domingo, 19 de junho de 2016

Aconteceu Mesmo


Quando ouvi o barulho eram 03H16 da madrugada. Não chovia. Algo de vidro partiu-se. Acendi as luzes. Fui ver. Pistola pronto a disparar. Casa de banho, nada. Dois outros quartos de dormir, nada. Janelas da sala e da cozinha, nada. Parado diante do frigorífico, olhava á volta, a pensar estalo. Claro que senti vidro a estalar. Sono espantado, sentado na cadeirona, olhei o tecto, lá estava a minha Osga Rosa. Havia muito tempo não a via. Fiquei sem saber se era ela, irmã, irmão ou filha/filho. 
O certo é que estava rosadinha, gordinha, compridinha, destacada ao pé do cortinado creme rendado a tapar a janela. Apontei a pistola e falei para ela: - Ó! Coisa fofa! Não acredito que o barulho que ouvi foi arroto ou peido teu! Baixei a arma. De repente os olhos pararam na estante. Não estava lá a minha fotografia. Levantei-me. Pensei logo na história dos finados passeando pela casa dos poetas. Já os senti nos momentos de escrita a altas horas da noite. Um deles fez-se meu melhor amigo. Vejo-o sempre a andar de um lado para o outro, de camisa branca, calças cinza escura, sapato polimento, tipo professor na sala de aula, inquirindo o aluno. Sim, dizia, levantei-me, aproximei-me da estante, olhei na vertical até o chão, lá estava o quadro partido. Era isso. De fotografia na outra mão, olhei na direcção da Osga Rosa. Já não estava no sítio. Sabido do que tinha acontecido, falei para ela em voz alta. Quer dizer! Andaste á pesca e o abanão frenético da cauda fez-me tombar do sono e quase levavas um tiro. Doutra vez entraste no violão tirei-te de lá com muito cuidado para não te magoares. E hoje ia-te magoar no duro com uma bala. Pois, pior podia acontecer. Em não te acetar de morte, o rodopio do projéctil em ricochete podia alojar em mim, em lugar perigoso. Lá estava eu sem vida. O que tu farias? Eu morto e tu viva! Telefonavas à policia? Osga Rosa! Osga Rosa! Veja por onde andas de madrugada. Desta vez estás perdoada.

sábado, 18 de junho de 2016

O Pastor de Estrelas




O quente do alambique dos meus dias  
é ardume que me suporta o caminho.
No canteiro jogo sem pudor os delírios
haja o que houver não me dói o destino.

Estafeta e esteta profissional da poesia
jamais é abóbada onde pesquiso lírios.
Pedreiro de malho e pedra nos braços  
Caçador do tempo sondador de carreiros 

Notador de ocasos e trovador sem nome
Servo do meu cão que me vigia os passos
Andejo pelos caminhos cantantes da vida.

Sim! Não mais do que um céptico natural 
que descarta elogios e águas galardoadas.
Apenas tentantes de um pastor de estrelas.


quarta-feira, 15 de junho de 2016

Junho Mês de Exames



Parte final do conto - Viva a Quarta Classe - em Cântico às Tradições - livro publicado.

(...)
Por volta do meio-dia, todos estavam de pé reunidos em frente à suposta janela de onde seriam lidos os resultados e cada um imaginava como ia ser a classificação. Alguns pais vindos em seus afazeres à Vila aproveitaram para assistir ao acto que parecia não ter hora certa. O sol ia alto e o calor apertava. De súbito, à janela, uma voz pediu a atenção dos presentes e a curiosidade de todos parecia ter ficado ancorada naquele mar de silêncio que separava a assistência da posição onde se encontrava a sorridente professora Dona Irene. A sua melodiosa voz e a clareza com que lia os poucos parágrafos da acta rasgava o calor que se fazia sentir no local caindo como sopro de ar fresco, aliviando os presentes de navegar na impaciência e no desejo de querem saber como é que cada aluno tinha ficado. 
De cara levantada e sorriso nos lábios a professora leu a última parte do documento:
- E assim. O júri decidiu pelos seguintes resultados: 
Alcides Alberto Barbosa........…....  Distinto
Amélia Mendes Tavares.......……..  Distinta
Cristina Sanches Alvarenga...……. Distinta             
José Luís Lopes Correia........…….. Distinto
Os restantes alunos todos aprovados. Assinado, o júri.
O Flávio não se conteve. O grito dele fez-se ouvir no meio de tantos e tantos colegas. Passei! Passei!  Viva quel bolo. Viva quel vinho. Viva a quarta classe. As vivas vinham da profundeza da sua alma. É que conseguir a quarta classe - segundo grau de instrução primária – era mais do que obter o diploma. Era garantir um emprego razoável, mas, sobretudo, era poder escrever uma carta ou assinar a rogo dos que não sabiam ler e escrever, livrando-os do melindroso dedo na tinta. No meio de pulos e gritos, os meninos insistiam em querer ver os seus professores para os saudar, invadindo a escadaria da porta principal sitiando os professores, pulando euforicamente e gritando sem parar. 
O professor, Ambrósio, escolheu sair por outra porta, para não ter de furar a barricada dessa gente exaltada que só sabia gritar de contente. Ele saíra calado, sem se apresentar aos seus alunos. Registou-se um curto silêncio enquanto ele seguia sem parar.

