terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Rapizius - Ananita

     
                                                                   
                                                                    ANANITA


Sentada na borda do canteiro comprido que servia de divisória da rua, Ananita segurava na mão direita a caixa de fósforo. Queria tanto fumar. Tinha horas que ela não via a cor do fumo de um cigarro. Levantou-se e pediu um ao homem que saía do café, mesmo em frente. Ia suplicar, justo no momento em que o homem recuava uns passos para agradá-la. Pediu-lhe um pau de fósforo, mas o homem tinha isqueiro. Agradeceu na mesma. Começou a maldizer sem olhar a quem. Pois não aguentava ficar calada. Mas antes que ela pudesse falar outra vez viu o toco de cigarro atirado por alguém, fumado acima da metade. Apanhou e acendeu o dela. Ananita vivia da bondade das pessoas. Escolheu ficar nesta parte do bairro desde o dia em que descobriu o café - livraria e a loja de frutas, sítio frequentado, onde podia abordar pessoas e obter auxílios. Ficava durante o dia e ausentava-se ao escurecer. Um dia convidei-a para um café. Sentiu-se bem e encorajada. Achava-se artista. Por acaso tinha jeito para arrumar palavras com alguma rima. Enquanto recitava, gesticulava como mandava as regras do rap. Eu estava a fim de aprender mais da vida com ela. Pelo sim ou pelo não o natural da rua faz falta a uma cidade. Ele ocupa a parte em que vida opera pelo avesso. Precisa da vida para viver à sua maneira. Nunca o contrário. Que seria de uma urbe só com gente saciada e emancipada? Que sentido teria a própria liberdade? Se desdém fosse rio teria como origem abastança. Não ter mata-bicho não é condição para se ser menos digno. Com dezasseis anos de idade levaram-me para uma barraca, dois homens, cada um de um lado, seguravam minhas pernas abertas, o outro abusava-me. Alternavam-se. Emprenhei sem saber de qual deles. A vida tinha perdido sentido. Os nove meses pareceram uma eternidade. Desmaiava todos os dias. Ficava sem força para nada. Tinha findado o internamento hospitalar. Não tinha onde ficar, para me safar esbofeteei o polícia de serviço. Fui detida. Passei uma semana na esquadra. Ali tinha tudo. No dia em que me entregaram a trouxa com minhas coisas senti-me desconsolada. Estava em dias de ter o menino e tinha vontade de entrar na maternidade. Decidi ficar na sala de espera do banco de urgência. As pessoas olhavam por mim, davam-me de comer. Dei entrada na maternidade. Estava ansiosa, mas temia o futuro do meu filho. Após o parto disseram-me que o anjo nasceu com a corda enrolada no pescoço e não se salvou. Vi ele, mas sem sinal de vida. Senti que ia morrer também, mas Santa Ana das Paridas socorreu-me. Larguei o corpo e meti-me na bebida, no fumo e droga leve. Assim como entrei, deixei tudo, sozinha. Podia estar a trabalhar, mas não confiam em mim. Mas, uma coisa, nunca dei meu corpo a mais ninguém. Não sei porquê te contei minha vida. Quantos capítulos têm um livro? Tenho trinta anos, se cada dia for um, faz as contas. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Rapizius A Janela e o Rosto


