sexta-feira, 31 de julho de 2015

CANÇÕES




Quatro canções de louvor ao milho, à sementeira e aos camponeses da minha terra.
(In Terra Dilecta - Caminhos Cantantes - Inédito)

Luzentes pelo alento dos arranjos  
as covas da sementeira marcham
para celebrar a terra molhada   
que dilata a pequeneza dos grãos. 

Inocente não é o canto do lavrador  
que inventa o molhado que não tem
luz o rumor do pau na boca do pilão
esverdinha o sol que lambe a terra
e à sombra do balaio dorme o pão.  

 
2
 
O milho é como um pássaro
que voa dentro de nós a renúncia
ao seu próprio ninho.
É como um barco que de manhã aporta
e à tarde devolve-se à jornada.
Fosse a ilha um barco
e milho bússola  
outras rotas e viagens
outros destinos
teriam as nossas manhãs.

3
O milho semente ilhéu
traz a ancestralidade 
e as milhas do mar insular
que separam e unem memórias.

O milho contém suspiros
origens e glórias
O milho detém caminhos
limites que unem histórias.

4
Milho
Pão
Semente
Somente
Não.
Milho
É canção

 

sábado, 25 de julho de 2015

RAPIZIUS


JULHO MES DE JÚBILO

Santa Cruz, 24 de Julho de 2015, 10H45. Acabo de chegar a cidade de Pedra Badejo. Olho o telemovel. É minha mulher. “ Olha, a notícia e desagradável. Acaba de morrer o teu amigo, Dr. Corsino Fortes”. Falei quase nada. Dei um até logo. Lá mesmo já se sabia do falecimento do poeta. Helder disse: “Morreu Corsino Fortes. Bom homem”. Na esplanada a rádio anunciava a morte do capitão vestido de branco. Contudo, Santa Cruz preparava-se para celebrar o dia do município. Há muita agitação. Muito entusiasmo na preparacao dos festejos. Precisamente, hoje, a Câmara Municipal vai homenagear figuras que desempenharam um papel de relevo na edificacao do concelho em varios dominios da vida pública, social e politica, personalidades cujo desempenho prestigiaram o bom nome do Concelho. Entre os filhos do concelho agraciados pela Assembleia Municipal, em acto público reunido para o feito, estavam antigos deputados, delegados do Governo, médicos, proprietários, professores, agricultores, agentes sanitários, agentes sociais e culturais, todos merecedores de menção elogiosa pelo papel desempenhado no passado e no presente, gesto nobre da Camara Municipal de agradecimento e de reconhecimento, face de uma nova feição conferida ao interior de Santiago.
O acto contou com sessão musical protagonizado pelo compositor e músico Quim de Santiago sob a directoria musical de Helder Lima, professor de música neste concelho. Várias actividades constam das celebrações, sendo o festival da Areia Grande um dos pontos altos. Estas festas são sempre momentos de exaltacao das realizacoes conseguidas, de convio, de confraternizacao entre os locais e os visitantes, de movimentação dos pequenos negócios, de música, enfim, de celebração da memória. Santa Cruz em festa contrasta o ambiente de pesar que vive Mindelo, círculo dos amigos do poeta, o inclinar da nação inteira que reconhece em Corsino Fortes, o homem de fino trato, diplomata elegante, combatente da liberdade e cidadão singelo e amante do amor.

Inclinado sobre a folha, revivia alguns momentos passados com o poeta em sua casa na Achada de Santo António. Ele era espirita. Partilhávamos do crer na elevação do espírito. “ Eu não falo da morte. Prefiro falar da vida. Ela é como um livro sem a última página.” Nesse dia falava-lhe do livro que estava para sair – Gaveta Branca – e convidá-lo para apresentador da obra. O olhar sereno, os gestos medidos, palavras de estímulo, o intenso amor ao próximo, a fertilidade das suas iniciativas, faziam dele a própria esfinge de luz inscrita na supernal radiação cósmica. Eram luz o sorriso e fragrância as suas considerações. Pela tarde, o Hino Nacional pela Banda Militar, Parada e Bandeira a Meia Haste, o minuto de silêncio solicitado pelo Presidente da Assembleia Municipal, após citar o simbólico eco: “Não há fonte que não beba da fronte deste homem”. Assim o poeta, meu irmão, meu amigo, Corsino Fortes, tomou assento nas celebrações do dia do Município de Santa Cruz, de Nho Santiago Maior, celeiro da ilha e altar de – A Cabeça Calva de Deus – fundão de todos os cumes do mundo.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

