quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Entre duas Vidas (2)


                                             ENTRE DUAS VIDAS (2)


Era de madrugada. Exercitava textos no máximo quinhentas palavras, a lembrar o saudoso poeta Mário Fonseca, quem me espertou para este tipo de texto, estilo de Virgílio Pires, cultor deste género literário, tido como pai do conto curto caboverdiano. Ao pé de mim a minha viola – Peregrino - e por detrás do armário a Osga Rosa a cantar no habitual Fá Maior. Concentrado estava eu a formatar as ideias para o texto - Entre duas Vidas – quando apareceu a sombra que sempre me acompanha nestes momentos a movimentar-se na sala: sapato polimento preto, calças escuras, camisa branca manga comprida, passo longo e lento, num vai vem tranquilo. A figura aparece-me sempre do mesmo lado. Do lado do canto do olho direito. Não se lhe ouve a voz. Falávamos por instinto, mas, desta vez, foi desdobramento. Era eu sem ser eu a traçar na tela do computador os contornos da narrativa. De súbito, tive o texto pela frente que começava assim: olha, eu e tu somos o mesmo espirito. Usas nome diferente. Tens tua vida. Eu a minha. Mas interligamo-nos, sempre. O que nos separa é caso menor. Nas condições em que vivo não me é permitido revelar quem e onde estou. Mas, vivo. Podes dar-me nome que pretenderes, não levo a mal. Sempre que posso, venho. Por amizade e afeição. Não te preocupes comigo. Sinto-me bem onde estou. Mas é difícil o teu viver. Acautela-te. Eu morri há algum tempo. Na altura começavas a abrir os olhos. Aquela terra fez-te bem. Deu outro rumo à tua vida. As pessoas das tuas relações eram gente de bem. Os lugares visitados foram benéficos. Tudo isso ajudou-te muito. Mas, o ambiente onde vives é diferente. Há gente e procedimentos inúteis. De todo o modo, vive. Vivo em outra vida, sem ser visto. Mas, vivo, convivo, a cumprir o meu dever de vivo para com os vivos mortos. Sinto que falta óbito aos vivos a caminho da morte. Gostaria de estar morto para não ver os vivos mortos, que sei estarem extintos antes de morrerem. Passei o tempo todo a pensar morrer por eles. Mas, depois de ela acontecer, descobri que viver pelos mortos vivos não vale, nem após a morte. Não me julgues mal. Morri de coisa grave. Fui ao médico, estive internado e medicado por sintomas que não conseguiram diagnosticar. Achou-se que era doença de sono porque não dormia havia meses. De seguida, comentou-se que podia ser obra de espírito encalhado. Mais tarde, reuniu-se a junta médica e acabaram por aumentar a dose do sedativo. Tiveram de consultar o banco de dados, meu ficheiro tinha sumido. O operador confirmou ter registado tudo. Insistiram, nada. Chamaram o técnico informático para proceder a busca. Minutos depois, acharam. A descrição aludia que o paciente tinha morrido uma semana atrás, óbito justificado por insonolência crónica e anemia exacerbada. O confrade foi-se embora assim como veio. Deixou o texto pronto. Li, conferi e apurei. Eram quinhentas palavras. Assim foi a madrugada de ontem. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Entre duas Vidas

