terça-feira, 27 de junho de 2017

Poemas Marginais


MÁS_CARAS EMDE_LÍRIO

Desmascarado sentei-me na gaveta  
A lâmpada acesa a vigiar minha mão
Desinquieto nem pardais-do-telhado

Bafo adormecido espalhando alma
No caderno aberto à minha frente
Silêncios versos canções ardentes

Olhos a procurar verdades em fuga
Invento o voo de uma nuvem roxeada
Um fio de água o chão de um rebento

Folhas crescendo o despontar do dia 
Subo e desço o braço do violão
Uma mão desenha e a outra arpeja

O violão curva da neguinha que amo
Há ritmar do mar e o cantar do galo
Nos recortes do dia a içar o começo

De caderno fechado à minha frente
Mascarado levantei-me da gaveta
Deix_ando más_caras emde_lírio

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ESTE VÓMITO FOI-ME DEDICADO PELO GRANDE ESCRITOR E POETA LUSO-CRIOULO - JOSÉ LUIS TAVARES - DOMINADOR DA LÍNGUA DE BOCAGE E EXÍMIA PENA CAÇADORA DE PRÉMIOS LITERÁRIOS.
QUANDO A ALMA É PRISIONEIRA DA COR DA PELE A BÍLIS É FRUSTRAÇÃO ESCRAVOCRATA.
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RESCALDO E REFUGO DA DESINFESTAÇÃO (OU COMO UMA RATAZANA DEU À COSTA EM FORMA DE KAKA OU CAGALHÃO, QUE É A SUA ESTIRPE MAIS NOJENTA)