RAPIZIUS


CONVIVER COM O POETA CORSINO FORTES É CELEBRAR O AMOR

Às 10H00 estava eu em casa do poeta. Ele tinha terminado o café da manhã. Esperei por ele na cadeira de costume. De pijama, sorridente, entrou na sala de estar. Eu e ele não nos saudávamos, celebrávamos a fraternidade.
Meu caro, tenho uma coisa para te mostrar. Trazia na mão três livros. E começou: Passei a noite a estudar Haicais. Nunca me tinha passado pela cabeça lidar com isso. Há várias formas de dizer. Eu gosto de Ha...icais. O Haicai é algo conciso e provocador do espanto. Explicou a origem e as varias formas que assumiu no ocidente literário e referiu-se a Bashô como inevitável expoente desta arte de escrever. Abriu o bloco de notas e leu-me o seu primeiro haicai. Este é seguramente o primeiro Haicai do poeta irmão, Corsino Fortes.
Poema perdido
no pó poalha da palavra
pavor do poeta.
O seu bloco de notas traça na realidade a trajectória do poeta na sua nova paixão … aprimorar os haicais, hoje, em livro. Momentos e notações singulares guardo comigo, entre os quais, a gestação dos seus últimos poemas, que eram desenhados na mente e, depois, transposto no papel. Eu e Fátima Bettencourt, dentro do automóvel do Sr. Fran Gonzalez, a caminho do aeroporto de Las Palmas, de regresso às Ilhas, o Poeta Maior falava-nos de Adão e Eva e Boneca, dois reconhecimentos em construção poética.
Dias depois dei a conhecer ao poeta o meu primeiro Haicai:
Flores d’Ibyago
Alvo jardim de lonjuras
Flumes luzentes.
Sorriu. Está bonito. Contou as sílabas. Explicou-me as regras. Trouxe o bloco mostrou-me os em construção, leu e explicou o conteúdo. Meu caro, vamos levar a ideia aos académicos e ver se conseguimos um dia fazer uma sessão de Haicais, Haicais nossos. Seria uma coisa bonita e inédita. Vamos pensar nisso. Da minha parte eu quero chegar a uns trinta. Já dá para começar. Nesse dia só falamos de Haicais. Assinou o cheque da Academia, despedimo-nos, com a alegria de sempre…. Esta casa é tua. Podes vir a qualquer hora do dia ou da noite. Estou sempre aqui. Fecha bem a porta lá em baixo. Bateu o portão de ferro, rodando a chave duas vezes. Nossos encontros eram autênticas celebrações de amizade.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

TERA DE ABERAÇÕES


VERRON CRIOULO

  Todos os anos trago a mesma história. Verão/verron. A propaganda empresarial ajudada pela Complicação Social, chegando o tempo quente ou das águas abrem a corneta do Verron/Verão, iniciando-se com Badja ku Sol, seguidos de passeios à beira mar, aos beiras habituais, levando panelas, cães, esferovites, tabuleiros com vendas diversas, incluindo grogue Blú e pontche Bluzado, charros e pedrinhas, para ajudar o beira mar a ficar mais fenomenal, incluindo gritos, berros. tumulto e gente em barda. Como aqui a praia não é tida como lugar de convivência sadia com a natureza, de certo sossego de espirito, claro, banhos e amizades. ela se torna numa espécie de furacão de arrasar a paciência do mar que de per si, nesta época do ano começa a ficar revolto, sedento de matar os desafiadores das correntes que alinham para o sudeste ou sul.

 No último fim de semana já ia matando um garoto, e, repito, o mar de azágua tem de matar todos os anos para se amansar e trazer chuvas (crença de alguns) mas a minha é única - não temos Verron/Verão - nesta altura do ano é preciso cuidado com o mar da Kebra Kanela e São Francisco, não culpar nadadores alva vidas, não confiar que deus é capaz de salvar quem não se lembra dele quanto tem os pés na areia, que Neptuno, deus do mar, a sua função é afogar e matar os que o desafiam arrogantemente. Cada um que se cuide. O mar não ama, mata.

