quarta-feira, 26 de abril de 2017

Depoimento



LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA
CABO VERDE PROSA LITERÁRIA PÓS-INDEPENDÊNCIA
DEPOIMENTO
  
Caro confrade Jorge Carlos Fonseca, poeta e prestigiado Presidente da Republica, agradeço a aprovação da apresentação da obra - Cabo Verde Prosa Literária Pós – Independência - neste magnifico espaço – Sala Pequim da Presidência da Republica, bem como o programa do ciclo de leitura, gesto honroso, justamente na vizinhança do dia da celebração dos 110º aniversário do nascimento de um destacado patrono da nossa Academia de Letras – Baltazar Lopes da Silva.
 Daqui saúdo a produtiva cooperação com o Banco Interatlântico, instituição benemérito da nossa Academia de Letras, quem suportou por inteiro esta bela obra; louvo as organizadoras desta suculenta compilação de contos curtos: as Professoras Érica Antunes, Fátima Bettencourt e Simone Caputo Gomes,  membros da ACL, pela gentileza, agudeza de espirito e pela capacidade de realização deste belo exemplar em pouco tempo; Realço o belo trabalho da Acácia Editora, na pessoa do Sr. Joaquim Morais, pela minúcia e cuidados dispensados, pela qualidade e boa apresentação desta moderna coletânea de contos. O meu muito obrigado aos cooperadores e á ilustre assistência, sempre nossa seguidora, pela presença e estímulo.
 Permitam-me insinuar que recolher e compilar o melhor nunca foi simples, mas romper estorvos e fazer, é superar hesitações.
As organizadoras foram sensatas na preparação deste autêntico mostruário de novas letras, de novos mensageiros, de novos escultores do verbo, todos eles edificadores da cidadania operante (em crescimento) cujo talento e fantasia fazem-nos viajar pelo mundo e pela sociedade crioulos, mas também para fora dos limites da ilha, invocando ambientes e visões, alegando e narrando intrigas e réplicas, narrativas estas erigidas em marco colateral ao da claridade enraizado no regionalismo e no universalismo, como defendia o poeta e ensaísta Manuel Lopes ao evocar a problemática da literatura nos meios pequenos ou acanhados e nos meios grandes, sendo o marco de agora inserido no tablado global do mundo, distinto em rumo e modelo literários, sem que a pena nacional nascida do sal da terra, têmpera da trova, da poesia e da prosa ilhéus, perdesse emoção e vigor.
 Ao tempo da claridade, pouco parecia muito, ao invés, hoje, tempo das novas letras, vários são pouco, mesmo com a anulação dos limites que a criatividade de outrora se sujeitava, não obstante, editar, ainda é freio a superar. Porém, criar e produzir são tarefas que cabem aos escritores, vulgarizar é empresa das editoras nacionais e externas, mas zelar e conservar o património literário construído cabe, primeiro, aos autores e suas associações de classe, cumprindo ao estado defendê-lo e protege-lo através de medidas e de acções concretas, sabendo que as letras cabo-verdianas são os alicerces da nossa identidade e massa da caboverdianidade no mundo, como tal, devem, todo o tempo, estarem vivas nas escolas, nas universidades, nas livrarias, nas bibliotecas, para estudo e difusão, e também nas mãos dos leitores e traduzi-las em outros idiomas e coloca-las noutros espaços de leitura.
 Estamos perante uma colecção de textos em prosa que espelha o elevado interesse da Academia Cabo Verdiana de Letras em divulgar as criações dos autores nacionais, alguns bem conhecidos, outros, nem tanto, sendo, todos eles, obreiros de estilos e de contares do passar das ilhas, das gentes e dos esquemas de comportamento, reflectindo apegos, visualizações e ponderações, quiçá, revirares da vida, ciente da perpetuação dos seus nomes e das suas obras e ao mesmo tempo presenteá-las aos amantes do livro e da leitura onde quer que estejam.
 A presente Antologia, sem forçar o calendário, refere-se ao período aludido na capa do livro - Cabo Verde Prosa Literária Pós – Independência, e revela com prudência e audácia um percurso prolífico dos autores e das letras cabo-verdianos neste lapso de tempo. Trata-se de um projecto e de uma solicitação da ACL cujo labor foi confiado a um trio notável de cultoras referidas na portada desta comunicação, entidades de confirmada competência e dedicação na valorização e na difusão das letras nacionais, um debruçar aturado sobre prosa diversa de escritores vários, resultando neste bonito indicador do itinerário da palavra nos mais variados sentidos, acomodando iniciativas, crer e querer crioulos, ideando lugares que decerto amaríamos viver perenemente.
 Esta obra identifica um tempo portador de pactos, de retornos e de inícios, envolvendo quarenta e cinco títulos de outros tantos autores com os pés fincados no mesmo centro e de olhos postos nos graus da girante da bússola determinante da aventura crioula, proeza do “navio de pedra que busca o rumo sem poder encontrar-lo no seu lugar”, citando o eloquente poeta Gabriel Mariano, nau, hoje, transformada botão do clik portador de novos rumos e viagens, de pontes sobre o mar que rola novos sonhos, de mãos inventoras do molhado que não se tem, de cultura no corpo da comunicação, mas, também,  terreiro da reconstituição permanente do sujeito poético, cutelo, onde, os poetas e os escritores hasteiam o pendão identitário, abrigo, onde residem, renascem, transformam-se, criando episódios a partir da vida vivida e prenhes de caminhos vindouros.
Ilustres senhores situamo-nos no tempo das novas letras. 
Termino, dizendo, que ao alinhavar estas palavras uma incerteza bailava-me nos sentidos: será que a literatura pós-independência é deveras impactante e portadora da mesma força incitadora tal como a que antecede a este período?


segunda-feira, 24 de abril de 2017

País Em Fio Dental - Rapizius

PAIS EM FIO DENTAL 

A solução que ganhou está alta:
Os festivais não param e a mediocridade também
Vendeu-se em surdina toda a orla da Gamboa.
A obra de David Show está à espera de parceiros
Os TACV faliram de vez e não há como indemnizar
Não há regionalização por não se saber como
O Orçamento do Estado começou a não ter dinheiro
Os financiamentos externos só 2019 com a Europa a cair
Os europeus marimbam na supressão de vistos
Vão sair ministros do governo reduzido e competente
Vão entrar democratas para governar o vento
Há riscos graves com a isenção do IVA aos municípios
Não se empregou nem 0,00001% dos 45.000 prometidos
As mordomias da dimokransa continuam
Despartidarizar é fantasma escravocrata
A matança continua e a delinquência aumenta
O Blá-bla é desculpa para divertir os ignorantes
A reforma do estado é calça e camisa txapa-txapa
A ilha do Fogo caiu no bluff e San Filipi bira más sabi
Este ano o milho vai dar sem haver chuva
Este ano é o ano do grande início do ciclo do fim.