                                                                ENTRE DUAS VIDAS

Estava quase a completar três meses sem conseguir dormir. Insónia? Após várias consultas e exames o médico declarou-me bastante doente e fui internado na quarta enfermaria do hospital, segmento, onde eram colocados doentes crónicos. Havia aqueles que dormiam e não se acordavam, outros em estado de coma e a mim não sabiam identificar o estado. Falava-se em insonolência crónica. O internamento e a medicação não traziam melhoras. Ia para quatro meses sem dormir e sem comer. A junta médica tinha-se reunido e a situação mantinha-se. Não se acertava no diagnostico. O médico não queria que eu soubesse da gravidade do meu  caso. O itinerário estava traçado. Morte certa. Só, não se sabia quando. No hospital todos passaram a saber da situação, menos eu. Quando eu perguntava pela minha situação diziam que eu era forte e que a recuperação viria com o tempo e que brevemente estaria em casa.
De tanto receber visitas de familiares e amigos, pelas suas caras e gestos, desconfiei que algo não estava bem. Certo dia pedi que me trouxessem flores. Branca em caso de alta; amarela fosse para ficar mais tempo; vermelha para estado grave; e, nada em caso de morte eminente. Concordaram com a ideia e todos prometeram cumprir o pedido feito. 
No dia seguinte, pela manhã, alguém deixou ficar na mesinha de cabeceira uma flor amarela, quase sem vida, não dei por isso, porque estava a dormir. Quando acordei, sobre o peito, estava um bouquet de flores vermelhas, tão convidativas que logo me abracei a elas com devoção. Alguém teria deixado ficar o presente sem que nenhum assistente do hospital o visse entrar, nem sair. O estranho não deixou nome, nem morada, nem outra identificação. Chegado a hora do controlo médico a enfermeira de serviço pôs-se a olhar para mim com cara de inquietação. Eu, sempre abraçado às flores, olhava para ela. Perguntou-me se tudo estava bem. Barafustada, tirou-me a temperatura, verificou o pingar do soro,  conferiu o fundo dos olhos, fez uma cara fria como comida de gato, subitamente, desatou a gritar como se ela tivesse visto o morto. Eu, todo caladinho, de olhar fixo nela, abraçado às flores e sem mexer. Ali, imóvel, estava o físico enquanto a alma tinha sumido havia uma semana. O esqueleto aguardava pela visita da pessoa amada, a enfermeira. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Ilha do Sal e o Concorde

       

                                         
                                                 ILHA DO SAL E O CONCORDE

A 19 de Julho de 1984 demiti-me do cargo de Presidente do Sindicato da Indústria, Comercio e Serviços. Em Setembro do mesmo ano entrei para a Agencia Nacional de Viagens – Divisão Aérea – na Praia, a convite do Director Geral da ANV, Guilherme Santos Ferreira, antigo colega de trabalho na Casa Madeira. Fui admitido para exercer o cargo de Director de Divisão. Um mês depois, a nossa representada Air France em Dacar, informou a ANV sobre um programa de formação na área do Ticktyng e Markting e fui indicado para receber esta formação. Foi em Dacar que conheci o Senhor Charles – Director Comercial Regional da Air France para a África Ocidental em que Cabo Verde se insere, sendo a ANV agente da Air France. Findo o curso, consegui mais um curso ministrado pela Swissair, também nossa representada, sobre a organização e encaminhamento de pacotes turísticos e, de seguida, a Alitália aproveitou fez o mesmo, também ela nossa representada. Fiz boas amizades com os Directores Comerciais destas companhias aéreas, convidando-os a visitar Cabo Verde.

O Sr. Charles da Air France foi o primeiro a visitar-nos, tendo vindo de São Vicente o DG da ANV – Guilherme Ferreira – para o receber e negociar interesses entre as partes. No entanto o Presidente da Republica, Aristides Pereira, havia sido indigitado para falar em nome dos países menos avançados da Africa na reunião de Paris, presidida por François Miterrand – Presidente da Republica da França. No final de dois dias de visita o Director Geral Guilherme Ferreira havia sugerido ao Senhor Charles a passagem do Concorde pela ilha do Sal para levar o Presidente Aristides Pereira a Paris. Assisti os argumentos do Guilherme Ferreira insistindo que: “era prestigioso para a Air France o avião Concorde vir a Cabo Verde e transportar um dos Presidentes mais respeitados da Africa, porta-voz de vário6s países africanos, sobretudo os da francofonia de que Cabo Verde também fazia parte. O Senhor Charles foi portador deste sonho, para o tornar realidade. Poucos dias depois o Guilherme Ferreira deslocou-se a Dacar, regressando muito esperançado. O assunto foi tratado com muito sigilo. Na altura usava-se o Telex para se comunicar na aviação comercial. Eu era o último a sair da agência e o primeiro a entrar para que a comunicação se mantivesse em sigilo.

