quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Pé de Prosa

A RUA ONDE TUDO
PODIA ACONTECER

Havia uma rua, de seu nome verdadeiro, Rua Capitão de Infantaria Eng.º António Monserrate Lencastre de Sousa Pinto d’Almeida, cuja etiqueta era mais longa do que a ruazinha do bairro novo mandado construir pelo Governador por ocasião dos quinhentos anos do achamento da Ilha. Eram estas as origens da rua que o povo, ignorando o laureado e seus feitos heróicos, cascou o nome Rua Pandonga.
Nho Pango marido de Nha Pandonga era jardineiro do palácio do governador. Feita a distribuição das casas coube ao assalariado a moradia que ficava á esquina onde a placa foi colocada. As laterais de duas janelinhas davam para um descampado, onde mais casas vinham sendo construídas, restando um largosinho onde os meninos jogavam à bola. Com a reforma, o jardineiro viu o seu salário reduzir-se bastante e, para ajudar a casa, sua mulher arrumou um tabuleiro de venda e ao lado uma tigela com pastéis de milho recheiado.
Com o tempo, não podendo ela continuar mais no ofício por causa da idade avançada, herdou-lhe a filha, Donguinha Preta. Inovando, a jovem vendedeira montou um caixote feito mesa, onde punha o negócio, ladeado por quatro moxo (banquinhos de madeira), para os clientes. De pastéis, passou a fritar também miudezas de porco, passando a vender mais, sabido que bebida puxava pelo bafíu e vice-versa. A moça tinha um espírito tolerante, coisa que agradava muito os que iam para ali desenfadar às tardinhas.
Às dezoito horas abria-se a esquina e fechava-se não havendo clientela. Era assim todos os dias. Ali, todos tinham uma cena para contar. Era um autêntico palco de verdade popular, verdades vividas. Os que se estonteavam encostavam-se à parede a falar corrido. Os despertos davam-se aos copos. Dizia-se de um fulano que seguia em direcção á casa, após ter deixado o lugar, a meio caminho, começou a bracejar como se estivesse em puxa-puxa com algo invisível. Outro, findo o último pingo, começou a espernear e a espumar pela boca como se tivesse ingerido detergente. Outro ainda, apenas o cheiro do copo, fê-lo cair seco russo, nem água por cima o acordou da calema que o apanhou. Não obstante o que vinha acontecendo, mais, e mais clientes visitavam a esquina. Ali a bebida era bem servida e a bafa baratinha. Nho Lixo, cliente assíduo, quando puxado nela, falava sempre duma coisa redonda cheia de luzes que aparecia no largo com gente em fato-macaco laranja a inspeccionar o local. Até o velho Nho Pango, pai da rapariga, contava ter visto homens fardados de branco, armados, seguindo no meio do breu, desaparecendo na rua detrás.
Enfim, muitas estórias davam conta de cenas incríveis que o lugar inspirava e onde tudo podia calhar, contudo, desconheciam o paradeiro dos cães que nas redondezas latiam noite dentro até de madrugada.
A vendedeira que sabia de tudo, diariamente, mal o sol se punha, arrumava a esquina para acolher a clientela.                        (Conto curto do Livro - Descantes d'nha Ribeira - não publicado) 



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Olho k não nos Vê

          NASA captura incrível imagem
                   do `Olho de Deus`


A tonalidade violeta foi registrada pelo telescópio Galaxy Evolution Explorer, também chamado de Galex, no Instituto de Tecnologia de Passadena, na Califórnia Nebulosa Helix: Considerada uma das mais próximas do planeta Terra, a Helix encontra-se a 650 anos-luz de distância, na constelação de Aquário.

São Paulo - Conhecida como “Olho de Deus”, a nebulosa Helix teve essa incrível imagem capturada pela Nasa. A tonalidade violeta foi registada pelo telescópio Galaxy Evolution Explorer, também chamado de Galex, no Instituto de Tecnologia de Passadena, na Califórnia (Estados Unidos).

As nebulosas são um dos objetos mais impressionantes no céu noturno. Elas são restos de estrelas e nuvens interestelares de poeira, moléculas, hidrogénio, hélio e outros gases ionizados, onde nascem novas estrelas.

A nebulosa foi descoberta no século 18 e é identificada por NGC 7293. Considerada uma das nebulosas mais próximas do planeta Terra, a Helix encontra-se a 650 anos-luz de distância, na constelação de Aquário.