Os restantes professores que se preparavam para se despedir do ano lectivo foram assaltados pelos finalistas em sinal de saudação e de agradecimento pelos resultados alcançados. Dali a barulhada invadiu as ruas da vila. Gritavam aqueles que tinham sido preparados para continuar os estudos ou para encarar o futuro melhor informados e mais instruídos. A meninada não parava de gritar: Viva quel bolo! Viva quel vinho! Viva a quarta classe. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

Do Crioulo ao Português - Um Poema, Uma Confissão




Poema Santa Catarina em Konfison na Finata, traduzido para o português. 
Experiencia em curso para uma publicação bilíngue...

SANTA CATARINA

Monte rocha colina achada terreiro
Batuque acordeão corneta tambor finason
Grogue um grito acudido no fim do mundo
Um bezerro manso um novilho entoado
Um açúcar uma calda no cocho recolhida
Uma ribeira grande que me corre no peito

Santa Catarina,
Hoje a tua lua não é olho desvairado no céu
Em busca de Figueira das Naus ou Entre Picos de Reda
Não é vida vazia no poial de Donana
Hoje és alfabeto letrado
Em Achada Riba ou em Achada Igreja
És o apetecido em parco quinhão
Olhos almejados e boca cobiçada
Trejeito fascinado num corpo singelo

Santa Catarina,
Eis-nos todos hasteados nas tuas colinas
Eis-nos enredados na sombra da tua bonança
Eis-nos juntos e firmes como um só levantados
Hoje no teu calendário palpitando um rumo

Santa Catarina,
Nem distante nem perto da nossa saudade
Não podes ser miragem amarrada
Marcada e desmarcada no nosso sentido
Nem cansada canseira de um mesmo credo
De um querer que não se desfaz duma só vez

Por mais que o capricho é o esteirado
Que ampara a teimosia do Homem
O que tem de ser… terá de ser.. e será
Mas, seja como for!
Talvez o tempo dos teus dias maiores
Se erga ainda nos olhos puros dos teus mocinhos

Ah! Minha Santa Catarina
Santo limiar da minha fé desconfiada
Nem a mecha na mão da agnosia
Será lucerna da tua aurora enlutada
No teu chão crucificado quero ser tua mortalha

Santa Catarina
Tu és o chão original calcado pelo tempo
A tua crença persegue o espírito do Homem
Estribado e assente na força da sua marcha
Aleitado na tua estação das chuvas correntes
Sob o desafio fogoso da rotação do mundo
Impondo as extravagâncias da globalização.

Santa Catarina
Gulilança Malagueta Monte Brianda
Palha Carga Pico d’António… é agulha
É agulha que costura a condição da manhã
P’ra que o sol ainda se levante na Cruz dos Picos
No crioulo cru de Manuel Braga Tavares.

Eu… sou o teu Credo
De aprumo e rosto limpo no cimo das tuas colinas
De olhos duros figurados na almanjarra do tempo

Querer-te…é crer-te com todo o ser
Não só nos sentidos ou urdindo em falsidade
Tu és a doce cantiga da levada cantante
Em toda a dimensão da travessia das tuas ribeiras
À tua ilharga sou a lantana na tua várzea
O sorgo bravo escorado no teu pedregal

O teu tempo…
É agora o tempo dos teus mocinhos
Que firmes se levantam chão da cidade
No brio da sua mocidade répando
No colo do batuque das mulheres que porfiam
De vozes em coro repicado na cantiga da terra
Com tuas histórias redivivas nos palcos da OTACA
Com teu acordeão ferrado no peito de Belu Freire
Ou no compasso repicado de Lopi Netu
Com a dança d’África nos palcos de Netos de Cabral
Que ainda nos move viçosa em nosso intento.

Ver confirmado é que é pão da vontade
Mas promessa enganosa é fome do espírito
e agravo da consciência

Santa Catarina
Tu és o brio da terra lavrando-me na alma
Tu és o quilate de ouro lavrado na minha memória
Tu és o incenso no aroma vivo do caminho novo
Tu és o grito brandido do filho da terra na colina
Tu és o prego de frechal no sossego da minha morte
Santa Catarina


segunda-feira, 13 de junho de 2016

Divagar De Vagar




O poeta passa a vida inteira a querer descobrir o Cok Pit da nave em que viaja os seus sentidos e acaba por ficar como um pássaro dos beirais a sondar distâncias, sendo os poemas tentativas de agarrar o sol com um palito, processo difícil, desafiante e animador, porque o obriga a voar para além-mundo, fora daquele que a vida lhe estabelece, sonhando alcançar o ovo quadrado da palavra... voo.