Loas ao Grogue

LOAS AO GROGUE

Viva o grogue. Honra e glória à bebida nacional. Hossana, trapiches, alambiques e bois. Odeio esta mania de gostarem do grogue às escondidas. Odeio as novas bebidas que não seja o grogue. Todas elas, incluindo o xarope. Para onde quer que se vá, não há outdoors a promover o grogue. É falta de patriotismo. Grogue é grogue, digo, cana é cana, quer dizer, grogue é cana. Grogue é beleza porque inspira. É perigo porque é transparente. O grogue em si é um bom governo.
O bom grogue não é para nos compreender, nem para nos ajudar, nem para nos fazer felizes. É para nos provocar. Tanto faz. É uma questão de azar ou de sorte. O grogue não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, mas para dentro da nossa gaiatice. O grogue ama o limite. Come o macho, a fêmea e o homossexual. Somos todos bêbados sem beber. Quando bebemos somos santos. A vida às vezes mata a vontade de viver e o grogue não, porque bebê-lo é uma conveniência à morte.
O grogue puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. É caule que nos alimenta. Tem tanto a ver com a vida de cada um de nós como a cachupa. É capa da bafa e faca na boca. É perfume é pistola líquida. O amor pelo grogue não se percebe. Não dá para perceber. O amor por ele é um estado de quem se sente vivinho da silva. O trapiche ama a cana em cio a desabar orgasmo. A desabar e a correr atrás da taberna. Cana é avião, é chão e cemitério. É sogra do garrafão e genro da garrafa e primo-irmão de primeiro grau do copo que por sua vez é compadre do balcão.
O grogue é sempre uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária, é bonita e não faz mal. Que se invente e se minta e se sonhe o que quiser. Grogue é amparo e poesia. É bilhete de viagem que pode matar, pode inspirar, pode dar e tirar vida, pode cortar o calor, pode combater o frio, pode curar, pode ajudar a lembrar, pode fazer esquecer, pode desiludir, pode desinibir, enfim pode levar o homem a ser homem, por muito desesperado que esteja.
Em última instância o grogue propicia uma boa noite conjugal, de serenata ou de guarda cabeça, ajuda a tra spésse y tra boka de morto.
O grogue é o símbolo mais vivo da global-caboverdianidade. É assunto para uma boa assembleia de magistrados, do governo, de deputados, de partidos, de quebrados, dos fofoqueiros e dos videntes do blu. O grogue é o parceiro mais democrático da república. Ele é constituição e direito humano. O grogue dura a vida inteira e a vida dura enquanto pode-se tomá-lo.
Grog é pa kenha ke sabê bibe-l. Cantou Luís Kabel.


domingo, 9 de abril de 2017

Rapizius - Eu, Espelho e Metafora


Caros e assíduos leitores da minha página

Esta é a última publicação RAPIZIUS, exercício de narrar em 500 Palavras. Devo esta aprendizagem ao Poeta Mario Fonseca, quem me indicou Edgar Poe e Virgílio Pires, mestres em Short Story e Corsino Fortes, poeta e narrador épico das ilhas, a me mostrar que escrever é exercitar a memória.


Eu, Espelho e Metáfora

Colocar-me “nun prit” diante do espelho era o exercício da semana. Esperei a hora adequada para o fazer. Duas da manhã, momento de todos na cama e de discreto silêncio. Logo à entrada, o aparador ostenta a bonita superfície polida do vidro há anos, onde, todos os dias, confiro o porte antes de sair. Já me posei vezes sem conta diante do espelho ora bailando, ora treinando os músculos, e nesta madrugada havia de ser calvo para repetir a experiência de Leonardo Da Vinci.
Antes do sério fiz umas caretas a gozar com o parceiro do lado oposto. Logo, pensei. Levantar a superfície da água e coloca-la no vidro é obra de louco. Só podia ser. Não sei se quem se olha no espelho vê tudo o que a imagem oferece.
Será que conferir a parecença diz tudo?
O espelho é minucioso. Sugere nós próprios. Portanto, ele é depositário de privacidades, ele é algo acesso que não se abre e nem se fecha. Se há alguma verdade neste mundo, ela é a nudez diante do espelho. Nascemos nus. A nudez fala-nos da pureza. Perdemo-la ao nascer e ao voltar não damos conta. A nudez do morto é a nudez da vida. Ela é também fornalha do amor que a lua-de-mel exercita até à exaustão. Sendo ela a expressão da verdade ditada pelo calor da pele e pelos vapores da alma, resumidamente, a nudez é nado-mundo em chamas.
Descrever a nudez é materializar a mente calva. As palavras é o movimentar dela. O mesmo se dá com a música. A pauta é movimento da alma no apogeu da sua nudez, sendo a nudez diante do espelho metáfora de um polígono em trânsito.
Nunca a nudez me pareceu estranha. Visito o meu corpo nu, sempre. Nunca perdeu virilidade. Nunca se aterrorizou de si próprio. Amo a nudez do meu corpo no palco do espelho, onde o completo afigura-se uma estátua de bronze erigida no centro de um reino. A nudez verdadeira é insubmissão, entre o começo e o fim de um gesto. Ela é uma espécie de princípio e fim do éden, tal como a viagem de Enoque ou o paraíso de Adão e Eva, onde o nu armou o pecado original e dilatou o prazer cárneo em todos os seres, sendo, por isso, tabu, algo impedido pela moral social, porque atribuído a loucos. A nudez pública é imoralidade. Assim diz a norma. Mas a nudez esmerada é arte, é símbolo da carnalidade explorada e mercantilizada pelos Mídias na suposição de que se trata da prática da liberdade de expressão corporal, coisa atendível em sociedades abertas, que, no entanto, nas acanhadas ou pequenas é ofensiva, porque conotada com putaria. Do ponto de vista artístico a nudez é metáfora, é insubmissão e sensualidade e código do erotismo. Tanto o nu do espelho quanto a nudez de um corpo é dom de desafiar.
Nada é mais sincero do que a nudez da opinião reflectida em forma de Rapízius.

sábado, 8 de abril de 2017

Nossa Casa em Assomada


NOSSA CASA EM ASSOMADA

A nossa casa era espaçosa e tinha um quintal grande. Ao fundo a capoeira e o chiqueiro. De um lado a despensa de chão empedrado que guardava tambores de mantimento, garrafões de sementes, latas de gordura, tina de salmoura, arranjos de azágua e sacos de mancarra. Do outro lado a cozinha de terra batida, igualmente ampla, tendo ao centro fogões de três pedras, um para caldeirão grande e outro para panela pequena, além do de barro a carvão para o bule e esturrar o louro. Na cozinha de uma parede á outra, justo no ponto da subida do fumo da lenha, havia o travessão de pau de carrapato para fumar enchidos de porco. Temia entrar na cozinha á noite por causa do enegrecido das paredes e da coberta, não com a despensa. A aventura de forçar a porta para entrar e trazer punhados de mancarra para o quarto de dormir bania toda a espécie de medo. Mancarra com açúcar era sustento que tinha fama de desenvolver os cavalos, torna-los fortes e velozes para as corridas, qualidades desejadas pelos jovens para poderem competir com colegas de escola e atacar a disputada da bola. Crendo nesta fama eu comia às escondidas mancarra com açúcar no silêncio da noite, antes de dormir. Nesse dia a lata de graxa onde eu punha o açúcar estava vazia. Com pés de rato saí à procura do boião de vidro com açúcar. A guarda comida estava fechada a chave. Socorri-me duma faca. Não se encontrava ali o recipiente. Fiquei atrapalhado. À luzinha do candeeiro, aproximei-me da porta do quarto do avô, na mesinha de cabeceira, ao lado do bule de chá e das chávenas estava o boião. Pensei duas vezes. Na vez de três, decidi trazer o açúcar. Agachado como um felino ziguezagueei até chegar perto do lugar. Ao esticar a mão para alcançar o vidro, caiu a colher, o avô acordou. Ao pôr os pés no chão, colocou-os em cima de mim. O grito acordou a casa inteira. Meu pai compareceu de manduco numa mão e lanterna noutra mão. Já o problema era outro. Menino desmaiado no chão. Água de pote na cabeça fê-lo vir a si àquela hora da noite. Instado a relatar o que tinha acontecido, o menino começou a contar: senti um barulho no quintal, espreitei pela janela, um vulto vinha da cozinha em direcção ao quartinho, refugiei-me na sala de jantar, armei-me duma faca, ao recuar vi a guarda comida aberta, fugindo á perseguição escondi-me no quarto do avô, senti algo em cima de mim, gritei. Nada mais ouvi. Serenado o ambiente, nada obstou que os despertados dormissem como se nada tivesse acontecido. Amanheceu e cada um pegou nos seus afazeres até o cair da tarde. A avó era quem dava conta de tudo o que se passava em casa. Á hora de esturrar o louro chamava sempre o netinho para se divertirem com passagens. Ela começou a contar do rato que comia mancarra com açúcar para ser robusto como o cão.   
   