José Luiz Tavares
Eu tinha prometido a mim mesmo não voltar, por nada deste mundo, à desinfestante matéria, mas como o biltre teve a desfaçatez pusilânime de tomar as dores da comparsa (que também são um tanto suas, porquanto sempre foi capacho e serventuário de poderes), cá vai um tirinho, apenas para agitar o esgoto. Mas esta é uma não resposta, porquanto um flato fedorento não contém qualquer substância digna da varredura desratizante da minha pena indignada. E também não é um debate de ideias, ainda que viril. É apenas un trotxada, di kes d'un bes.
(Essa gente é louca ou masoquista, ou as duas coisas juntas? Não sabem que quando se armam em santxu matxu ô femia ku mi a única atitude higiénica e cidadã que concebo é baixar desmedida cacetada neles como se não houvesse amanhã? Podem planear patuscas celebrações, manifestações de desagravo, congeminar ou patrocinar peidos como esse, bolçar a raiva impotente aos ouvidos de afectos e desafectos, que a minha determinação não esmorece nem vacila).
A sua posta, não de pescada, mas de merda regurgitada, é o inexaurível retrato da sua pusilanimidade cívica e da sua covardia moral. É certo que, apanhados pela desinfestante bomba, foram pressurosamente a correr com as calças e cullotes borradas de diluviana caganeira tentar atolar de merda a caixa de comentários do online onde o meu texto/manifesto foi publicado. Reacção previsível, por isso foram barrados à entrada. Mas o biltre, com a bomba bem entalada na garganta, impante de vacuidade cívica e espumando de impotência intelectual, ku folgu si di pifa (a expressão é do próprio) ainda conseguiu exalar no Facebook do Nhonhô Hopffer um asqueroso e flatulento «e daí?» Embora em anterior encarnação se achasse quadrúpede (vulgo buru na ladera), a ratazana, vendo-se ao espelho da sua bestialidade, resolveu travestir-se de sapo, na esperança de que o beijo dalguma extraviada ou extenuada musa o transforme em transfronteiriço poeta da portuguesa língua, seu novel e propalado propósito. Talvez lendo o José Luiz Tavares se aperceba do quão difícil é, afinal, a empreitada. Que fique, sem complexos, pela nossa amada, crioula língua, onde, conceda-se com inteira justiça, o seu conseguimento não é dos menores. Talvez, desse modo, a posteridade venha a saudá-lo com bem mais risonha face. Razão porém tinha o enorme João Vário, quando escreveu que a arte ainda não melhorara o homem.
No seu complexo de serventuário de modos totalitários de conceber o mundo e a vida, quando não mesmo industriado em repulsivas técnicas e tácticas bufas, lá se refere, sem mencionar uma única vez o nome, a este poeta de corpo inteiro como «o escriba, e o artista de blazer». Ó barbosa criatura, tanta kaka por um simples blazer, que um março friorento me obrigou a portar, embora saibamos todos que esse cacarejo canalha, esse chungoso e covarde textículo, essa prosa excrementícia exalada a más horas das entranhas envidiosas, tem a ver apenas com a sublime sova que arreei sobre vossas nulidades fraudulentas, travestidas de academistas. Mas seja. Antes janota de blazer do que a alma de lacaio, a espinha dobrada e as barbas conspurcadas pelas migalhas lambidas ora li, ora la.
Eu sei que andas comigo atravessado há muito, ngispadu propi, desde a entrevista que concedi ao Expresso das Ilhas em julho de 2010, na sequência da edição bilingue de Paraíso Apagado por um Trovão. E mesmo assim, no afã ventoso de estares em todas, não te coibiste de aparecer, ressabiado e complexado, no antigo Club Confidencial, no palmarejo, na tertúlia para o qual eu fora convidado. Depois de teres atravessado cutelos e quebradas, descido ladeiras até encalhares nas fundas ribeiras da tua ignorância, despido de orgulho, ou apenas de simples pejo, a meu malicioso convite - uma ratoeira bem urdida - lá aceitaste ler dois esconsos poemas em português, no que constituiu uma propositada, embora subtil, humilhação de que nem te apercebeste. Aliás, esta não foi a única vez que foste obrigado a engolir o teu próprio vómito: aconteceu, volvidos anos, depois de rabiosas declarações em relação aos executantes do género musical hip-hop, demonstrativas da tua aguda intolerância e ignorância estéticas.
(Se dúvida houvesse acerca do carácter de tal criatura, relembre-se o virulento e demolidor retrato, feito há uns anos por um irmão num jornal aqui da praça. Mas que esperar de um pobre de espírito que, pedindo meças aos deuses do desvario, se afirmou certa vez mais poeta do que o nosso imenso Arménio Vieira? Esse mesmo presumido landgrávio, com a peçonha enquistada em todos os recessos da alma, insinuou há dois anos, sem apresentar quaisquer evidências credíveis, que Zezé di nha Reinalda não seria o autor de Guentis d’ázagua, esse monumento de ternura às gentes da nossa terra). Mas a mim tu não chamas «escriba», seu monco delambido, seu escarro abjecto. Eu sou poeta com todas as letras existentes, mais aquelas que o meu engenho reinventa. Escriba és tu, mai-los da tua igualha, que pondes a pena, a voz e a alma ao serviço dos vossos torpes amos, que jamais são a arte, a beleza ou a simples verdade. Eu sirvo somente, e sempre, à poesia e à minha consciência.
Não tendes estatura cívica, moral ou intelectual para falardes comigo, nem para tomares as dores da tua comparsa. (Sagaz foi ela em não piar no meio dos destroços provocados pela desinfestante bomba). Convosco a única forma de (não) conversa é de esgoto para baixo, mas para tal não vou contribuir nem com mais uma simples pitada de DDT (já bastou esta dose de TNT), pois digais o que disserdes, em linguagem de asno ou de roedor, não conseguis dizer nada. Népia. Nicles. Nen flatu ki fari folgu.
Ainda vos dei uma oportunidade, no dia do magnífico espectáculo que haveis citado, de me dizeres na cara o que andastes a refocilar por tocas e tugúrios quando vos deixei, feito estafado espantalho, com as mãos desamparadas à cata da apropriada fossa onde metê-las (a razão mais imediata para o seu asqueroso espumejar) mas, confirmando de que fibra moral sois feito, preferistes ao quinto dia (bem menos levou cristo a ressuscitar) ir onanizar mentalmente para as funduras do Facebook.
Vossa vacuidade fique a saber, se não souberas já, que eu, José Luiz Tavares, escritor e cidadão desta terra e do mundo, não pertenço à laia dos lacaios.
Nenhuma merda que atirardes, com pífia ou pesporrente voz, me fará responder-vos outra vez. Nem que tenteis a calúnia ou a ofensa, inventeis desafios passadistas de macho falho do poder do pensamento, ou mesmo me sairdes de tocaia das alfurjas onde congeminais caninas façanhas para o dia de amanhã. Este viril esbofeteamento verbal, para mim, e sobretudo para os meus, que não querem ver-me a perder o precioso tempo da poesia com o visco dos vermes, é retribuição suficiente, na medida da ofensa praticada. A honra está lavada, o espírito apaziguado.
A resposta está dada duma vez, e para sempre, pela consistência do meu labor criativo, pela exigência do meu posicionamento cívico e intransigente atitude ética. Sempre frontal, dando nome aos bichos, oferecendo o corpo às balas, combatendo com a fúria da razão esclarecida e a sublime violência da poesia, que sempre hão-de sobrepor-se à caca com que nos querem conspurcar.
Escrito na cidade de Boston, Massachusetts, terra de liberdade, aos 10 dias do mês de abril de 2017.