Feliz foi o dia em que o longo Telex confirmava o aval da Sede da Air France em Paris em desviar o Concorde para a Ilha do Sal para receber o prestigiado passageiro, Presidente Aristides Pereira. Na mesma semana, o Director Geral Guilherme Ferreira deslocou-se de São Vicente, sede da Empresa ANV, para a Praia, para dar a excelente noticia ao então Ministro dos Transportes, Herculano Vieira, que por sua vez a transmitiu ao Presidente Pereira. Dali em diante, todos os procedimentos foram tidos em conta e o Presidente da Republica de Cabo Verde, Aristides Maria Pereira, acabou por viajar da Ilha do Sal com destino a Paris no supersónico Concorde.
Este coroar a Cabo Verde ficou-se a dever ao amigo destas ilhas Senhor Charles, Director Comercial da Air France para África Ocidental e ao dinâmico gestor e diligente trabalhador, Guilherme dos Santos Ferreira, Director Geral da Agencia Nacional de Viagens, filho de Santo Antão, natural da Ponta do Sol, companheiro da Casa Madeira e de quarto, padrinho do meu casamento, alma crioula que a eternidade guarda para sempre.


domingo, 15 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia


Dois poemas da coletânea (na gaveta) Terra Dilecta - Caminhos Cantantes -

3
neste lado do mar
nem peixe nem tostão furado
há coisas que dão que pensar
o dilema é não ficar marcado

neste lado da terra
há buraco que gora o andar
há gente que tudo emperra
a calema é o deixar ficar

neste lado da vida
há mil braços p’ra trabalhar
mas ele é vento que assobia
que só acorda para passear

neste lado do povo
se podia ser bem mais feliz
se refém não fosse o voto
d’um molho de porcos xix

neste lado da alma
há filho que o ventre chora
odeia os poderes e a fama 
a sociedade tudo ignora

neste lado do canto
há luta artilhada à espera
há peito despido de pranto
há guerra no vigor da terra

4
tanto expor o acordo assinado
conversa fiada e cifrões à solta
aquele rosto no ecrã plantado
bem maquiado e flores á volta

tele-fingindo agindo com jeito
bla-blá o embrulho p’ra malta
ninguém escuta o tal sujeito
na jorna é manchete sem falta

o que queria e o pretendido
pouco do nada logrou dizer
do conhecido mal escondido
claro ficou e nada a condizer

o povo é rua que não chora
é riso dum orgulho que voga
é coragem que tudo remove
é brado que nunca se afoga

o povo é o lado duro da vida
onde a razão tem destreza
onde o zero é coisa dividida
onde a verdade trai certezas

sábado, 14 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Dois Apontamentos



                                                       DOIS APONTAMENTOS

1.
Estou a ouvir a moça a cantar Djonzinho Cabral, composição gravada pelos Tubarões. 
Vejam com é traiçoeira a oralidade ou seja aprender de ouvido, caso usual e Cabo Verde.

A letra cantada é assim:
Maria di Djonzinho es po'l na cadia
es pol na cadia pamodi é kebra brinco. 
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

A letra original é assim:
Maria di Djonzinho es kre pol na kadia
Po'l na cadia pamo é ka ntrega brinco.
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

História:
Maria era mulher di Djonzinho e tinha de arrendamento uma porção de terra para sementeira. Deitou à terra as sementes e não choveu e seu morgado reivindicou o pagamento da renda. Maria não tinha como pagar. Nho morgado insistia no pagamento da renda e quis que ela deixasse ficar o par de brincos de penhora o que ela que recusou fazer. Assim sendo, Nho Morgado ameaçou-lhe com cadeia. Djonzinho Cabral, seu companheiro, conhecendo a situação, mandou dizer a Nho Morgado que, por causa da Maria, vendia o boi para pagar a renda da propriedade semeada e que nada rendeu, por faltar chuva.
Há uma tendência em não perguntar e nem sequer saber a letra e o enredo, resultando dai invenções e deturpações perigosas do sentido da história que o autor do texto contou e musicou, por isso, não devemos cair na tentação de truncar os originais. Música não é só ritmo e melodia. É também mensagem e comunicação. É vinculação de uma realidade expressa, vivida por alguém ou pelo autor.