 

RAPIZIUS


EXERCITANDO DECLIVES

Txéki! Txéki! Passa negro! Dobra as asas e desaparece. Teu sítio é lá na ponta do Mau Passo onde tem rocha ruim. É lá que a tua mãe te pariu e te largou vago no mundo. Covarde! Dobra as asas e vai-te poisar lá no lugar de Nho Cirilo que não tem guarda. Úúú-o-o. Desaparece no inferno! Vai, Chico Dias! Txéki! Txéki!
Depois dos exames era assim por todo o lado. Gritos eufóricos tomavam conta do ouvido das pessoas. O quotidiano delas estava virado unicamente para azágua. Nos finais do mês de Julho, as terras do sequeiro traziam sinais de covas semeadas como manchas alinhadas na superfície do futuro. Uma de feijão ou duas de fava e quatro grãos de milho pareciam porções de esperança no abrigo da terra ansiando pela queda da chuva abundante. Tinha gente que por agoiro semeava em pó, isto é, depois da primeira lua de Julho e outras adivinhando a presença das chuvas detrás dos sinais do tempo metiam confiantes os grãos na terra seca. Sementeira é em chão molhado, assim cria Nho Zebedeu, homem conhecedor dos sinais do campo.
Os meninos viviam com entusiasmo a sementeira e o guarda-corvo, tarefa, sem dúvidas, divertida e igualmente muito importante sendo uma das condições essenciais para se garantir a emergência do verde vivo que só o chão molhado sabia pintar. Os guardas da sementeira atiravam fundas para o céu e diziam nomes feios esconjurando os corvos de cada vez que passavam sobre os espaços semeados. A pior coisa que se podia dizer a uma pessoa era que ela se comportava como um corvo. Não tinha poiso certo este viageiro vestido de negro, perseguido por todos onde quer que fosse. Estes daninhos duma figa acabavam sempre familiarizando-se com os espantalhos sobretudo quando a fome os apertava. Poisavam mesmo assim sobre as covas e lá conseguiam esgaravatar e descobrir os grãos de milho deixando os de feijão. Qualquer distracção ou ausência prolongada dos vigilantes era fatal. Remexiam tudo e causavam sérios danos à sementeira. Nem a astúcia de se espalhar os grãos dentro da cova os confundia.
 A guarda ao lugar só terminava quando o milho crescesse e tivesse para cima de quatro folhas. Assim, os pardais não podiam ceifa-los com o afiado bico. Para os afugentar, os guardas serviam-se de latas velhas, pedras ou paus de purgueira para orquestrarem toca-lata, som ruidoso que imitava o ritmo do batuque acompanhado de cântico próprio. Nos lugares mais afastados a guarda prolongava-se até à altura da córta. Havia, pois, que se defender das peladas e dos macacos. Funco, abrigo improvisado dos guardas, era construído de ramos de purgueira ou de outro arbusto resistente, forrado ou coberto de talos de carrapato de Lisboa, em sítios elevados para alargar a visão. Quinze de Agosto, dia de Nossa Senhora da Graça era considerado a altura limite para queda das primeiras e significativas chuvas. Não se registando, as pessoas começavam a encarar a hipótese do ano atrasado, ou de má azágua.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

