quarta-feira, 17 de junho de 2015

TERRA DE ABERRAÇÕES

"Qualificação para o CAN2017 não se joga só na Praia
O presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), Victor Osório, garantiu que a seleção vai jogar partidas em outras ilhas do país".

Os bons filhos da nossa terra não fazem mais que sonhar como aumentar as despesas todos os dias numa terra em que se faltar azágua os bons filhos não dão por isso e o governo sai a lamentar aos ouvidos do mundo para salvar o gado que festeja o ano todo.

 Despesas que engordam a dimokransa instalada com Provedor de Justiça, Tribunal Constitucional, Tribunal de Primeira Instancia, Institutos para se Instituir a Instituição etc. Criação de Municípios, Vilas e Cidades, Viagens de Turismo de Estado enfim, terra sustentadora dos bons filhos, onde a divisa nacional é Dipos di Sabi morre á Ka Nada ou K'mê tude cagá dun vex...

sábado, 6 de junho de 2015

Poema de Circunstância


 

Para a presada amiga e Professora Catarina Cardoso,
poetisa em processo adiantado de ser livro.

 

Leio nesta janela, janelas
janelas vidraça de coisas e risos
dos mais sinceros aos mais absurdos
janelas de amizades
janelas de amigos para amigos
repleta de símbolos e sentires.

Anteontem li coisas desgostáveis
Antoje vi fotografias gostáveis
E hoje mensagens amoráveis.

O que na janela ver mais interessa
É a nudez da borboleta a esta hora
Compondo aleares policromos
Sonhando janelas
doutros mundos
doutras gentes
doutros lugares
e doutros corações

Na minha
Tudo é virtual
Na dela
o meu rosto é real
na sempre janela
vidraça de coisas e sentires
dos mais sinceros aos mais absurdos
janelas de amizades
janelas de amigos para amigos
repleta de símbolos e sorrisos.

KB

sexta-feira, 5 de junho de 2015

RAPIZIUS



O falatório dos Pontos nos IS (programa televisivo) foi uma autentica prova de nada haver para dizer sobre o tema proposto, aliás, a fofoca politica alimentada pela comunicação social é a premiação da dimokransa instalada.

Como votar em Cabo Verde se o seu povo não se sente e não é africano, não sabe falar de Africa nem de africanos, nem dá conta de que existe o continente ao lado a que este chão pertence;

Como é que as embaixadas africanas entendem a frase: nem os africanos, nem tão pouco os noss...os irmãos PALOP votaram em nós porque não há uma politica africana coerente;

Mas o que é isto: não há trocas comerciais, circulação de bens entre Cabo Verde e África;

São BAD e CAN a mesma coisa ou seja é bola a rolar e um arbitro a apitar;

Cabo Verde, 40 anos depois, está na sua pior encruzilhada de sempre. Que terra que sociedade está em construção, a grande questão.
Eu devo estar a viver fora deste tempo ouvindo José Filomeno ( Ministro dos Negócios Estrangeiros que nunca saiu do ovo)...

quinta-feira, 4 de junho de 2015

CASTELO CONDE

Meu conto curto CASTELO CONDE foi selecionado para a 1ª Selecta Literária de Poesia e Prosa organizada pelas Professoras Doutoras da Universidade de São Paulo - Brasil - Simone Caputo Gomes e Érica Antunes. É uma honra para mim. Obgdo.




(... ...)
Quando o meu avô comprou aquele pedaço de chão, calculado em uma quarta e meia de sementeira, todos achavam que era disparate empregar tanto dinheiro num lugar de pastagem e não exactamente de cultivo. A primeira coisa que ele fez, foi mandar plantar um pé de tamarindo a uns cinco metros da borda da rocha, contratando o pastor que lá ia para regar a planta que subia com força e a fazer-se árvore. Justo no dia em que a raiz foi mergulhada naquele chão promissor o pastor começou a juntar pedras em lotes separados: pedra lascada, pedra de parede, pedra de cunhal e de enchimento. Um belo dia, o velho, dono do lugar, mandou construir uma tapada e dentro um alpendre forrado de palha para abrigo dos animais. Era a primeira construção levantada naquele terraço que, ao longe, pelo cinzento das paredes e orientação da fachada parecia mais com muralha em lugar de cerca. Com o andar do tempo o sítio passou a chamar-se Castelo Conde, designação que agradou aos que movimentavam por aqueles lados e bem aceite pelo dono do lugar.
(... ...)
 