A Helix continua brilhando por conta da intensa radiação ultravioleta emitida pela estrela anã branca, no centro da nebulosa. A radiação lançada aquece as camadas de gás expelido ao redor, formando esse incrível efeito.  (Tomada na net - Noticias da NASA)


Nos EstadosUnidos

                                                 Concursos estúpidos para gente estúpida

Edward Archbold, 32 anos, caiu repentinamente no chão depois de ingerir uma grande quantidade de insectos. A competição teve lugar na passada sexta-feira, no Sul da Florida, e premiava o concorrente que conseguisse ingerir mais insectos.Archbold foi o vencedor e no final levantou bem alto o prémio que tinha acabado de conquistar ao vencer a prova, uma pitão. Porém, pouco depois, Edward Archbold caiu inanimado no chão.
Segundo conta o Daily News, o homem foi transportado rapidamente para o hospital, tendo vindo a falecer pouco depois.
Apesar de os médicos ainda estarem a aguardar a autópsia, este não encontram explicação plausível que relacione a ingestão dos insectos com a morte do jovem. «A menos que os bichos estejam contaminados, não se sabe como ocorreu», disse um professor da Universidade da Califórnia. «Existem pessoas que são alérgicas a baratas, no entanto, estes insectos não são portadores de toxinas».
                                                    ( Noticiado no jornal português SOL)





sexta-feira, 5 de outubro de 2012

DeSoRdeM em ORdeM

                          DESorganização


                          Um texto de Priscila Stucky

Após ler esta crônica um tanto quanto científica, você saberá como uma pessoa desorganizada tem sucesso na vida.

O homem acorda para ir trabalhar pontualmente às sete e meia. Vai para o banheiro. Liga o chuveiro, para ouvir o barulhinho. Faz xixi, fecha a tampa do vaso sanitário. Entra no banho. Lava o cabelo com champô. Passa sabonete no corpo. Sai do banho. Seca-se com toalhas limpas. Escova os dentes. Faz a barba. Passa perfume. Sai do banheiro. Pega a roupa previamente mentalizada. Veste-se. Vai para a cozinha, aperta o botão da cafeteira. Pendura a toalha molhada na lavandaria. Toma café com torradas, escova os dentes. Pega a sua pasta, o celular e a chave do carro que está no porta-chaves da cozinha, vai para o trabalho, chega pontualmente à reunião.

Vejamos esta situação corriqueira na vida de um feliz desorganizado. Ele acorda atrasado, não porque não colocou o relógio para despertar. Ele fez isso. Mas esqueceu o relógio na cozinha, tendo despertado os vizinhos menos a si próprio. Pessoas desorganizadas têm o sono pesado. Acorda atrasado, vai para o banheiro, liga a água que não esquenta de jeito nenhum. A luz foi cortada às oito da manhã porque ele esqueceu de pagar a conta. Toma um banho frio que é óptimo para a pele. Pessoas desorganizadas têm óptima pele. Como não tinha sabonete, ele limpa o corpo com champô. Conclui-se que uma pessoa desorganizada inventou o sabonete líquido. Procura uma toalha para se enxugar, estão penduradas na corda. Dá uma corridinha rápida até o varal e pega uma. A vizinha de noventa anos o vê pelado e passa o dia sorrindo. Pessoas desorganizadas alegram os idosos. Ele vai procurar uma roupa, mas todas estão sujas, ou por passar. Encontra um terno, e coloca com uma camiseta branca, passando só a parte da frente. Fica muito sexy. Pessoas desorganizadas são sexy. Ele sai sem tomar café preto, já que a cafeteira funciona com electricidade. O que faz muito bem para a saúde e não deixa os dentes amarelados. Entra no carro que sempre está com a chave na ignição, desta forma nenhum ladrão rouba pensando ser uma pegadinha. Pessoas desorganizadas não têm seus carros roubados.

