tipos, incluindo a dos familiares, a lamentar dores que não sentiu, outras em elogios fúnebres a enaltecer por umas horas e alguns minutos os feitos, as obras, o valor do seu papel social e outras ficções que os figurões delineiam no papel para empolgar os discursos e alçar o colarinho. 
No entanto, o grande, em estado de padecimento, não tem dos mesmos um recado, um caldo, um sabonete, um olhar, uns minutos de visita, por falta de interesse e ignorância, mas nunca por lhes faltar tempo. Antóni Denti d’Oru precisa, neste momento, da presença e do olhar amigo mais do que qualquer outra dádiva. Saber dele tem importância e dimensão humana, tem a grandeza da sua obra. Sei que dos Estados Unidos, de Portugal, da França, da Holanda, amigos nacionais e estrangeiros ligam a saber do seu estado de saúde. A Mery atende pelo telefone 996 16 54.   

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rapizius



A capital da ilha, a cidade da Praia, é a mais festiva, a mais carnavalesca, a mais violenta e a mais mortal das ilhas.
Os tempos modernos apagaram o ditado de Nho Nacho, ditos bíblicos traduzidos para o crioulo da terra: Ali bem tempo ki  dizavensa ku guerra ta subi Praia " Raton ku Raton, Ratinho ku Ratinho" . É o que se assiste na Praia.
Tais acontecimentos remam contra a propaganda entusiástica dos poderes, das estatísticas, dos projectos, dos sonhos, da boa vida , da boa aparência, da morabeza, de menos álcool, de mais requalificação e outras coisas que os democratas  defendem como sociedade livre e culta que dá lições e está em primeiro lugar em muita coisa em África, etc. etc. Os tais laços de gravata no colarinho desbocado.
Estes patrocinadores do liberalismo capitalista consumista, defensores  da difusão massiva de modas e valores que nada têm a ver com a crioulidade das ilhas. Sabem, mas fingem não saber, nem ver, nem agir por causa do futuro do poder.
O Pantano Perfeito está em estado avançado de edificação.
Os que se afastados do pantanal não têm mais para onde ir, nem onde reclamar, nem contar com a justiça e as regras.
Os partidos políticos estão em campanha permanente.
As Câmaras Municipais são cartazes da propaganda do governo.
Os deputados são espectadores de si próprios.
A policia programa, vai, intervém, atua, captura bandidos, dias depois volta a perseguir os mesmos bandidos.
O Tribunal ouve, diz não ter provas e põe fora os bandidos.
O Hospital recebe, coze, cura, interna, presta socorro, trata de graça os bandidos, recompondo-os para novas acções.
Os bairros periféricos tornaram-se escolas de formação de marginais, de assaltantes, de violadores, de passadores e de viciados.
A igreja recebe os assassinados, encomenda, reza, perdoa o bandido que fica de alma limpa até o próximo delito.
O único estabelecimento onde se cumpre é o cemitério.

Os coveiros mandam todos la para baixo sem excepção e são esquecidos e mal pagos
É o romance - O Pantano Perfeito - em construção.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Rapizius




                                               

                                             BILHETE PARA UMA LARVA NO PARAÍSO

Hoje, recordei-me de um caso penoso. Retracto de um autêntico pantanal, Reino natural de uma larva viridente, Chulo do afecto de folhas empilhadas. Um mosaico a metamorfosear modos. No olhar dos quirópteros tudo girava. O tempo parecia romancear saudades. O carpo parecia ter dó da sua origem. O retracto trazia um busto escondido De um ser aflito por louros e láureas, De deliradas falas empilhadas de ódio, A carpintar facas pelo tempo adentro, Sem poder dedilhar e cantar a morna, Sem poder segurar e abraçar o violão.
Que triste fim de um sapo enturvado, Que a todo o tempo olha-se ao espelho, Da água com se fossem pratos de barro, Poiso da cobiça e da própria morte, quiçá seu paraíso.
Amigos e caminhos não me hão-de faltar, Amenos que me falte em alguma parte, Uma margem de silêncio para me repousar.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Floris d'Ibyago


 


SONETO PARA O ASTROLÁBIO

Quem ousa chamar-me de tosco
Se o que sou são apenas marés
Que em mim vive e me treslouca  
E ondula como vento nas galés   

Viver traz-me sonhos e desvairos
Apraz-me ser o arredado vitalício
No longínquo paradeiro de leigos
Sem mercês nem dogmas e vícios

Desconsolei-me ter visto a cabra  
Que conduzia nas tetas pendidas
A saudade do pastejo de outrora

Do pastor mal se ouvia o trác-trác
Do cajado por entre as penedias   
De lado em lado de flora em flora

POEMAS MARGINAIS

                                                DEIXEM O PATIO FESTEJAR E DANÇAR Festeja e dança o meu pátio Até embebedar a mã...