quarta-feira, 18 de maio de 2016

RAPIZIUS



Não sou homem de extravagâncias. Andei 30 anos a ensaiar e a tentar construir a árvore necessária para o poiso daquilo que vislumbro ser o produto evolutivo do que chamo Som di Terra.
Não devemos ter medo do moderno que decorre do pensar reflexivo sobre as bases do passado. O presente é todo nosso e ninguém nos tira isso.
Com estudo, tratamento adequado e acrescentos úteis vimos construindo a nossa viagem segura do futuro da nossa música.
Não haverá desregramentos, mas sim continuidade e respeito á memória e às heranças de que sou um fiel depositário.
Afinal a música é uma espécie de literatura desenhada com alma cujos acordes num braço de pau e com a ajuda da caixa-de-ressonância narra a estrada das emoções que a nossa vida interior reproduz.
Sou a ponte sobre novas águas, mas de novos destinos conforme o relógio do tempo e a geografia da vida nos nortear.
Ser fiel às raízes é demasiado duro, mas ser leal é o que prefiro ser hoje, amanhã e sempre. Um abraço.


sábado, 14 de maio de 2016

DESCANTES DA MINHA RIBEIRA - CONTOS - LIVRO PARA BREVE

                  
             NOTA DO AUTOR
As estórias que fazem parte desta colectânea são casos captados ao sabor das minhas andanças pelos caminhos vicinais da vida, são estampas das ribeiras da minha ilha – Santiago – onde as crenças, os mitos, os hábitos, os costumes e o incógnito da terra longe são motores que incitam a ousadia do ser ilhéu a romper os limites do seu chão de origem, são, por assim dizer, a conjugação do quotidiano e a ficção crioula, transvertida numa espécie de cantada, acto que acontecia ao amanhecer, à porta dos noivos, enquanto estavam ainda na cama, protagonizado por um pequeno grupo formado pelos padrinhos e pela cantadeira que logo cedinho iam à porta dos casantes orar com a intenção de também se obter a confirmação de que a noiva era nova (virgem). Para o efeito, entoava-se uma cantilena, para obrigá-los a levantar e vir-lhes abrir a porta. A este cerimonial chamava-se cantada, o mesmo que descantes ou canto recitativo, um ritual herdado das tradições antigas, evidenciando apegos e memórias, crenças e desejos, certezas e incertezas, atalhos e etapas, celebrado numa forma de contar, visando estimular nos mais novos o gosto pela leitura. 
Descantes da Minha Ribeira é oratória e cântico.
Carlos Alberto Barbosa (Kaká Barboza)


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Curiosidades da CvLandia


Os integrantes das Forças Armadas, o Exército, são por certo os que mais falam em servir a Pátria. Refiro-me aos momentos celebrativos e juramentos à Bandeira pelos soldados dados como prontos ( prontos a servir a Pátria).
A partir dali a Pátria de que se fala evai-se como fumo.
A palavra Pátria não toma assento nos discursos dos governos, dos políticos, dos parlamentares, dos universitários, dos comunicadores (Radio e Televisão) dos estabelecimentos de ensino, nem nas cidades, aldeias, achadas e fajãs das ilhas.
Digo isso, porque, ontem, nas cerimonias fúnebres dos soldados que encontraram a morte na Caserna do Monte Txota, o Chefe de Estado e Comandante Supremo das Forças Armadas invocou timidamente a palavra " Pátria " cujo sentido ficou diluído no que são as funções do estado e da governação. Pudera.
Se os combatentes da liberdade da Pátria são tidos por peças decorativas num cantinho da história sem repercussão social;
Se os símbolos nacionais, bandeira, hino e armas da república não são portadores de referencias patrióticas;
Se os livros escolares, se o ensino, se a formação académica, se a comunicação social não invocam e nem promovem o espírito patriótico;
O que esperar duma sociedade e de um povo que tem por pátria a sua barriga, a bazofaria e o sonho à evasão?