2.
Não devemos ter medo do moderno desde que ele tenha assento no pensar reflexivo sobre as bases do passado. O presente é todo nosso e ninguém nos tira isso. Mas ele é sempre o passado, o ido, na medida em que inovamos ou criamos o novo. No tocante à nossa música, só com estudo, tratamento adequado das experiencias dos outros e  dos empréstimos úteis podemos construir com segurança o moderno (futuro) dos nossos géneros musicais. O bom compositor não deverá permitir desregramentos, mas, sim, dar continuidade no respeito á memória e às heranças que tornaram a nossa música inimitável.
Afinal a música é uma espécie de literatura escrita por acordes no braço do violão caboverdiano que narra o estado da alma, a estrada das emoções e as relações com a natura e com a vida, sendo o compositor a ponte de ligação entre o sentir e a realidade, conforme o relógio do tempo e a geografia da vida o nortear. Ser fiel às raízes é pedir demasiado, mas ser leal é o que aconselho aos que consideram e amam a nossa música.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

TESTAMENTO


Armaram o palanque... é o “delírio dos porcos”, disse o poeta da terra.
O branqueamento da história, dos acontecimentos, das origens, do passado, do capital, da justiça, do socialismo, das revoluções, da pele, do sexo, até das fezes, são necessidades dos tempos modernos, são necessidades dos novos brancos da terra nos seus desejos de embranquiçamento  a todo o custo.
Branquear o processo da luta de libertação dos povos oprimidos por via luta armada é hoje vista como acto terrorista (como antes). As lutas, as reivindicações e os levantamentos populares são tidos, hoje, como actos extremistas contra a paz social e desestabilização. Tenta-se acabar com a ideia de nações, de povos, de identidades e de culturas e impor-se a aldeia dos obedientes.
A tomada do poder pelos movimentos de libertação em Africa pela conquista da dignidade dos seus povos; a defesa da soberania o exercício do poder popular a negar o servilismo social, o neocolonialismo e a ditadura da democracia liberal, virou farsa; o assalto à esperança dos povos africanos, a sua condenação ao sofrimento, à doença e à pobreza pelo próprios africanos vendidos a interesses estranhos, virou apanágio do poder nativo; anestesiar a pátria (que o caboverdiano não tem) pelos democratas brancos da terra com discursos, diversões e acções paternalistas, virou glória;
É esta a nova aliança. A aliança embranquiçadora. É esta a missão em curso que o branco da terra impõe como destino aos crioulos e ás ilhas anestesiadas pela esperança em melhores dia que não vêm. É a disfarçada ditadura pintada de democracia, - a tal dimokransa - hoje, defendida pelos rabidantes no poder, constituindo verdadeiro assalto à autonomia do povo e o seu direito à liberdade e o progresso social, económico e cultural.
É branquear o 5 de Julho, data maior da liberdade do povo de Cabo Verde, e colocar o 13 de Janeiro, dia sem peso histórico, sem glória e sem alma, como data da nação, não passando ela de acto carnavalesco, sem que o trovador das ilhas a invocasse, alguma vez, num género musical seu, tal façanha. Não há vislumbre nem recordações de tais menções. 
Não celebro o dia 13 de Janeiro:
dia de não facto histórico;
dia do assalto às urnas e da fraude eleitoral;
dia da instalação da dimokransa e do liberalismo selvático;
dia da consagração da corrupção;
dia do projecto da destruição do PAICV;
dia de mascarar a liberdade;
dia da demagogia e da perseguição politica;
dia do hino sem chama patriótica;
dia da bandeira azul da negação à Africa;
dia da vinculação de Cabo Verde como neocolónia de Portugal;
Todos vão lá estar a fingirem pátria, a fingirem povo, a pintar a liberdade com as cores da hipocrisia.