sexta-feira, 7 de abril de 2017

DIVAGAÇÕES


DIVAGAÇÕES

Era no pendon di banana, tronco da bananeira, que os meninos do meu tempo aprendiam a nadar no tanque de rega da Boa Entrada. Água em cinco escadas era a marcação certa para aprender sem perigo de afogamento. Com os pés a tocar o fundo a água ficava pelos ombros. Da Ponta de Maria Simoa, morada de corvos, via-se o tanque de Caniss na Ribeira da Boa Entrada, ponto de controlo da altura da água. Vendo corvos cruzarem sobre nossas cabeças esconjurávamos para ninguém morrer afogado, nem ser apanhado pelo guarda da propriedade. Banhar no tanque da Boa Entra era ritual de segunda-feira, dia em que os pais deslocavam-se para a feira no mercado dos Orgãos. Cada um de nós tomava um pendon, tronco cortado e deixado na horta. Dos talos desta planta, após secagem, faziam-se vários utensílios, assim como, albardas para burros e mulas e cabazes de transporte de produtos do lugar ou farnel para as fainas agrícolas, cordas, rodilhos e esteiras para a cama ou tapetado para actos funerários cuja reza durava dias, tradição de outrora. Hoje em dia, esteira fincada simboliza casa enlutada.
É aliciante recordar como é que as coisas, os lugares, as plantas, os animais, as árvores, o céu e os fantasmas que faziam parte do nosso imaginário mudaram com o tempo e com a erudição. Tais artefactos que faziam parte da vida campesina de outrora, que moldavam a forma de vida da comunidade, que influenciavam, regiam a sua forma de estar e de crer, bem como o proceder das pessoas, hoje, nem peças de museu são, porque o cabo-verdiano não aprendeu a preservar o passado. Passado para ele é carro-bedjo. O que passou é monturo e não legado. Todo o começante ao chegar o poder brada como o corvo “ é a primeira vez que…”. Não havendo legado, o começante acha os três-bintén e gaba-se da sorte de os achar debaixo da ignorância dos outros, atitude que só pode ser comparada a de um corvo. 
No meu tempo de menino a pessoa comparada a um corvo ralhava-se e refilava a ponto de convidar o acusante à pancada. Hoje, não! Ser-se corvo é normal. Não é depreciativo. O corvo divaga e acha-se. Dizia-se que por mais comida metesse dentro não fartava porque da goela à cloaca é linha única. Passa milho e saía praga. Os espantalhos que tomavam conta dos sítios semeados de nada serviam para contrariar estes esfaimados, descarados, daninhos e superlotados de má-fé, estes agoirentos, praguejadores e nojentos que o meu avô dizia ser filho do pecado razão pela qual, até hoje, Noé o espera regressar á arca. Corvo é vítima da praga da sua mãe, daí o corvejar… quatro-quatro… igual ao número de alças do caixão ou as quatro pontas do esquife apoiados sobre os ombros dos que levavam o morto para o cemitério.
Se os corvos jamais sabem de si, porém, a bananeira frutifica, dá broto novo e deixa o pendão para o artesão e para os miúdos aprenderem a nadar.

AO POETA VADINHO VELHINHO


DA MARGINALIDADE AO POETA NÃO ANTOLOGIADO


 A Valentinuos Velhinho, poeta de ruas correndo noites de insónia

é insosso a escrita que escrevo
vida esbatida em versos rengos 
murmúrios das horas extintas
viagens a lugares desistidos.

broncos os versos que escrevo
papel árido de coisas remoendo
conjuros e sentenças excêntricas 
devaneios dum gaiato varrido.

tronco os poemas que assevero 
fronte crespa de um jumento  
marcha grotesca e impudências   
de quem finge cultivar lírios.

atenção! neles há face e verbo 
que cada um de nós conhece
há gaveta onde mora a paciência  
o infinito a janela e os grilos. 

cuidado! há o pastor austero 
que a galardões não concorre   
há calma suficiente e sapiência    
de jamais vergar ante o elogio.


RAPIZIUS - DIVAGAÇÕES


DIVAGAÇÕES

Estou convicto de que os galos nos querem roubar a verdade para nos impingir corvos por frangos, estou convencido do ajuste de contas entre o mar e o vento obrigados até a raiz dos tomates da Maria, seja santa, seja prostituta, seja praia, seja calhau, seja cristã, seja pagã, todos à beira mar plantados, mar de betão, mar de craques aldrabões de coqueiros inexistentes, de anfíbios a divagar buscando pousos sensatos, mar de remos partidos e botes afundados, mar do tempo de triste memória, mar roubado, mar de protagonistas e capitães de mar e costa, mar de tubarões desempregados e tainhas em stand by, mar engajado em ser lagoa europeia, mar de revisionistas e de rabidantes, mar de despesas, de injustiças, de mentiras, de promessas, de falamentos, mar vazio de conteúdo, enfim mar de cagâ.
Oh! Tanto mar para ver e vencer. Algos e algas não fiquem, pois, à espera que eu me lamente do mar merecido, não contem comigo para a impreterível denúncia nem tão pouco para manifestações, reivindicações e novas formas de luta.
Para já, o mar tem cara de festa, de música de entretenimento, tem cara de amigo, tem cara de caminhos afundados na esperança residente no despenhadeiro da vida, todas estas caras juntas dariam para Achada Mato e Ponta d’Água rechearem-se de arranha-céus, daria para a beira mar das ilhas beneficiarem do banho dos turistas, daria para o regresso definitivo da diáspora, daria, ainda, para solucionar a terra e as gentes.
Há a necessidade de mostrar que sem o espírito deste mar éramos todos calhaus pálidos sem liberdade de pensar, de cantar, de falar, de escrever, de sair, ir e vir, gozar a vida, incluindo saber o que querer e o que querer ser e ter. Virá a indústria de criar a felicidade para todos. Se demorar, não me perguntem.
Porque haveria eu de me sentir culpado da não felicidade prometida?
Não plantei os outdoors, não animei a festa, não contratei artistas, não ajuntei gente, não menti e nem prometi resolver nada.
Estou de bem comigo mesmo. Sou igual a centenas de olhares diante do mar à espera do sul da Europa desembarcar.
Nem desertor nem herói. Apenas, divagador.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Rapizius - Lagrimas de Crocodilo

LÁGRIMAS DE CROCODILO

O encontro do José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, tido há bem pouco tempo com os jovens pertencentes aos gangs dos controversos bairros da capital deu pastagem para muita chacota. Os opositores fartaram-se de blasfemar, os entendidos, alguns, puseram-se em cima do muro, os duvidosos, calados à espera do desfecho da balbúrdia gerada pelo encontro.  
Os taguis que deram a cara mostraram-se "arrependidos", do que fizeram e das consequências daí sobrevindas. Outros com ar de pecadores rodopiavam em palavras sem saberem explicar-se convenientemente qual era o superior interesse dos gangs, do porquê da sua formação e para que prestação.
Dos sociólogos e outros ólogos ouviram-se coisas que os seus livros de formação lhes ensinaram sobre os fenómenos sociais deste género: as doenças sociais em que a violência está inserida, as frustrações, famílias desestruturadas, crise de valores, diagnósticos que todos sabem encontrar cujas soluções ninguém tem por onde começar, justamente porque a autoridade mergulhou-se no paternalismo e no populismo. Proclama-se Tolerância Zero e cada vez mais a acção zera-se no conformismo e na inaptidão das autoridades.