domingo, 12 de junho de 2016

Recordar Tututa

 Conheci Tututa, em 1970, na loja Benvindo, Rua de Lisboa, Mindelo, acompanhada do irmão Tchuff que fez questão de me apresentar a Senhora do piano. A sonoridade do disco instrumental, com músicas da sua autoria, enchia o espaço frente a Casa Madeira, onde eu trabalhava.
 Sorridente, simpática era a senhora de fácil amizade. Após troca de olhares ofereceu-me a face para um beijo. Viva era a alegria que floria no semblante desta pianista, possuidora de uma das melhores mãos esquerda no piano em Cabo Verde. 
Antes, tinha conhecido Djosa Marques e Chico Serra, dois grandes da nossa música, ambos possuidores de uma belíssima mão esquerda ao piano de cauda, no acompanhamento da morna, da coladeira e de outros géneros musicais. Djosa Marques era tido como o inventor da percussão nos teclados no acompanhamento da morna e da coladeira. Hubertona que tocou com ele trouxe para o violão a experiencia, criando uma forma de companhar a morna ao violão, em vigor até hoje.
Quem como Tututa fez tanto de bom, se empenhou e se dedicou com muito talento, a morte não é sentida, antes vivenciada. A sua ausência é o ascender de um espírito fecundo no firmamento, onde se perfilam os grandes e na luz imortalizar-se. Os grandes nunca morrem. É um reconhecimento antigo.  Porque aquilo que eles fizeram e por aquilo que representam na história e no percurso do seu povo e da sua terra merecem honras e gratas recordações.
 Tututa, tal como o irmão Tchuff, foram demais vibrantes interpretes da música e da cultura popular nacional, como tal, tornaram-se expoentes e exemplos de como deve-se encarar e aproveitar o que a história nos legou e o que humanidade criou para servir os povos. Os dois, filhos de outro grande e talentoso compositor mindelense António Tchitcho, que também marcou a sua época, apostados na recriação de motivos e temas significativos, deixaram o suficiente para significarem como entidades de respeito e da nossa eterna admiração. Piano é um instrumento demais exigente, sobretudo para quem cuidava de si e dos filhos, num período dificil da vida das ilhas, porém, a sinfonista Tututa jamais deixou de se aplicar, acabando por dominar com mestria o instrumento da sua predilecção.

Tututa tinha a consciência de que o seu instrumento de trabalho era impossível ser transportado ao colo para os lugares onde tocava, como acontece com os de corda, a sua casa era a oficina onde elaborava a música, chamando para a acompanhar amigos e familiares músicos. O teclado do seu piano assemelhava-se a um pomar onde semeava a virtuosidade das suas emoções. O preto e o branco na tábua de notas onde se entretinha e compunha canções, muitas delas perenes, pareciam degraus de uma vida cheia de sonhos, transfigurada na agilidade dos seus dedos e no permanente sorriso dos seus anos de vida.
Tututa era uma rica senhora, uma valiosa mulher, valerosa e autêntica, inspiradora de todas as Donas Ana - orgulho de nôs vida - cito M. de Novas.
 Que o assento fosforescente do universo receba e tenha na sua luminosidade esta crioula que deixa saudades eternas. Gloria à alma e à obra de Tututa, dilecta filha destas ilhas.


sexta-feira, 10 de junho de 2016

10 de Junho - Dia do Santo de Casa

Está escrito que Jesus disse ter saído de sua terra por que nela ninguém acreditava que ele era o profeta, pois, teve de sair dali para se firmar.

É interessante esse fenómeno, quanto mais íntimo é alguém menos acreditamos em seus conhecimentos! Fiquei pensando se isso não é um reflexo de nossa própria desvalorização. Temos uma ideia internalizada de menos valia. Acreditamos lá no fundo que não somos grande coisa, sabemos que não conhecemos tudo, então projectamos isso em nossos pares, desconfiamos de seus dotes, não botamos fé nele ” extracto de um texto lido na internet.
Ora bem, há dias li uma declaração no FB que dizia que não fomos colonizados. Logo Cabo Verde não foi Colónia, mas sim, província portuguesa, como tal, produto europeu, portanto, crioulos ibéricos de sangue hibrido, em razão da frequência de brancos, de mestiços, de pardos e de negros, vivendo em perfeita harmonia na bendita província islenha do alto mar. 
Assim, as ilhas tropicais do Cabo Verde, extensão de terra africana - Senegal - dizia, não sendo Colónia, por força do Não de um catedrático crioulo, membro dos novos brancos eruditos da terra, o arquipélago da costa ocidental africana era província ultramarina portuguesa por culpa de Dom Afonso V que á pátria mãe deu umas nesgas de terra esfrangalhada no meio do mar, a caminho de norte para o sul, tornada em província especial, terra conquistada aos ventos, colocada estrategicamente à deriva no meio do oceano pelos deuses, pedaço que o poeta Gabriel Mariano cantou em versos “navio de pedra sulcando mares, buscando o rumo sem o poder encontrar no seu lugar”.
 Não existindo colónia de Cabo Verde, por conseguinte, não houve colonização. Éramos e somos ilhéus ibéricos. Uma província bem cuidada e protegida pela mãe pátria metropolitana, sendo, para todos os efeitos, a luta de libertação das ilhas do colonialismo um equívoco muito grande. Dito de outra forma, Amílcar Cabral devia ter tido outro procedimento em relação à província crioula que nos viu nascer. Ele devia ser aquele aluno distinto e homem formado na metrópole, escusado de ser africano e viver bem ao lado dos brancos do regime pátrio, pátria tutela das províncias ultramarinas de Minho a Timor. 
Será que hoje o homem crioulo não finge ser ele no outro que criou para si?
Acredito que o ponto forte do ser crioulo de hoje é a sua condição de “santo bastardo” que não faz e não deixa acontecer milagres na sua própria terra. Ele é Santo que só tem história para contar nos momentos de sexo fortuito ou de embriaguez dos momentos extasie e de dificuldade, sendo, para todos os efeitos, como ele se manifesta, o resultado duma falha, a falha do “inconseguimento”. 
Se calhar por vivermos muito próximos uns dos outros aprendemos a não confiar na falha por razões plausíveis. O homem crioulo não dá conta que erra tanto. Acha que não erra em coisa nenhuma. A impressão de que ele não erra em nada, leva-lhe a achar que, quem erra é o vizinho ao lado, o mesmo que dizer, que acha mais verde o jardim alheio que o seu que cuida. Daí, ele, estar convencido de que, por mais evidente e milagreiro seja o Santo de Casa, o verdadeiro, com quem ele convive vinte e quatro horas por dia, dá por sagrado o Santo de Fora, atribuindo imperfeição ao seu, sabendo que não existe Santo que não se engane diante do homem perfeito. Será que auto examinar é subvertimento! 

