terça-feira, 31 de maio de 2016

Prenúncio de um Refractário




Se escrever é álcool, a palavra é cana na calha do trapiche, caneta o boi, papel o alambique e a prosa ou o verso a destilação que embriaga. De cada vez que apronto um bilhete é a taça cheia diante dos olhos do bebedor.
O contrato com a escrita é um tratado efémero que celebrei com o papel, a caneta e o vício de escrever, doença que mata ao de leve. Por isso as roturas. Não sei viver sem roturas. Roturas sensatas. Rompo sempre que o boi se estafa diante do trapiche. Rompo ao falhar o alambique. Rompo quando me enfado da cana. Só os deuses não estafam. Os esperançosos, também não. Nem os livros que carregam as fantasias do mundo.

Escrevam, vocês! Escrevam, escribas, poetas e prosadores que o meu lugar é na taberna onde o violão não pára, onde a algazarra e o som são mais vida que o comboio de letras na frente, desfilando fantasias, sonhos e evasões. O som é concreto. A música é percurso. Quando se erra muda-se o caminho, quando não se acerta, remenda-se e dá-se o salto ou então suspende-se e improvisa-se.
Escrever é escada de degraus esgotantes, enquanto o som é estrada para se chegar à alma, seja que alma for, de santos ou de pecadores. 
A escrever alcança-se o céu. A musicar trilha-se o caminho do inferno da sabura, do esquecimento, do extasie, enquanto poetar é tropeçar na margem do rio que não se conhece, que não tem nome, nem foz, nem mar que trave o perigo das palavras. Música é infinito na pauta. Poesia é desenho do infinito no papel. Não quero ser sepulcro da poesia, antes devorado pelo embalo duma morna ou pelo fervor do funaná até ser pó no terreiro livre sem mandão, longe, mesmo longe dos escribas.


Um Dia Excepcional



Fui a Nho Eugénio tomar aquela coisa das sextas-feiras. Encontrei ali um velho amigo mindelense acabado de chegar à Praia. Conhecemo-nos nos anos sessenta. Após o café e conversa animada sobre as seduções de Mindelo, despedimos um do outro. Muita coisa mudou em São Vicente. Mindelo de outrora era de boas amizades, bons convívios e passeatas. 
As festinhas de grupo tinham outra reputação. Senti saudades de Mindelo e suas virtudes.
A Livraria Nho Eugénio é como um templo de novidades. Além de livros, é ponto de encontro de amigos e de rapizius, ou seja de colóquios. Ao deixar o local, apurei que havia festim no recinto ao lado, na Escola Nova Assembleia. Dei um jeito e fui espreitar a risada que transbordava para a rua. Aproximei-me como espião. Furei a portaria do recinto para ver a festa. Várias turmas estavam reunidas no salão. Havia muita alegria. Dessas alegrias que só acontece numa colmeia, onde as abelhas estonteadas pelo doce zumbem de satisfação. Pus-me do jeito para não ser visto. Não quis que as netinhas me vissem para não lhes atrapalhar a concentração. Outrossim, a presença de estranhos nestas ocasiões limita a liberdade de expressão e de manifestação dos meninos. Exibia-se um filme para crianças. Todos seguiam entusiasmados o diálogo dos bonecos sobre a higiene e a protecção ambiental. Ninguém tirava a cara do improvisado ecrã. Lá a professora descobriu-me, mas fiz sinal para não se manifestar, colocando o polegar nos lábios. O recinto assemelhava-se a um painel multicolor, qual arco-íris, era um cenário que só os meninos dessa idade sabiam colorir com gestos duma inocência cativante. Deixei o ambiente justo no momento em que as pancadas na jante de automóvel pendurada numa haste fixa na parede anunciavam o fim das aulas, momento do bulício anunciante da largada dos alunos que, á sombra das acácias, em grupo aguardava o acolhimento dos familiares e os acompanhantes. Outros lançavam-se em correrias atrás dos mais inquietos. Foi um dia excepcional para as minhas netas e para mim também. Ansioso, aguardava, como é hábito, o relato das netinhas sim que chegassem à casa, enquanto eu verificava a panela ao lume.  