                                                                    A JANELA E O ROSTO

No Tê Três, segundo esquerdo, á Rua do Poeta, ao pé da Esplanada o Cometa, mora a janela que dá para o fresco pátio, que não é bem-dotado, mas agrada. Assentos, canteiros e árvores de adorno fora o planeado. Porém, o raro verde das acácias rubras contrasta o cinza do empedramento. Não há no mundo inteiro canteiros onde as pedras floram para as janelas. Só no pátio. Só ali as pedras florescem e frutificam. O que diariamente fazem os pombos bicando o chão? E a janela que do alto assiste a paisagem? Era sexta-feira à noite. A aba da lua já havia aparecido quando a janela se abriu e foi suavemente abordada pelo trinar dos grilos. Inclinou-se. Demorou até se dar conta de onde ela estava e do que tinha programado fazer nessa noite de mais um dia a afinar o texto. Buscava o esboço dos três últimos versos. À esquerda o Dicionário, o bloco de notas e esferográfica à direita e ao centro a tela do computador. Ao fixar, instintivamente, os olhos no branco da parede, uma mistura de contrastes fascinantes desafiou-lhe a descobrir, a explorar, a ir em frente, pouco a pouco os traços vinham como flashes de uma peça em que ela era o fingidor, o personagem gentil e ao mesmo tempo autoritário, educado e ao mesmo tempo impaciente.
Eram duas horas da madrugada de sábado quando um rosto apareceu na parede do quarto branco, justamente onde a lâmpada de leitura enfraquece a luz, mas perceptível. Levou um bocado de tempo a olharem-se. Na verdade era um momento de cordialidade. Ambos não queriam desapegar do ambiente que criavam. Pareciam rostos numa varanda à luz de velas, ao fundo a lua e as estrelas como testemunhas, e abaixo, o panorama do pátio, o trinar de grilos a aprofundar o silêncio, realmente uma ocasião romântica. Ela sentia-se feliz pelo momento de mais um encontro tão maravilhoso entre duas vidas reveladoras de sentires, como dois pontos provindos da mesma fonte. Não quis desapegar-se dali, a menos que o rosto ocultasse por vontade própria. A essa altura, este já fazia carícias ousadas, enfiando disfarçadamente a mão pelo vidro abaixo. Provavelmente pelo efeito da magia daquela noite enluarada ou pelo efeito do escancarar da janela, que não oferecia nenhuma resistência, apesar de ser o primeiro encontro entre ambos. Sair de lá bruscamente não era atitude certa, pensou. Continuar, estava a provocar o que não queria que acontecesse, unirem-se. Encantado, o rosto andou por mais alguns segundos a procurar os interiores dela. Mas lá havia apenas noite, pirilampos de faróis acesos a bailar e os grilos a pastorearem estrelas. Receosos, ambos, piscaram o olho. Antes de se ocultar o rosto franziu a cara, depois, ocultou-se, e, então o lugar ficou como estava no início e o texto por consumar. A lua tinha transitado para o lado inverso e a raridade da luz tornava apurpurada a copa das árvores, enquanto a janela do quarto branco, desalumiada, adormeceu por detrás da cortina de seda.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia



                                                               DOIS POEMAS AO MEU CÃO

10
chega e diz:
bom dia, dono
digo: - olá vírgula
de dia come e dorme
de noite anda pela casa
escuta e obedece as ordens
só se deita em cima da toalha
sabe dos batons e do mau cheiro
topa conversas e o mínimo barulho
conhece bem os seus inimigos
aborrece e resmunga coisas
pensa e sente saudades
é amigo de confiança
vale mais um bicho
que amigo lixo
é tão lúcido
o virgula.

11
virgula!
quatro patas 
pararam no ponto final
quatro-olhos
na interjeição.
dois pontos
e vírgula no olhar
reticências na cauda
interrogação no focinho
vírgula e dono
ponto parágrafo.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - BATOM NA ALMOFADA



                                                                BATOM NA ALMOFADA


Com o saco do violão a tiracolo desci do carro à porta da casa. As lâmpadas de iluminação pública, da rua, estavam apagadas, apenas luzes interiores dos estabelecimentos vizinhos iluminavam o largo. Não havia escuro, mas era quase impossível identificar à primeira vista qualquer pessoa que cruzasse comigo a essa hora da noite. Os cães que habitam a zona estavam nos seus postos de vigilância como se fossem escutas enviadas por algum comando. A cadela preta veio ao meu encontro enquanto metia as chaves no nariz da portaria de entrada. À guisa de senha falei com ela. Agradecida, afastou-se e parou debaixo do poste, encolhida ao estilo lagarto. Entrementes, vindo não sabe de onde, um sujeito mal-encarado atirou a atenção dos guardiães da zona que ladravam em várias direcções em defesa do território de guarda. Fazem-no com razão, primeiro, para corresponder ao tratamento que lhes damos, comida, água e atenção, segundo, porque eles bem conhecem a couve da sua horta. Não era muito tarde. Faltava para as duas da manhã. Repeti o ritual: água fresca na caneca inox; olhar o céu estrelado da janela; dar tempo para o sono fechar a noite. Acomodei-me no Queen, no lugar de sempre. Em pouquíssimos minutos adormeci. De repente um beco húmido e mal-iluminado a uma distância de uns dez a doze passos aproximava-se de mim. Não havia trânsito. O silêncio era sepulcral. Surgiu um vulto atrás de mim. Olhei á minha volta. Ele seguia-me. Aproximou-se, tomou-me nos braços, logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente. Entrámos os dois numa sala pequena e enfumaçada, no centro, via-se uma mesinha cheia de pequenos objectos pessoais. Dali fomos para o quarto de dormir. O vulto não hesitou em me despir e de me colocar na cama protegida por uma belíssima colcha de seda bordada de imagens irreconhecíveis, porém, quando ele se colocou à minha frente não houve outro remédio senão embrulharmo-nos cegamente um no outro, contorcendo-nos como meadas de algodão na meia-luz que tornavam as paredes mais distantes do que estavam na realidade. Arrojadas, as nossas mãos navegavam na superfície morna dos desejos como germe em busca do rociado. Aconteceu o que tinha de acontecer. O sonho entrou numa sonolência brutal. Nem silêncio na tumba do faraó. Mais escuro do que a noite era o caminho do regresso á vida. Assim que o cansaço cedeu lugar ao alívio alcancei uma rua onde latiam cães. O guarda mandou-me parar. Não obedeci. Desatei a correr. Meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher: Linda! Linda! Consegui escapar.  Enraivecida e sob espanto a mulher veio lá de dentro, acordada daquela maneira a essa hora da noite. As luzes estavam acesas, inclusive a do quarto. Ao aproximarmos da cama, na fronha do travesseiro do meu lado, o batom vermelho, sinalava, vivamente, a presença duma outra mulher. Amedrontado pelo ocorrido, enrolei-me nela, pedindo socorro, incrédula, a mulher não quis saber de explicação nenhuma. Que havia eu de dizer do batom na almofada?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Falar por Falar