P.S: Este texto é a resposta a um arroto de Kaká Barbosa no seu facebook a 30 de Março de 2017.

domingo, 25 de junho de 2017

POEMAS MARGINAIS


                                               
DEIXEM O PATIO FESTEJAR E DANÇAR

Festeja e dança o meu pátio
Até embebedar a mão e a viola
Mesmo se tudo parar… dança
Nos braços loucos do Peregrino
Amo e sempre amarei meu pátio
De grilos a romancear a janela
De basalto rubescido de Maio
De sol a escoar como formigas
Festejo e danço com o meu pátio
Até o entardecer das paredes
Mesmo quando tudo para… festejo
O chegamento dos pardais
Olho para dentro do lá debaixo
Há bancos vazios e beatas de charro
Olho demoradamente o envolvente
Sinto-me como eu sou… bailante
Sem mistérios p’ra guardar
Sinto-me cem por cento peregrino
Bêbado de indiferença de como sou
Os vagabundos falam sem sentido
Ouve-se e não se abrange… vazam-se
Palavras até o fim das palavras
Olho para o subido das paredes
O corpo do pátio traz flores no falo
O vapor escarlate no sexo da tarde
Quero lá saber de quem dorme nesta hora
Se o Peregrino tem o Bemol e um Sus
E Dobrado Bemol á espera do tempo
Finjo não saber que sou maestro
Para a terça não sofrer de desafino   
Se acontecer o destoar de mim  
Deixem o pátio festejar e dançar.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Txabeta Em Estado de Alerta

                                                         
                                                        
                                                               Txabeta em Estado de Alerta

Amputado de um pé, sem poder mexer, sem reconhecer direito um amigo, só na maior parte do dia, vigiado pela mulher e pela vizinha Mery que cuida da higiene dele, de-longe-em-longe uma visitinha de amigos de outras paragens, em detrimento dos de São Domingos. 
O ditado bíblico é vero e severo ao mencionar que ninguém é profeta na sua terra. Denti d'Oro é grande por conta própria. Dispensa altares. Ontem vim de lá triste e chocado. Antoni Denti d’Oro está ali, encolhido nos seus 91 anos de idade, por conta de um silêncio trágico e perturbador. Ele reconheceu-me. 
Os olhos dele faiscavam como lamparinas nos terreiros onde improvisava refrão do batuko, onde exaltava as máximas populares no seu invulgar finason, o brilho baço dos seus olhos pareciam de alegria, daquela que denuncia dever cumprido, da que consuma o reconhecimento por parte de tantos quantos o admira, o visita, o apoia e o dá o merecido valor de um santiaguense destacado, que tem nome e figura espalhados pelo mundo. 
O momento critica em que esta lenda do Batuko e do Finason, em que esta figura carismática de São Domingos, em que este talentoso mestre cursado na escola da vida atravessa, põe a Txabeta em Estado de Alerta, põe todas as formações do batuko em stand by, põe todos os amigos e admiradores em estado de vigilância, põe São Domingos, em particular, em cautela permanente, põe santiago em posição de guarda. 
Quando morre um grande, tardiamente, levantam-se vozes de todos os tipos, incluindo a dos familiares, a lamentar dores que não sentiu, outras em elogios fúnebres a enaltecer por umas horas e alguns minutos os feitos, as obras, o valor do seu papel social e outras ficções que os figurões delineiam no papel para empolgar os discursos e alçar o colarinho. 
No entanto, o grande, em estado de padecimento, não tem dos mesmos um recado, um caldo, um sabonete, um olhar, uns minutos de visita, por falta de interesse e ignorância, mas nunca por lhes faltar tempo. Antóni Denti d’Oru precisa, neste momento, da presença e do olhar amigo mais do que qualquer outra dádiva. Saber dele tem importância e dimensão humana, tem a grandeza da sua obra. Sei que dos Estados Unidos, de Portugal, da França, da Holanda, amigos nacionais e estrangeiros ligam a saber do seu estado de saúde. A Mery atende pelo telefone 996 16 54.   