segunda-feira, 30 de maio de 2016

Verão & o Mar que Mata



 Todos os anos vêm com a história do Verão - Verron. As empresas fabricantes de bebidas e as das telecomunicações, chegado o tempo quente ou d’as-águas abrem a corneta da propaganda a anunciar Badja ku Sol e Festivais de Musicas de promoção dos seus produtos. É também, tempo de passeios à beira mar, a movimentar o transporte de muita gente comboiada de fogareiros, carvão, lenha, panelas, cães, tabuleiros de vendas diversas, incluindo grogue de todos os calibres, charros e pedras, geradores eléctricos e aparelhagem, tudo para ajudar a beira-mar a ficar mais fenomenal, não faltando bebedeira, gritos, berros, tumultos, furtos, zaragata e morte por afogamento.
Aqui em Santiago é assim. Os populares não têm as praias de mar como lugar de contacto sadio com a natureza, de sossego de espirito, a par do banho solar e da inalação do iodo, bom para a saúde. Não, preferem a batucada. Transformam-nas em estâncias de tumultuo, em palco de arrasar a paciência das pessoas, inclusive, a paciência do mar que, nesta época do ano fica revolto, sedento de matar os desafiadores das correntes marinhas alinhadas para o sudoeste ou o sul do arquipélago, cuja localização sujeita-o a dois períodos do ano, o das brisas ou da seca e o quente ou das as-águas – chuvas, segundo o estudado livro de geografia.
O primeiro é alimentado pelo clima desértico do continente ao lado, valendo de Março a Junho e o segundo é alimentado pelas monções do sul, mais propriamente do golfo da Guiné, com começo em meados de Julho estendendo-se a Setembro e Outubro. É nesta época húmida e quente que a propaganda comercial, com conivência das autoridades e dos mídia, insistem em chamar Verão, chavão que alicia as pessoas a frequentarem as praias, ignorando a condição do mar, as correntes e a deslocação da areia nas praias que o povo apelida "mar a pedir chuva".
 Todos os anos morre gente no mar, adolescentes e jovens por ignorarem as informações correctas sobre o seu estado. Todos os anos temos tragédia. Todos os anos o Verão leva gente para o céu e deixa famílias desesperadas na terra. Todos os anos o resultado da propaganda do Verão inexistente é morte e afogamento nas praias de banho das ilhas. É, assim, o Verão da Morte. Foram quatro jovens mortos por afogamento e dois desaparecidos em São Nicolau. Quatro adolescentes, duas meninas e dois rapazes, com idades compreendidas entre 14 e 17 anos que perderam a vida no mar da Prainha, Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau. Dois deles desaparecidos e outros dois resgatados com vida em situação de forte ondulação.
 Todos os anos é a mesmíssima coisa. Todos os anos é o Verão que Mata no mar - mar que mata para dar chuva abundante ao povo. Todos os anos é o mar traiçoeiro, imprevisível, a trazer tristeza, todavia inspirador e amigo, que a trova canta com amargor a triste sina do ilhéu – mar é morada di sodadi.
 Mas o mar está sempre ali pronto para servir e pronto para matar. Prainha e Quebra Canela, garotos que mal sabem nadar e outros sem forças para vencer a corrente são socorridos ou morrem por afogamento diante dos banhistas, também impotentes. O fenómeno repete-se todos os anos. É o mar de azágua que tem de matar para trazer chuvas abundantes, diz a voz do povo. É o mar do Verão a iludir uns e a convir outros. Enfim é o valer da descontra, isto é, da indiferença.
O mar da Prainha, Quebra Canela e de São Francisco, este último, principalmente, todos os anos cumprem a sina de levar gente para a morte. A questão não é ausência de nadadores salva vidas. O principal é não confiar no mar nestas alturas. Neptuno, Deus do mar, não salva quem não se lembra dele quando tem os pés na areia. A sua missão é levar para o Olimpo os desafiadores desleixados. O mar não ama. Mar mata. Em lugar de se propagandear festas e batucadas veronais nas praias, informar com verdade as pessoas de que correm perigo nas praias de mar revolto fazia mais sentido.
A europeização em curso no arquipélago, a alienação cultural irreversível são facto inegáveis, sendo, para todos os efeitos algo que a governação das ilhas não está preocupada, já que passa por cima da afirmação cultural africana do arquipélago. Conivências e ambiguidade é o que abunda.


O Sol das Quatro




Para os campinos, às quinze e trinta horas começa sol de macaco ou seja o atenuar do queimor da hóstia de fogo, vigiante da terra. A esta hora muita gente está pegada na soneca da tarde. Instalado na cadeira de baloiço, sem tirar os pés do chão a compassar sem esforço, ele movia-se na posição usual a cogitar. Era uma habituação. A janela da sala deixava entrar muita luz e frescura a essa hora. 
Tomado pelo fardo do silêncio, imobilizado, subitamente, aproximou-se dele uma janela convidante. Pensativo, olhava-a de frente, movendo as pálpebras devagar, lembrando o alar de uma borboleta grávida, a refrescar no jardim. Viva era a janela. Mudava de formato. De rectangular reconfigurava-se em polígonos estranhos cruzados por seres afeados e velozes. Também desformada era paisagem sob restos do céu, segurando nuvens púrpura, da cor da tintura do abissal, onde fundeiam os suicidas. 
Levantou-se, aproximou-se dela, assomou a cara e um sopro o atirou aba fora, desaparecendo no entranhado. Esperou pelo choque brutal, mas não. Flutuava. Flutuava como ondas de telefonia. Acabou sentado num salão de frouxas luzes. Perto dele uma tabuleta dizia: Vale nada viver se nada diz a morte. Mais além, outra tabuleta a balouçar trazia: Benvindo os suicidas. E na tarja gigante vinha a inscrição: A morte augura o desviver, sendo o suicídio festa á perpetuação do viver da morte. 
O salão tinha-se transformado num denso bosque. Manteve-se por lá no meio de exalações, pomadas e perfurações. Nada se mexia e nada acontecia. Imperava o sossego. Repentino foi o som da orquestra que vinha não se sabia de onde. O tempo não passava por mais coisas aconteciam. Apagaram-se as luzes. As dezoito pancadas do velho relógio de parede fê-lo erguer o pescoço pendido sobre o peito, fazia tempo. Despertou, pôs-se de pé e acercou-se da janela, deixando a cadeira de baloiço a oscilar.  Assomou para apreciar o movimento que lá fora havia no momento. Foi excitante regressar do profundo em que se tinha mergulhado enquanto o sol descia para a tardinha.

