sexta-feira, 28 de agosto de 2015

EXERCITANDO DECLIVES


 
 
Este cheiro
do sovaco do quente do sujo
que o olho do sol
espalha pelas ruas do olfacto
são línguas virosas inscrevidas
no rosto anónimo da cidade.

Este cheiro
do buraco ardente do sujo
que o olho de lua
prateia nos areais
são linguagens registadas
no corpo de posturas da cidade.

Não há tronco
que o suporta
nem pedras majestosas
que aguentem
o colo incauto dos cérebros
desprovidos de caminhos
e de missões cívicas.

Amanhece
e os sorrisos da azágua
submetem-se à enodoação.  

sábado, 22 de agosto de 2015

Improviso em Fa+Dó


O incenso que o ânus produz
na Cocolandia dos Santos e Deuses.
Declaro o bloqueamento,
mais o divorcio.
Declaro o desmembramento
  e óc(d)io.

Declaro o finamento
e vontade ao suicídio.
A tempestade forma e não arrasa,
nem chove.
Tudo indica
e não passa do sul da Brava.
A cocolandia
rescende do incenso do ânus.
O nauseabundo
invade a gaveta branca
É terramoto na terra dos santos e santas.
A água não vem
e o tsunami também.
Cobom, Safende,
Varzea, Paiol e Gamboa
Aspiram desentupimento,
dreno e poda.
Mas os deuses não acordam,
Nem atendem.
Prestes a morrer
todas as canções e poemas das ilhas
No fétido que pela janela penetra e fica.
Oh! Tempestade Tropical
leva tudo deixa ficar o mar
para futuras caravelas,
padres e pastores.
Ontem
Morreu o poeta mais sereno da ilha
É pena
que a terra esteja tão conspurcada.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FLORIS D'IBYAGO


Lendo
os meus primeiros tentames poéticos
Pareciam
bilhetes nas mãos da aragem
a solfejar
pó da orgia das palavras
Pareciam
pedaços do banco da quarta classe
que pecava
em todas as direcções gramaticais
que acertava
numa coisa só…
lápis na mão e papel na tábua.
Eram
como desenhar abóbadas   
duma inocência cansada da sua idade.
Buscar
a declinação dos anos
Distanciar-se
da terra dos comuns.
Peneirar
palavras
Metamorfosear
símbolos e sinais
Trocar
pássaro por esfinge
e colocar-se
à margem de si próprio.

RAPIZIUS


 
EXERCITANDO DECLIVES

 
Não desisto de habitar a janela que dá para o pátio, recanto de pardais logo ao amanhecer e de grilos anunciando a noitinha. As acácias rubras pintam de vermelho a calçada e o ar em que respiram, passando o verde despercebido, até as paredes circundantes perdem o valor de pedras. Maio! Maio adentro, o vermelhaço adensa e o pátio parece um templo e a janela santuário de todos os ruídos, sons, cores, inclusive o desgaste do sol com passar das horas. Pátio, paraíso de jovens amigos do charro. Paradeiro do Txany, o demente que todas as tardes lê o universo de cabeça para baixo, focando sítios onde as coisas imaginam-se a si próprias sem pretensão de existirem. Acompanho-o da janela na sua ascendência á montanha incolor, onde a lisa ondulação do ser é unânime.

 De repente o pátio transforma-se em nebulosas espirais sugando o meu corpo como um arbusto levado pelo tornado, electrizado entre as paredes do pátio, entre o ver e o sonhar, busco o veludo da nostalgia de um poema perdido na canção. De repente dou com a minha cabeça frágil sobre as mãos como se ela quisesse desprender e colocar-se na viagem do demente que não parava de recitar cânticos desafinados, ardentes de loucura, versos, talvez, vindos de algum pomar de vinhos no trem da sombra das acácias rubras em flor, descarrilando o tempo.

 Como é louca a janela do pátio. Ela é como estábulo dos dias bons e amargos que a vida impõe, são como páginas nas mãos do sol, sonâmbulas, dialogantes e prisioneiras no sonhar do poeta.