RAPIZIUS - O Pincel Danela

                                                                       O PINCEL DANELA

          Para quem conhece a autora das obras recentemente exibidas no Salão de Arte do Palácio da Cultura – Ildo Lobo – não receará afirmar que assistimos a um desabafo, a um desafio típico de quem tem algo para mostrar e transmitir, aposta de uma jovem que sonha ir mais além. Fomos chamados a conviver com pinturas na tela, a ler o que artista revela de si própria e da observação que faz do mundo à sua volta. A arte de cultivar a arte exige luz e ausência dela, impõe retiro e movimento, ritmo e roturas com o real, mesmo quando a mão do artista parece ser repetitiva. Mas, o que importa neste caso é saber se a artista soube olhar para dentro e para fora de si, se soube voar e criar os lados da sua própria gaveta. Se soube provocar o aparecimento da arte nos seus limites.
          Nela Barbosa é uma jovem do interior da ilha de Santiago, nascida na Vila de Pedra Badejo, no sítio de Salina. A casa onde nasceu tem, ao pé, a Praia Grande de areia negra aberta para o mar imenso, a contrastar com o castanho do lodo da lagoa deixado pelas cheias, com o vegetal seco e o verde da ribeira, com as cores volúveis do mar a espumar nas penedias, bases do universo primário da artista plástica que ora se apresenta publicamente.
          Os quadros mais expressivos deixam-nos a sensação de que existe uma certa onda oscilante na mão silenciosa do pincel que, entre a timidez e a liberdade de criar, procura, através dos diferentes temas escolhidos, libertar ansiedades  e o desejo de não querer parar por ali, isto é, vontade de aprender e evoluir, exercitando a própria arte.  
          Apreciar as soluções encontradas para os diferentes quadros é tentar decifrar, por um lado, a identidade da artista (por definir), por outro lado, as motivações ou os impulsos que a levou a ajustar cores na tentativa de impor ordem a um certo desalinho ditado pela imperícia, conjugado com a paisagem interior, com a arrogância da realidade ambiental vivida pela artista, havendo denuncias e evidências de um certo grau de perspicácia e autenticidade. Por exemplo, a utilização de tonalidades encontradas no maduro da fruta, no claro da espuma do mar, no verdaço, no castanho da terra, no azul do mar e outros tons ditados pelo olho do improviso.
 Nela Barbosa, a pintora, tende a ser produto da conjugação da paisagem campesina e o cenário urbano, processo em caldeação, que na devida ocasião se consolidará, que poderá resultar em um estilo próprio, se primorado, apontará pela obtenção de uma identidade própria.
          Se por um lado as obras de Nela Barbosa têm a ver com visões domésticas ou de retalhos ou disfarces do mundo que a rodeia, mais ou menos atraentes, por outro lado, espelham momentos de retiro, onde o disforme ganha vida e significação próprias, estética e qualidade, ou seja emergência da arte. Todo o criador sonha e procura realizar a sua obra-prima, sonho legítimo de qualquer um.
Será esta iniciação alavanca para graus mais elevados de execução da arte, questiono?.
          Os meus parabéns, o meu respeito e o meu apoio absoluto.  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