domingo, 29 de maio de 2016

A Osga Rosa


Uma tomada de vista sobre qualquer coisa encerra em si imagens que, do ponto de vista humano, testemunham emoções, sentires, vivências sinceras e naturais. A minha casa assemelha-se a uma oficina de produção de momentos ímpares. Não foi pensada para ser assim. Aconteceu com o andar do tempo e com o que a vida nos proporcionou. Vive nela uma bela osga há anos. Osga Rosa é seu nome. Tornou-se da cor rosada por não apanhar sol durante o dia. Era impossível dar-lhe outro nome. Bem vestidinha e apresentável assoma por detrás do armário da casa de banho para, talvez, tomar outros ares ou então deslocar-se para outros espaços da casa para passear e se alimentar. Ela é vistosa até não poder mais. Do meu ponto de vista, ela é mesmo fêmea. Digo porque as fêmeas trazem no gesto o feminismo que impressiona, expressa ternura em seus movimentos.
No princípio, os da casa ditaram-lhe morte, mas porque o ditado antigo diz que osga em casa é bom sinal - traz paz e dinheiro – ali ficou ela por tempo indeterminado. Permaneceu. Com o tempo toda a família passou a curti-la muito, até a minha neta passou a gostar dela e a querer vê-la sempre. Diferente de outros meninos que resistem a bichos desta natureza, quanto mais uma osga que pelo feitio causa aversão por parecer nojenta, porém, inofensiva, pacífica e companheira que devora insectos. Portanto, um parceiro útil, quiçá, membro da família.
Certo dia descobri ovinhos abertos num cantinho em cima da tolha de banho, mas crias nunca vi, nem marido também. Eu estava certo, quando disse que ela era varoa. O mais interessante é que ela canta na nota Fá Maior, tonalidade significante que uso sempre nos meus treinos de violão. Então, não é que numa noite, saindo a passear ela foi se alojar dentro do Peregrino, meu violão, que todas as manhãs tomo nos braços para improvisações, justamente, em Fá Maior, nota do cantar da Osga Rosa. Ao dedilhar senti algo a dar de um lado para o outro dentro da caixa-de-ressonância, vendo bem, era ela, a Rosa Osga.
 Deixei ficar o instrumento na horizontal em cima do sofá a pensar como fazer para tirá-la de lá. Desafinei o instrumento. Com as cordas folgadas podia meter a mão e fazê-la sair pela boca da viola. Custou-me tirá-la de lá. Dei um jeito e saiu sozinha sem se magoar. Consegui. Peguei nela com todo o cuidado deste mundo e pu-la na sua morada - lugar número um da casa - para quem não sabe: banhório ou defecatório é espaço primário em qualquer domicílio, mais do que a própria cozinha, onde se fabrica o bolo que a digestão transforma em defeque.
Posto isto, coloquei a musa rosa no chão de modo a se agachar de novo por detrás do armário das toalhas e roupas de treino, trono onde vive, aproximadamente, há onze anos. Antes de ela seguir em frente olhou para mim como se quisesse saudar o meu gesto amistoso. Amizade é amizade mesmo, basta um ponto de vista sóbrio sobre o que pensamos e fazemos da nossa vida e da de outros seres da natureza.  

A Janela e o Pátio




Não desisto de habitar a janela que dá para o pátio, recanto de pardais logo ao amanhecer e de grilos anunciando a noitinha. As acácias rubras pintam de vermelho a calçada, deixando o verde despercebido. É Maio. Maio dentro. Mês do vermelhaço denso das pétalas que faz do pátio um templo e a janela santuário de sons, de cores, do desgaste do sol com o passar das horas. 
Pátio, paraíso de jovens amigos do charro, de pombos e de cadelas parideiras, paradeiro do Txany, o demente que todas as manhãs lê o universo de cabeça para baixo, invocando sítios onde as coisas se sucedem na velocidade da luz da sua imaginação, coisas sem pretensão de existirem, porque coisas sem coisa, porque genuínas tal como o tronco da manhã. 
Acompanho a sua ascendência á montanha incolor dos seus apelos, onde o sim e o não perfazem os trezentos e sessenta graus da existência da sua vontade nómada.
Debruçado à janela de tanto apreciar, de repente o pátio transforma-se em nebulosas em espirais a sugar o meu corpo como um objecto levado pelo tornado, a deambular entre as paredes do pátio, entre o ver e o sonhar, entre a loucura dos canteiros vazios e a surdez das pedras da calçada. 
Dou com a minha cabeça no frágil amparo de minhas mãos como se ela quisesse desprender e colocar-se no esqueleto da demência que não parava de recitar versos e cânticos desafinados, ardentes de loucura, avermelhados pelos vinhos das acácias rubras em flor, autenticas viagens pelas manhãs de Maio. 
Como é louca a janela do pátio. Ela é como estábulo de dias bons e de dias amargos que a vida impõe. Ambos, companheiros de presídio do poeta.

O Exilado de Azágua

          

Segundo a crença popular Baga-Baga consegue mergulhar nos sete palmos debaixo da terra para devorar finados. Insecto simpático, tipo formigão, que vive exilado em tocas, só sai pressentindo o tempo de azágua.
Afirma-se que o bicho foi trazido da Guiné com a importação de madeira, ou nas raízes das plantas vindas do continente africano. Com a chegada desses seres às ilhas, ocorreram transformações, que ditaram novos rumos para a sua vida e mesmo para a sua saúde, ganhando o nome de Baga-Baga. 
O seu desaparecimento é uma espécie de exílio para depois aparecer em finais de Julho, experimentando deslocações em busca do armazenamento de comida ou procurar outros abrigos longe da invasão da água. A tradição conota a sua aparição com mudança do tempo, isto é, com a aproximação da azágua, o mesmo que dizer período de sementeira, provação que todos os anos alimenta a esperança dos camponeses. Aparição de Baga-Baga é chuva próxima; dizia o meu avô. Em criança, na Vila de Assomada, assistíamos a deslocação destes seres em enormes filas para sítios diversos. Na praça central da vila saíam das rachas do cimentado e vagueavam o dia todo, escondendo-se à noitinha. Amáveis, humildes e inteligentes, mas ferozes se atacados.
Certa vez uma Baga-Baga curiosa entrou nos calções de um menino sentado na borda do canteiro, sentindo-se ela pressionada, ferrou dentada justamente no pirilau do garoto. Os gritos do menino puseram os colegas em pânico, seguindo caminhos diferentes. Momentos depois, tiveram de regressar ao local para socorrer o miúdo que se despira completamente. Primeiro, acreditaram que era coisa do sujo e levaram a vítima para a igreja, mesmo à frente da praça. Ali botaram água benta na cabeça do menino, enquanto o veneno da Baga-Baga actuava no corpinho dele. O garoto queixava-se de muitas dores no baixo-ventre. Instantes depois o bibichinho da vítima avolumou-se de tal ordem, a comparar uma bola de rugby em miniatura. Levado para a Farmácia o enfermeiro de serviço aplicou-lhe o antídoto que, minutos depois, acabou por atenuar as dores e abaixar o inchaço. Da mesma forma, acreditava-se que esfregar Baga-Baga no seio de rapariga, ainda na puberdade, fazia-lhe ter seios grandes e dava mulher depressa. 
Da farmácia saía o menino curado e dava entrada uma menina picada no seio por este ser amável e humilde exilado de azágua.             

sábado, 28 de maio de 2016

A Viagem, o Mestre & o Tributo



Encostei o carro para atender a chamada. Sabes se aconteceu alguma coisa a Ano Nobu? Era a voz do Ildo Lobo. Eram dez horas e poucos. Liguei ao Benoni, nada. Encontrei o Djik ao pé da minha casa que me confirmou a morte do Ano. A partir dali a notícia encheu o dia 14 de Janeiro que de quente virou bem mais pesado que o frio feriado do dia anterior.