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rapizius



A capital da ilha, a cidade da Praia, é a mais festiva, a mais carnavalesca, a mais violenta e a mais mortal das ilhas.
Os tempos modernos apagaram o ditado de Nho Nacho, ditos bíblicos traduzidos para o crioulo da terra: Ali bem tempo ki  dizavensa ku guerra ta subi Praia " Raton ku Raton, Ratinho ku Ratinho" . É o que se assiste na Praia.
Tais acontecimentos remam contra a propaganda entusiástica dos poderes, das estatísticas, dos projectos, dos sonhos, da boa vida , da boa aparência, da morabeza, de menos álcool, de mais requalificação e outras coisas que os democratas  defendem como sociedade livre e culta que dá lições e está em primeiro lugar em muita coisa em África, etc. etc. Os tais laços de gravata no colarinho desbocado.
Estes patrocinadores do liberalismo capitalista consumista, defensores  da difusão massiva de modas e valores que nada têm a ver com a crioulidade das ilhas. Sabem, mas fingem não saber, nem ver, nem agir por causa do futuro do poder.
O Pantano Perfeito está em estado avançado de edificação.
Os que se afastados do pantanal não têm mais para onde ir, nem onde reclamar, nem contar com a justiça e as regras.
Os partidos políticos estão em campanha permanente.
As Câmaras Municipais são cartazes da propaganda do governo.
Os deputados são espectadores de si próprios.
A policia programa, vai, intervém, atua, captura bandidos, dias depois volta a perseguir os mesmos bandidos.
O Tribunal ouve, diz não ter provas e põe fora os bandidos.
O Hospital recebe, coze, cura, interna, presta socorro, trata de graça os bandidos, recompondo-os para novas acções.
Os bairros periféricos tornaram-se escolas de formação de marginais, de assaltantes, de violadores, de passadores e de viciados.
A igreja recebe os assassinados, encomenda, reza, perdoa o bandido que fica de alma limpa até o próximo delito.
O único estabelecimento onde se cumpre é o cemitério.

Os coveiros mandam todos la para baixo sem excepção e são esquecidos e mal pagos
É o romance - O Pantano Perfeito - em construção.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Rapizius




                                               

                                             BILHETE PARA UMA LARVA NO PARAÍSO

Hoje, recordei-me de um caso penoso. Retracto de um autêntico pantanal, Reino natural de uma larva viridente, Chulo do afecto de folhas empilhadas. Um mosaico a metamorfosear modos. No olhar dos quirópteros tudo girava. O tempo parecia romancear saudades. O carpo parecia ter dó da sua origem. O retracto trazia um busto escondido De um ser aflito por louros e láureas, De deliradas falas empilhadas de ódio, A carpintar facas pelo tempo adentro, Sem poder dedilhar e cantar a morna, Sem poder segurar e abraçar o violão.
Que triste fim de um sapo enturvado, Que a todo o tempo olha-se ao espelho, Da água com se fossem pratos de barro, Poiso da cobiça e da própria morte, quiçá seu paraíso.
Amigos e caminhos não me hão-de faltar, Amenos que me falte em alguma parte, Uma margem de silêncio para me repousar.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Floris d'Ibyago


 


SONETO PARA O ASTROLÁBIO

Quem ousa chamar-me de tosco
Se o que sou são apenas marés
Que em mim vive e me treslouca  
E ondula como vento nas galés   

Viver traz-me sonhos e desvairos
Apraz-me ser o arredado vitalício
No longínquo paradeiro de leigos
Sem mercês nem dogmas e vícios

Desconsolei-me ter visto a cabra  
Que conduzia nas tetas pendidas
A saudade do pastejo de outrora

Do pastor mal se ouvia o trác-trác
Do cajado por entre as penedias   
De lado em lado de flora em flora

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