 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

RAPIZIUS


O VERÃO DA MORTE

Insisto em dizer que o arquipélago de Cabo Verde situado na zona tropical está sujeito a duas ocasiões, a das brisas e da seca e a quente ou das águas - chuvas - uma alimentada pelo clima desértico do continente ao lado, e outra alimentada pelas monções do sul, mais propriamente do golfo da Guiné, período, este, que começa em finas de Julho a Setembro, época quente ou das águas que a propaganda comercial através da comunicação social - Radio e Televisão - J...ornais e Magazines, mais a ignorância das autoridades insistem em chamar de Verão, aliciando as pessoas a frequentarem as praias, ignorando a condição do mar que normalmente se mostra revolto, com correntes, provocando a deslocação da areia com ondas agressivas, que o povo apelida "mar pedindo chuva".
A questão não é ter praias vigiadas ou não vigiadas. A questão é informar com verdade as pessoas de que não existe este tal Verão. Que existe o tempo quente que com aquele se confunde e que nesta altura o mar é traiçoeiro, devendo todos terem cuidado absoluto em se banharem no mar.
Todos os anos morre gente no mar, adolescentes e jovens por ignorarem as informações correctas sobre o estado do mar.
Eis a tragédia. Eis o Verão da Morte que todos os anos deixa famílias desesperadas. Eis o resultado da propaganda do Verão Inexistente que ceifa vidas nas praias de banho do arquipélago. Tragédia, sim senhor. Em Verão da Morte.
Foram quatro jovens mortos e dois desaparecidos em São Nicolau
Foram quatro adolescentes, duas meninas e dois rapazes, com idades compreendidas entre 14 e 17 anos, que perderam a vida no mar da Prainha, na cidade de Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau, sendo dois jovens desaparecidos e outros dois resgatados com vida, em situação de forte ondulação e correntes que neste período do ano o mar apresenta.
Todos os anos volto com a mesmíssima coisa, mas continua-se a promover o que não existe - Verão que Mata no mar - o mar que mata para haver chuva abundante, ele sempre traiçoeiro, porque imprevisível, embora inspirador e amigo.
O mesmo mar que a trova canta com amargor - mar é morada di sodadi - triste sina dos caboverdianos.

domingo, 2 de agosto de 2015

RAPIZIUS


 
 
 
Qual o estado da maçã? - Perguntou a árvore.
Do galho o papagaio diz: - comestível.
Do lodo o sapo grita: - amargo.
Do prado o gado conclui: - imprestável.
Algures soa uma voz: - carago

sexta-feira, 31 de julho de 2015

CANÇÕES




Quatro canções de louvor ao milho, à sementeira e aos camponeses da minha terra.
(In Terra Dilecta - Caminhos Cantantes - Inédito)

Luzentes pelo alento dos arranjos  
as covas da sementeira marcham
para celebrar a terra molhada   
que dilata a pequeneza dos grãos. 

Inocente não é o canto do lavrador  
que inventa o molhado que não tem
luz o rumor do pau na boca do pilão
esverdinha o sol que lambe a terra
e à sombra do balaio dorme o pão.  

 
2
 
O milho é como um pássaro
que voa dentro de nós a renúncia
ao seu próprio ninho.
É como um barco que de manhã aporta
e à tarde devolve-se à jornada.
Fosse a ilha um barco
e milho bússola  
outras rotas e viagens
outros destinos
teriam as nossas manhãs.

3
O milho semente ilhéu
traz a ancestralidade 
e as milhas do mar insular
que separam e unem memórias.

O milho contém suspiros
origens e glórias
O milho detém caminhos
limites que unem histórias.

4
Milho
Pão
Semente
Somente
Não.
Milho
É canção

 

sábado, 25 de julho de 2015

RAPIZIUS


JULHO MES DE JÚBILO

Santa Cruz, 24 de Julho de 2015, 10H45. Acabo de chegar a cidade de Pedra Badejo. Olho o telemovel. É minha mulher. “ Olha, a notícia e desagradável. Acaba de morrer o teu amigo, Dr. Corsino Fortes”. Falei quase nada. Dei um até logo. Lá mesmo já se sabia do falecimento do poeta. Helder disse: “Morreu Corsino Fortes. Bom homem”. Na esplanada a rádio anunciava a morte do capitão vestido de branco. Contudo, Santa Cruz preparava-se para celebrar o dia do município. Há muita agitação. Muito entusiasmo na preparacao dos festejos. Precisamente, hoje, a Câmara Municipal vai homenagear figuras que desempenharam um papel de relevo na edificacao do concelho em varios dominios da vida pública, social e politica, personalidades cujo desempenho prestigiaram o bom nome do Concelho. Entre os filhos do concelho agraciados pela Assembleia Municipal, em acto público reunido para o feito, estavam antigos deputados, delegados do Governo, médicos, proprietários, professores, agricultores, agentes sanitários, agentes sociais e culturais, todos merecedores de menção elogiosa pelo papel desempenhado no passado e no presente, gesto nobre da Camara Municipal de agradecimento e de reconhecimento, face de uma nova feição conferida ao interior de Santiago.
O acto contou com sessão musical protagonizado pelo compositor e músico Quim de Santiago sob a directoria musical de Helder Lima, professor de música neste concelho. Várias actividades constam das celebrações, sendo o festival da Areia Grande um dos pontos altos. Estas festas são sempre momentos de exaltacao das realizacoes conseguidas, de convio, de confraternizacao entre os locais e os visitantes, de movimentação dos pequenos negócios, de música, enfim, de celebração da memória. Santa Cruz em festa contrasta o ambiente de pesar que vive Mindelo, círculo dos amigos do poeta, o inclinar da nação inteira que reconhece em Corsino Fortes, o homem de fino trato, diplomata elegante, combatente da liberdade e cidadão singelo e amante do amor.