RAPIZIUS- Porto de Nhô Raul


PORTO DE NHO RAUL
O porto da Ribeira da Barca fora durante vários anos um dos melhores ancoradouros da Ilha de Santiago, ponto importante de trânsito de passageiros e de escoamento de mantimentos, especialmente, para o Porto Grande de São Vicente e outras ilhas. Em contrapartida recebia mercadorias diversas como cal, madeira, ferragens, sal, tintas, ferramentas e outros utensílios como bidões, vasilhames de metal e de vidro, armações para os trapiches, alambiques etc.  Ribeira da Barca ou simplesmente Porto tinha-se tornado num aldeamento muito afamado. Ao sul era o mar de águas profundas e ao norte era Ganchemba zona agrícola de regadio de bela nascente de água. 
Foi por iniciativa do Céza, (Cesário Semedo) chofer de Nene di Nha Munda, pai do falecido Presidente António Mascarenhas, que eu e Zezé, meu irmão, fomos autorizados a conhecer e banhar-nos pela primeira vez no mar da Ribeira da Barca, no Porto, após tanto ouvir falar do mar do ancoradouro dos afamados veleiros Rex, Maria Sony, Senhor da Areias, Novas de Alegria, Ernestina, Mar Novo, e tantos outros e Santa Rita pertencente aos Santa Rita Vieira comerciantes firmados em Assomada, coube-nos, assim, a sorte grande de ver o mar e apreciar os meninos que nadavam longe da praia.  
Este porto de mar contribuiu bastante para a importância da Vila de Assomada para a sua economia e para o ambiente sociocultural, sendo certo que era através dele que o concelho recebia mercadorias diversas e contactava pessoas e mercadores de outras ilhas, inclusive a tripulação dos navios, muitos deles instruídos e músicos, que a convite de amigos visitavam a Vila em horas vagas. Lembro-me de uma bela tocatina havida em nossa casa. Do grupo apenas o nome Pantxol ficou-me na memória. No entanto, músicos como Luis Rendal, Tazinho, Bana, B. Leza, Bilak, Bala, Djédje Matias, Djódja, Anu Nobu, entre outros, eram músicos conhecidos.
Tinha eu mais ou menos doze anos de idade (1959) quando conheci Nho Raul de Ribeira da Barca, violinista. Ele vinha tocar nas festas dançantes do fim do ano e do carnaval que se realizavam no Cine Clube de Assomada. Eram festas muito concorridas e animadas ora com músicos trazidos da Praia, liderados por Cesáreo e outras vezes por Manuel Clarinete, músicos que traziam muito ritmo nos seus repertórios: tchá-tchá-tchá, mambo, tango, suingue, bolero, morna, coladera, valsa, mazurca, marcha, merengue, etc., havendo impedimento, recorria-se a músicos locais Aristides (pai de Norberto) ou Nho Raul da Ribeira da Barca, violinistas experimentados que sabiam animar as noites dançantes. Nho Raul era um bom executante do violino. Era um entusiasta. Era um músico que vivia ardentemente o que fazia. Torneava o seu corpo conforme fosse o tom da melodia arrancada pelo arco no pequeno braço do instrumento.
Há bem pouco tempo, em visita à localidade, passei uma tarde inteira a ouvi-lo contar coisas do passado, a viagem e estada em Alemanha, as suas actuações, como foi a receptividade das músicas que tocava. Contou de um sujeito que queria tirá-lo o instrumento (violino supostamente Estradivários) por uma bagatela. Disse-me ele: «Um dia eu toquei com músicos estrangeiros e eles admiraram como é que eu, um analfabeto, por assim dizer, sem escola de música, a tocar assim. Expliquei-lhes: música é ouvido e tudo está na minha cabeça. Toquei música da terra deles sem nenhum problema. Mas, eles não. Enrascaram-se quando lhes pedi para me acompanharem numa morna. Olhas, levei este violino aqui que tem para cima de cem anos». Abriu e tirou o instrumento da caixa de protecção e deu-me a ler a etiqueta bem legível, provavelmente, do fabrico. «Olha, este instrumento está cá, comigo, faz anos. Ninguém o tira daqui-p’ra-fora. Esse alemão, que falava espanhol, foi ao meu quarto de hotel e pediu-me para trocar o meu violino com o dele. Estás a ver uma coisa. Dali, o homem pediu-me que fossemos à casa dele. Mas quando vi que ele queria mesmo era tirar-me o meu violino de graça, disse-lhe: - se o senhor quiser o violino terá de me indemnizar convertendo a idade do violino mais a minha em horas multiplicando cada hora por cem do vosso dinheiro. Se tiver esse dinheiro o violino é seu. O homem viu logo que não estava perante um burranco, apesar de, eu, Raul, viver sempre metido neste cantinho à beira mar». Mandou vir a garrafa de circunstância, serviu-me do bom aguardente para visitantes especiais, ele já não usava álcool, apenas fumava.
Nho Raul é um pai músico que conseguiu trazer gente nova para a música e prepará-la para a música, incitando-a aplicarem-se e a tirar o melhor proveito dos escassos instrumentos musicais que o exótico recanto do Porto possuía. Tcheca é um dos músicos emergentes do sossego das noites do Porto. É um dos ouvidos onde o professor depositou as afinações dos primeiros acordes. É um dos saídos do Porto e que ocupa um lugar de destaque no panorama musical das ilhas.
Ribeira da Barca é dona de um mar de águas profundas, é lugar onde o sol cambando repousa diariamente os seus raios no verniz azul-marinho a separar os lábios rochosos de duas ilhas oriundas da mesma cintura vulcânica, Fogo – Mosteiros -, terra natal de Nho Raul e Santiago, terra adoptiva. Nho Raul viveu, cumpriu e deixou Porto senhor e detentor de um património que a memória colectiva deve preservar e as gentes devem acarinhar e imortalizar. Ribeira da Barca, confidência do mar, é onde o Homem distinto e patriota se consagrou, onde soube dar o seu contributo para o bom-nome e na formação de boa imagem social da sua localidade. Porto e o seu mar não pararão de celebrar o nome do músico-violinista, não cessarão de espumar branco no sopé rochoso do fresco planalto, onde, bem alto, em absoluto silêncio, repousa a alma do ardente músico cabo-verdiano Nho Raul de Ribeira da Barca.