Mas ele precisa voltar para o apartamento, pois esqueceu os papéis para a reunião. Obviamente os papéis fugiram de onde estavam. Ele começa a caça, e encontra uma carta de amor da primeira namorada. Pessoas desorganizadas têm agradáveis surpresas. Ele não encontra os papéis para a reunião, mas vai assim mesmo. Todos estão esperando, estão atrasados vinte minutos. Ele pede desculpas, e vai falando que todos os conceitos para aquele projecto precisam ser revistos. Abre a pasta, pega um calhamaço de folhas aleatoriamente e as rasga na frente do seu chefe. Diz que trabalhou naquilo durante toda a semana, mas é humilde o suficiente para admitir que não fez um bom trabalho. Que pode fazer muito melhor. O chefe fica impressionado com o funcionário impetuoso, e pede para que ele diga o que pretende mudar no projecto. Como todo desorganizado é criativo ele faz uma explanação muito melhor do que letrinhas no papel e é promovido. Enquanto o desorganizado fala, o organizado anota toda a pauta para que o chefe tenha tudo escritinho. O desorganizado tem agora uma secretária que fará os pagamentos. Sua pele vai piorar bastante.•

Nomeia o organizado seu assessor. Como primeira tarefa, o organizado retira os papéis rasgados da mesa, lê e comprova que era o projecto antigo.

Conclui que o desorganizado é um génio. Pessoas desorganizadas são geniais, porque só sendo genial para conseguir sobreviver a tanta desorganização.





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Da Gaveta de Registos

 Vou-vos falar um pouco de uma classe de profissionais muito relevante e ao mesmo tempo muito controversa, os estivadores do porto da Praia e um pouco do seu mundo de relações.

O que toda gente sabe é que em termos físicos o porto da Praia melhorou bastante e melhor ainda vai ficar com o fim das obras de expansão em curso e que em termos organizativos o complexo portuário vai precisar de novas medidas e adequação dos serviços aos novos espaços emergentes e qualificar os recursos humanos a vários níveis. É o visível e o sabível.

Mas, vamos ao invisível e pouco sabível.
Se à frente dos nossos olhos os estivadores parecem uns desgraçados, um grupo profissional sacrificado no altar da exploração laboral, por detrás disso tudo as coisas são bem outras. Registam-se factos inacreditáveis. Morre muito dinheiro em suas mãos. Recebem bom dinheiro, mas gastam-no muito, muito mesmo num só dia em paródias colectivas suportadas por uma única pessoa. Quinze dias depois, ela, a sua casa, os meninos entram em cruel padecimento. Esta é uma verdade nua e crua. Trabalho duro, sim, mas deixa resultado, mesmo bom resultado. Aquele grupo ciente do rendimento do seu trabalho possui casa própria, andares com quartos arrendados, transporte de mercadorias, tratam bem da família, têm filhos no liceu e na universidade, saldam os seus compromissos bancários e têm uma vida decente.
Porém, aqueles, a maioria, entregues ao desleixo acabam vítima do álcool ou da droga e quando assim acontece entram de conta própria na indecência da vida, indo a ponto de alugar a sua vez de trabalho a outrem, a troco de uma quantia acordada, havendo, por vezes, crispamento na hora de pagar ou receber o valor.

Vai um pouco do guardado na minha gaveta de registos:

i) as mulheres negociantes (as sabidas) escolhem juntar-se ou casar com os estivadores idosos ou reformados para conseguirem arrumar haveres domésticos de valor e casa para si, antevendo o fim da vida do marido minado pela vida que levou;

ii) há estivadores sabidos que aceitam antecipar dinheiro a colegas viciados em droga e álcool, cedendo dez para terem de volta quinze contos ou mais conforme as circunstâncias, funcionando como um banco. Fiança documentos e cartão 24;

iii) as mulheres fornecedoras de comida e de bebida tomam de fiança o cartão 24 do seu devedor e sim que o salário do mês é depositado na conta, ambos vão levantar o valor em dívida para não haver fuga;

iv) derivado do sustento de duas ou mais casas alguns acabam ou acabaram sós por maus tratos às companheiras, filhos do casal ou unicamente da companheira;

Enfim, há um submundo onde as relações se processam segundo a lei do “sabido fla dôdu é pa ingana” onde não existe dor nem piedade, onde a tolerancia é zero e onde os compromissos assumidos são pagos no prazo certinho sob pena do ajuste de contas. Quem assiste de fora condói por desconhecer o modus vivendi, outrossim, por não pertencer ao sistema, pelo que, politicamente correcto, tê-los como elo fraco da sociedade (pobres e desprotegidos) é legítimo.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Outubro Poético

O desafio
É covardia de quem o dita
e valentia de quem o aceita.
Um percorre o fio do medo
o outro doma-o

O desafio
à vontade dita não pertence.
À de rija fibra unicamente.
Esta não escolhe o momento
o dia a noite o sol e o vento

O desafio
É brio desabrido num fio
                          (de faca)

                                                                       Poema do livro ChãoTerra Maiamo já publicado.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Letras na Gaveta