terça-feira, 7 de junho de 2016

Um dia de Sorte



A quentura que se fazia sentir, às 11H30 da manhã de hoje, riba Praia, obrigou-me a tomar o primeiro táxi que descia em direcção à Achada Santo António. Acomodado e em marcha, senti que vinha de dentro do carro um cheiro forte e incomodativo. Olhei para o fundo do carro. Era de plástico o tapete. Normalmente o tapete de feltro, quando ensopado, choca e rescende. Mas não era o caso. Olhei os sapatos do motorista. Deduzi, que o forte chulé era mesmo dele, vinha dos sapatos, quer dizer, sapatilhas, mafor que inundava o interior do carro de cada vez que manobrava o pedal do travão ou a embreagem. Nem cara borda fora aliviava o nariz do mau cheiro.
Aí perguntei: - Homem o carro é lavado sempre? Foi lavado hoje?
- Sim: Todos os dias. Porquê? Respondeu.
- Há um cheiro esquisito cá dentro. Alem disso o carro achocalha muito. Disse-lhe.
- O dono do carro está mesmo atrás de mim. Respondeu-me sem demora.
- Então pára por favor que vou falar com ele. Não posso impedir o trânsito a esta hora. Explicou o motorista.
- Então diz ao dono carro que não paguei o frete de 150$00 pelas más condições de transporte oferecidas ao cliente. Risos.
- O dono do carro não aceita arranjar o carro, atrasa sempre em pagar-me os salários. Comentou.
- Sabe uma coisa! Hoje na nossa terra toda a barraca virou empresa e todo o rabidante virou empresário. E dá nisso tudo. Disse-lhe com tranquilidade.
- O senhor tem razão. Esta terra virou duma forma que a gente não entende mais nada. Olha, lá em Pensamento, há um bode prenha. O senhor não imagina. Foi obra de uma cabra macho, essas crias da Trindade. O mundo está todo trocado. A explicação foi suficiente. O mundo está mesmo trocado.
Parámos á minha porta. Paguei desejei-lhe um dia de bom trabalho.


segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bilhete da Semana

Fogo d’ África é um espaço de convívio e música. Todos os fins-de-semana Nhô Nani ao violino e a banda de suporte estão ali à nossa espera. Vir à Praia sem visitar Fogo d’África é o mesmo que ficar no aeroporto de partida. Nho Nani é um músico entusiasta que todos apreciam. Empenha-se bem com o arco na mão. Tem de se ter ouvidos de bronze para aguentar os decibéis que se cruzam dentro do espaço. 
Eram três horas da manhã quando cheguei à casa. Como de costume dirigi-me ao frigorífico, trouxe a garrafa de água fresca, pus água na minha caneca inox, fui para a janela tomar uns goles, olhar o céu a conferir a posição das estrelas. 
Praia tem mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado que já vi na vida foi em Assomada, em Achada Riba. Achada Riba de antigamente. Recentemente foi na ilha Brava, em Senhora do Monte. Fascina-me o céu estrelado. Olho a pensar nas estrelas que não se cansam de cavar o buraco onde moram, deixando ficar de fora o rabinho de luz a abanar, semelhando a artimanha das feiticeiras. 
Olhava para um ponto luminoso. Talvez fosse um planeta. Não cintilava. Mas a minha vista cansada dava a entender que o fazia. Da minha varanda o ceu nocturno não é tão mau.
De repente uma sombra com ar enigmático pôs-se a meu lado. Começou a murmurar aos meus ouvidos: Olá! Voltei a cara para o lado. Repetiu: Olá rapaz! O bafo era de fumador. Fumador que bebeu instantes atrás. À mistura o cheiro de perfume caro, parecido com Madame Dior. Não tinha certeza. Era de perfume de mulher. Quem és tu?  Perguntei. Vim porque apaixonei-me por ti. Murmurou atras de mim. Porra! Eu! Quem és tu! O que queres de mim? Ela: Já não tenho idade para muitas conversas. Senti loucamente atraída por ti. Vais dar-me o prazer de te tocar e de te beijar. Não tenhas medo de mim. Rodei trezentos e sessenta graus para me certificar.
Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu rosto ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado, entornando o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição. Desta vez a olhar para baixo. Resultado, percebi que do chão vinha um cheiro a álcool. Whisky, provavelmente. Para comprovar, trouxe a caixa de fósforo. Aproximei o lume do derrame, e-e-e puufffff, um fogo azulado a cheirar nada. Dai, senti um toque no ombro, virei, e soou um vuuuoooop. Aconteceu como se o vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até hoje fiquei por entender o que na realidade terá passado comigo nessa madrugada.