RAPIZIUS



            EXERCITANDO DECLIVES

Nhô Xalino foi quem descobriu que finado é que tinha entrado no corpo de Minézio, depois de este ter perdido quase metade do seu peso. Estava muito debatido o seu estado de saúde. Todos conheciam o destino que a doença fraca dava às pessoas que a contraíssem. Depois de avaliar o paciente e ter consultado o seu livrona afirmou sem rodeios para a mulher do doente: - É icterícia. Tudo indica que é isso mesmo. É uma doença que castiga o corpo e o seu tratamento leva tempo. Palha-chá de Racha-Pedra fervida em água limpa amparada no olho d’água ao amanhecer é o primeiro remédio. Ele precisa de tomar também hóstia de limpeza sangue. Pílula de babosa. Olha, no estado em que o corpo está não sei se ele aguenta. O sangue parece estar muito fraco e se tomar qualquer coisa forte de mais, pode ir duma vez. Do meu lado, farei tudo o que souber e se ele se aguentar ficará bom. Enfim, deixemos tudo ficar nas mãos e na vontade de Deus: - disse Nhô Xalino, com ponderação. - Então o meu marido não vai achar as melhoras? Homem! Vê lá o que é que pode fazer por ele. Tira-o desta situação. Pago o que o Senhor me pedir. Procura direito lá no seu livrona de palha-santo se não há nenhum ofício para ele. De esmola, Nhô Xalino, não deixa morrer este homem que toda gente sabe que tinha forças fincadas na canela e que virava dois bois duma pancada para cair neste jeito, que nem dá para se segurar no penico: confessou a mulher da vítima. - Mulher, ele demorou muito tempo para cá chegar. Vocês levaram-no primeiro para a farmácia e o remédio que lhe deram descontrolou um bocado a sua saúde. Mostraram-no àquele doutor indiano? - Sim, levamos: - disse a mulher. - Dizem que ele é bom curador de gente. Mas há doença da terra que não está no livro deles. Só gente que tem olho sem bexiga é que vê a manifestação desta doença. A palma da mão, a língua e a ourela dos olhos é que conta numa pessoa molestada. Doutor tem seu lugar mas é preciso conhecer a terra e suas moléstias. Olha bem, é palha de chá de curativo que está aqui embrulhado. Faz assim: na parte de cedo, ao meio dia e à tardinha dá-lhe o chá; água de nascente, dá-lhe muita água e caldo de miudeza de frango. Usa manteiga da terra ou azeite vindo em colherzinha de alumínio. Apura bem o caldo e dá-lhe de quatro em quatro horas. Leve-leve. Nada de coisa pesada. Prepara-lhe também banho de rebentos novos de marmulano colhidos antes do amanhecer. Tenta tudo isso e esperamos pela reacção dele. Se acontecer algo, manda-me recado. Estou sempre aqui em casa. Tinha assim acabado a consulta ao homem doente de icterícia. Os acompanhantes colocaram aos ombros a jangada de lona com o doente e tomaram a direcção de Pinha de Ngenho.

domingo, 19 de julho de 2015

RAPIZIUS


EXERCITANDO DECLIVES
 
Fiquei a olhar durante muito tempo o céu nocturno de ontem. A lua parecia um pires colocado justamente na posição de espera da gota de luz que nunca mais caía dentro daquela fortuna panorâmica que Julho concebeu. Julho é prodigioso em oferecer cenas inimagináveis nos céus da ilha.

Sim, aquela florescência navegava na mesma posição em que o sol escaldante se pôs. Aquela horinha tinha terminado o encontro do núcleo vaidoso em gestos e palavras, o Escrevo…. porque sim! Sementeira da Catarina Cardoso em Julho mês da sementeira. Ficou semeado que escrever é um acto de loucura porque, a Sophia de Mello Breyner Andresen é poeta do mar, das conchas, da luz, o Manuel António Pina é o poeta maior da casa, dos gatos, das coisas quotidianas e Catarina a ilha que faltava às ilhas, Sara o sopro leve balouçando o verbo, Samory relógio do amor na lamina dos versos cunhados de negritude, e, eu, viciado em anotações e músico do núcleo vaidoso. Tínhamos acabado de firmar na própria canela sem receios de ainda ser nebulosa, um bezerro que desconhece o paradeiro da sombra mais próxima, não nómada, mas cómodo porque há estrada, há luz, há santos e pecadores, pecando por excesso de confiança e de vaidade em si próprios, esse narcisismo que exercita e adoece a alma dos poetas, mas que o salva da vaidade ruim, essa que despreza o humanismo, a coerência e o existir do ser e das coisas.

E a lua tinha-se tornado num parentese curvo desalinhada com a gota que perdia cada vez mais o seu posicionamento. Escrevo… porque sim!

 

sábado, 18 de julho de 2015

RAPIZIUS


ESCREVO.....PORQUÊ!
 
Das pedras mansas alicerçadas nas ribeiras do meu sangue é que naturalmente parto para olhar o Mundo, sondá-lo, julgá-lo e ainda para agir e abraçar a luta universal dos homens de bem, ciente de que a justa causa por eles defendida encerra em si um mundo menos carrasco e mais humano. Tenho como centro do meu mundo e sede do meu sentir, o território de uma região agrícola fundada na esteira de ricas tradições, de grandes fomes, de revoltas, de feiras, de festas populares e de celebração da azágua, enfim uma terra fecunda, de gente grandiosa e dona de uma identidade cultural muito forte.

Foi efectivamente com a idade de vinte e um anos que saí de Assomada para Mindelo, em cumprimento do serviço militar obrigatório, para assim conhecer a ilha e a cidade que honrou o meu nascimento, uma bonita urbe cheia de história e de gente ilustre, terra de memória que mantém viva a casinha onde eu nasci, numa ruazinha escorrendo em direcção ao poente, aonde o sedutor rosto de pedra vindo da madre dos vulcões, efígie de poetas, músicos, escritores e artistas, olha infatigável o céu e escuta os rumores das marés e novas na boca dos ventos.