A RTP- África passou a entrevista do músico falecido no dia dos seus anos. Os meus olhos procuravam os dele e de seguida desciam para as mãos ao violão. Um de Janeiro – Dia Novo para Todos – dia simbólico que galgava a montanha dos seus anos que não dava sinais de padecimento. Ele sonhava recuperar algum dinheiro dos direitos autorais. Da última vez que falámos tinha-me dito que outras composições suas iam ser registadas. E agora?

Guardo comigo o registo sonoro de uma das célebres tocatinas ali no terreiro da sua casa em Lem Pereira em que estiveram presentes: Benoni, Djik, Xisto, Janito, Daniel Rendal, Ano e os seus rapazes. Fizemos muita música e muita conversa amistosa naquela bela tarde de Domingo.
Quando fui indigitado para organizar um grupo musical para se deslocar aos Estados Unidos, em 1986, dirigi-me à casa dele para o convidar a fazer parte da caravana. Ele com aquele seu jeito de super humilde disse-me: - Barbosa estou-te muito grato. Mas eu não toco assim grande coisa para fazer parte de um grupo de bons tocadores. O que é que eu vou lá fazer?
- Olha, vou eu, Tu, Daniel Rendall, Pipita, Djô d’Iloy, Povu, Fernanda Fontes e Eutrópio Lima. O ensaio é no Pipita às 19H00. Ofereceu a casa para os ensaios.
- Não!... Então a coisa já está organizada! Mas, Barbosa, achas mesmo que eu devo ir com vocês?
- Sim, Ano, mesmo que seja só para passear. Mereces e pronto. Tu vais ver como é a América, como é que os patrícios vivem lá e vamos tocar para eles. Olha aquela música tua ta Kun- dun Kun-dun que o Ildo cantou fez furor nos salões de festa. És muito conhecido, homem. Vá!... Prepara a maleta e vamos todos juntos.
- Está bem. Não te vou contrariar. Vou falar com a minha mulher. Leva o meu número de telefone para qualquer coisa mais.
Chamou e presentou-me a sua mulher. Mandou vir a garrafa e o copo de circunstância e celebramos a bela notícia e a conversar sobre a nossa vida.

Organizámos e partimos para a ilha do Sal. Na madrugada de 11 de Junho de 1986 rumamos para Nova Iorque a bordo do South Africa Airwais. Ainda em terra, no Sal, o Eutrópio fez as recomendações necessárias quanto a forma de estar de cada um de nós. «Barbosa foi bom falares assim. Nessa coisa da viagem a gente não se deve descuidar. Qualquer disfarce dá problemas» «Se deres por bem ficamos juntos. Não é por nada. Conheço-te melhor» «O avião da South África trata bem à gente. Comida a vontade» «Não dormi, quer dizer, foi aquela djonga diskunfiadu» «Ano Nobu dentu-l Mérka mé... Barbosa, bó é disgraciadu rapaz. Olha onde ficou Sandomingos?». Comentava assim comigo naquela sua voz especial de cada vez que algo lhe vinha à cabeça. Sempre juntos, lado a lado tanto na ida como no regresso.

Chegámos e alojámos em casa do Manuel da Luz o promotor da nossa ida. Cansados da viagem mas sempre animados. O Ano foi o primeiro a ir para o quarto. Minutos depois fez-me sinal e subi ao quarto dele. Mostrou-me primeiro as cartas de que era portador. Depois a roupa ainda dentro da maleta. Tudo estava encharcado de grogue. As tampas dos dois boiões de plástico tinham fugido e o derrame foi fatal. A salvo tinha ficado o frasquinho de vidro com tabaco e garrafinha para nós. Ele ficou impaciente diante daquilo. «Barbosa, as cartas e os retractos de gente que eu trouxe para entregar... diz-me agora como fazer? Olha, vamos descansar primeiro. Logo a gente arranja tudo. Vou contigo falar com as pessoas e explicar-lhes o acontecido. Levas tudo como está para verem. Disse-o. Ele acabou por se acalmar um pouco, a descansar até a hora do almoço. Esse contratempo tinha-lhe ficado a rolar na sua cabeça, lamentando da situação de que não era culpado.

Dei conta ao Manuel da Luz mais o irmão Ulisses que providenciaram logo roupa nova e algo mais para Ano. Recomposto, desceu para tomar parte na recepção preparada para nós. Depois saímos a dar aquelas voltinhas da praxe nas redondezas e respirar o ar americano que à partida trazia muita humidade e um calor aborrecido e à mistura um cheiro a queimado duma casa ardida a poucos metros dali. Estávamos na zona Rocksbury onde se via várias casas degradadas e algumas vedações com muito lixo e coisas velhas dentro. Mais abaixo, o esqueleto carbonizado duma moradia. Noutra rua à beira do passeio jazia um carro ardido. Cada um de nós comentava baixinho o que íamos vendo. A tarde foi-se, regressamos á casa, tocamos bastante, petiscamos e fomos dormir. A Fernanda Fontes tinha ido ficar com os familiares em Situate, longe de onde estávamos alojados.

No dia seguinte começámos a cumprir o programa musical cujo término era no dia cinco de Julho a tocar a bordo do Ernestina, em Nova Iorque, navio oferecido a América pelo governo de Cabo Verde. Cumprimos com muito êxito o programa em Boston, Brockton, Pawtucket, Providence e lugares para onde fomos convidados. De Boston para Nova Iorque fizemos seis horas e tal de viagem, incluindo paragens para água e café. Na noite da viagem dormi mais cedo do que os outros dentro do carro já a pensar na viagem enquanto os outros curtiam uma tocatina. Tive de tomar o volante em Providence já que  o motorista dava sinais de sono ao volante. O Ano seguia na furgoneta da frente com os outros. Daniel Rendall, Povo iam comigo. Todos dormiam. Foi uma viagem diabólica. Nova York ardia de calor. O cheiro do ar era insuportável. Mal chegamos começamos a falar no penoso regresso no dia seguinte.
Foi uma maratona dessas desgastantes, que desagrada e enfada mas curtida. Nova York não me embasbacou não obstante a imponência da cidade e o movimento de pessoas e de carros. Chegar ao Harbor Port onde estava o Ernestina foi penoso. Havia um mar de gente nas proximidades que nos dificultava o acesso ao nosso local. Nenhum de nós tinha conseguido até então tamanha proeza. Tocar vinte e cinco dias seguidos e às vezes em dois locais diferentes no mesmo dia. Cansativo. Mas foi bom, foi bonito e muito gratificante.

