terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RAPIZIUS- A Janela e o Pátio


                                                               A JANELA E O PÁTIO

Não desisto de habitar a janela do quarto que dá para o pátio, de manhã e à tarde. No pátio os pardais anunciam o amanhecer e à noitinha os grilos o escurecer. Todos os dias, de manhãzinha e à tarde, ponho comida e água às avezinhas no patamar da janela. É bonito vê-los a banquetear e piar de regozijo. Vêm e vão à hora certa. Na primavera as acácias rubras pintam de verde o ambiente, fazendo com que as paredes circundantes percam o valor de pedras. Em Maio o vermelhaço das flores adensa e o pátio parece um templo e a janela santuário de sons e de cores que o ciclo do sol provoca com passar das horas. Pátio, paraíso de amigos do charro e de pares apostados no sexo. Pátio, paradeiro do Txany, o demente que todas as tardes lê o universo de cabeça para baixo, focando sítios onde as coisas imaginam-se a si próprias sem pretensão de existirem. É ali onde ele se sente confortável para cantar suas saudades e seus sonhos. Da janela acompanho a sua ascendência á montanha incolor da vida que o leva para onde a vinculação do ser é unânime.
 De tanto observar o pátio, repentinamente transforma-se em tendais subindo em espiral sugando meu corpo como um objecto levado pelo tornado. Tudo fica electrizado entre ver e encontrar a saída da nostalgia, buscando a palavra perdida no silêncio do pátio, ali mesmo, amparada pelas mãos, dou com a minha cabeça frágil  como se ela planeasse desprender e colocar-se na viagem do demente que não parava de recitar cânticos desafinados, versos ardentes de loucura tomados de algum pomar de vinhos inspirados no trem da sombra das acácias rubras em flor, mesmo à nossa frente.
 Como é louca a janela do pátio. Ela é como estábulo de dias bons e de dias amargos. 
Ali as horas são como páginas do relógio nas mãos do sol, sonâmbulas e cativas no sonho do poeta.


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