domingo, 19 de março de 2017

RAPIZIUS EM DIA DO PAI


SEJAM PAIS-MENINO COMO EU

Era um cachorrinho do mais belo porte que podia haver. Bichinho inteligente, amável e cheio de alegria. A casa maravilhou-se com a sua chegada. Logo, começou a chover afectos e nomes. Pedi que não optassem por nomes vulgares, esses colhidos em revistas e cenas de bonecos animados. Ele merecia um nome adequado, um identificado com os atributos que possuía. Com pedagogia convenci a casa inteira a aceitar o nome Vírgula. Incomum nos animais de estimação. Vírgula é nome distinto. Nome de ordenação que faz acrobacias num texto. Acabou por ficar assim o seu nome de baptismo. Era tanto o entusiasmo que voltamos a ser meninos diante do brinquedo vivo que prendia a atenção de todos. Nos momentos de sisudez ele comportava-se como um detective, dava voltas, cheirava, conferia o espaço e o ambiente que o rodeava, deu uma corridinha para a varanda, num cantinho, agachou-se fez xixi pela primeira vez num chão estranho. Chamei-lhe e mostrei o jornal estendido no chão, lugar onde devia fazer cocó e urinar, logo, para me mostrar que entendeu as indicações, pôs-se de cócoras e pingou dois rolinhos justo em cima do papel, de seguida, de focinho erguido, a abanar o rabo, atirou-se a mim, como que a confirmar a lição, sagrando-se, doravante, membro da família de pleno direito a virgular a vida da casa, caso para dizer, que jamais podíamos passar sem contar com o amigo amável, cheio de alegria, sempre bem-disposto e bom companheiro.
Estava, pois, selada uma aliança efectiva, de infindas vantagens, ou seja, íamos cuidar um do outro enquanto durasse a vida da casa. Belíssimo foi o dia. Anoiteceu. Lá mesmo na varanda coloquei uma toalha de pouco uso no chão para servir-lhe de cama, mas não, escolheu outro lugar. Logo à primeira, não entendi a rejeição. Vendo bem, ele tinha razão. Quis o corredor, ponto estratégico entre a sala e os quartos de dormir, onde coloquei a toalha, farejou-a e posicionou-se. Apaguei as luzes. Leio sempre antes de dormir. Passava da meia-noite. Ao ajeitar-me para apagar a lâmpada de cabeceira, o amiguinho fazia-se de sentinela, olhámo-nos, despedi-me dele. Não dei pelo momento da retirada. A casa caíra no sono profundo.
Assim que me apercebi da luz matinal que se abria tão lívida nesse dia de Maio, ainda na cama, enquanto desmurchava o corpo e dava vivacidade às pernas, o amiguinho aproximou-se, subiu e começou com festinhas, como a querer saber se dormi bem e se estava bem-disposto, assim como ele, na verdade, enquanto não falasse, insistia em ouvir a minha voz. Era a extraordinária e maravilhosa prova da intensa amizade entre os animais e os humanos, quando não somos maus animais. Ali verifiquei que o colorido nos olhos mudava consoante o momento. Quando brincava era tom cinza azulada e quando estava a sério mudava para amarelado claro como a chama dentro de uma lâmpada, e foi então que dei conta que os nossos olhos falavam.
Chega e diz: - bom dia, dono.
Digo: - olá Vírgula.
De dia come e dorme. De noite anda pela casa, escuta e obedece as ordens. Só se deita em cima da toalha. Sabe dos batons e do mau cheiro. Topa conversas e o mínimo barulho e conhece bem os seus inimigos. Quando aborrece e resmunga coisas, pensa e sente saudades. É amigo de confiança. Vale mais um bicho amigo que amigo lixo. É tão lúcido, o Virgula.
Chego e digo: Virgula!
Quatro patas caminham e pararam no ponto final. Quatro-olhos na interjeição. Dois pontos e vírgula no olhar. Reticências na cauda. Interrogação no focinho. Vírgula e dono. Ponto parágrafo. Olhos nos olhos.


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