                         

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

RAPIZIUS- A Janela e o Pátio


                                                               A JANELA E O PÁTIO

Não desisto de habitar a janela do quarto que dá para o pátio, de manhã e à tarde. No pátio os pardais anunciam o amanhecer e à noitinha os grilos o escurecer. Todos os dias, de manhãzinha e à tarde, ponho comida e água às avezinhas no patamar da janela. É bonito vê-los a banquetear e piar de regozijo. Vêm e vão à hora certa. Na primavera as acácias rubras pintam de verde o ambiente, fazendo com que as paredes circundantes percam o valor de pedras. Em Maio o vermelhaço das flores adensa e o pátio parece um templo e a janela santuário de sons e de cores que o ciclo do sol provoca com passar das horas. Pátio, paraíso de amigos do charro e de pares apostados no sexo. Pátio, paradeiro do Txany, o demente que todas as tardes lê o universo de cabeça para baixo, focando sítios onde as coisas imaginam-se a si próprias sem pretensão de existirem. É ali onde ele se sente confortável para cantar suas saudades e seus sonhos. Da janela acompanho a sua ascendência á montanha incolor da vida que o leva para onde a vinculação do ser é unânime.
 De tanto observar o pátio, repentinamente transforma-se em tendais subindo em espiral sugando meu corpo como um objecto levado pelo tornado. Tudo fica electrizado entre ver e encontrar a saída da nostalgia, buscando a palavra perdida no silêncio do pátio, ali mesmo, amparada pelas mãos, dou com a minha cabeça frágil  como se ela planeasse desprender e colocar-se na viagem do demente que não parava de recitar cânticos desafinados, versos ardentes de loucura tomados de algum pomar de vinhos inspirados no trem da sombra das acácias rubras em flor, mesmo à nossa frente.
 Como é louca a janela do pátio. Ela é como estábulo de dias bons e de dias amargos. 
Ali as horas são como páginas do relógio nas mãos do sol, sonâmbulas e cativas no sonho do poeta.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Maio uma Ilha à Espera