Tendo findo o serviço militar obrigatório, fixei-me em Mindelo. Nesta altura preocupava-me mais com o meu primeiro emprego e formação profissional, contentando-me com música e anotações avulsas no caderno de notas, escrevendo rabiscos de juventude, delineados em caboverdês e em português. Carta di Nha Fidju Djuzé Lopi (texto), Nha Funku (poema), Prizão (morna), Somada (funaná), são os desenvolvimentos que marcaram a minha iniciação na arte de escrever e de compor música. Mindelo foi realmente o lugar onde comecei a sentir a necessidade de exteriorizar o que sentia. O facto de ter deixado para trás a minha ribeira - Santa Catarina - algo suficiente e invulgar devia poder saldar o défice que punha em desequilíbrio o fiel da balança da minha vida interior. Qual saudade movente no espírito, qual vontade de regressar ao ponto de origem. Acudir o apelo da razão sentinte e as inquietudes emergentes da realidade vivida, é o que instava a me reencontrar comigo mesmo. Mas a minha estada de cerca dois anos na emigração, incitado pela lonjura e o desaconchego da terra-mãe, doendo silencioso na carne da minha mágoa juvenil, foi que decisivamente contribuiu para despertar do cavalo da palavra em mim oculto. Foi nesta agitação que nasceu o Vinti Xintidu Letradu na Kriolu, o meu primeiro caderno de poemas escrito em caboverdês, a bordo do cargueiro Luise Bornhopffen, cruzando os mares do mundo.

É na língua materna que seguramente aprendi a escrever o que escrevo, e é baseado nela que sei exprimir as emoções mais fortes, vincular as minhas convicções e colocar as pedras nas torres que construo, tanto na música como na poesia, sendo puramente em cabvoverdiano que se afina e se afirma o fio tecedor das mensagens, mesmo quando me transporto para a escrita em português. Ao escrever na língua nativa, faço-o convicto de que é baseado nos seus recursos, nomeadamente, na sua autonomia, na sua força expressiva e na riqueza da sua larga matriz, que encontro a força e a imaginação suficientes para tornar os fortes intentos em poemas e em música. Que dirão, se porventura perguntar:

- para quê então escrever, se a minha voz não for capaz de transformar em canto a voz silenciosa das pedras mansas da minha ribeira?

- para quê escrever uma palavra sequer senão para deixar na epiderme mole duma folha em branco o entendimento do que é que eu quero dizer quando afirmo que: “puezia é razon pornunxadu y xintidu ta kotuma”, poesia é a razão provocada e o sentir apelado;

- para quê compor numa tonalidade alheia, se as palavras não palpitam e não galgam as afinações com a mesma virtuosidade, sabendo que, baseado no Son di Terra, sinto-as explodir e apagarem-se na boca do Peregrino, meu violão, arrastando para dentro a inquietude dos versos varridos pela tempestade das minhas emoções?

- enfim para quê escrever, se a palavra não recupera o seu poder de intimar e de fazer sentir a ressonância da razão e dos intentos que vertem do meu coração verdiano?

 Um dia, num dos terríveis cercos que a vida me impôs, tranquilo desenlacei-me e deduzi, sem o auxílio de ninguém, que não era e nem foi preciso inspirar-me na coragem alheia para me valer da minha. Radicado no meu taganxu é que me livrei do vulgar, para fazer, para cantar e escrever o que escrevo. Aprendi, com o silêncio das pedras mansas da minha ribeira, que nem toda a água vai parar ao mar e que não é todos os dias que as palavras são claras e afagadoras da vida, e que nem sempre ela nos limpa o tino ou nos destapa os olhos, mesmo dita na sua forma mais bela e crua, porque nem sempre ela é via certa para atingirmos o lado preferido. Diante de uma palavrinha, às vezes, não passamos de uma pitada de cinza numa tulha de grãos. Impotentes, sentimos desmoronar os motivos e os sentidos.

Pois, com as pedras mansas da minha ribeira, aprendi a dizer que: cortar no cotôco não dá toco, nem pau, nem varapau. Ou então: a questão reside no saber explorar o meão do sal e do açúcar para se achar o ainda não achado. Eis a leira dos fios com que teço a esteira onde durmo os claros da minh’alma.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

RAPIZIUS


EXERCITANDO DECLIVES

O EXILADO DE AZÁGUA

Segundo a crença popular Baga-Baga consegue mergulhar nos sete palmos debaixo da terra para devorar finados, sendo este bicho simpático tipo formigão que vive exilado em tocas que só sai pressentindo o tempo de azágua, grande inquilinos das ilha.