Não era assim noutros tempos. Mas virou, assim. O caboverdiano fala por falar. Fala por necessidade de manter a boca acesa. É exemplo o crioulo parlamentar que rasteja a língua para falar e deixa por dizer o que devia. Basta escutar uma única vez as discussões no parlamento ou então as comunicações diárias dos governantes. Não trazem nada de novo. Pensam que todos são iguais a eles. Todos não são iguais a eles. Nunca. Então há quem não entende o que o outro diz. Então, não há quem descobre quando se fala por falar. Hoje na nossa terra fala-se e fala-se muito. Fala-se a imitar discursos de outras realidades políticas, sociais, económicas e culturais. Os discursos são discursos de neocolonizados. De lamentos e queixumes. Qual autonomia! Quais reformas! Reformas, sim. De cada vez que renova uma legislatura mudam-se as pessoas, as designações dos ministérios, dos serviços e dos institutos públicos, mudam-se as aparências, enquanto as atitudes, os procedimentos e os comportamentos mantêm-se. A reforma nunca acontece porque aqui na terra qualquer barraca é património. Porque não? A reforma não acontece porque o sistema dá leite para meia dúzia de bezerros. Grande ou pequena, a corrupção é património. Como expurgá-la se virou sabedoria? Se virou um dado adquirido? Se virou forma de manter o circuito de interesses?
 Mas o que, de facto, é património estão às lagartixas, toma vento, toma sol e depois hiberna. Exemplo: o conhecimento, o saber fazer, o saber dizer, o saber estar, saber relacionar e saber comunicar, ter bom nome social e boa conduta não é tido por património, não está agendado. Ao invés, a incúria, a desobediência e o oportunismo tornaram-se prática dos cidadãos refractários, apostados na ostentação, nas inverdades e em doutorice, tudo isso, constituído património da mediocridade, dos que de cada vez que o poder passa para as suas mãos fazem o que sabem, o que herdaram do colégio ideológico a que pertencem, falam por falar, apoderam-se dos andaimes da arrogância e tornam-se vaidosos e cegos pelo poder.
Os políticos que temos são produto de uma terra em festa permanente.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Fogo d'África