Sigam a conversa tida com um tagui:

Bk. Olá Roy! Como vai a vida? Já te recenseaste?
R. - Sou registado. Já votei algumas vezes.
Bk. Foste ver teu nome no novo caderno?
R. - Não é preciso. Está lá. Só que desta vez vocês têm de me mudar de zona para se evitar o batinbora com os outros. Quero manter-me na minha zona. Sabes a história de marcação de zona.
Bk. Porquê zona marcada?
R. - Ein! Foi uma coisa que veio assim de repente e os rapazes resolveram proteger a sua morada.
Bk. Outros quem?
R. - Dos mais abusados. Abusos há muitos. Os rapazes de outros lugares fazem paródia na zona e abusam de nós. Tomam e não pagam e arranjam confusão, para depois zarparem. Os daqui reagem. Ou não? As coisas começaram do nada. Brigas e desforras. Pelo menos aqui na zona foi assim que começou. Mas há o grupo do fumo. Eles estão sempre juntos para se defenderem também dos que chibam. Cada um tem os seus motivos. Ou não? Os de uma zona não roubam onde moram. Vão para outro lado. Mas nossa zona esta marcada e vigiada pelos que ali moram, para se evitar a invasão.  
Bk. Tu Dony. A tua zona?
D. - A minha zona é calma. A confusão aparece quando algum flaxa por causa da bebida e do fumo. Eu tiro uns fumos para me aliviar. Não é todos os dias. Quando vou levo o trunfo e dou um coche a cada amigo. Rapazes e raparigas de cá dão o alívio para acalmarem o dia. Tudo é na mesma. Nada está a mudar para nós. Não temos nada para fazer entra dia sai dia.
Bk. Viram essa coisa de zona nos filmes ou inventaram isso.
R. - Acho que os verdadeiros tagui sim. Apanham coisas nos filmes. Os filmes americanos mostram a marcação de zona, com grupos de um lado e de outro, combates e outras coisas que fazem para levarem a vida e manter a zona controlada. Vivem como irmãos. Se um sofre todos sofrem e se um tem todos têm. Tás a ver. Não é só filme. É a realidade da vida. Hoje o mundo virou uma coisa só, mas ao mesmo tempo dividido. Ou não? O que dá num sítio longe daqui a gente sabe logo. Tás a ver. É como se tivesse dado aqui. Sentimos. A vida virou uma coisa só em todo o lado. Tás a ver. Os taguis de outras terras têm dinheiro, vivem melhor que nós. Por isso esta influência de tentar alguma coisa, mas de forma diferente, à nossa maneira. De acordo com o que há na terra. Ou não?
Bk. Conheces todos os grupos de taguis?
R. - Não. Conhecer pessoalmente não. Mas eu sei que há Wé Sá (West Side), Sévi Sôdja (Save Soldier), Blé Stá (Black Style), Boss ( Boston), Caixa Baixa, Play Boy, Paralelo, Boca Forno, The Black, Sévi Uaini (Save Wine). Há mais. Esses nomes é que rodam mais entre a malta.
Bk. E kassubódy, agressões e mortes. Como é que é?
R. - Um tagui sozinho não faz mal a ninguém. Juntos, sim. Há um que manda. Quem vai ao caso não é o mais valente. É o sôdja (soldier/soldado). Os outros ficam de olho para no caso de a coisa complicar, quer dizer se a pessoa reagir. Um verdadeiro tagui não pode ser caçado nem pela policia.
Posto isto, fico na minha. Há uma opção quase deliberada para auto marginalização que leva à frustração e ao exercício da desordem, fumo ou bebida, discussão e agressão nos lares, nos bairros e na sociedade, espaços confinados ao feio e longe do harmonioso e da serenidade.
Por mais que a sociedade chore saem lágrimas de crocodilo, lágrimas que não significam sofrimento, porque fingimento, promessas não cumpridas, populismo e crise de responsabilidade não choram, mas sim geram frustração e esta descontentamento e este reação violenta.
BK

quarta-feira, 5 de abril de 2017

RAPIZIUS - O HINO


O HINO

"Canta, irmão
Canta, meu irmão
Que a liberdade é hino e o homem a certeza.
Com dignidade, enterra a semente no pó da ilha nua;
No despenhadeiro da vida a esperança é do tamanho do mar que nos abraça, sentinela de mares e ventos.
Perseverante entre estrelas e o Atlântico entoa o cântico da liberdade.
Canta, irmão
Canta, meu irmão que a liberdade é hino e o homem a certeza!”

Esta é a letra do Hino Nacional da Republica de Cabo Verde, portanto, o cântico da soberania deste povo e desta nação. É letra de um Hino. É letra que não devia ser nímia nem abreviada quanto o é. É uma letra de rotura. É uma letra que exclui e omite a chama da razão sentinte da nação, leia-se, nação lutadora e ganhadora, nação de história e de cultura. A ideia presente no hino é apenas a de exortar o irmão, (vaga fraternidade) para cantar (festejar) porque a liberdade é hino e homem a certeza, como se a liberdade tivesse sido achada ou dada e nunca conquistada a pulso, como se a liberdade não tivesse assento no braseiro da luta secular do povo das ilhas para a conquista da sua soberania e liberdade cidadã.
A letra do hino (feito à pressa) é de claro rompimento com a história da luta de libertação nacional, é de claro apagamento de uma realidade, não se escudando e nem trespassando a luta do povo das ilhas pela sua emancipação, pela independência e soberania nacional. É um texto que não evoca o sentimento pátrio, ficando-se pelo apelo ao irmão para cantar a liberdade, porque a liberdade é hino e o homem a certeza (de quê e para quê?).
O irmão que se pede para cantar (festejar), não pressupõe fraternidade e solidariedade; o homem a que se diz homem-certeza, é um ser peregrino e jamais o que verteu suor e sangue, que deu sua vida à luta pela independência. É, portanto, um texto sem manifesto patriotismo, sem apelo ao âmago do homem cabo-verdiano para construir o presente, nem para conquistar o futuro. Há canções espalhadas pelas ilhas de grande valor simbólico e de grande sentimento patriótico.
No desejo de se conferir dignidade ao trabalho e ao progresso, (enterra a semente no pó da ilha nua) mostra-se o despenhadeiro da vida, o mesmo que “precipício da vida” como residência da esperança que é do tamanho do mar que nos abraça. Para depois, se referir “entre estrelas e o Atlântico” espaço e lugar de ninguém, para onde o irmão entoa o cântico da liberdade com os pés na ilha nua, (nua despida de vida) como se o passado de revoltas, de protestos, de abandono, de fomes, de mortes, de perseguição, de prisões acontecesse na ilha nua, despovoada de homens e de mulheres; como se a luta de libertação das ilhas não tivesse começos, resistências, momentos de sacrifício e de glória, como se o caminho de novos caminhos não tivesse fundamento na cultura e na história das ilhas, como se a construção da liberdade de criar liberdades brotou com o hino cujo apelo maior é de o homem-irmão cantar o despenhadeiro da vida e a convocar estrelas e o Atlântico a testemunharem a peregrinação de um povo pelas incertezas do mundo.  
Doce guerra de Antero Simas, Torrão de meu de Nhelas Spencer e 5 de Julho de Manuel de Novas entre outras significativas canções às ilhas são hinos à imortalidade da alma Verdiana.
Texto de 30.9.2010


sábado, 25 de março de 2017

Rapizius - Funaná




                                                                      FUNANIGHT

Quando se edita uma obra com base em um projecto pensado o seu autor procura fugir ao óbvio, isto é, incorpora e aproxima, cria e dialoga, expressa e comunica, MEDITA e promulga.
Foi o que aconteceu ontem no Auditório Jorge Barbosa. O músico e compositor Mário Lúcio trouxe-nos a ideia de como se recria e se inova através do som cuja linguagem e fraseamentos melódicos são de simples feitura, mas construtivos e perfeitos num aproveitamento desabusado dos motivos que dão sentido ao Funaná.
Funanight é, em si, um concerto em disco, é uma proposta e uma viagem pelo habitat do funaná, diria, pelos diferentes santuários dos trovadores de Santiago, pela cifra onde a magia da gaita e do ferrinho enfeitiçam a pauta, onde, nós outros, (re)criadores vamos buscar a essência e os motivos para os incorporar nos tempos modernos da musica nacional.
Valeu ter participado da marca Funanight e da ilustração musical que a noite de Mário Lúcio nos proporcionou, valendo, também, em toda a linha, o desempenho dos músicos acompanhantes (executantes) que exibiram técnica e saber estar na música.
Foi uma noite de som nacional e de nacionalização do som.
Criar com arte a liberdade de criar arte é mortalha dos criadores ousados.