RAPIZIUS

Fui tomar aquela coisa das sextas-feiras no Nho Eugénio. Numa mesinha de duas cedeiras uma era ocupada por José Maria Neves. Tinha á frente a chávena de café, quer dizer, café tomado.
Cumprimentei-lhe e convidou-me a ficar. De seguida, chegou Eurico Pinto Monteiro que se juntou a nós. Três primos duma sentada na prestigiada Livraria Nho Eugénio. Zé Maria estava bem disposto. Calmamente, disse, apenas isto: "passei na maior tranquilidade tudo o que devia ser passado ao novo Primeiro Ministro".
Assim é que é quando se é um homem de estado: - Disse para ele.
Falamos da necessidade de férias e do distanciamento da política por algum tempo. Ele, Zé Maria, é um dos mentores da Academia Caboverdiana de Letras. Foi ele quem autorizou a cedência do prédio onde é a sede da ACL e quem a inaugurou. Tem lá o seu lugar de académico.
Em conversa exortei-o a escrever. A escrever, sobretudo, poesia para o bem da espiritualidade literária das ilhas. Doravante, ele é um homem livre com opções diversas - formador, académico ou consultor e conferencista.
Deixa marcas em todas as ilhas, marcas da sua governação. Marcou Santiago de forma significativa e duradoura.
Podem dizer tudo quanto quiserem dele. Houve quem disse que se: Narciso estivesse vivo morreria de ciumes. Mas, quem neste mundo não foi narcisista por um segundo. Só os bárbaros não o foram.
Quem acompanhou os discursos do Zé Maria Neves, enquanto primeiro responsável do governo nestes quinze anos, não encontrará, por certo, em momento algum, um conteúdo assistencialista, discurso de coitadeza, de lamento e de resignação. De espirito altruísta ele sempre convidou toda nação a sonhar com ele, a alavancar do alicerce das dificuldades a coragem, a força e o sentido patriótico na realização do progresso.
Muitas vezes acontece os espíritos audazes marcharem muito á frente do calendário civil e do ritmo biológico do seu povo ou da sua comunidade. Não fosse assim, estaríamos a cantar Mar é Morada di Sodadi, Caminho de Santómé e Fomi 47, em pleno 2016, ainda hoje, dia da entrega da governação ao novo Primeiro Ministro - Ulisses Correi e Silva.
Será que o povo entendeu que UCS de estatura física semelhante ao do Zé Maria era quem melhor podia ocupar a cadeira do poder?
Um dia o poeta Mario Fonseca, disse-me: " Olha cuidado com os líderes baixinhos " “eles são como malaguetinha”. “São obstinados e audazes”. UCS é baixinho. É um líder baixinho.
Quero crer, por aquilo que tenho ouvido, UCS poderá vir a ser no horizonte desta legislatura, uma figura marcante, não pelo conteúdo da campanha, momento de grandes emoções e empolganços, mas por aquilo que vai poder fazer e pelo bom encaminhamento dos dossiers uns mais duros que outros.
Cá do Nho Eugénio, onde, quinzenalmente, tomo aquela coisa, espero viver longamente, para um dia, me encontrar com UCS numa mesinha, confirmando-me a sua satisfação em ter cumprido o seu papel como deve ser e ter passado com dignidade a pasta de Primeiro-ministro ao seu sucessor.

Todavia, peço que me entendam, por favor... Ulisses Correia e Silva há um só, a quem dou um palmo de confiança, mas não acredito de modo nenhum no MpD.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

RAPIZIUS

Saí da Livraria Nho Eugénio. Olhei o ecrã do móvel. Eram 11 horas e 15 minutos. Entrei na loja de frutas ao lado para apanhar brócolos e berinjela. À porta esperava-me o vendedor do Jornal Expresso das Ilhas.
- Sr. Barbosa, sei que o senhor não compra jornais, mas o senhor é homem de cultura. Tenho boa coisa para si: - Disse-me em tom alegre.
Parei para ver. Tirou da mochila um livro e disse-me:
- Hoje o Sr. vai levar o jornal tem boas notícias. Olha, jornal e livro pelo preço de 500$00. Boa compra não é! Olha, o livro é de um homem da cultura como o senhor, Chiquinho: - disse-me entusiasmado.
- Olha, meu caro, o livro chama-se Chiquinho e o escritor é Baltasar Lopes. - Expliquei para ele, mostrando a capa do livro.
- Sim, Salazar, aquele que mandava em Portugal. Replicou.
Desatei a rir, enquanto tirava o dinheiro da carteira.