 

quinta-feira, 14 de maio de 2015

RAPIZIUS

Terá de Aberações
 
Defender a terra é falar claro e nunca esconder detrás da cortina da hipocrisia e acenar a bandeira azul e brindar ou outros com canta irmão. Defender a terra é agir sem medo dos ciclos eleitoras. É não dizer que estamos na terra da morabeza e outras lérias que o politicamente correcto manda considerar, sabendo que não é assim tão líquido e lúcido.

 O fingir crioulo é arte tropical herdada do luso tropicalismo.

 Finge-se Terra de santos e santas, nome dado ...às ilhas e padroeiros dos concelhos da terra, exaltados em cada mês do ano, com celebrações, festas e festivais, anunciações e inaugurações, falatório, palanques e microfones e o povo na procissão, crentes nos santos e nas palavras da bíblia que os sacerdotes não se cansam de repetir de há 500 anos aos dias de hoje, estando civilização por acontecer. 

 Contudo, não obstante as caras de santo ante os altares, os rostos dos deuses e anjos da guarda, perante a terra e as flores da luta, perante o país de crescimento médio atado a demandas impossíveis, perante a esperança que nunca morre, perante a caboverdianidade da música e da literatura, perante os países amigos, perante as doações canceladas, perante os tempos terríveis que se avizinham, perante o pai que come a filha menor, perante o irmão que mata irmão, perante as modas importadas ( discursos, tiks, valores, vícios, falar, vestir, propagandear, discutir, matar, consumir, gesticular, musicar, escrever, casar, divorciar, exigir, reivindicar, regionalizar, descentralizar, sensibilizar, workShopar e outras macaquices que terra bo sabê acolhe bem e com entusiasmo), perante tudo isso, resta-nos sublinhar ... perante os 40 anos de garganta ao alto, entre que santos e que pecadores a terra está colocada...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

RAPIZIUS


O activista cultural Leno Vicente, mais o músico Sílvio Brito da Banda Som do Planalto, organizaram um noite de música e poesia, integrado nas festividades do 14º Aniversário da Criação da Assomada-Cidade, evento ocorrido no dia 07 de Maio de 2015, no Centro Cultural Norberto Tavares, Quintal Pantera, 21H00, momento a romper com um certo marasmo nocturno, a que a cidade se encontra, não obstante hábitos de remanso pender, ainda, grandemente, na maneira de ser dos rural-citadinos de hoje.
De todo o modo a sessão cultural de música e de poesia, algo novo, contou com a sala cheia, assistência, significativamente jovem, que sabendo escutar e apreciar, muito ajudou os participantes a fazerem do momento uma noite especial e de se recordar sempre.
Além de músicos e poetas do Concelho chamados a participar, tomaram parte na noite convidados, designadamente, Daniel Spencer, Dulce Sequeira e o violinista Meca Lima, que em gesto de amizade se juntaram á banda Som do Planalto, orquestra base do momento musical, juntando som ao momento de poesia, empolgando os declamadores no nobre exercício de dizer textos poéticos das suas autorias, onde o telúrico, a energia da terra, a tradição, os proverbiais e máximas do povo desta região inspiraram a construção das imagens transformadas em mensagem poética.
Quem prescinde da sua pertença cai no vazio identitário, pior, perde-se em si próprio, torna-se num ponderar vagabundo, tentando agarrar as ramas de alguma recordação, para se salvar do deserto que a cerca e que criou para si, e, eis porque acções estimulantes da auto estima e da valorização da memória devem ser realizadas com a frequência desejada, além de festividades pontuais, chamando a participar os agentes culturais mais experientes, entrosando-os com os mais novos para que o legado se concretize, para que a chama ancestral se mantenha acesa, para que as mudanças a operarem-se acomodem com ciência e legitimidade o novo, de modo a não destronar as raízes em que se fundam a matriz da caboverdianidade.
Estou ciente de que por mais reboliço faça a cabeça da cheia, a água da lagoa restará limpa e serena, durará transparente enquanto viver o sol da vida.