Valeu. Kaka Barboza

sexta-feira, 24 de março de 2017

RAPIZIUS A CARA VADIA



                                         A CARA VADIA


O carro seguia na rua principal do bairro quando ela me fez sinal para parar. Parecia quem vinha duma festa. Deu a volta, da janela do lado oposto, disse que precisava de boleia. Eram três e meia da noite. Eu tinha de chegar á casa. Recusei-me. Arranquei o carro. À essa hora da noite, boleia, ninguém. Tomei a rua da Esquadra da Policia para encurtar o caminho. Andei uns metros, senti um movimento estranho dentro do carro. Rodei a cara para a almofada de trás, um braço apoiou-se no meu ombro. Quis parar, mas não conseguia. O carro seguia sem saber para onde estávamos indo. Impacientou-me a situação já que não havia como acertar com o caminho de casa. Senti-me perdido. Não conseguia dominar os sentidos. Encostou-se a mim, com os olhos semi-fechados, a espalhar um perfume estonteante que me tomava conta do comando. Notava através dos sentidos que andávamos por um caminho diferente, a distanciar-nos do bairro. As luzes da cidade afastavam-se cada vez mais. De repente, o carro parou de andar, reparei e percebi que estávamos num descampado em completa escuridão. Olho para o interior do carro, nada. Ao manobra-lo para deixar o lugar, notei que uma cabra preta estava agora à minha frente. Tinha um porte esquisito. Chifres compridos e enrodilhados em espiral, olhos aguçados de brilho a chumbo derretido e voz áspera. Um frio percorreu-me as espinhas quando ela disse: Sai e tira a roupa! Parei sem entender o que estava a acontecer. Recusei. Impaciente, ela gritou novamente: Vá, tira logo a roupa, seu macho! Meu primeiro impulso foi tentar correr, apesar da moleza que sentia invadir-me os músculos. Olhei para um lado, para o outro, para tentar fugir, mais duas cabras pretas surgiram atrás de mim a tapar o angulo. Calma macho, aonde pensas que vais? O frio da nudez mais o calafrio na espinha gelaram por completo as minhas forças. Entregar a cabeça era o único remédio. De repente apareceu um carneiro de muita lã, encorajei-me. Lembrei-me de Nha Diminga, a velha da nossa casa, que nos contava do carneiro lãzudo a atirar-se ao Sujo travestido de cabra preta, para salvar o bom cristão. Os olhos do salvador pareciam uma lanterna grande e os longos chifres a chicotes. Caminhou até mim e falou: Fica descansado. Vou-me entender com essas vadias! Ao agir contra uma, a outra tentou segurar-me pelo braço, mas o lãzudo fulminou-lhe a chicotada. Eu estava nu-prite. Pronto a ser seduzido. As vadias fugiram. O lãzudo aproximou-se, inspeccionou-me e disse-me: Podes ir para casa! Parado, tentei reencontrar-me. Dirigi-me ao carro, entrei, pu-lo a trabalhar, saí para agradecer o lãzudo salvador e ali já não estava. Assim como apareceu, sumiu. Meu corpo todo ardia em gelo, meus braços e pernas doíam, mas meu castigo ainda não havia terminado. Tinha os pneus furados e a casa ficava distante. Forcei as pernas para andar, mas de nada serviram, pareciam estar presas no lodo do medo, enquanto gargalhadas sarcásticas ecoavam na madrugada do descampado. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

POEMA EM MARÇO DA MULHER





MUDJER NOTI DI PRIMAVERA 

Di bu corpo un tra camisa di noti
Fetu di purfumo kenti di bu folgo
Rolado na candero di nos boca
Mesmo ora ki ceu sukundi rostu
Mas ninguém sinau mi ku bo - sabe  

Na txon di temporal na nos cama 
Di crer ta djanguano na sangui
Sima bedjera sotido na calmam 
Ta planta utri entri kuato paredi
Mas ninguém sabe di entri mi ku bo  

Marradu pa anel di comprimisso   
Sima cuscus kenti na tabuleiro 
Di kel bejo ta treme di ternura
ku tontura ta mata ku gana mata.

Mas ninguém sinau mi ku bo - sabe
Di lançol bistidu di nos amor a-dois!
Mudjer primavera di nha morti

domingo, 19 de março de 2017

RAPIZIUS EM DIA DO PAI


SEJAM PAIS-MENINO COMO EU

Era um cachorrinho do mais belo porte que podia haver. Bichinho inteligente, amável e cheio de alegria. A casa maravilhou-se com a sua chegada. Logo, começou a chover afectos e nomes. Pedi que não optassem por nomes vulgares, esses colhidos em revistas e cenas de bonecos animados. Ele merecia um nome adequado, um identificado com os atributos que possuía. Com pedagogia convenci a casa inteira a aceitar o nome Vírgula. Incomum nos animais de estimação. Vírgula é nome distinto. Nome de ordenação que faz acrobacias num texto. Acabou por ficar assim o seu nome de baptismo. Era tanto o entusiasmo que voltamos a ser meninos diante do brinquedo vivo que prendia a atenção de todos. Nos momentos de sisudez ele comportava-se como um detective, dava voltas, cheirava, conferia o espaço e o ambiente que o rodeava, deu uma corridinha para a varanda, num cantinho, agachou-se fez xixi pela primeira vez num chão estranho. Chamei-lhe e mostrei o jornal estendido no chão, lugar onde devia fazer cocó e urinar, logo, para me mostrar que entendeu as indicações, pôs-se de cócoras e pingou dois rolinhos justo em cima do papel, de seguida, de focinho erguido, a abanar o rabo, atirou-se a mim, como que a confirmar a lição, sagrando-se, doravante, membro da família de pleno direito a virgular a vida da casa, caso para dizer, que jamais podíamos passar sem contar com o amigo amável, cheio de alegria, sempre bem-disposto e bom companheiro.
Estava, pois, selada uma aliança efectiva, de infindas vantagens, ou seja, íamos cuidar um do outro enquanto durasse a vida da casa. Belíssimo foi o dia. Anoiteceu. Lá mesmo na varanda coloquei uma toalha de pouco uso no chão para servir-lhe de cama, mas não, escolheu outro lugar. Logo à primeira, não entendi a rejeição. Vendo bem, ele tinha razão. Quis o corredor, ponto estratégico entre a sala e os quartos de dormir, onde coloquei a toalha, farejou-a e posicionou-se. Apaguei as luzes. Leio sempre antes de dormir. Passava da meia-noite. Ao ajeitar-me para apagar a lâmpada de cabeceira, o amiguinho fazia-se de sentinela, olhámo-nos, despedi-me dele. Não dei pelo momento da retirada. A casa caíra no sono profundo.
Assim que me apercebi da luz matinal que se abria tão lívida nesse dia de Maio, ainda na cama, enquanto desmurchava o corpo e dava vivacidade às pernas, o amiguinho aproximou-se, subiu e começou com festinhas, como a querer saber se dormi bem e se estava bem-disposto, assim como ele, na verdade, enquanto não falasse, insistia em ouvir a minha voz. Era a extraordinária e maravilhosa prova da intensa amizade entre os animais e os humanos, quando não somos maus animais. Ali verifiquei que o colorido nos olhos mudava consoante o momento. Quando brincava era tom cinza azulada e quando estava a sério mudava para amarelado claro como a chama dentro de uma lâmpada, e foi então que dei conta que os nossos olhos falavam.
Chega e diz: - bom dia, dono.
Digo: - olá Vírgula.
De dia come e dorme. De noite anda pela casa, escuta e obedece as ordens. Só se deita em cima da toalha. Sabe dos batons e do mau cheiro. Topa conversas e o mínimo barulho e conhece bem os seus inimigos. Quando aborrece e resmunga coisas, pensa e sente saudades. É amigo de confiança. Vale mais um bicho amigo que amigo lixo. É tão lúcido, o Virgula.
Chego e digo: Virgula!
Quatro patas caminham e pararam no ponto final. Quatro-olhos na interjeição. Dois pontos e vírgula no olhar. Reticências na cauda. Interrogação no focinho. Vírgula e dono. Ponto parágrafo. Olhos nos olhos.


terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Rapizius - Ananita

     
                                                                   
                                                                    ANANITA


Sentada na borda do canteiro comprido que servia de divisória da rua, Ananita segurava na mão direita a caixa de fósforo. Queria tanto fumar. Tinha horas que ela não via a cor do fumo de um cigarro. Levantou-se e pediu um ao homem que saía do café, mesmo em frente. Ia suplicar, justo no momento em que o homem recuava uns passos para agradá-la. Pediu-lhe um pau de fósforo, mas o homem tinha isqueiro. Agradeceu na mesma. Começou a maldizer sem olhar a quem. Pois não aguentava ficar calada. Mas antes que ela pudesse falar outra vez viu o toco de cigarro atirado por alguém, fumado acima da metade. Apanhou e acendeu o dela. Ananita vivia da bondade das pessoas. Escolheu ficar nesta parte do bairro desde o dia em que descobriu o café - livraria e a loja de frutas, sítio frequentado, onde podia abordar pessoas e obter auxílios. Ficava durante o dia e ausentava-se ao escurecer. Um dia convidei-a para um café. Sentiu-se bem e encorajada. Achava-se artista. Por acaso tinha jeito para arrumar palavras com alguma rima. Enquanto recitava, gesticulava como mandava as regras do rap. Eu estava a fim de aprender mais da vida com ela. Pelo sim ou pelo não o natural da rua faz falta a uma cidade. Ele ocupa a parte em que vida opera pelo avesso. Precisa da vida para viver à sua maneira. Nunca o contrário. Que seria de uma urbe só com gente saciada e emancipada? Que sentido teria a própria liberdade? Se desdém fosse rio teria como origem abastança. Não ter mata-bicho não é condição para se ser menos digno. Com dezasseis anos de idade levaram-me para uma barraca, dois homens, cada um de um lado, seguravam minhas pernas abertas, o outro abusava-me. Alternavam-se. Emprenhei sem saber de qual deles. A vida tinha perdido sentido. Os nove meses pareceram uma eternidade. Desmaiava todos os dias. Ficava sem força para nada. Tinha findado o internamento hospitalar. Não tinha onde ficar, para me safar esbofeteei o polícia de serviço. Fui detida. Passei uma semana na esquadra. Ali tinha tudo. No dia em que me entregaram a trouxa com minhas coisas senti-me desconsolada. Estava em dias de ter o menino e tinha vontade de entrar na maternidade. Decidi ficar na sala de espera do banco de urgência. As pessoas olhavam por mim, davam-me de comer. Dei entrada na maternidade. Estava ansiosa, mas temia o futuro do meu filho. Após o parto disseram-me que o anjo nasceu com a corda enrolada no pescoço e não se salvou. Vi ele, mas sem sinal de vida. Senti que ia morrer também, mas Santa Ana das Paridas socorreu-me. Larguei o corpo e meti-me na bebida, no fumo e droga leve. Assim como entrei, deixei tudo, sozinha. Podia estar a trabalhar, mas não confiam em mim. Mas, uma coisa, nunca dei meu corpo a mais ninguém. Não sei porquê te contei minha vida. Quantos capítulos têm um livro? Tenho trinta anos, se cada dia for um, faz as contas. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Rapizius A Janela e o Rosto


                                                                    A JANELA E O ROSTO

No Tê Três, segundo esquerdo, á Rua do Poeta, ao pé da Esplanada o Cometa, mora a janela que dá para o fresco pátio, que não é bem-dotado, mas agrada. Assentos, canteiros e árvores de adorno fora o planeado. Porém, o raro verde das acácias rubras contrasta o cinza do empedramento. Não há no mundo inteiro canteiros onde as pedras floram para as janelas. Só no pátio. Só ali as pedras florescem e frutificam. O que diariamente fazem os pombos bicando o chão? E a janela que do alto assiste a paisagem? Era sexta-feira à noite. A aba da lua já havia aparecido quando a janela se abriu e foi suavemente abordada pelo trinar dos grilos. Inclinou-se. Demorou até se dar conta de onde ela estava e do que tinha programado fazer nessa noite de mais um dia a afinar o texto. Buscava o esboço dos três últimos versos. À esquerda o Dicionário, o bloco de notas e esferográfica à direita e ao centro a tela do computador. Ao fixar, instintivamente, os olhos no branco da parede, uma mistura de contrastes fascinantes desafiou-lhe a descobrir, a explorar, a ir em frente, pouco a pouco os traços vinham como flashes de uma peça em que ela era o fingidor, o personagem gentil e ao mesmo tempo autoritário, educado e ao mesmo tempo impaciente.
Eram duas horas da madrugada de sábado quando um rosto apareceu na parede do quarto branco, justamente onde a lâmpada de leitura enfraquece a luz, mas perceptível. Levou um bocado de tempo a olharem-se. Na verdade era um momento de cordialidade. Ambos não queriam desapegar do ambiente que criavam. Pareciam rostos numa varanda à luz de velas, ao fundo a lua e as estrelas como testemunhas, e abaixo, o panorama do pátio, o trinar de grilos a aprofundar o silêncio, realmente uma ocasião romântica. Ela sentia-se feliz pelo momento de mais um encontro tão maravilhoso entre duas vidas reveladoras de sentires, como dois pontos provindos da mesma fonte. Não quis desapegar-se dali, a menos que o rosto ocultasse por vontade própria. A essa altura, este já fazia carícias ousadas, enfiando disfarçadamente a mão pelo vidro abaixo. Provavelmente pelo efeito da magia daquela noite enluarada ou pelo efeito do escancarar da janela, que não oferecia nenhuma resistência, apesar de ser o primeiro encontro entre ambos. Sair de lá bruscamente não era atitude certa, pensou. Continuar, estava a provocar o que não queria que acontecesse, unirem-se. Encantado, o rosto andou por mais alguns segundos a procurar os interiores dela. Mas lá havia apenas noite, pirilampos de faróis acesos a bailar e os grilos a pastorearem estrelas. Receosos, ambos, piscaram o olho. Antes de se ocultar o rosto franziu a cara, depois, ocultou-se, e, então o lugar ficou como estava no início e o texto por consumar. A lua tinha transitado para o lado inverso e a raridade da luz tornava apurpurada a copa das árvores, enquanto a janela do quarto branco, desalumiada, adormeceu por detrás da cortina de seda.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia



                                                               DOIS POEMAS AO MEU CÃO

10
chega e diz:
bom dia, dono
digo: - olá vírgula
de dia come e dorme
de noite anda pela casa
escuta e obedece as ordens
só se deita em cima da toalha
sabe dos batons e do mau cheiro
topa conversas e o mínimo barulho
conhece bem os seus inimigos
aborrece e resmunga coisas
pensa e sente saudades
é amigo de confiança
vale mais um bicho
que amigo lixo
é tão lúcido
o virgula.