Foi em Brockton, no salão Antony’s, que, a meu pedido, Ano Nobu pela primeira vez, cantou em público, coisa que jamais tinha pensado, confessou-me. Não resistiu à minha teimosia. «Camarada Pepé Lopi» «Ta Kun-dun Kun-dun» foi o que ele cantou. Depois saiu-me com esta: «Barbosa, uma morna para fechar... Linda.. aguenta em Ré Menor». Em vários lagares as suas músicas foram muito apreciadas, destacando como grande compositor de mornas e coladeiras.
Findamos o programa e deixamos saudades, muitas mesmo principalmente naquelas pessoas que viram em nós o Cabo Verde de suas origens. Do grupo, dois decidiram ficar. Soube depois que alguns amigos quiseram que o Ano ficasse por mais uns tempos. Mas regressámos. Ano trazia consigo vários instrumentos oferta de amigos, um enorme aparelho de radio-cassete e outais coisas. Ajudei-o a desembaraçar as coisas no chek-in e fomos directos para a sala de embarque. Entrementes o Pipita perdeu o cupão de embarque e tive de o ajudar a obter um novo documento, graças á minha condição de dirigente na Agencia Nacional de Viagens, agente da SAA.

Foi uma viagem que nos marcou a todos de uma forma satisfatória e particular. Falamos sempre dela com muito gosto. Uns anos depois, viajaram para a eternidade dois grandes companheiros o grande músico e amigo Sr. Pipita e o Mestre afável e bom companheiro Ano Nobu.
Ano Nobu poeta-músico-dramaturgo que utilizava as cores do som para lavrar o sentir de um povo, um escriba dos factos, dos jardins, das fontes, dos rumores da sua ribeira, das flores produtoras do incenso na floresta dos seus anos vividos, um chefe de orquestra que comandava com o olhar e com o sorriso os seus pupilos. Pegando o arquivo das suas composições senti que estava ante um sábio, um espírito de sensibilidade original que fecundava as notas musicais e as deixava ressonar e a estenderem-se no vibrar na caixa-de-ressonância do corpo de madeira que segurava em peito com mimo e com arte, sem acidentes, sem estorvos, porque eram límpidas as suas melodias.

De notar que os seus temas são tratados de igual forma, com arte e mestria, sobressaindo em todos eles a beleza, a harmonia, a suavidade e o necessário equilíbrio, acentuação própria de quem gozava de genialidade e carisma, próprias de pessoa sabedora.  Eu que tive a oportunidade soberana de conhecer e de apertar as mãos desta grande personalidade, deste grande espirito de Santiago, só me resta nestas linhas, honrar a sua memória.

Vi SANTIAGO regenerar-se ao reter no seu sagrado chão os restos de um filho ilustre e digno quanto é Ano Nobu. Senti a Ilha crescer, Sandomingos a engrandecer, o mundo rural a expressar o seu sentir nobre, brilhar na sua cultura e no respeito à sua velha tradição.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Eu, o Espelho e a Metáfora


Eu, o Espelho e a Metáfora

Colocar-me “nun prit” diante do espelho foi a sugestão. O exercício da semana. E fi-lo. Esperei a hora adequada para o fazer. Uma da manhã. Hora silenciosa e de todos na cama. À entrada, o aparador ostenta a superfície polida do vidro há anos. Nele, todos os dias confiro o porte. Já me posei vezes sem conta nu, ora bailando, ora treinando os músculos. O espelho é sugestão de nós mesmos, portanto, depositário de privacidades, um acesso que não se abre e nem se fecha. Se há alguma verdade neste mundo, ela é a nudez. Nascemos nus. O que a nudez tem a dizer é sempre pureza. Perdemo-la ao nascer e esperamos que um dia volte a aparecer em qualquer momento da nossa vida.
A nudez é a fornalha virtuosa do amor, assim como a lua-de-mel é exercitar o amor, sendo expressão da verdade dos amantes unidos pelo calor e pelos vapores da alma. Resumidamente, a nudez é o nado-mundo em chamas.
Escrever sobre a nudez é materializar a nudez da mente, sendo as palavras movimentos ditados por elas, o mesmo se dá com a música. A pauta é produto da alma no apogeu da sua nudez. Sendo a nudez, diante do espelho, a metáfora de um polígono real em movimento.
Nunca a nudez me pareceu estranha. Visito o meu corpo nu sempre. Nunca perdeu virilidade. Nunca se aterrorizou de si próprio. Pois, amo a nudez do meu corpo no palco do espelho, onde o completo afigura-se estátua de bronze erigida no centro de um reino. A nudez verdadeira é insubmissão, entre o começo e o fim de um gesto. Ela é uma espécie de princípio e fim do édem, tal como o paraíso de Adão e Eva, onde nus armaram o pecado original, multiplicando o prazer cárneo em todos os seres, sendo, por isso, um tabu, algo impedido pela moral social, porque atribuído a loucos. A nudez pública é imoralidade. Mas a nudez esmerada é arte, símbolo da carnalidade, explorada e mercantilizada pelos Mídias na suposição de que se trata da prática da liberdade de expressão corporal, coisa atendível em sociedades abertas, que, no entanto, nas acanhadas ou pequenas é ofensiva, porque conotada com putaria. Do ponto de vista artístico a nudez é metáfora, insubmissão e sensualidade, usualmente, código do erotismo.  
Tanto o nu do espelho quanto a nudez de um corpo são o dócil dom de aceitar desafios.
Nada é mais sincero do que a nudez do pensamento reflectido numa folha em branco em forma de exercitar declives.