Ele, também, sorridente pediu-me uma moeda para levar uma fruta do expositor logo à nossa frente.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

RAPIZIUS



Da Música, do Vinho e do Desvelo

Não obstante as alterações políticas, sociais, económicas e culturais que varrem as nações do mundo, tocando o individuo e as colectividades, traindo hábitos e costumes, viciando condutas, apoucando tradições, maculando história, anulando vestígios e pertenças civilizacionais dos povos e das nações, apesar de sujeitados e asfixiados pelos poderes calculistas e pelo establishment instalados, um povo que se ufana da sua liberdade, não renuncia á luta e não se entrega por mais que os desajustes ameacem o seu direito ao bem-estar e à uma vida digna.  
Estou em crer que, na nossa terra, havemos de o poder fazer continuadamente, sabendo que o integrante expressivo da nossa cultura, nas suas mais diversas manifestações, especialmente, a música, que significa traço de união entre todos os naturais das ilhas, pela regência dos compositores e músicos, que inteligência, respeito, talento e alma, colocam ao seu serviço, ela, a nossa música, resistirá a modismos, contradirá o supérfluo e fiel às suas raízes se firmará e perdurará no tempo cumprindo o papel essencial como sinal e instrumento marcador da identidade nacional e da destrinça.
Daí, os compositores e os músicos que se respeitam não devem abdicar das suas obrigações, jamais, não devem alienar os primórdios e a posse do povo a que pertencem em troca de nada. Devem, pois, fazer valer a sua capacidade de observação, de avaliação, de síntese e de (re)criação, para mostrar, conduzir e fazer funcionar as suas obras como alavanca para o reforço da unicidade da caboverdianidade dentro e fora do espaço que os envolvem.
Fazendo uma abordagem da obra discográfica de Rui de Bitina, devo começar por realçar o labor dos autores, os verdadeiros donos dos temas que fazem parte dela, para depois opinar sobre a qualidade da obra. Falar de um disco é o mesmo que falar da música. É falar da criação artística. É falar dos autores. É falar dos músicos dele participante, ou seja, do arranjador, dos executantes e do intérprete e demais intervenientes na sua concepção e edição.
Pela garantia e categoria dos compositores inscritos na capa do presente disco depreende-se que o disco é bom, audível e marcador de balizas entre o antes e o agora da vivencia das gentes e cultura das ilhas.  
Assim, foi-nos dado a ouvir e a apreciar o seguinte:
- Rosa Kutelo, de Julio Correia, andamento melódico inspirado em ritmos das festanças populares que o compositor utilizou com saber e perícia exibindo uma mensagem recheada de memória e vivencias.
- Disgraça, de Dany Lobo, Talaia Baxu, tema superado com sapiência e de bela sonoridade, raconto de um facto, próprio da sua ilha, expressão perfeitamente adaptada ao violão caboverdiano.
- Súplica, de Joia, (saudoso músico e compositor) diálogo vindo do fundo da alma, um compor e um apelo de irmão para irmão, uma invocação à terra almejando a alvorada de um novo sonho para a sua ilha.
- Vem a Nós, Daniel Spenser, espelho de um modo de ver e de sentir a coladeira, enxuto, mas rico, onde o balanço rítmico e a palavra acasalam-se lindamente, onde a ironia transita sem síncope conforme a tradição.
- Detu’l Mi, de Mario Lúcio, ritmo funanbá, (estilo criado por Kaká Barboza), aponta o altruísmo, o telurismo e a imagística santiaguesa, não por acaso, mas para significar e representar o estado da alma.
- Doce Momento di Amor, de Antero Simas, morna, percurso melódico colorido do silencio da alva tropical, do navegar no prateado da lua, dos braços da noite nas curvas do violão, do murmúrio do mar e do pasmo das estrelas ante o esvair da serenata.
- Kassubody, de Kaká Barboza, funaná, raconto ficcionado da realidade, de ritmo e melodia alinhados com a denúncia em resultado da observação feita a um facto dos tempos actuais, aviltador da serenidade pública.   
- Nha Docin, Betu, morna, plasma a beleza dum recanto, onde o paisagístico assume o duelo do doce mais que doce, da ilha mais que ilha, de ponto mais que de partida, mas de vértice irradiante de visões e de sonhos.
- Nha Maninha, Antero Simas, coladeira, recados sem ilusão, um exercício anti inércia, texto incisivo, onde a melodia e balanço rítmico convidam à ponderação e tomada de posição.    
- Xinoy, Helder Nha Lúcia, funaná lento, sonoridade que nos convida a respirar fundo, que nos faz viajar pelo encanto do amor proibido, em que o uso de máximas dão magia e solenidade ao canto e á palavra.
 - Rufux Escacarex, Manel d’Novas, morna, ante o esplendor da baia do Porto Grande e a silhueta do Monte Cara, ante os símbolos e as artérias onde corro o sonhado Mindelo, inconformado o texto denuncia o estado débil de um corpo cuja esperança morre à tardinha e renasce ao amanhecer.           
Este é o disco do cantor e músico Rui de Bitina acabado de ser colocado à venda, cuja temática traz consigo marcas e sinais profundos que espelham a alma das ilhas e do individuo enquanto sujeito de um colectivo distinto.
Rui de Bitina é músico e cantor de boa nota. Portador de bela voz e romanceiro de registo, um amante da música que nos convida a palmilhar o moderno campo musical caboverdiano de lés-a-lés. Soube escolher os temas e os compositores, soube respeitar a leitura dos teores, dando-lhes a graça da sua voz e na clareza da dicção. Soube apresentar-se ao palco crítico do auditório, elegendo obras inéditas e as que tiveram eco positivo na percepção dos caboverdianos. Rui de Bitina não é revelação. Ele é cantor, dono do seu espaço, onde todas as noites de sextas e sábados está com os amigos que gostam de o ouvir interpretar e tocar. Uma palavra de enaltecimento ao produtor e aos músicos que emprestaram o seu talento e o seu saber na realização deste belo trabalho discográfico. Este disco terá impacto positivo se o soubermos escutar, ler e compreender os temas aconselhados.