  MAIO UMA ILHA À ESPERA

 Nesse dia cumpriu-se o horário do voo Praia/Maio. O visitante sentado a meu lado era europeu e quis saber informações de outras ilhas, mostrando-me o folheto ilustrado dos vários destinos ilhéus. Passamos em revista os custos da viagem e de estadia em residenciais domésticas, na sequencia ele comentou que a tarifa aérea de 5. 074$50 - Praia/Maio-, em cerca de 46,02€, dava para muitas milhas dentro da europa, a conversa foi interrompida pela aterragem no aeroporto local. Eram nove horas e quarenta minutos de sexta-feira. O dia estava pardacento. Em Março o vento nordeste costuma puxar muita poeira do continente para esta zona do trópico, ofuscando a visibilidade, sujando e também perturba a saúde das pessoas. Sempre achei Maio uma ilha graciosa e de parecença incomum. 
Ela goza do privilégio de ter uma população trazedora duma vivência de sossego e de paz, embalados pelo rolar saltitante do mar nas areentas praias e pontas calcárias, marcos antigos erigidos sob o peso do silêncio primitivo, recurso exótico que confere à paisagem identidade própria e qualidade de vida impar (por explorar e valorizar), oferta de luxo para todos quantos procuram a ilha e a capital Porto Inglês, para relaxar, viver, trabalhar ou augurar projectos económicos.
A longa e bela marginal (em obras) trará outra aparência á baixa da cidade porto de antigos baleeiros, marcada por pontos figurativos e marcos históricos entre os quais a emblemática igreja católica.
Contrariamente ao bulício das grandes cidades, onde, praticamente, ninguém é ou está para ninguém, a cidade e os lugarejos oferecem ao forasteiro acolhimento e convívio, modéstia e simpatia e um elevado grau de civismo reflectidos na configuração da urbe (em expansão) com elevado grau de limpeza, cuidados que, mantidos, conferem grandeza e bom nome social á ilha. Defendo a ideia de que o progresso económico e social da ilha, de modo algum, deve danar e esvaziar a reserva moral e os valores cívicos protegidos pelas famílias e pelas colectividades.  
Oriundos de Santiago, ilha vizinha, impactaram a vida económica da cidade, montando estabelecimentos comerciais e pequenas realizações voltadas para o turismo (em stand by), expectando o futuro que se desenha promissor neste sector da economia local. São vários os europeus que elegeram edificar casa própria, caso de ponta preta, passando na ilha a maior parte do ano, ou em estâncias turísticas (inacabadas pelo impacto da crise), residenciais e restaurantes mitigados, reflectindo o exíguo mercado turístico, marcado pela anomalia dos transportes (marítimos e aéreo) pelo deficiente provimento de géneros e víveres, pelo fraco fluxo interno e de visitantes externos, quiçá, agregado à fraca ou nula promoção do destino Maio pelas agências de turismo ali sediadas ou fora dela, carências que indicam que Maio precisa conectar-se a um projecto forte de oferta de pacotes de estadia variados com tarifas convidativas e bem ajustadas à qualidade de serviço prestados pelos emissores e recebedores do tráfego.
As tarifas de 5.074$50, passagem aérea e 2.900$ e 2.750$, mais taxa turística, de dormida por individuo, em residenciais de 8, 10 a 15 camas, podem não ser onerosas para alguns, porém, potenciais visitantes internos cientes de querem variar seus fins-de-semana numa ilha diferente não o fazem porque os custos não compensam. A ilha do Maio tem muito para oferecer e para agradar os visitantes. Precisa de iniciativa, orientação e bom rumo aos recursos presentes, comida, estórias, crenças, cultos, romarias, teatro e música, sobretudo do que mais sentido e fundo existe na vida maiense – o exotismo do seu silêncio.
Olhando para o motivo que me levou á ilha destaco que a Conservatória dos Registos, as Finanças, a Câmara Municipal do Maio, o Banco Comercial do Atlântico, a Residencial Marilu, a Esplanada o Corsário, foram serviços que me acolheram e atenderam às minhas solicitações. De salientar a simpatia e o bem servir em todos eles. Olhando para os amigos gradeço bastante o Delegado Escolar Sr. Adalberto Teixeira, o empresário Sr. Jorge, os músicos Tibau, Mike e Manuel, o director da Cultura da Camara Municipal do Maio, as professoras e os professores, (vários de Santa Catarina), à Dona Nhunha, ao Zé Enes, ao suíço Sr. Markos, ( residente) às professoras e amigos da Calheta, aos jovens anónimos que estimaram conhecerem-me em vida. A todos vós, caros amigos, o meu muito obrigado pela amizade e simpatia.
De forma particular agradeço o Presidente da Camara Municipal do Maio, Sr. Manuel Ribeiro, pela visita de cortesia a mim concedida e a gentileza de acolher as ideias de valorização da cultura e do bom nome do Concelho que esforçadamente dirige.
Finalmente, peço à Senhora Ministra que tutela o turismo o favor de colocar na sua agenda de trabalho uma visita ao Maio, para avaliar e propor soluções viáveis para este sector de actividade em stand by.