FOGO D’AFRICA É PUJANÇA E DECLIVE

Fogo d’ África é um espaço de permanente convívio e música. Todos os fins-de-semana Nhô Nani ao violino e a banda de suporte estão ali à nossa espera. Vir à Praia sem visitar Fogo d’África é o mesmo que perder o bilhete da viagem no aeroporto de partida. Viver na Praia sem frequentar este lugar é desviver. Fogo d’África é pujança e declive. Nho Nani é um músico entusiasta que todos apreciam. Um amigo e moço de bons modos. Empenha-se muito para tirar boa sonoridade com o arco sobre as cordas do seu violino electrónico. Quem escolhe Fogo d’Africa para se divertir tem de ter ouvidos de bronze para aguentar os altos decibéis que as colunas agitam horas seguidas. Mas o ambiente é fabuloso. Há muito calor humano... Diga-se, masculino e feminino. Os pares amarrados pelo ritmo e pela melodia movem-se como se estivessem a viajar no trem da felicidade.
Eram três horas e tal da manhã quando cheguei à casa. Como de costume dirigi-me ao frigorífico buscar água fresca da garrafa de vidro e coloca-la na minha caneca inox. Dali, dou uns passos, fico à janela, tomo uns goles, paro a olhar o céu, a conferir a posição das estrelas e descobrir se não escorrega nenhuma do seu lugar em direcção ao olho de deus. Praia tem mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado visto foi em Assomada. Recentemente foi na ilha Brava, em Senhora do Monte, onde o escuro é amplo com os astros a mostrarem-se, tranquilos e tiritantes. Fascina-me o céu estrelado. Fico a pensar nas luzinhas que não se cansam de cavar o buraco onde moram ficando de fora o rabinho faiscante a abanar, semelhando fuga de feiticeiras levando consigo os recém-nascidos. O ponto luminoso maior era um planeta. Apostei em Marte. Mas a minha vista cansada dava a entender que se deslocava na direcção oposta à janela. De tanto olhar para o alto, tudo parecia ter entrado dentro da minha cabeça. Se sonhava ou se viajava não pude perceber no imediato.

De repente um gesto enigmático pôs-se a meu lado e começou a murmurar aos meus ouvidos: Olá! Saíste muito cedo de lá! Voltei a cara para o lado. Repetiu-se o sussurro: Olá rapaz! Eu queria tanto ficar contigo. O bafo era cigarro e bebida. Bafo de quem tinha bebido instantes atrás, envolvido em cheiro de perfume caro. Madame Dior, talvez. Não tinha certeza. – Que queres de mim?  Perguntei. A voz respondeu: - Vim! Apaixonei-me por ti. Fugi com a cara. - Porra! Eu! Quem és tu! A voz explicou. – Olha, não estou para muita conversa. Vais-me dar o prazer de te tocar e de te beijar. Não tenhas medo de mim. Explicou-me em voz baixa. – Sai! Vai e deixa-me em paz, vagabunda, filha da noite. Senti uns lábios frios a beijar-me o pescoço. Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu corpo ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado, entornando-se o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição, a querer enxergar algum movimento. Mas, vi nada. Permaneci de pé junto à janela. Instantes depois percebi que do chão vinha um cheiro a álcool. Provavelmente, rum, bebida que uso com frequência. Para comprovar a situação, trouxe a caixa de fósforo, acendi o pauzinho, aproximei o lume do derrame, puufffff... um fogo azulado subiu no ar, cheirando a nada. Dai, senti um toque no ombro. Perdeste! Soou um vuuuoooop... como se o vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até o dia de hoje aguardo por um contacto semelhante sem que tal tivesse acontecido. Quando escrevo a altas horas da noite dou por finados machos a me rondar, mas finado fêmea, creio, ter afastado de vez. Segundo a tradição popular finado fêmea é prestimosa ao seu vidente. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia


DOIS SOM NETOS

12
viu o olho da visão e jamais convenceu
o círculo não tinha centro nos seus olhos
nem circulava o redor em seu claro céu
aguava-se no odor da vela e bebia óleos.

perto passeavam seus mirares e sorrisos
abrindo-se e fechando-se dóceis ao dia
viram jamais outros olhos senão os seus
na menina que sob as pálpebras morava.

ali desabaria qualquer raio na sua fronte
a flor que se abriu um dia fora mais rosa
ao sol do jardim do que na boca da jarra

era menos no vaso a flor que no caule
onde mariposas alavam-se apaixonadas
a sonhar com os sentidos excitados

13
olfa tinha na rua das suas pregas
segredos que adoravam a sua idade
bebia e fumava e depois seduzia-se
nas silhuetas do fôlego que expelia.

do seu amor-próprio caíam desejos
rolando bolas de vapor sedentos
que curiosas abriam as vontades    
ardentes e doentias seus sentires.

caiu o véu e o dedo vagou o interior
húmido a sentir não o cheiro do puro
mas do vício preso nas ruas do olfacto.

na montra as narinas espiavam o dia
farejando curiosas o odor andante 
a sonhar com os sentidos excitados.


sábado, 21 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Picos, Um Altar Garboso