Encontro com uma Investigadora

                    
                

1)    Como surgiu o teu interesse pela poesia e pela música?
Eu encontrei instrumentos musicais em casa. Acho que vim duma família de músicos e tocadores. O meu avô e o meu pai tocavam e tenho vários tios músicos, de salientar Nho Djonzinho Alves, (pai de Kim Alves), primo do meu pai. Havendo tais condições a atracção e a aprendizagem é fatal. Assim nasceu o meu interesse pela música. Muito mais tarde, com a idade de vinte e dois anos comecei a compor letras para as minhas composições e dai a iniciação poética. Com muita leitura, treino e aprendizagem acabei por chegar onde estou neste momento.

2)   De onde surge a inspiração para escrever poesias e para musicá-las?
Não acredito e nem alinho nessa da inspiração, a rebuscada à beira mar, nas pontas, nos lugares especiais. Estes sítios são agradáveis e convida-nos, por vezes, à meditação e á tomada de notas ou de ideias que vão surgindo, sobretudo quem observa e regista os factos ou então quem lê muito a experiencia dos outros. São necessárias as informações que captamos.
Há períodos que sinto necessidade de escrever para responder a solicitações internas que são uma espécie de necessidade pessoal de preencher lacunas e equilibrar as emoções.
Tanto na música e na poesia acontece o mesmo. Há temas que pela sua importância e acutilância sugerem desenvolvimento de ideias. No caso da música há improvisações seguido de um tempo de construção de frases melódicas mais propriamente dito.

3)   Porque é que compões apenas em crioulo na sua forma mais genuína? Porque é que usas muitas expressões típicas do interior de Santiago?
Escrever em caboverdiano, quer dizer em crioulo, não é imitar o português. A língua que falamos não é tradução do português e nem podia ser, mas em certos casos há estes indícios ou seja as pessoas mais instruídas fazem salada. A nossa língua, a língua materna é ela mesma. Há uma matriz que se enriquece á custa de línguas mais avançadas, mas o vernáculo que este povo criou traz expressões que significam e representam bem aquilo que ele sente, pensa e interpreta a vida e o mundo que o rodeia. Reparando bem, é no interior, (no campo) que reside o pátrio da língua materna. A minha escrita representa a vida que levei na minha infância, diante da qual não posso fugir e nem inventar outra. Aprendi a usar bem a nossa língua, a observá-la e estudar as suas variantes, como se fala em todas as ilhas do arquipélago. Sem este conhecimento é impossível realizar uma escrita avançada da nossa língua sem inventar acrescentos ridículos e plágios do português, coisa que acontece nos centros urbanos desenvolvidos.

4)   Consideras-te um compositor de intervenção?
Pode ser. Desenvolvo temas diversos, temas que têm a ver com as relações sociais e com a vida que levamos. Produzimos muita coisa e importamos muito mais. Há muita coisa que impende sobre nós enquanto sociedade, enquanto colectividade, querendo ou não. É na tentativa de pretender destrinçar temas que servem para cada coisa ou para cada momento que os conteúdos ditam o que é tido por música ou poema de intervenção. Não sou alheio aos problemas da terra e ao estádio do seu desenvolvimento e os que afectam o mundo.

5)   Para ti o que seriam músicas de intervenção?
Há várias designações para isso: música de intervenção, música contestatária ou reivindicativa. Mas uma música traz consigo uma dada mensagem, isto é aquilo que o autor produz para traduzir o seu estado de alma ou de espirito. Suponho que ninguém se incumbe de produzir música contestatária para se tornar músico de intervenção. Para mim, arte é elaborar sobre o que somos e sentimos e ela acontece de forma intuitiva, tão necessária quanto os gestos e as ideias que produzimos num dia de vida. Depois há os acabamentos necessários e a destinação de seja qual for a forma artística.

6)   No período anterior à luta armada as músicas de intervenção tiveram algum papel importante?
Claro. Foram composições saídas da consciência popular e que evidenciaram o estado de coisas e a situação com que o povo se confrontava nos diferentes momentos. Estas composições retractam o sonho de um futuro melhor para si e para a sua terra. Os movimentos independentistas identificaram-nas e beberam nelas o suficiente para enformarem o essencial dos ideias da luta libertadora em prol das classes oprimidas e marginalizadas na nossa terra. Em todos os momentos as músicas de intervenção têm um papel a desempenhar.

7)   De onde veio a inspiração para compor a música “Dimokransa”? E o que quer transmitir com esse termo?
Dimokransa é um jeito crioulo de se estar na política, isto é, na política participada. Essa coisa chamada democracia. É esta coisa que se vê e se vive todos os dias, há uns anos, consubstanciada em factos proporcionados pela conjuntura política surgida nos anos noventa, em que o advento do fenómeno total liberdade de expressão aparece como salvação nacional, como receita de debelação dos males e das angústias do povo, em que uns aparecem como donos da verdade e outros apenas como observadores. O tema por si só explica tudo.