domingo, 5 de junho de 2016

A Importância da Verdade



Se por um lado muita gente boa aqui na nossa terra sabe e muito bem qual o significado da palavra VERDADE, porém, ela, não é muito bem encarada. Os indícios mostram que não há cultura da verdade. Verdade e autenticidade andam alinhadas. Aqui ambas, diariamente, são extorquidas. Diz o povo que a verdade dói. Dói porquê? Pois, fazer justiça é descobrir e pôr a verdade no prato limpo. Ludibriar é tirar vantagens da situação. A sociedade é ludibriada sempre. Então não há gente que, para injustiçar os outros, para criar a pele da sua verdade, falseia, calunia e mente horrendamente. Todo o mundo sabe que é assim. Mas muitos fingem não saber porque ninguém quer ser visto contra ninguém. 
Mas, sabemos, também, o que é ser autêntico, ter autoridade, ter prestígio, o que é ter valor e influência positiva, o que é praticar e defender a verdade. São absolutamente importantes.
Mas a nossa sociedade foi formatada para falar a verdade com verdade?
Hoje, o que é que tem mais importância?
É importante falar verdade?
É importante ser-se autêntico e verdadeiro?    
São perguntas para mil e uma respostas.
    
Estas questões deviam ser tão importantes como a água que bebemos. Por esta razão é que a Importância da Verdade tem e deve ser assumida por todos, os de bom e os de mau senso, pelas autoridades e pela sociedade. O prestígio da sociedade é um instrumento de aferição do comportamento individual e colectivo capaz de esclarecer e capaz de produzir efeitos na escola e na família, abrindo o caminho para que em todas as ocasiões cada um e o colectivo dos cidadãos saibam o que é ter o vínculo jurídico-político que, os constituem, perante o estado, em entidades com um conjunto de direitos e obrigações.

Há que transformar de facto esta terra numa outra, onde a verdade e a autenticidade sejam assumidos com espírito empreendedor e alimentador do civismo, em resumo, numa outra realidade em que a maioria comungue do direito à cidadania e o seu exercício pleno. Para que tal aconteça deve-se, por um lado, ensinar e mostrar as regras, por outro lado, reprimir os desvios e as desobediências. 
A transformação e a acção transformadora não são só mudar o aspecto físico do território onde habitamos, é, antes de tudo, moldar e moralizar a sociedade pela via da educação e pela via da repressão contra os maus hábitos. Ensinar para educar e reprimir para orientar. O estado em que as coisas chegou e estão e o grau da intolerância a que a sociedade assumiu há várias décadas têm assento na tolerância incauta por culpa das autoridades, das escolas, da família, sendo, a tolerância desleixada o gerador do desmazelo e da impossibilidade da reconversão dos maus comportamentos, dos abusos e das desobediências, sob o olhar lascivo dos poderes públicos. 
Trabalhar para transformar a mentalidade da sociedade, criar outras noções e outras práticas capazes de gerar e de encubar nos indivíduos o entendimento maduro da necessidade de reflectir e de se agir bem, apropriar das ferramentas postas à sua disposição, não poucas, para levarem por diante essa grande luta pela construção do cidadão inteiro, não terá validade se o exercício do poder pelas autoridades não servir para moldar, educar e orientar as pessoas de todas as idades.

Se transformar não é só estruturar o paisagístico, massificar não é democratizar. Assim como massificar não é alargar sem qualidade, não é difusão do igualitarismo, não é queimar etapas e prejudicar a selecção e a evolução natural das coisas. A verdade e a democracia são exigentes, por isso, incompatíveis com a intolerância e o igualitarismo, doença que os partidos políticos ajudaram a instalar na sociedade caboverdiana. .......... Se a verdade brilha, a hipocrisia ludibria.

sábado, 4 de junho de 2016

Entrevista ao Jornal Expresso das Ilhas


Depois de Vinti Xintido Letrado na Kriolu, Son di ViraSon e Konfison na Finata, todos escritos em cabo-verdiano, Kaká Barboza regressa à poesia com “Gaveta Branca”, obra que será lançada hoje, na Biblioteca Nacional. Perpassam nas páginas deste livro reflecções metafísicas, existenciais e até cabalísticas, temas que apenas tangencialmente tinham merecido atenção do autor.

Expresso das Ilhas – O que quis dizer-nos com o livro “Gaveta Branca”?

Káka Barboza – “Gaveta Branca” é uma metáfora que surgiu do seguinte facto: o quarto onde trabalho é pintado de branco e tem uma janela por fora. Sempre que entrava no quarto, estava a entrar numa espécie de gaveta e abrindo o meu computador, afigurouse-me que eu estava abrindo uma janela para entrar em gavetas à semelhança do nosso cérebro que contém gavetas onde guardamos os factos e os acontecimentos. Então, é essa gaveta recheada de factos, de vivências e de lembranças que eu quis abrir e olhar para dentro. Branca porque a luz é branca. Então eu pensei: a gaveta branca tem que ter a luz branca da palavra. É essa metáfora que eu achei muito forte – gaveta branca - que não é muito usual, mas suponho que nós próprios e toda a humanidade estamos contidos numa gaveta. Essa gaveta universal que é uma gaveta infinita.

Dou-me conta que os seus temas habituais não estão neste livro. Surgem meditações filosóficas, existenciais e até cabalísticas.