sábado, 2 de maio de 2015

RAPIZIUS

A minha netinha Laura é uma península de curiosidade.
Ela - O que é que aquela gente estava a dizer na televisão?
Eles fizeram anos hoje como tu?
Eu - Era uma manifestação.
Ela - O que é anifestação? É gritar e falar alto?
Eu - Não! Eles estavam a pedir trabalho e mais dinheiro para darem os seus filhos de comer, ir á escola, ter coisas para brincar.
Ela - Porquê não estavas lá? Pedias dinheiro para a tua festa de anos, chocolate e brinquedos para mim. Quem dá o dinheiro?
Eu - Não soube responder a isso.
Ela - Então se eu quiser fazer uma coisa e tu não me deixas eu " anifesto" dentro de casa? O que fazias?
Eu - Nada.
Ela - Então não falo mais contigo.
Eu - Porquê?
Ela - Porque não me deixas "anifestar". Não quero mais o teu chocolate, nem beijos, nada. Não fales mais comigo.
Eu - Logo vamos à kebra kanela. Queres?
Ela - Sim! Posso levar as minhas coisas para brincar na areia?
Eu - Levas tudo e vamos anifestar lá os dois... risos...

sexta-feira, 1 de maio de 2015

RAPIZIUS

 
 
Ao amigo Manuel Brito-Semedo, irmão em Mindelo Amilcar Barbosa ( aniversariantes hoje) o que um dia pensei após tomar consciência de que parei nos 50, sem mais dar conta do umbigo que no 1º de Maio sobreveio no calendário cartesiano que teima imputar-me o seu peso sobre os nervos.
Fujam dos anos que o calendário nos impõe gratuitamente.
Ele é ingrato, destemido e implacável. Esmaga sem nada dizer.
Estou sem ele, tranquilo, sem bolo, sem velas, apenas com votos dos meus irmãos, amigos do perto e do longe, (votos amigos e sinceros que não param de chegar e que muito agradeço).
Não me achem despropositado. É que eu descobri a fórmula de longividar a vida que, não sendo receita, convenhamos, não servirá de exemplo.
O máximo que eu posso dizer é o seguinte:
amem-se e amem as boas amizades;
preservem as antigas e boas amizades;
amem o belo;
sejam loucos pelo menos uma vez em cada hora da vida;
amem a infância em vós residente;
vivam intensamente mas sem fantochada;
Invoquem o espírito dos vossos pais e avós;
comam cachupa guisada se possível com ovo mal passado, linguiça da terra ou txitxarro frito, regado com leite condensado, mel de abelha, mel de panqueca (qb), não havendo, açúcar (qb) por cima, composição que longivida;
leiam, tomem notas e escrevinhem coisas, mesmo sem nexo;
sejam delinquentes civilizados e competentes marginais. Mais não digo.
Obgdo a todos.
 
Olhando os anos começo a ver ruas correndo ruas
tantas vezes pisadas
e buracos tantas vezes tropeçados
que de mim não dão conta.
Mas o que tudo isso acrescenta
se os anos são órbitas que não sabem onde vão dar
que rumo e que sortes trazem nas curvas.
Mas o que tudo isso arrende
se a idade que levam às costas e os buracos em que tropecei
são passares que ambulam bons e maus transpores!
Mas o que tudo isso importa
se os anos permanecem sem saber que destino têm dentro
e fora do meu sangue.
Encarando os anos começo a ver fins adiando o tempo
tantas vezes em viagem dentro e fora de mim
que de mim não dão conta.
kb