Inclinado sobre a folha, revivia alguns momentos passados com o poeta em sua casa na Achada de Santo António. Ele era espirita. Partilhávamos do crer na elevação do espírito. “ Eu não falo da morte. Prefiro falar da vida. Ela é como um livro sem a última página.” Nesse dia falava-lhe do livro que estava para sair – Gaveta Branca – e convidá-lo para apresentador da obra. O olhar sereno, os gestos medidos, palavras de estímulo, o intenso amor ao próximo, a fertilidade das suas iniciativas, faziam dele a própria esfinge de luz inscrita na supernal radiação cósmica. Eram luz o sorriso e fragrância as suas considerações. Pela tarde, o Hino Nacional pela Banda Militar, Parada e Bandeira a Meia Haste, o minuto de silêncio solicitado pelo Presidente da Assembleia Municipal, após citar o simbólico eco: “Não há fonte que não beba da fronte deste homem”. Assim o poeta, meu irmão, meu amigo, Corsino Fortes, tomou assento nas celebrações do dia do Município de Santa Cruz, de Nho Santiago Maior, celeiro da ilha e altar de – A Cabeça Calva de Deus – fundão de todos os cumes do mundo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

RAPIZIUS


CONVIVER COM O POETA CORSINO FORTES É CELEBRAR O AMOR

Às 10H00 estava eu em casa do poeta. Ele tinha terminado o café da manhã. Esperei por ele na cadeira de costume. De pijama, sorridente, entrou na sala de estar. Eu e ele não nos saudávamos, celebrávamos a fraternidade.
Meu caro, tenho uma coisa para te mostrar. Trazia na mão três livros. E começou: Passei a noite a estudar Haicais. Nunca me tinha passado pela cabeça lidar com isso. Há várias formas de dizer. Eu gosto de Ha...icais. O Haicai é algo conciso e provocador do espanto. Explicou a origem e as varias formas que assumiu no ocidente literário e referiu-se a Bashô como inevitável expoente desta arte de escrever. Abriu o bloco de notas e leu-me o seu primeiro haicai. Este é seguramente o primeiro Haicai do poeta irmão, Corsino Fortes.
Poema perdido
no pó poalha da palavra
pavor do poeta.
O seu bloco de notas traça na realidade a trajectória do poeta na sua nova paixão … aprimorar os haicais, hoje, em livro. Momentos e notações singulares guardo comigo, entre os quais, a gestação dos seus últimos poemas, que eram desenhados na mente e, depois, transposto no papel. Eu e Fátima Bettencourt, dentro do automóvel do Sr. Fran Gonzalez, a caminho do aeroporto de Las Palmas, de regresso às Ilhas, o Poeta Maior falava-nos de Adão e Eva e Boneca, dois reconhecimentos em construção poética.
Dias depois dei a conhecer ao poeta o meu primeiro Haicai:
Flores d’Ibyago
Alvo jardim de lonjuras
Flumes luzentes.
Sorriu. Está bonito. Contou as sílabas. Explicou-me as regras. Trouxe o bloco mostrou-me os em construção, leu e explicou o conteúdo. Meu caro, vamos levar a ideia aos académicos e ver se conseguimos um dia fazer uma sessão de Haicais, Haicais nossos. Seria uma coisa bonita e inédita. Vamos pensar nisso. Da minha parte eu quero chegar a uns trinta. Já dá para começar. Nesse dia só falamos de Haicais. Assinou o cheque da Academia, despedimo-nos, com a alegria de sempre…. Esta casa é tua. Podes vir a qualquer hora do dia ou da noite. Estou sempre aqui. Fecha bem a porta lá em baixo. Bateu o portão de ferro, rodando a chave duas vezes. Nossos encontros eram autênticas celebrações de amizade.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

TERA DE ABERAÇÕES


VERRON CRIOULO

  Todos os anos trago a mesma história. Verão/verron. A propaganda empresarial ajudada pela Complicação Social, chegando o tempo quente ou das águas abrem a corneta do Verron/Verão, iniciando-se com Badja ku Sol, seguidos de passeios à beira mar, aos beiras habituais, levando panelas, cães, esferovites, tabuleiros com vendas diversas, incluindo grogue Blú e pontche Bluzado, charros e pedrinhas, para ajudar o beira mar a ficar mais fenomenal, incluindo gritos, berros. tumulto e gente em barda. Como aqui a praia não é tida como lugar de convivência sadia com a natureza, de certo sossego de espirito, claro, banhos e amizades. ela se torna numa espécie de furacão de arrasar a paciência do mar que de per si, nesta época do ano começa a ficar revolto, sedento de matar os desafiadores das correntes que alinham para o sudeste ou sul.

 No último fim de semana já ia matando um garoto, e, repito, o mar de azágua tem de matar todos os anos para se amansar e trazer chuvas (crença de alguns) mas a minha é única - não temos Verron/Verão - nesta altura do ano é preciso cuidado com o mar da Kebra Kanela e São Francisco, não culpar nadadores alva vidas, não confiar que deus é capaz de salvar quem não se lembra dele quanto tem os pés na areia, que Neptuno, deus do mar, a sua função é afogar e matar os que o desafiam arrogantemente. Cada um que se cuide. O mar não ama, mata.