11
virgula!
quatro patas 
pararam no ponto final
quatro-olhos
na interjeição.
dois pontos
e vírgula no olhar
reticências na cauda
interrogação no focinho
vírgula e dono
ponto parágrafo.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - BATOM NA ALMOFADA



                                                                BATOM NA ALMOFADA


Com o saco do violão a tiracolo desci do carro à porta da casa. As lâmpadas de iluminação pública, da rua, estavam apagadas, apenas luzes interiores dos estabelecimentos vizinhos iluminavam o largo. Não havia escuro, mas era quase impossível identificar à primeira vista qualquer pessoa que cruzasse comigo a essa hora da noite. Os cães que habitam a zona estavam nos seus postos de vigilância como se fossem escutas enviadas por algum comando. A cadela preta veio ao meu encontro enquanto metia as chaves no nariz da portaria de entrada. À guisa de senha falei com ela. Agradecida, afastou-se e parou debaixo do poste, encolhida ao estilo lagarto. Entrementes, vindo não sabe de onde, um sujeito mal-encarado atirou a atenção dos guardiães da zona que ladravam em várias direcções em defesa do território de guarda. Fazem-no com razão, primeiro, para corresponder ao tratamento que lhes damos, comida, água e atenção, segundo, porque eles bem conhecem a couve da sua horta. Não era muito tarde. Faltava para as duas da manhã. Repeti o ritual: água fresca na caneca inox; olhar o céu estrelado da janela; dar tempo para o sono fechar a noite. Acomodei-me no Queen, no lugar de sempre. Em pouquíssimos minutos adormeci. De repente um beco húmido e mal-iluminado a uma distância de uns dez a doze passos aproximava-se de mim. Não havia trânsito. O silêncio era sepulcral. Surgiu um vulto atrás de mim. Olhei á minha volta. Ele seguia-me. Aproximou-se, tomou-me nos braços, logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente. Entrámos os dois numa sala pequena e enfumaçada, no centro, via-se uma mesinha cheia de pequenos objectos pessoais. Dali fomos para o quarto de dormir. O vulto não hesitou em me despir e de me colocar na cama protegida por uma belíssima colcha de seda bordada de imagens irreconhecíveis, porém, quando ele se colocou à minha frente não houve outro remédio senão embrulharmo-nos cegamente um no outro, contorcendo-nos como meadas de algodão na meia-luz que tornavam as paredes mais distantes do que estavam na realidade. Arrojadas, as nossas mãos navegavam na superfície morna dos desejos como germe em busca do rociado. Aconteceu o que tinha de acontecer. O sonho entrou numa sonolência brutal. Nem silêncio na tumba do faraó. Mais escuro do que a noite era o caminho do regresso á vida. Assim que o cansaço cedeu lugar ao alívio alcancei uma rua onde latiam cães. O guarda mandou-me parar. Não obedeci. Desatei a correr. Meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher: Linda! Linda! Consegui escapar.  Enraivecida e sob espanto a mulher veio lá de dentro, acordada daquela maneira a essa hora da noite. As luzes estavam acesas, inclusive a do quarto. Ao aproximarmos da cama, na fronha do travesseiro do meu lado, o batom vermelho, sinalava, vivamente, a presença duma outra mulher. Amedrontado pelo ocorrido, enrolei-me nela, pedindo socorro, incrédula, a mulher não quis saber de explicação nenhuma. Que havia eu de dizer do batom na almofada?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Falar por Falar



Não era assim noutros tempos. Mas virou, assim. O caboverdiano fala por falar. Fala por necessidade de manter a boca acesa. É exemplo o crioulo parlamentar que rasteja a língua para falar e deixa por dizer o que devia. Basta escutar uma única vez as discussões no parlamento ou então as comunicações diárias dos governantes. Não trazem nada de novo. Pensam que todos são iguais a eles. Todos não são iguais a eles. Nunca. Então há quem não entende o que o outro diz. Então, não há quem descobre quando se fala por falar. Hoje na nossa terra fala-se e fala-se muito. Fala-se a imitar discursos de outras realidades políticas, sociais, económicas e culturais. Os discursos são discursos de neocolonizados. De lamentos e queixumes. Qual autonomia! Quais reformas! Reformas, sim. De cada vez que renova uma legislatura mudam-se as pessoas, as designações dos ministérios, dos serviços e dos institutos públicos, mudam-se as aparências, enquanto as atitudes, os procedimentos e os comportamentos mantêm-se. A reforma nunca acontece porque aqui na terra qualquer barraca é património. Porque não? A reforma não acontece porque o sistema dá leite para meia dúzia de bezerros. Grande ou pequena, a corrupção é património. Como expurgá-la se virou sabedoria? Se virou um dado adquirido? Se virou forma de manter o circuito de interesses?
 Mas o que, de facto, é património estão às lagartixas, toma vento, toma sol e depois hiberna. Exemplo: o conhecimento, o saber fazer, o saber dizer, o saber estar, saber relacionar e saber comunicar, ter bom nome social e boa conduta não é tido por património, não está agendado. Ao invés, a incúria, a desobediência e o oportunismo tornaram-se prática dos cidadãos refractários, apostados na ostentação, nas inverdades e em doutorice, tudo isso, constituído património da mediocridade, dos que de cada vez que o poder passa para as suas mãos fazem o que sabem, o que herdaram do colégio ideológico a que pertencem, falam por falar, apoderam-se dos andaimes da arrogância e tornam-se vaidosos e cegos pelo poder.
Os políticos que temos são produto de uma terra em festa permanente.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Fogo d'África



FOGO D’AFRICA É PUJANÇA E DECLIVE

Fogo d’ África é um espaço de permanente convívio e música. Todos os fins-de-semana Nhô Nani ao violino e a banda de suporte estão ali à nossa espera. Vir à Praia sem visitar Fogo d’África é o mesmo que perder o bilhete da viagem no aeroporto de partida. Viver na Praia sem frequentar este lugar é desviver. Fogo d’África é pujança e declive. Nho Nani é um músico entusiasta que todos apreciam. Um amigo e moço de bons modos. Empenha-se muito para tirar boa sonoridade com o arco sobre as cordas do seu violino electrónico. Quem escolhe Fogo d’Africa para se divertir tem de ter ouvidos de bronze para aguentar os altos decibéis que as colunas agitam horas seguidas. Mas o ambiente é fabuloso. Há muito calor humano... Diga-se, masculino e feminino. Os pares amarrados pelo ritmo e pela melodia movem-se como se estivessem a viajar no trem da felicidade.
Eram três horas e tal da manhã quando cheguei à casa. Como de costume dirigi-me ao frigorífico buscar água fresca da garrafa de vidro e coloca-la na minha caneca inox. Dali, dou uns passos, fico à janela, tomo uns goles, paro a olhar o céu, a conferir a posição das estrelas e descobrir se não escorrega nenhuma do seu lugar em direcção ao olho de deus. Praia tem mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado visto foi em Assomada. Recentemente foi na ilha Brava, em Senhora do Monte, onde o escuro é amplo com os astros a mostrarem-se, tranquilos e tiritantes. Fascina-me o céu estrelado. Fico a pensar nas luzinhas que não se cansam de cavar o buraco onde moram ficando de fora o rabinho faiscante a abanar, semelhando fuga de feiticeiras levando consigo os recém-nascidos. O ponto luminoso maior era um planeta. Apostei em Marte. Mas a minha vista cansada dava a entender que se deslocava na direcção oposta à janela. De tanto olhar para o alto, tudo parecia ter entrado dentro da minha cabeça. Se sonhava ou se viajava não pude perceber no imediato.