quinta-feira, 30 de abril de 2015

DIA DO GAVETA BRANCA

TEXTO DA Dra CATARINA CARDOSO

A pedido de algumas (poucas) famílias, aqui está o texto da apresentação do livro "Gaveta Branca" , do meu poeta amigo Kaká Barbosa
Por onde começar senão pelo princípio e pelo fim de tudo?
.......As palavras do poeta
“Esta gaveta
É uma pátria de paciência
Uma voz que não disfarça a inconveniência
Uma luz
Que perverte por florescência
E se me questionassem :
Responderia que a música
é a plena estrada para se chegar à alma”
Numa das muitas viagens que faço com estas duas meninas, aqui sentadas ao meu lado, falou-se do kaká barbosa, logo seguido de uma afirmação clássica da minha filha “ahhhh o do livro Gaveta Branca”. Eu respondi: “-sim, esse, mas como sabes?”, (que estupidez a minha pensar que lhe tinha passado despercebido o facto do gaveta branca atrelado a mim nos últimos dois meses) ao que ela responde prontamente…”porque esse livro anda sempre ao pé de ti mãe”.
Na sequência da conversa lembrei-me de perguntar-lhes o que lhes fazia lembrar este título “Gaveta Branca”. “Quando ouvem o título Gaveta Branca de que se lembram?”
“E o nome Kaká Barbosa? Faz-vos lembrar de alguma coisa?”
“Cacao com barba”
“Sim faz lembrar noiva, nuvem, a morte de deus enterrado numa gaveta branca numa nuvem, uma senhora com um vestido de noiva a dar à luz….”
(…)
…….Na dúvida, eu fico com a pureza das crianças.
O livro e o homem em andamentos desordenados de intensidade
“E agora Catarina, estás tramada, que responsabilidade…não bastava ser um poeta, um escritor, um compositor de uma das músicas que mais te encanta em crioulo….ainda teve a traquinice de te convidar para apresentar este livro, que…também não é qualquer livro…é poesia…poesia que aguardou na gaveta…15 anos. Quem és tu catarina? …..Nada que justifique tamanha honra.”
Só um Homem-Menino teria esta ousadia. Bem hajam os homens-meninos. É uma honra. É uma emoção estar aqui fazer isto”
Do homem (Carlos Barbosa) conhecia aquilo que a opinião pública conhece e mal…defeito meu que vejo menos telejornais do que seria desejável e não presto muita atenção ao que se diz das pessoas. Os amigos brincam comigo dizendo frequentemente “mas tu……não conheces ninguém!”.
Conheço quem me interessa conhecer. Do autor conhecia a figura distinta, o estilo irreverente da boina preta, algumas das suas composições musicais e sabia que além de compositor tinha feito uma passagem pela casa parlamentar, em suma, um delinquente civilizado (como o próprio de auto-intitulou numa das nossas conversas). Confesso que desconhecia as suas publicações anteriores a este Gaveta Branca.
Graças a esse, ora santificado, ora diabolizado facebook, tive a graça de me tornar sua amiga e a partir daí poder conhecer um bocadinho do homem quase sempre numa linguagem ora poética ora crítica. Uma crítica sem grilhões, que não se atém ao politicamente correcto ou às cores políticas, características com que me identifico e que prezo.
Kada un ku si mania
Fla rodondu bira kuadradu
Kada un ku si tioria
Poi razon pendi di si ladu
Esta tarefa, de apresentar esta obra poética e o seu autor é de uma responsabilidade hercúlea.
No tempo que mediou o convite e o dia de hoje encontrei-me duas vezes com o autor. Não com a pretensão de conhecer muito ou de saber muitos pormenores da sua vida. A intenção com um escritor/poeta é talvez conhecer o mínimo possível o homem, comezinho, do dia-a-dia…
somos todos mais ou menos iguais no dia-a-dia, não somos? Somos todos humanos, não somos? Então para quê saber muitas coisas quando o que me interessava até aqui sobretudo era o poeta kaká barbosa e a a sua gaveta branca?
Certo é que nestes dois encontros, tive a confirmação das minhas suspeições- um homem livre, um homem sábio (coisa que só a idade pode oferecer a um homem ou a uma mulher), um homem apaixonado pela criação, pela causa das coisas, ora manifestada em relação à origem das palavras, ao seu significado, como se as palavras fossem entidades tridimensionais ora às outras inquietações do espírito e que perpassam esta “Gaveta Branca” .
“Gaveta Branca
Cabina Noctâmbula da palavra
Gruta íntima
Clara absolutamente branca e clara”
Falamos bastante, sobre palavras. Ele explicou-me coisas muito bonitas sobre as palavras do léxico crioulo- a sua origem…espanhola, mandinga, portuguesa. Sempre com a impressão de ser capaz de ficar horas a ouvir-lo falar sobre palavras.
“Há muita luz…
Não pesa nem maltrata