Bem-haja a música nacional. KB

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Raiva e Mágoa



Em louvor à Bíblica Lei - Olho por olho dente por dente

Vinha pleno de temor o solevar da noite
Vinha o colo da flor extasiado de paixão 
Vinha a oculta lâmina trajada de inocência
Vinha o falso gesto lambuzado de sorriso
Vinha o vazio do sentir torcido de ódio  
Vinha o canino marfim feito homicida
Vinha tudo, mesmo tudo salvo a lei de amar.
É do violador engenhoso – Ódio por ódio óbito por óbito
É do sentenciador virtuoso - “Olho por olho dente por dente”

A lei bíblica de todas as alturas e de todos os tempos. 

sábado, 7 de novembro de 2015

POEMAS DE AZAGUA




Esta cor, este vivo do tempo
Que nos enleva – alvoroço da ilha
No palpitar dos rebentos

Esta flor, este hino intenso
Que nos reforça – morouço da vida
No afastar dos lamentos

Este vigor, este valor imenso
Que nos envaidece – salva e jubila
No entenrecer dos ventos

POEMAS DA AZAGUA




Água dando terra noutra terra
água coração de lama
castelos de trovão
nas margens do sequeiro
ontem pesaroso deserto.
Deixou de ser nómada
o chão raiz de sol á flor da pele.
Água trânsito da folhada
música das rochas
página do porvir
doutros cantos
doutros filhos
doutros afazeres
doutros modos
e doutros inícios.
Água textura das nuvens
disfarce das ribeiras
das pedras e dos carrapatos
Água corpo das monções do sul
que viaja a ilha noutra terra
rumo matando sede às pedras.
Água lençol de água pura
gotejos, fontes e poços
Céu invertido dançando o dondágu.
Água disfarce do oásis na face do lavrador.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

RAPIZIUS




O venturoso deputado ventoinha de São Nicolau, consumido pelo sumiço da água na barragem Banca Furada da sua ilha de eleição, assanhado, reivindicou o direito de os caboverdianos saberem do paradeiro da água que devia estar à vista de todos, chamando isso de descalabro. Pediu mais coisas PARA O BEM DA NAÇÃO.
No Dicionário da Língua Portuguesa
A palavra DESCALABRO – significa:
1. Grande dano.
2. Perda, ruína.
3. Desgraça.
4. Derrota.

Haverá ruína pior que um orador inapto?