Há outros aspectos que são recorrentes nos meus poemas, mas estão diluídos de uma forma muito pensada, porque este livro foi escrito ao longo de cerca de um ano. Olhando para a luz, no seu aspecto enquanto grandeza física, é um raio que atravessa todo o universo. Mas a nossa luz, que é a nossa mente, aquilo que nós produzimos enquanto ousadia de poder pensar, reflectir e ir até onde a nossa imaginação alcança é também um outro raio. Esse cruzamento de raios produziu todo o pensamento que o livro contém. Nesse aspecto é um livro reflectido. É um livro que não foi publicado antes justamente porque não tinha idade. Hoje tenho mais idade para o livro se parecer comigo. Mas eu quero chamar atenção para o seguinte facto: o fundamento deste livro é a luz. Nós temos que ser o centro da produção da luz. E essa luz é o conhecimento, é a possibilidade de alcançarmos o máximo em termos daquilo que podemos visualizar. Na poesia é também este o elemento essencial. É conseguir criar imagens através desse olhar, transformando essas imagens em palavras. De modo que é dentro desse campo que me situei para escrever o que está no livro.

Quem tenha lido seus anteriores trabalhos pensará facilmente que o Kaká Barboza se desencontrou com este livro. Pensa isso?

Não há um desencontro. Quando comecei a escrever este livro, passava por uma fase delicada da minha vida, estava desempregado. Com a preocupação de manter a família e as despesas normais da casa, criou-me alguma pressão. E, normalmente, quando há pressões desta natureza, suponho que os criadores estão mais bem preparados para explodirem, no sentido da criação de algo mais expressivo e mais emocional, mas também com uma capacidade reflexiva muito maior. Tratando-se de poesia, houve paz e sossego para que o livro pudesse conter essas reflexões, fugindo, de facto, um pouco daquilo que têm sido as minhas composições musicais e toda a poesia que eu escrevi e que venho escrevendo. Foi minha intenção que este livro fosse um pouco mais reflexivo, por isso o seu arquivamento durante 15 anos.

  
Portanto não foi inocentemente que procurou o filósofo Carlos Bellino para fazer o prefácio?

O racionalismo cristão tem uma carga de livros que não é doutrina racionalista. São livros que reflectem uma emanação do espírito. Eu leio esses livros com muita atenção para poder compreender até que ponto é que eu estaria em condições de elevar-me, cultivando o espírito. Mas um espírito resultante de um país como o nosso. De facto, o espírito é uma entidade universal, mas há também aquilo que eu considero o espírito cabo-verdiano que reside na pessoa e que se formata dentro da nossa realidade e da nossa vivência. Essas reflexões no meu livro baseiam-se justamente nessa possibilidade de nos encontrarmos connosco próprios, numa espécie de feixe de luz. Mas é também uma viagem que se reflecte em todos os poemas do livro.

 Sempre pensei que o espírito cabo-verdiano estivesse contido nos seus livros anteriores, entre eles Vinti Xintido Letrado na Kriolu, Son di ViraSon e Konfison na Finata.

O sândalo é uma árvore/ mas quando o machado fere o sândalo/ há um perfume que exala /e esse perfume contamina toda a atmosfera envolvente./Quem se aproxima do bosque sente esse perfume. Todos os meus livros têm um perfume. Esse perfume é um perfume telúrico, é toda a força da terra, porque penso que o nosso país, a nossa terra, é muito generoso; os homens é que não prestam. A nossa terra é muito generosa e todos cabemos cá, inclusivamente o resto do mundo, se cá vier. Agora, trata-se de dar guarida a todos e convivermos dentro de uma relação sã e depois procurar, assim como os nossos antepassados fizeram, organizar as suas vidas com os escassos recursos disponíveis. Tudo isso é uma força que encontramos nos primeiros escritos da nossa cabo-verdianidade. Por exemplo, num Manuel Lopes, num Baltasar Lopes, num Jorge Barbosa. E essa força sublima-se nos poetas mais actuais. Estou a falar de um Corsino Fortes, de um Mário Fonseca. São esses inputs que nos ajudam a recorrer a esses mesmos recursos e enfatizar a nossa escrita de modo a que ela reflicta toda a cabo-verdianidade possível. O meu livro tem também essa aspiração que é um percurso pela luz e pela voz. Dá-se luz à voz e voz e luz à palavra. É como se estivéssemos a dar voz, luz e palavra a estas ilhas generosas que nós temos.

 Nos seus livros anteriores situa a essência da cabo-verdianidade no interior da ilha ou das ilhas. Continua a pensar desta forma?

Eu acho que Cabo Verde é um todo na sua diversidade, mas devemos partir de um ponto. E o ponto de que eu parto para congregar a diversidade é o ponto onde me fiz homem, onde eu senti todo o ambiente envolvente, toda a vivência, toda a aprendizagem aliadas ao paisagístico, ao labor e às ambições…Esse ponto é a Vila da Assomada, no concelho de Santa Catarina, onde cresci e passei toda a minha infância. É um concelho mítico, cheio de história e rico em tradições. De modo que apreendendo bem essa realidade. Nós podemos chegar e penetrar com alguma facilidade nas outras realidades. As nossas localidades são pontos de onde partimos para outras realidades, sejam urbanas ou rurais. Eu acredito que se parto de um ponto para outro, tenho que acrescentar pontes e não subtrair. Portanto, a nossa diversidade é um somatório de pontos que dão um conjunto de pontos que acabam por formar ou uma linha recta, ou um arco. De modo que eu acho que, de facto, devemos é aproveitar tudo aquilo que as nossas realidades locais nos fornecem para contribuirmos no sentido de gerar, na diversidade, uma forma mais capaz de unificar e criar esse todo que é a crioulidade.