O pensamento esvoaça
E o sacudir das sílabas
Anuncia sempre clara
A luz da palavra”
Neste dois encontros de hora e meia sensivelmente, fui muito mais ouvinte do que falante e sempre com a sensação de poder ficar horas à conversa com o interlocutor. Um homem com mundo. Andei em tempos a questionar-me sobre o significado desta expressão “fulano ou fulana tem mundo”. Pois bem, encontrei um exemplar desta expressão. Ter mundo não significa viajar (apesar de ele o ter feito por uma boa parte do mundo a bordo de navios mercantes). Ter mundo significa ter capacidade de olhar para o mundo e ainda assim continuar a ter um coração que pulsa, apesar das misérias, das injustiças, ter mundo significa manter o brilho infantil no olhar …apesar….da vida.
“Além um esplendoroso foco me convida
A evadir desta praça de luz minúscula
Em redor o meu tacto palpita e respira
Como graus na girante de uma bússola”
Não sou especialista em literatura e tão pouco em poesia. Sou sobretudo uma leitora. De prosa e poesia. Não percebo de métrica e rima. Percebo daquilo que me faz vivo o coração, numa complexidade incapaz de ser explicada entre as sinapses neuronais e o bater deste músculo involuntário alojado aqui no lado esquerdo.
E agora….a gaveta branca. A gaveta é sítio de armazenamento. De coisas importantes, de pequenos tesouros- folhas secas, pauzinhos com formas curiosas, contas de sibitchi, cartas de amor amarelecidas, sonhos adiados, postais nunca enviados. É um armazém de luz e de penumbra. Do que revelamos, se aberta e do que ocultamos, se fechada.
Esta gaveta branca é de luz, é sem chave. Só demorou a abrir.
Gaveta Branca é um livro que esteve 15 anos…na gaveta.
Não imagino sequer se o título é posterior à obra ou se a obra foi inspirada pelo título. Julgo que o processo criativo da escrita não obedece a rigores deste ou de qualquer outro tipo. Parece-me contudo paradigmática esta coincidência - o título e o facto do livro ter esperado 15 anos para ser publicado, provavelmente numa gaveta, das reais ou das de brincar…também chamadas de pastas digitais.
Fazendo uma analogia com os andamentos musicais, passo de uma morna para um funaná.
A Gaveta Branca de Kaká Barbosa é viva, é de luz, é energia individual que se funde com a energia superior, a do universo, contínua, e que garante continuidade. Perguntei-lhe se é racionalista cristão. Disse-me que não, que quando escreve recebe um espírito de luz em jeito de visitação. Eu chamo-lhe um ego auxiliar, um ego auxiliar da criação.
Na gaveta Branca há uma parte de luz….
A Luz
“Nesta
Cave
Forte
Existe
Um foco.
Emerge
Cresce
Esparge
Foge
Feito
Um louco”
Lembra um Haiku, uma forma de poesia japonesa, que basicamente se define como uma forma poética que possui três versos curtos e, quanto ao conteúdo, expressa uma percepção da natureza.
mais uma vez não me rejo pela métrica característica dos Haikus para assim classificar o poema do autor, mas quando o li foi o que senti e na verdade se atentarmos para a definição do conteúdo de um Haiku não lhe fugimos “O haiku é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haiku capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado,
a natureza humana, a vida”. (A. C. Missias,)
É desta Luz, fulgurante, branca, vermelha, de fogo, que a Gaveta é feita, também.
Na gaveta Ouvem-se vozes…..
A Voz
A voz é a do autor, ora tranquila, indolente a lembrar uma morna, ora vivaz, eloquente, num andamento de funaná encorpado. Sempre audível. Nunca sussurrada. A voz e as palavras são como chispas… de alegria, de energia, de luz, de voz destes poemas.
“Claro!
Para me silenciar:
Grito, dou, amo, faço e desafio
Como o riso nos lábios de um tiro.
Claro!
Para me avivar:
Silencio, tomo, calo e canto com brio
Como o trilo luzido dum grilo”
Na gaveta poemam-se pedacinhos de cabo verde……….
“O mar,
Tão depressa se abeira
Do ponto de fremência
Fica mais ela a maresia
O verso
Tão depressa se abeira
Do ponto de ardência
Fica mais ela a poesia”
Na gaveta, poema-se a vida naquilo que é essencial,
“A luz,
À luz do dia ludibria
A vida aviva-se e habilita
A morte avilta-se e gravita
O tempo limita
A sombra delimita
A voz
Explica, pica, plica e implica
E o que dilucida indica?”
O tempo limita mas consola-nos saber que esta/a sua voz que pica, plica e implica não ficará confinada ao espaço de uma gaveta e que a sua pessoa e obra perdurarão através do tempo e das gerações.
Os grandes estarão sempre entre nós, connosco pela mão. Bem haja.

