quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Poemas do Litoral



ESPELHO D'ÁGUA EM ARCOS DE PEDRA
Dois retractos do antigo Dezembro à janela do presente mirando o desmoronar do tecido verde das ilhas.

1.
no telhado do céu 
vapores sintéticos 
entrelaçam 
cores suspensas 
corpúsculos 
traços simétricos 
assim é o arco-íris

2.
quando a nuvem ganha 
o corpo da ilha 
rola a gota 
roda o chão 
a raiz ganha a cor do sol 
bebe e canta a manhã
fresca e limpa 
no mostruário da terra

 
quando o corpúsculo dança 
o corpo da cova 
roda a mão 
rola o grão 
a seiva ganha a cor da flor 
canta e veste a manhã 
fresca e linda 
no estuário da espera

Poemas do Litoral



                                                   Uma leitura nas entrelinhas do sagrado


ao topo
do mundo as águas um dia subiram
por cento e cinquenta noites  
no fundo
os banidos pela ira de deus caíram
por todo eterno tempo   
ao alto
divos lampejos no conúbio de Noé
por dó doou-lhe o (i)mundo       

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Os Do Litoral




RAPIZIUS

Um amigo quis que eu explicasse quem eram os escritores e poetas do Litoral. 
Sim, EXPLICO, a ideia. Poetas e escritores do litoral são todos os da Associação dos Escritores e os do limbo com produção literária publicada ou não, os que a têm na gaveta, que não são tidos nem achados. 
Do Litoral são os que vivem a escrita que criaram para o seu mundo de fantasias sem se preocupar com os cânones estabelecidos pelo stablishement de avaliação e de propaganda dos considerados do rating da linguagem sofisticada, muita vez rebuscada, como sendo os melhores e enriquecedores das estantes e das bancas de acesso aos que sabem deduzir melhor que outras almas, sobre o que é bom, o que vale e o que é pobre, sobretudo, o que agrada e desagrada à critica e ás editoras de primeira linha.
 Contrariamente, os do Litoral escrevem para acordar o boi e a manada, escrevem para contrariar a lei de Salomão e a Tábua de Moisés, escrevem para serem eles próprios em que circunstancias forem, escrevem porque são tidos na glória do litoral onde bebem do amargo da chaluteira e do doce do humor crioulo .... o chá do Tchá Cagá. 
Saravá os poetas e os escritores do Litoral.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Floris d'Ibyago



AFINAÇÕES - Finata EmSi - In Floris d'Ibyago em construção.
(.......)

não amo o que dever ser amado por todos
amo a vaidade do silêncio e seus mistérios 
amo a loucura e o delírio dos movimentos 
amo o itinerário das nuvens e das águas 
amo a prestidigitação do trono d’Ibyago 
aborrece-me e enfada a paz que tanto trai
amo o vasto jardim suspenso no longe Ibyago
flor estranha que escreve música aos astros
flor distinta que fura sentido ao intangível
flor distinta sem alma e sem trilhos no íntimo
flor divinal que aflora tragédias e magias
flor sem virtudes sem cemitérios nem palácios
flor que frui imagos carregados do longínquo
amo a flor sóbria incolor da cor da flor d’Ibyago
flor vagabunda que dessabe o jardim do Éden
flor que floreja e desenflora relâmpagos e trovões
flor de inferno no pólen e paraíso nas raízes
flor do meu grado que um dia nomeei de Ibyago
ai! Tártaro florido! ai báratros! ai infinidade
se eu pudesse explodir a ira que em mim trago
reduziria o mundo malvado em nano-partícula

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Cores do Fim



Cores do Fim

No dorso dos dias construi a coragem
com raios de sol escrevi minha viagem
pelos caminhos vicinais da vida.

Na mata do tempo vivido volitam afectos
e aflições que meus passos perseguiram.

Nos trastos do peregrino jazem emoções
e sonâncias que meus dedos arpejaram.

Na cadeira de rei de olhar fixo no dentro
sinto a chama dos anos apagar na cinza    

de meus cabelos brancos - cores do fim.    

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Antologia de poemas em DiVersos


Acabo de receber da DiVersos o livro - Poesia e Tradução - Dez Poetas de Cabo Verde - contendo poemas em língua portuguesa, mas também poemas traduzidos de outras línguas, nomeadamente, cabo-verdiano e francês.
Os organizadores da obra escolheram para esta edição poemas de autores cabo-verdianos, como sendo António de Nevada, Filinto Elísio, João Vario, Jorge Carlos Fonseca José Luis Hopfer Almada, José Luiz Tavares, Kaká Barboza, Mario Fonseca, Mário Lucio e Vasco Martins, como se diz na advertência: ao fim de vinte anos, a DiVersos consagra pela primeira vez um número inteiro a uma só leitura, a poetas de uma só ou principal pertença geográfica e histórica - mas não de uma só língua.
Sinto-me muito honrado em ter sido convidado a pertencer a esta plêiade de autores com poemas meus inéditos e outros traduzidos do livro Konfisson na Finata, tradução que me agradou bastante por se aproximar bastante dos originais em crioulo. Por outro lado, a apresentação da obra agrada pelo aspecto gráfico e exposição dos conteúdos poéticos, bem como a biografia explícita de cada um dos integrantes da obra.
É encorajador saber que lá longe haja quem, neste caso o amigo Rui Guilherme Silva, esteja atento a o que os poetas do litoral, como é o meu caso, produzem por estas bandas, cumprindo a sua vocação de escrever e de continuar a escrever sempre.
Fico muito agradecido pela oportunidade e pela confiança em mim depositada.

Escrevo... porque, SIM! Obgdo.

sábado, 11 de novembro de 2017

Poema O Itinerário do Fim



O Itinerário do Fim

o apagamento já ondula
vem com os anos e anda lentamente
trepa na pele e abeira-se do coração
vem para tornar leve os olhos cansados
vem com o sol e desce com as estrelas
para o alívio do pastor e suas crenças
ancoradas na varanda da vida

o apagamento já flutua
vem de forma imprevista mas sentida
nos acordes dissono do peregrino
que guarda a vida vivida os amantes
as cores da alvorada e as serenatas

o apagamento já circula por inteiro
para levar o corpo e salvar a poeira
da excitada fogueira que mata a morte
e deixa ficar na pauta a irrequieta voz
sem súplicas e nem pedidos de perdão

o itinerário do fim em vista é mesmo aqui
na escrivaninha guardiã das madrugadas
de insónia dos solfejos da Osga Rosa
e o que me defrauda e me entusiasma

Poemas do Litoral

ESPELHO D'ÁGUA EM ARCOS DE PEDRA Dois retractos do antigo Dezembro à janela do presente mirando o desmoronar do tecido verde das ...