 Tinha ficado com a impressão que nos livros anteriores localizou esse ponto, o tal “Aleph” de que fala Bellino no prefácio, em Santa Catarina.

Provavelmente, ou instintivamente, diria que sim, porque o poeta Mário Fonseca, quando lia os meus textos na língua materna, dizia-me sempre que eu apostava muito no vernáculo. Eu acredito que sim, que instintivamente parto desse grande pressuposto. Agora, partir desse pressuposto não quererá dizer que os outros pressupostos que existem nos centros urbanos, toda essa erudição, não são importantes. É que há uma coisa importante: se nós partirmos do campo para a cidade, sobretudo na ilha de Santiago, estaremos a trazer toda a simplicidade, toda a filosofia campesina, toda essa harmonia, toda essa paisagem para a cidade. A cidade é que nos tem que compreender, porque o camponês percebe a cidade, mas a cidade, nessa dinâmica das relações sociais, culturais e económicas tende a qualificar-se deixando um pouco o campo para trás. Mas o campo é fértil em humildade e numa harmonia mais sã. O campo tem acordes próprios que conseguem dar tranquilidade, ao passo que a cidade pode também gozar dessa tranquilidade, mas há uma agitação que não se esconde.

 Na verdade, a magia da água a correr nas ribeiras não existe na cidade.

Eu compus uma canção que reflecte a necessidade dessa água. Eu falo no em Azágua. Mas essa Azágua é uma Azágua ainda mais ampla e tem como ponto de partida a própria água, porque a água tranquiliza. Em Cabo Verde a água tem um valor cultural enorme, porque nós nascemos numa situação de falta ou ausência total da água que significa também a ausência do verde. O pouco verde que nós temos é da escassa humidade. Mas quando vem a chuva, sobretudo quando a água corre numa ribeira, é uma alegria. É uma alegria cantante, porque a água faz-nos reviver para dentro essa fartura com que ambicionamos e sonhamos. Quando a água vai para o mar, ficamos tristes, porque ela passa e vai-se embora. Felizmente hoje conseguimos reter alguma água e não é por acaso que as nossas barragens atraem muitos curiosos e antigamente as lagoas eram visitadas e as crianças iam para aí brincar. Ia-se à ribeira lavar a roupa, apanhar a água e dar de beber aos animais. São momentos interessantes, porque ajuda-nos a resolver muitos problemas interiores que a gente tem.

 É estranho que o milho entre nós tenha uma carga simbólica que a nossa velha água não tem.

Certamente. Eu acho que nós não temos uma cultura da água. Ter cultura da água significa aproveitá-la no máximo, mas também respeitar o seu uso. É muito paradoxal que numa terra onde a água escasseia haja um uso desordenado do precioso líquido, como se fossemos um país de muita água. De facto, as nossas ilhas são cercadas pela água do mar, mas a água potável que nos ajuda a ter uma vida mais apropriada, essa água é ainda muito maltratada, em termos de uso, em termos de respeito e em termos de elemento a ser valorado para fazer parte da nossa cultura. Nós dizemos que a cachupa é um elemento da nossa cultura, mas a cachupa faz-se com água. De modo que o milho e a água estão intrinsecamente ligados. 

Última pergunta. Pela dimensão que alcançou como compositor, considera-se mais músico ou mais poeta?

Eu já li músicos, trovadores ou letristas e já li poetas músicos. Provavelmente eu sou esse lápis que é afiado dos dois lados. Quando um se gasta, você volta para o outro lado para escrever com a outra ponta que está afiada. Nesse lápis eu sou música e poesia, porque a música existe num bom poema. Há uma musicalidade que reside na essência das palavras. A mutação e a musculação dos versos sugerem um ritmo e havendo ritmo é porque existe uma musicalidade. Este é um aspecto. Agora, sendo músico torna-se-me mais fácil a percepção do ritmo e da musicalidade. Existe uma fronteira entre música e poesia, mas depende daquilo que é a pessoa. Acho que em mim essa fronteira é nítida. Por vezes sou mais músico do que poeta. Depois ponho de lado a música para ser mais poeta do que músico. Tenho poemas meus que musiquei e acho que ficaram perfeitas. Por exemplo, Lavrador di nha terra Ntem fé é uma letra muito significativa que transmite muito, mas a melodia acabou por ajudar a expandir muito mais a mensagem e a chamar mais a atenção. Portanto, nesse aspecto eu acho que há uma dose de ousadia, mas também de muita felicidade.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Um Dia com o Poeta Corsino Fortes