8)   Na actualidade há quem classifique o hip-hop como o novo género musical que mais se usa para fazer músicas de intervenção. Na sua perspectiva porque é que tal se verifica?
Sabe, eu não ligo o hip-hop. Não tenho tempo para o avaliar em todas suas dimensões. Não faço isso porque não é caso do meu interesse. Por isso passo ao largo. Mas género musical caboverdiano não é de certeza. Sabe, hoje em dia, vivemos num mundo em que se dá enfase ao consumo de muita coisa, até de bugigangas. Entra na loja China, e veja. Veja o entretenimento que se faz nas televisões do mundo. Há muita palhaçada. Há de tudo e para todos. Eu prefiro matéria que satisfaça o meu espírito. 
A transparência anda a matar a verdade das coisas e a própria vida. As ruas, os gangues, as rivalidades, a auto marginalização, auto desgraça, passaram a ser temas interessantes de divulgação e até de estudo, porque eles existem  e foram desenvolvidos, sendo, porém, setas disparadas em todos os sentidos, contra raças, contra posses, contra autoridades, contra hábitos e costumes, contra a civilidade, contra tudo que não seja do agrado da chamada cultura de rua ou urbana, provocadores de actos improvisados e sem continuidade. Numa palavra: estilo de vida de grupos com interesses antagónicos que poderá trazer alguma carga reivindicativa, mais no sentido de sobrevivência do ego do que, propriamente dito, luta cívica colectivizada. De denúncias o mundo esta farto.
Fui maltratado por vários Hipopistas por expressar a minha opinião em relação a o que são conteúdos dos temas e a imitação ridícula do americano. Mas não me importo com isso. Todo o mundo tem o direito de inventar o bla bla que entender. Hoje em dia é artista e músico de fama quem aparece nos palcos dos festivais para divertir a massa, com temas que dizem alertar consciência das pessoas para a necessidade de lutarem contra os males sociais e injustiças, usando, críticas virulentas, gestos e coreografia inadequados, tudo importado de outras latitudes. Hip-hop é relato ritmado e pincelado de sons.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Cronica de um Trovador

              
Abril, cidade da Praia, costuma ser ventoso e pardacento. A poeira arrastada do deserto saheliano para este corredor atlântico é avassaladora a ponto de estorvar a navegação aérea, de perturbar a saúde das pessoas, de turvar o verde vivo das plantas e o colorido das flores, incluindo os automóveis e os haveres domésticos. A vida cobre-se do chamado “pó di terra”, pó esbranquiçado e finíssimo, asfixiante.
Eram cerca das dez e tal da manhã, quando a voz de um homem ao telefone me convidava um encontro. Combinamos para as dezasseis horas no Restaurante O Poeta, lugar acolhedor e de linda vista para o mar.
Quinze minutos antes da hora, estava eu sentado numa mesinha de quatro cadeiras, a olhar o mar aberto a tanger a linha do céu lá longe. Aproveito sempre estes momentos para registar umas ideias no bloco de notas. Voltei a cara vi entrar uma senhora, seguida de um senhor. Pela hora só podia ser a pessoa esperada. Era ele mesmo. Saudámo-nos entre risos. Sentámo-nos. Encomendou-se água ao empregado de mesa. Discretos, os nossos olhares mediam o semblante de cada um. O senhor começou por informar sobre os motivos da sua vinda à cidade da Praia. De seguida, ele falou da agenda de contactos com algumas entidades oficiais, com vista a obter os apoios necessários.  
As divas vacinaram-me com o dom de descobrir em quem confiar ou não em pouco tempo. Facilmente eu compreendi que se tratava de duas entidades respeitosas. Sra Dra. Felisa Prado e Sr. Francisco Gonzales. Pela postura e pelas ideias acreditei no projecto apresentado que consistia na organização do Salão Internacional do Livro Africano – SILA, na sua IV Edição, a realizar-se em Canárias. Acordada a minha participação, despedimo-nos, trocando cartões-de-visita. O nosso próximo encontro ficou marcado para 29 de Abril, dez e trinta, na Livraria Nho Eugénio - Eugénio Tavares, poeta e trovador maior das ilhas crioulas.
Neste encontro, sem a presença da senhora Felisa Prado, conheci em detalhe o esboço do programa do Salão Internacional do Livro Africano, SILA - 2013, em que Cabo Verde era o país focado. Dei o meu acordo de princípio em participar do programa que incluía o percurso por cinco ilhas do arquipélago das Canárias, para, como músico, compositor e poeta falar sobre a poética na música atlântica de Cabo Verde em concertos nos espaços públicos. No entanto a Srª. Drª Felisa Prado tinha deixado Cabo Verde – Praia - nesse mesmo dia. Ciente da amizade que havíamos construído, convidei o Sr. Francisco Gonzaléz a tomar parte no convívio familiar, dia do meu aniversário, 1º de Maio, em minha casa. À hora combinada fui buscá-lo ao Hotel Trópico. A casa estava cheia de irmãos, cunhadas e sobrinhos. Na verdade nossas festas é sempre uma tempestade de alegria, um ferventar de amizade contagiante, que colocou o visitante à-vontade, inda mais, com dois irmãos meus formados em Cuba, a facilitar o diálogo com o convidado.
Fui, eu mesmo, a preparar o prato da noite: Camarão descascado marinado á minha maneira, carne de porco assada desfiada, creme de beterraba, peito de frango desfiado, creme de salsa e contros, salada com queijo de cabra esmiuçado, croquetes, linguicinha da terra e o prato mata-borrão da festa, canja, justamente para dissuadir o efeito da bebida. Cantou-se o tradicional parabéns a você, seguido de foto de família. A noite passava e a casa não sentia. Todavia a hora di bai é sempre o momento desolador da festa. Nisto, só os da casa ficaram a dar jeito às sobras e arrumar a loiça. Tinha sido uma noite sã, pesando nada o calendário de sessenta e seis azáguas na idade do boi que, apesar-de-tudo, sentia-se valente e corajoso.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

RAPIZIUS



Não sou homem de extravagâncias. Andei 30 anos a ensaiar e a tentar construir a árvore necessária para o poiso daquilo que vislumbro ser o produto evolutivo do que chamo Som di Terra.
Não devemos ter medo do moderno que decorre do pensar reflexivo sobre as bases do passado. O presente é todo nosso e ninguém nos tira isso.
Com estudo, tratamento adequado e acrescentos úteis vimos construindo a nossa viagem segura do futuro da nossa música.
Não haverá desregramentos, mas sim continuidade e respeito á memória e às heranças de que sou um fiel depositário.
Afinal a música é uma espécie de literatura desenhada com alma cujos acordes num braço de pau e com a ajuda da caixa-de-ressonância narra a estrada das emoções que a nossa vida interior reproduz.
Sou a ponte sobre novas águas, mas de novos destinos conforme o relógio do tempo e a geografia da vida nos nortear.
Ser fiel às raízes é demasiado duro, mas ser leal é o que prefiro ser hoje, amanhã e sempre. Um abraço.