            PICOS, UM ALTAR GARBOSO

No coração da Ilha de Santiago, para lá da Cruz dos Picos, estende-se o rugoso território do município e freguesia de São Salvador do Mundo, em cerca de trinta e um quilómetros quadrados, tendo por centro Achada Igreja, sede municipal, contornado por bonitos regatos e ribeiras cujas águas pluviais correm veloz para as várzeas de Santa Cruz, município vizinho. O concelho é marcado pelo rochedo Nguli Lança que se transfigura em cavaleiro, perfil basáltico natural que atrai a atenção dos visitantes, símbolo desafiador que cunha de forma ímpar a paisagem desta região ante a altivez do Pico de António, por isso mesmo, Picos, eira de uma identidade própria que vincou nos naturais uma forma peculiar de ser e de estar, Picos – Achada Igreja – terra de boa gente, de bons costume, honrada e trabalhadora, de gente que goza de muito prestígio, atributo herdado do passado que a iliba de ser pedinchão. É na mítica ribeira dos Leitõezinhos que viviam as gigantescas e centenárias árvores o Tamarindeiro e o Poilão motivo de muitos comentários.
A igreja de Nhô São Salvador do Mundo, santo padroeiro da freguesia, ergue-se no centro da Vila de Achada Igreja, monumento apreciado de diversos pontos da estrada nacional que liga o concelho às cidades de Assomada e da Praia. O dia deste Santo é, desde sempre, tido como a maior festa religiosa de Santiago, celebração que congregava participantes de diferentes pontos da Ilha, para pagar promessas, ofertando géneros, aves e pequenos animais, de seguida leiloados pela paróquia. As festas eram uma espécie de romagem aos ritos e às tradições antigas, em que o colorido das vestimentas davam cor e tom ao paisagístico, a música, a gastronomia, o prazer e os galanteios enchiam as pessoas de ânimo, amalgamadas, gozavam a vida abençoada pelo Salvador de todos. A música de salão era produzida pelos instrumentos de corda e clarinete comandada por Cesáreo Boca ou Manuel Clarinete, enquanto nas tabernas e barracas improvisadas era o baile nacional (baile popular) por conta dos tocadores de gaita e ferrinho que, ao ar livre, celebravam na sabura, sem embaraços, a vida vivida.
A vizinha Achada Leitão, belo aldeamento, era terra de Nhô Djonsinho Cabral, grande mestre de serralharia, sabedor famoso dentro e fora da freguesia, importante proprietário de terras, dono de conhecimentos técnicos, principal criador da célebre oficina de Txada Liton, lugar onde se reparava utensílios domésticos e de lavoura, peças de carro, onde se armava tachos e alambiques e se fundia peças de trapiches, se fazia e se reparava armas de fogo, serviços prestados a pessoas de todos os quadrantes da sociedade santiaguense da época, além de ser autêntica escola de artes e ofícios, onde se aprendia a conhecer o teor dos metais, a lidar com a forja, fundição e serralharia, disciplinas obrigatórias para os aprendizes, oficina, também, onde se fabricavam ferramentas e apetrechos para servir os pequenos ofícios, tais como, pesos, medidas, facas, maxins, enxadas, funis, tachos, cunhas, alavancas, martelos de pedreiro, colheres de cal, picaretas, ponteiros, dobradiças, etc.
As chuvas abundantes de outrora e os bons resultados agrícolas conferiam vida desafogada aos salvadorenses que raramente deixavam as suas ribeiras para viverem noutros lugares. No entanto, as mudanças causadas pela carência das águas alteraram um pouco a vida e a fisionomia da região, obrigando alguns à dispersão, mesmo assim, os que ficaram jamais abstiveram-se de lutar pela construção de um futuro melhor para si e para os seus filhos. A penúria de água, o êxodo para as cidades, a emigração, afectaram bastante a vida económica e social do concelho, com impacto nos festejos que se afastaram dos costumes e hábitos antigos, passando a ser oficiosos ou oficiais, programados de acordo com proveitos políticos dos poderes instituídos.  
  Os tempos mudaram e com eles a realidade também. Os festejos são outros porque as pessoas, os hábitos e os costumes, também, viram outros, apesar disso, as celebrações de Nhô São Salvador do Mundo, também, Dia do Município, continuaram muito participadas, com outros conteúdos é claro, destacando-se, além da parte religiosa, programação diversa, desporto, recreação, festival musical, exposição de artesanato, antiguidades, restauração, que se encaradas com realismo e exploradas com inteligência valorizam a cultura e o bom nome do concelho, sendo a civilidade, a singularidade do paisagístico mais-valias que fazem do concelho um destino turístico indiscutível. Picos - Achada Igreja é um altar garboso.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poema ao Dia dos Heróis da Patria