Às 10H00 estava eu em casa do poeta. Ele tinha terminado o café da manhã. Esperei por ele na cadeira de costume. De pijama, sorridente, entrou na sala de estar. Eu e ele não nos saudávamos, celebrávamos a fraternidade.
 Meu caro, tenho uma coisa para te mostrar. Trazia na mão três livros. E começou: Passei a noite a estudar Haicais. Nunca me tinha passado pela cabeça lidar com isso. Há várias formas de dizer. Eu gosto de Haicais. O Haicai é uma forma poética concisa e provocador do espanto. Explicou-me a origem e as várias formas que o Haicai assumiu no ocidente literário. Referiu-se a Bashô expoente inevitável desta arte de escrever. Abriu o bloco de notas e leu-me o seu primeiro haicai. Este é seguramente o primeiro Haicai do poeta irmão, Corsino Fortes.
 Poema perdido
 no pó poalha da palavra
 pavor do poeta.
O seu bloco de notas traça na realidade a trajectória do poeta na sua nova paixão … aprimorar os haicais, hoje, editado em livro. Momentos singulares e de boa conversa guardo comigo, entre outros, os da composição dos últimos poemas, todos eles desenhados na mente, para, depois, transpô-los no bloco de notas. Dentro do automóvel do Sr. Fran Gonzalez, a caminho do aeroporto de Las Palmas, de regresso às Ilhas, o Poeta Maior descrevia-nos como viria a ser o poema que tinha em mente.
 Dias depois dei a conhecer ao poeta o ensaio:
Flores d’Ibyago
alvo jardim de lonjuras
flumes luzentes.
Sorriu. Está bonito. Contou as sílabas. Explicou-me as regras. Trouxe o bloco mostrou-me outros em construção, leu e explicou o conteúdo. Ele estava entusiasmado com isso. Olha, meu caro. Vamos levar a ideia aos académicos e ver se conseguimos um dia fazer uma sessão de Haicais. Haicais nossos. Seria uma coisa bonita e inédita. Vamos pensar nisso. Da minha parte eu quero chegar a uns trinta. Já dá para começar. Nesse dia só falamos de Haicais. Assinou o cheque da Academia, despedimo-nos, com a alegria de sempre. Olha, meu caro. Esta casa é tua. Podes vir a qualquer hora do dia ou da noite. Estou sempre cá. Fecha bem a porta lá em baixo. Bateu o portão de ferro e rodou a chave duas vezes. Nossos encontros eram autênticas celebrações de amizade.
Conviver com Corsino Fortes era celebrar o amor ao próximo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O Bilhete do Mês


Escureceu e os violões tinham-se calado no Pôr do Sol. Era um domingo de bom tempo. Música e recordar o passado fizeram parte do passatempo. Tudo passou depressa. Custa partir quando o ambiente é bom. 
Eram vinte horas e poucos minutos quando o automóvel seguia calmamente no piso irregular da estrada. As margens escondiam-se na escuridão com o avanço dos faróis. Subitamente relampejou, depois trovejou. O espanto parou o movimento. Forte foi a pancada. Acidente. Parecia o já visto. Um estrondo perseguindo a jornada. Visualidades! Nunca se sabe. Qualquer viagem contém receios. Aprontam sustos. Neste caso foi um susto valente. Aconteceu o que tinha de acontecer. Só não calhou o que devia calhar. O fim esteve, mas sumiu num ápice no negrume aterrador. Vindo do breu, uma voz segredou á janela: Ele não é daqui. Ele é estrangeiro. Vamos embora. Deixa-o ficar. Gracejaram corvos e lagartos. Uma voz na escuridão alertou: não, ele é mesmo daqui. Apesar de tudo, as peças do esqueleto estavam intactas, mas de coração gelado. Ao lado, o outro que tudo viu e tudo assistiu, resfolgava frígido. Da lista dos condenados ao eterno descanso não constava os esqueletos em viagem. Morreu a morte de angústia e viveu a vida de alívio. Era o mês de Maio. Mês do não enterrar, mas sim de florescer. Tempo do amanhecer e do pôr do sol tropical. Tempo de mudança de estação, de viagens e de lazer. Mês das acácias rubras e da loucura dos pardais e grilos no pátio a inaugurar a tropicalização do calendário. Viver é calar dores e morrer é silenciar amargores.  

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Excerto do Livro Olho da Rua




(...)
Desde aquela tarde de sol quente de sua meninice em que o Rufino, de nominho Fifi, se revoltou e saiu de casa para não mais pôr lá os pés, altura em que pensava que a rua se podia converter no regaço de uma mãe aconchegante, onde a liberdade de tudo fazer era um claro querer, onde também podia a sua vida encher-se de novos sonhos e a felicidade advir ao dobrar a esquina, jamais teve sossego. 
Mesmo nas horas de calma, em que sonhava com o além especial, com o asilo perfeito das suas ilusões, que o levasse a esquecer os rastos de desamor plantados na sua cabeça de criança, ele não conseguia serenar, não conseguia estar em paz consigo próprio. 
Quando deambulava e lhe perguntavam de onde era e a que se dedicava, respondia sem embaraços: «faço mandados e lavo carros». Mas respondia sem conhecer as intenções ocultas das pessoas que o miravam com olhos de desconfiança. Lá nos confins do mundo que girava dentro dele, esboçavam-se sonhos misteriosos em que ele próprio deixava por vezes de acreditar. Estava claro que fez e desfez durante o tempo em que seu juízo errante o aconselhava que sim, que estava certo. 
Mas a partir do momento em que sentiu na pele as pessoas devolverem-lhe desafeiçoamento, afastando-se dele com pressa, coisa triste de sentir, vendo-se cada vez mais cercado e afastadas as hipóteses de conviver sadiamente com elas, de voltar a estar em casa junto de quem ainda pudesse reavê-lo da triste situação em que se achava, a verdade da vida começou a pesar-lhe na consciência, apesar de o instinto de revolta insistir em mantê-lo longe de qualquer um que o quisesse proteger. (...)

Obs. Uma noveleta sobre a vida num bairro, seus habitantes e o que levou um menino a fugir de casa para viver na rua - olho da rua - título do livro.

Textos Exilados

POEMAS DA COLETÂNEA - TERRA DILECTA  - CAMINHOS CANTANTES -  NÃO PUBLICADOS 1 Julho de remotos Julhos. Cíclicos Julho...