Alguns afirmam que o bicho foi trazido da guiné com a importação de madeira, quiçá, nas raízes das plantas vindas do continente africano. Com a chegada desses seres às ilhas, ocorreram transformações, delineando novos rumos para a sua vida e mesmo para a sua saúde, ganhando o nome de Baga-Baga.

O seu desaparecimento é uma espécie de exilio de azágua, e começa a aparecer em finais de Julho, experimentando deslocações, para, se calhar, arranjar comida ou procurar outros abrigos longe da invasão da água. Para a tradição é uma fase de mudança do tempo. É a instalação da azágua, o mesmo que dizer período de sementeira, provação que todos os anos alimenta a esperança dos camponeses.

Aparição de Baga-Baga é chuva próxima; dizia meu avô. Em criança, na Vila de Assomada, assistíamos a deslocação destes seres em enormes grupos para sítios diversos. Na praça central da vila saíam dos canteiros e das rachas do cimentado, vagueando o dia todo, escondendo-se à noitinha. Amáveis e humildes, mas inteligentes e ferozes se atacados. Certa vez uma Baga-Baga curiosa entrou nos calções de um menino sentado na borda do canteiro. Sentindo-se ela pressionada, ferrou dentada justamente no pirilau do garoto. Os gritos do menino puseram os colegas em pânico. Enfim, todos seguiram por caminhos diferentes, mas tiveram que regressar ao local para socorrer o miúdo que se despira completamente.

Eles acreditaram que era coisa do sujo e levaram a vítima para a igreja, mesmo à frente da praça, e ali botaram água benta na cabeça do menino, enquanto o veneno da Baga-Baga actuava no corpinho dele. Instantes depois o bibichinho da vítima avolumou-se de tal ordem, assemelhando a uma bola de rugby em miniatura. Levado para a Farmácia o enfermeiro de serviço aplicou-lhe o antídoto que resultou minutos depois. Da mesma forma, acreditava-se que esfregar Baga-Baga no seio de rapariga, ainda na puberdade, fazia aparecer grandes seios e dava mulher depressa. Saía o menino curado da Farmácia, dava entrada uma menina picada no seio por este ser amável e humilde, exilado de azágua.             

terça-feira, 14 de julho de 2015

RAPIZIUS



EXERCITADO DECLIVES
 
.... da noveleta Olho da Rua Cap. Quinto
 
Ponta Lancha tinha perdido a calma no dia em que o menino tinha levado do pai pontapé no traseiro, embicando-o duas vezes antes de alcançar o outro lado da ruazinha de terra batida, ficando ali instantes abaixado a berrar, incomodado apenas os cães vizinhos que latiam não se sabia em que direcção. Exaurido, Pincel, atirou o boné contra a parede, umas tantas vezes, sem ninguém ligar o que vinha dizendo. Endividado, sem trabalho, encalhado seco-russo, pior que Pedra Bica estava ele. Estava absolutamente sozinho. O olho da rua é que dava melhor com a posição em que se ele encontrava. Não devia fazer aquilo, mas fez. Que esperar de uma criatura que não tinha quatro patas, orelhonas não, que trocou o trabalho certo por vida de porcaria, situação que não valia a pena classificar para não cansar os advérbios à toa! Que fazer de um homem que se transformou numa trouxa errante, em fantasma do olho da rua e de nunca ter deixado de beber! Tinha profissão, tinha trabalho, tinha casa, tinha mulher e filho. Então! Atormentado de quê? Era pintor e ganhava para viver. Mas os pintores tinham essa coisa de irem tirar o cheiro de tinta da garganta nas tabernas, acto típico virado vício que levava alguns deles a ficar com a vida desgastada e desgraçada de vez. Quando ele saía do trabalho era necessário pedir-lhe até a garganta secar que fosse para casa, que voltasse para junto da família. Mas não ouvia. Enquanto não tropeçasse na armação do olho da rua, caminho de casa não era com ele. Nem rebocador de alto mar o movia dos inevitáveis encalhes naquela estrutura de tábuas de caixote feito balcão, bêbado de viciados, cheirando a infortúnio e sepulcrário do salário de um dia de labor bem tirado.