de rosto inclinado para o sueste

de rosto inclinado para o sueste é o busto
do combatente da liberdade da pátria
de feitos foscados pelo castanho saheliano
de corpo e braços avulsos ao vento
de poemas e líricos acantonados
de sangue da morte pela liberdade
exilado pelo triunfo da democracia 
de látego anilado arvorado símbolo
doação informal de raso litígio
de sortilégio e demagogia
do grogue virado vinho
de ti manel virado man bia
ante o destilador tranquilo da história
ante os heróis da luta
ante o povo herdeiro do sol suor verde
e o mar da parição da una liberdade
da grande liberdade que ainda navega
e canta a cor da espiga primeira
o peso do grito levanta o braço
e dança o júbilo de julho
na tropicalizante alegria de viver
e de morrer na pátria das flores da nação
que a luta de séculos fecundou.


RAPIZIUS - Santo Antão Ilha Maiúscula



                          SANTO ANTÃO, ILHA MAIÚSCULA

Foram quatro dias a conhecer os três belos concelhos da Ilha de Santo Antão e a desfrutar da franqueza e espirito acolhedor das gentes, na maior parte camponeses a reivindicar melhores condições de vida e de renda, mas também a juventude e as mulheres membros das associações comunitárias, idosos, professores, funcionários e empresários agrícolas, colocando questões, propondo alternativas, que requeriam muitos recursos financeiros e materiais.  
Santo Antão é uma ilha que pode prosperar depressa. Tem gente capaz, tem atracção, tem grandeza territorial, tem infra-estruturas e tem o que não existe em lado algum: gente que inventa vida sobre a pedra. Nas suas destacadas ribeiras o fumo vertical dos trapiches ladeado pelo colorido claro do bagaço da cana sacarina é um símbolo que faz da ilha Santo Milagreiro. Precisa é de autoridades competentes, de convergência de interesses e organização das energias em torno de causas comuns. Acredito que Ponta do Sol, Povoação e Paul sim que ligados pela estrada do norte origina nova configuração nas relações comerciais, ajudando a comunicação e as transacções, impulsos que mudarão para melhor a vida dos santantonenses, a começar pelo encurtamento das distâncias entre as sedes administrativas, entre os polos populacionais, o interior produtivo e o porto de vazão de mercadorias e de passageiros, favorecendo o aumento de visitantes, gerando iniciativas, criando conforto e segurança, além de conferir aos concelhos e à ilha maior importância, mais nome e mais imagem dentro e fora do arquipélago. Santo Antão é ilha, onde, com sabedoria, a tradição e a modernidade se rematam sem que uma seja vítima da outra.
O convívio com as serranias, os penhascos, os altos das penedias, as ribeiras, com os vales, os sítios, as localidades, o paisagístico, sobretudo com a generosidade duma gente laboriosa, acrescido dos muitos quilómetros de levadas coladas às íngremes ribanceiras, dos milhares de metros cúbicos de murados tecidos à mão pelos varões da enxada reinventando o chão molhado, os caminhos vicinais por passagens intrincadas, a lufa-lufa diária dos obreiros e das mulheres carregadeiras de feixes de cana, a caminhada dos meninos de escola e as alimárias de carreto, fazem com que a vida da ilha seja autentica epopeia e demonstração exacta daquilo que o homem ilhéu é capaz de realizar enquanto construtor e dono exclusivo do seu mundo. Foi, sem dúvidas, uma grande jornada de estágio, de compreensão do todo nacional, pelo que em jeito de conclusão, diria que a fecunda diversidade das ilhas e da sua cultura tornam-nos maiores, bem maiores do que supomos.  
Às residenciais, aos restaurantes, aos acompanhantes, aos excelentes motoristas, aos músicos, ao amigo anónimo o meu reconhecimento. Um abraço amigo ao Homero Fonseca. À mãezinha Isabel Jardim em Ribeiras das Patas um beijo de amor e carinho, aos amigos e amigas de Lagedos, aos professores, às cozinheiras a minha admiração e respeito, às mulheres de “Môtxe” o meu apreço pela frontalidade das palavras e pela amizade. A todos meus agradecimentos. Espero que as reivindicações pelo abastecimento de água potável, melhor estrada e electrificação, mais emprego sejam atendidas a breve trecho. Ao Ruizinho, à Natalina, à jovem Ondina e as senhoras de Cruzinha a minha sincera gratidão e respeito. Obrigado a todos pela atenção e pela amizade. Santo Antão é uma Ilha Maiúscula.