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Curiosidades da CvLandia


Os integrantes das Forças Armadas, o Exército, são por certo os que mais falam em servir a Pátria. Refiro-me aos momentos celebrativos e juramentos à Bandeira pelos soldados dados como prontos ( prontos a servir a Pátria).
A partir dali a Pátria de que se fala evai-se como fumo.
A palavra Pátria não toma assento nos discursos dos governos, dos políticos, dos parlamentares, dos universitários, dos comunicadores (Radio e Televisão) dos estabelecimentos de ensino, nem nas cidades, aldeias, achadas e fajãs das ilhas.
Digo isso, porque, ontem, nas cerimonias fúnebres dos soldados que encontraram a morte na Caserna do Monte Txota, o Chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas invocou timidamente a palavra " Pátria " cujo sentido ficou diluído no que são as funções do estado e da governação. Pudera.
Se os combatentes da liberdade da Pátria são tidos por peças decorativas num cantinho da história sem repercussão social;
Se os símbolos nacionais, bandeira, hino e armas da república não são portadores de referencias patrióticas;
Se os livros escolares, se o ensino, se a formação académica, se a comunicação social não invocam e nem promovem o espírito patriótico;
O que esperar duma sociedade e de um povo que tem por pátria a sua barriga, a bazofaria e o sonho à evasão?


RAPIZIUS

Fui tomar aquela coisa das sextas-feiras no Nho Eugénio. Numa mesinha de duas cedeiras uma era ocupada por José Maria Neves. Tinha á frente a chávena de café, quer dizer, café tomado.
Cumprimentei-lhe e convidou-me a ficar. De seguida, chegou Eurico Pinto Monteiro que se juntou a nós. Três primos duma sentada na prestigiada Livraria Nho Eugénio. Zé Maria estava bem disposto. Calmamente, disse, apenas isto: "passei na maior tranquilidade tudo o que devia ser passado ao novo Primeiro Ministro".
Assim é que é quando se é um homem de estado: - Disse para ele.
Falamos da necessidade de férias e do distanciamento da política por algum tempo. Ele, Zé Maria, é um dos mentores da Academia Caboverdiana de Letras. Foi ele quem autorizou a cedência do prédio onde é a sede da ACL e quem a inaugurou. Tem lá o seu lugar de académico.
Em conversa exortei-o a escrever. A escrever, sobretudo, poesia para o bem da espiritualidade literária das ilhas. Doravante, ele é um homem livre com opções diversas - formador, académico ou consultor e conferencista.
Deixa marcas em todas as ilhas, marcas da sua governação. Marcou Santiago de forma significativa e duradoura.
Podem dizer tudo quanto quiserem dele. Houve quem disse que se: Narciso estivesse vivo morreria de ciumes. Mas, quem neste mundo não foi narcisista por um segundo. Só os bárbaros não o foram.
Quem acompanhou os discursos do Zé Maria Neves, enquanto primeiro responsável do governo nestes quinze anos, não encontrará, por certo, em momento algum, um conteúdo assistencialista, discurso de coitadeza, de lamento e de resignação. De espirito altruísta ele sempre convidou toda nação a sonhar com ele, a alavancar do alicerce das dificuldades a coragem, a força e o sentido patriótico na realização do progresso.
Muitas vezes acontece os espíritos audazes marcharem muito á frente do calendário civil e do ritmo biológico do seu povo ou da sua comunidade. Não fosse assim, estaríamos a cantar Mar é Morada di Sodadi, Caminho de Santómé e Fomi 47, em pleno 2016, ainda hoje, dia da entrega da governação ao novo Primeiro Ministro - Ulisses Correi e Silva.
Será que o povo entendeu que UCS de estatura física semelhante ao do Zé Maria era quem melhor podia ocupar a cadeira do poder?
Um dia o poeta Mario Fonseca, disse-me: " Olha cuidado com os líderes baixinhos " “eles são como malaguetinha”. “São obstinados e audazes”. UCS é baixinho. É um líder baixinho.
Quero crer, por aquilo que tenho ouvido, UCS poderá vir a ser no horizonte desta legislatura, uma figura marcante, não pelo conteúdo da campanha, momento de grandes emoções e empolganços, mas por aquilo que vai poder fazer e pelo bom encaminhamento dos dossiers uns mais duros que outros.
Cá do Nho Eugénio, onde, quinzenalmente, tomo aquela coisa, espero viver longamente, para um dia, me encontrar com UCS numa mesinha, confirmando-me a sua satisfação em ter cumprido o seu papel como deve ser e ter passado com dignidade a pasta de Primeiro-ministro ao seu sucessor.

Todavia, peço que me entendam, por favor... Ulisses Correia e Silva há um só, a quem dou um palmo de confiança, mas não acredito de modo nenhum no MpD.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

RAPIZIUS

Saí da Livraria Nho Eugénio. Olhei o ecrã do móvel. Eram 11 horas e 15 minutos. Entrei na loja de frutas ao lado para apanhar brócolos e berinjela. À porta esperava-me o vendedor do Jornal Expresso das Ilhas.
- Sr. Barbosa, sei que o senhor não compra jornais, mas o senhor é homem de cultura. Tenho boa coisa para si: - Disse-me em tom alegre.
Parei para ver. Tirou da mochila um livro e disse-me:
- Hoje o Sr. vai levar o jornal tem boas notícias. Olha, jornal e livro pelo preço de 500$00. Boa compra não é! Olha, o livro é de um homem da cultura como o senhor, Chiquinho: - disse-me entusiasmado.
- Olha, meu caro, o livro chama-se Chiquinho e o escritor é Baltasar Lopes. - Expliquei para ele, mostrando a capa do livro.
- Sim, Salazar, aquele que mandava em Portugal. Replicou.
Desatei a rir, enquanto tirava o dinheiro da carteira.

Ele, também, sorridente pediu-me uma moeda para levar uma fruta do expositor logo à nossa frente.

Textos Exilados

POEMAS DA COLETÂNEA - TERRA DILECTA  - CAMINHOS CANTANTES -  NÃO PUBLICADOS 1 Julho de remotos Julhos. Cíclicos Julho...