No dia seguinte, logo cedo, chegado para trabalhar na estiva, encontrou o maior reboliço do mundo junto ao portão de entrada no porto. No meio da vozearia ali instalada uma mulher clamava ruidosamente: - Ele tinha apenas catorze anos. Ele era uma criança. Assassinos! Autoridade?! Onde está a autoridade?! Chamem a polícia! Desesperada gritava uma outra lá do seu tabuleiro de venda. Coitado do menino! Assassinos! Tiraram vida a um anjo de Deus por causa de uma coisa de nada. A notícia veiculada era que o menino tinha arrebatado o maço de dinheiro das mãos do auxiliar de despachante oficial à entrada da Alfândega e que no grupo que o perseguiu, alguém atirou uma pedrada acertando-lhe fatalmente na cabeça. Ninguém sabia dizer de que mão tinha saído o naco de basalto mortal. Veio a polícia, mas ninguém foi responsabilizado. Estava tudo muito confuso. Dali, o menino foi levado para o hospital. Txitxarrinho era seu nome de rua. O nome próprio ignorava-se. Vivia na vizinhança do porto. De que localidade também ninguém sabia. Após o exame e confirmação médica o cadáver foi mandado colocar na casinha do morto. Passou ali uma manhã inteira sem que ninguém reclamasse o corpo. No mesmo dia, ao fim da tarde, o caixãozinho municipal, azul desgastado, seguia numa velha ambulância para o cemitério da cidade certificados pelo motorista e por um funcionário ligado à casinha mortuária do hospital. No cemitério dois serviçais camarários estavam prontos a mandá-lo para o fundo da abertura num chão ressecado onde nem planta da babosa parecia resistir a tamanha aspereza. Tudo foi rápido. Morte rápida e mais rápido ainda o enterro. Se alguém chorou a perda dessa vidinha em pleno crescimento a cidade não o soube. Ninguém mesmo se viu embaraçado ou impedido de continuar nos seus afazeres ou mesmo na pândega. Também esta tragédia não ia mudar a vida de ninguém, de nenhum bairro e nem da cidade. Os meninos largados no olho da rua iam continuar na mesma. A crescerem e a viverem na rua. Nada ia mudar porque o menino desfeiteado é filho de ninguém. Nem da lei e nem de Deus. Com o morrido aconteceu como lume num pau de fósforo húmido. Faiscou e expirou logo. Melhor seria se o mar o engolisse e levasse o seu corpo para a fundeza das suas águas, guardá-lo, sem campa, sem plantas, nem flores, do que tomado pela terra numa cova ignorada.


                                  Parte do conto NO OLHO DA RUA do livro - Descantes d'Nha Ribeira - não publicado.




O Salto

SALTO é provocar rompimentos sensatos saneadores do tradicional desnecessário. 
SALTO é formatar a cultura do sucesso faltante no pensar, no conceber e no agir do indivíduo.
SALTO é criar a ponte possibilitadora do fluxo de relações e de proveitos em tempo recorde.
SALTO é saltar de modo a não ofender o quadrado (sen ratxa fundidju, dito, em caboverdiano.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pa Dia di Múzika


Finata 19
Stadu ton di seka y na rafugu di rizistensia
Soris kaídu azágua speradu sonhu perdedu
Na kontra ton anu sen konta nos insistensia.
Fomiadu forsadu kaminhu sul fidjus moredu
N'alma lamentadu di tera-mai nos izistensia
Gana-l sai y gana-l fika na intentu mordedu
Ki fundianu fé na petu y ki fundinu speransa
Na no'sprítu kriolu na bandera nos kudansa.



Finata 20
Txuba é spiga-flor na ligria-l nos speransa
Bib'alma na sonbra-l konfortu sen si mágua.
É son d'inxada na txon podu ki ka ta kansa.
Odju seku d'Otubru gran é kudar d'azágua.
Si abertu séu di txuba é simenti na bonansa
Así perdedu é plantas na dor di ka ten água
Jeografia di tenpu é odju txobedu na fodjada
Si, Sael sopradu é kastigu-l tenpu na morada.
          (Do Livro Konfison na Finata)

Txuba-Txôbe


Nas contas da azágua outubro é a pedra mesta.

Poemas do Litoral

ESPELHO D'ÁGUA EM ARCOS DE PEDRA Dois retractos do antigo Dezembro à janela do presente mirando o desmoronar do tecido verde das ...