domingo, 26 de abril de 2015

RAPIZIUS

 
 
Achei interessante e inédito o facto de a apresentação do meu livro Gaveta Branca não ter sido badalado nos programas da TV, Radio e dois outros jornais da praça, a Semana e a Nação. Pois, claro, o poeta e o livro existem desafectados da propaganda, das mordomias, dos favores, tapetes vermelhos, vossas excelências etc. etc.
Mas o 24 de Abril, Dia da apresentação do livro - Gaveta Branca - , foi magnífico, tinha jovens e crianças, mais do que isso estavam amigos e amantes da poesia e do livro e da literatura.
Não houve registo fotográfico, assim como ninguém registou o momento da criação poética dentro da gaveta, sua morada.
Ecoa como sinfonia meteórica o pronunciamento da Professora Drª Catarina Cardoso, o bastante, que montado no cavalo da palavra penetrou no labirinto, refúgio do feiticeiro, para no solo que o ampara divisar o altar da cegueira luminosa onde se curva o poeta para navegar e estabelecer pontos, jungir pontas e sonhar pontes para alcançar a outra margem das verdades da VERDADE que a sua experiencia imaginativa propõe trazer para a folha em branco.
Dizia o grande ensaísta, poeta e critico literário, figura cimeira das letras portuguesas - Prof Eduardo Lourenço - "que todos os enigmas são enigmas do homem. logo, o homem é a resposta de todos os enigmas, coisa que édipo sabia".
Pois, Gaveta Branca, sendo enigma, "foi a forma de não haver outra forma de o poeta criar o enigma da poesia ou seja a resposta para o que procura" ( Eduardo Lourenço).
Se antes eu já tinha escrito que; o livro é como uma estrada construída por etapas, ele é, de todo o modo, uma calçada portadora de um esplendor que nos pertence, porém, nem sempre conseguimos usufruir a totalidade da luz que emana, porque nos colocamos á margem dela.
Gaveta Branca é e continuará a ser um enigma, um mito, um enfeitiçamento ao serviço do poeta e não o contrário ou se seja não está o poeta ao seu serviço. Ela é ela mesma na sua continuidade.
Assim sendo, além da apropriação dos meandros dos textos que corporizam Gaveta Branca, os apresentadores impulsionados pela curiosidade em desvendar os caminhos da luz e da voz, encontraram afinidades e ecos de grandes vultos do pensamento filosófico e poético reflectidos na gaveta do espírito do poeta, morador no lugar comum dos homens, ilha seu mundo mais particular, donde parte para sondar no inatingível o logos da ciência e da existência da alma.
kb.