De repente um gesto enigmático pôs-se a meu lado e começou a murmurar aos meus ouvidos: Olá! Saíste muito cedo de lá! Voltei a cara para o lado. Repetiu-se o sussurro: Olá rapaz! Eu queria tanto ficar contigo. O bafo era cigarro e bebida. Bafo de quem tinha bebido instantes atrás, envolvido em cheiro de perfume caro. Madame Dior, talvez. Não tinha certeza. – Que queres de mim?  Perguntei. A voz respondeu: - Vim! Apaixonei-me por ti. Fugi com a cara. - Porra! Eu! Quem és tu! A voz explicou. – Olha, não estou para muita conversa. Vais-me dar o prazer de te tocar e de te beijar. Não tenhas medo de mim. Explicou-me em voz baixa. – Sai! Vai e deixa-me em paz, vagabunda, filha da noite. Senti uns lábios frios a beijar-me o pescoço. Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu corpo ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado, entornando-se o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição, a querer enxergar algum movimento. Mas, vi nada. Permaneci de pé junto à janela. Instantes depois percebi que do chão vinha um cheiro a álcool. Provavelmente, rum, bebida que uso com frequência. Para comprovar a situação, trouxe a caixa de fósforo, acendi o pauzinho, aproximei o lume do derrame, puufffff... um fogo azulado subiu no ar, cheirando a nada. Dai, senti um toque no ombro. Perdeste! Soou um vuuuoooop... como se o vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até o dia de hoje aguardo por um contacto semelhante sem que tal tivesse acontecido. Quando escrevo a altas horas da noite dou por finados machos a me rondar, mas finado fêmea, creio, ter afastado de vez. Segundo a tradição popular finado fêmea é prestimosa ao seu vidente. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia


DOIS SOM NETOS

12
viu o olho da visão e jamais convenceu
o círculo não tinha centro nos seus olhos
nem circulava o redor em seu claro céu
aguava-se no odor da vela e bebia óleos.

perto passeavam seus mirares e sorrisos
abrindo-se e fechando-se dóceis ao dia
viram jamais outros olhos senão os seus
na menina que sob as pálpebras morava.

ali desabaria qualquer raio na sua fronte
a flor que se abriu um dia fora mais rosa
ao sol do jardim do que na boca da jarra

era menos no vaso a flor que no caule
onde mariposas alavam-se apaixonadas
a sonhar com os sentidos excitados

13
olfa tinha na rua das suas pregas
segredos que adoravam a sua idade
bebia e fumava e depois seduzia-se
nas silhuetas do fôlego que expelia.

do seu amor-próprio caíam desejos
rolando bolas de vapor sedentos
que curiosas abriam as vontades    
ardentes e doentias seus sentires.

caiu o véu e o dedo vagou o interior
húmido a sentir não o cheiro do puro
mas do vício preso nas ruas do olfacto.

na montra as narinas espiavam o dia
farejando curiosas o odor andante 
a sonhar com os sentidos excitados.


sábado, 21 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Picos, Um Altar Garboso



            PICOS, UM ALTAR GARBOSO

No coração da Ilha de Santiago, para lá da Cruz dos Picos, estende-se o rugoso território do município e freguesia de São Salvador do Mundo, em cerca de trinta e um quilómetros quadrados, tendo por centro Achada Igreja, sede municipal, contornado por bonitos regatos e ribeiras cujas águas pluviais correm veloz para as várzeas de Santa Cruz, município vizinho. O concelho é marcado pelo rochedo Nguli Lança que se transfigura em cavaleiro, perfil basáltico natural que atrai a atenção dos visitantes, símbolo desafiador que cunha de forma ímpar a paisagem desta região ante a altivez do Pico de António, por isso mesmo, Picos, eira de uma identidade própria que vincou nos naturais uma forma peculiar de ser e de estar, Picos – Achada Igreja – terra de boa gente, de bons costume, honrada e trabalhadora, de gente que goza de muito prestígio, atributo herdado do passado que a iliba de ser pedinchão. É na mítica ribeira dos Leitõezinhos que viviam as gigantescas e centenárias árvores o Tamarindeiro e o Poilão motivo de muitos comentários.
A igreja de Nhô São Salvador do Mundo, santo padroeiro da freguesia, ergue-se no centro da Vila de Achada Igreja, monumento apreciado de diversos pontos da estrada nacional que liga o concelho às cidades de Assomada e da Praia. O dia deste Santo é, desde sempre, tido como a maior festa religiosa de Santiago, celebração que congregava participantes de diferentes pontos da Ilha, para pagar promessas, ofertando géneros, aves e pequenos animais, de seguida leiloados pela paróquia. As festas eram uma espécie de romagem aos ritos e às tradições antigas, em que o colorido das vestimentas davam cor e tom ao paisagístico, a música, a gastronomia, o prazer e os galanteios enchiam as pessoas de ânimo, amalgamadas, gozavam a vida abençoada pelo Salvador de todos. A música de salão era produzida pelos instrumentos de corda e clarinete comandada por Cesáreo Boca ou Manuel Clarinete, enquanto nas tabernas e barracas improvisadas era o baile nacional (baile popular) por conta dos tocadores de gaita e ferrinho que, ao ar livre, celebravam na sabura, sem embaraços, a vida vivida.
A vizinha Achada Leitão, belo aldeamento, era terra de Nhô Djonsinho Cabral, grande mestre de serralharia, sabedor famoso dentro e fora da freguesia, importante proprietário de terras, dono de conhecimentos técnicos, principal criador da célebre oficina de Txada Liton, lugar onde se reparava utensílios domésticos e de lavoura, peças de carro, onde se armava tachos e alambiques e se fundia peças de trapiches, se fazia e se reparava armas de fogo, serviços prestados a pessoas de todos os quadrantes da sociedade santiaguense da época, além de ser autêntica escola de artes e ofícios, onde se aprendia a conhecer o teor dos metais, a lidar com a forja, fundição e serralharia, disciplinas obrigatórias para os aprendizes, oficina, também, onde se fabricavam ferramentas e apetrechos para servir os pequenos ofícios, tais como, pesos, medidas, facas, maxins, enxadas, funis, tachos, cunhas, alavancas, martelos de pedreiro, colheres de cal, picaretas, ponteiros, dobradiças, etc.
As chuvas abundantes de outrora e os bons resultados agrícolas conferiam vida desafogada aos salvadorenses que raramente deixavam as suas ribeiras para viverem noutros lugares. No entanto, as mudanças causadas pela carência das águas alteraram um pouco a vida e a fisionomia da região, obrigando alguns à dispersão, mesmo assim, os que ficaram jamais abstiveram-se de lutar pela construção de um futuro melhor para si e para os seus filhos. A penúria de água, o êxodo para as cidades, a emigração, afectaram bastante a vida económica e social do concelho, com impacto nos festejos que se afastaram dos costumes e hábitos antigos, passando a ser oficiosos ou oficiais, programados de acordo com proveitos políticos dos poderes instituídos.  
  Os tempos mudaram e com eles a realidade também. Os festejos são outros porque as pessoas, os hábitos e os costumes, também, viram outros, apesar disso, as celebrações de Nhô São Salvador do Mundo, também, Dia do Município, continuaram muito participadas, com outros conteúdos é claro, destacando-se, além da parte religiosa, programação diversa, desporto, recreação, festival musical, exposição de artesanato, antiguidades, restauração, que se encaradas com realismo e exploradas com inteligência valorizam a cultura e o bom nome do concelho, sendo a civilidade, a singularidade do paisagístico mais-valias que fazem do concelho um destino turístico indiscutível. Picos - Achada Igreja é um altar garboso.


Depoimento

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA CABO VERDE PROSA LITERÁRIA PÓS-INDEPENDÊNCIA DEPOIMENTO     Caro confrade Jorge Carlos Fonseca, poeta...