quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Poemas do Litoral



ESPELHO D'ÁGUA EM ARCOS DE PEDRA
Dois retractos do antigo Dezembro à janela do presente mirando o desmoronar do tecido verde das ilhas.

1.
no telhado do céu 
vapores sintéticos 
entrelaçam 
cores suspensas 
corpúsculos 
traços simétricos 
assim é o arco-íris

2.
quando a nuvem ganha 
o corpo da ilha 
rola a gota 
roda o chão 
a raiz ganha a cor do sol 
bebe e canta a manhã
fresca e limpa 
no mostruário da terra

 
quando o corpúsculo dança 
o corpo da cova 
roda a mão 
rola o grão 
a seiva ganha a cor da flor 
canta e veste a manhã 
fresca e linda 
no estuário da espera

Poemas do Litoral



                                                   Uma leitura nas entrelinhas do sagrado


ao topo
do mundo as águas um dia subiram
por cento e cinquenta noites  
no fundo
os banidos pela ira de deus caíram
por todo eterno tempo   
ao alto
divos lampejos no conúbio de Noé
por dó doou-lhe o (i)mundo       

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Os Do Litoral




RAPIZIUS

Um amigo quis que eu explicasse quem eram os escritores e poetas do Litoral. 
Sim, EXPLICO, a ideia. Poetas e escritores do litoral são todos os da Associação dos Escritores e os do limbo com produção literária publicada ou não, os que a têm na gaveta, que não são tidos nem achados. 
Do Litoral são os que vivem a escrita que criaram para o seu mundo de fantasias sem se preocupar com os cânones estabelecidos pelo stablishement de avaliação e de propaganda dos considerados do rating da linguagem sofisticada, muita vez rebuscada, como sendo os melhores e enriquecedores das estantes e das bancas de acesso aos que sabem deduzir melhor que outras almas, sobre o que é bom, o que vale e o que é pobre, sobretudo, o que agrada e desagrada à critica e ás editoras de primeira linha.
 Contrariamente, os do Litoral escrevem para acordar o boi e a manada, escrevem para contrariar a lei de Salomão e a Tábua de Moisés, escrevem para serem eles próprios em que circunstancias forem, escrevem porque são tidos na glória do litoral onde bebem do amargo da chaluteira e do doce do humor crioulo .... o chá do Tchá Cagá. 
Saravá os poetas e os escritores do Litoral.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Floris d'Ibyago



AFINAÇÕES - Finata EmSi - In Floris d'Ibyago em construção.
(.......)

não amo o que dever ser amado por todos
amo a vaidade do silêncio e seus mistérios 
amo a loucura e o delírio dos movimentos 
amo o itinerário das nuvens e das águas 
amo a prestidigitação do trono d’Ibyago 
aborrece-me e enfada a paz que tanto trai
amo o vasto jardim suspenso no longe Ibyago
flor estranha que escreve música aos astros
flor distinta que fura sentido ao intangível
flor distinta sem alma e sem trilhos no íntimo
flor divinal que aflora tragédias e magias
flor sem virtudes sem cemitérios nem palácios
flor que frui imagos carregados do longínquo
amo a flor sóbria incolor da cor da flor d’Ibyago
flor vagabunda que dessabe o jardim do Éden
flor que floreja e desenflora relâmpagos e trovões
flor de inferno no pólen e paraíso nas raízes
flor do meu grado que um dia nomeei de Ibyago
ai! Tártaro florido! ai báratros! ai infinidade
se eu pudesse explodir a ira que em mim trago
reduziria o mundo malvado em nano-partícula

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Cores do Fim



Cores do Fim

No dorso dos dias construi a coragem
com raios de sol escrevi minha viagem
pelos caminhos vicinais da vida.

Na mata do tempo vivido volitam afectos
e aflições que meus passos perseguiram.

Nos trastos do peregrino jazem emoções
e sonâncias que meus dedos arpejaram.

Na cadeira de rei de olhar fixo no dentro
sinto a chama dos anos apagar na cinza    

de meus cabelos brancos - cores do fim.    

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Antologia de poemas em DiVersos


Acabo de receber da DiVersos o livro - Poesia e Tradução - Dez Poetas de Cabo Verde - contendo poemas em língua portuguesa, mas também poemas traduzidos de outras línguas, nomeadamente, cabo-verdiano e francês.
Os organizadores da obra escolheram para esta edição poemas de autores cabo-verdianos, como sendo António de Nevada, Filinto Elísio, João Vario, Jorge Carlos Fonseca José Luis Hopfer Almada, José Luiz Tavares, Kaká Barboza, Mario Fonseca, Mário Lucio e Vasco Martins, como se diz na advertência: ao fim de vinte anos, a DiVersos consagra pela primeira vez um número inteiro a uma só leitura, a poetas de uma só ou principal pertença geográfica e histórica - mas não de uma só língua.
Sinto-me muito honrado em ter sido convidado a pertencer a esta plêiade de autores com poemas meus inéditos e outros traduzidos do livro Konfisson na Finata, tradução que me agradou bastante por se aproximar bastante dos originais em crioulo. Por outro lado, a apresentação da obra agrada pelo aspecto gráfico e exposição dos conteúdos poéticos, bem como a biografia explícita de cada um dos integrantes da obra.
É encorajador saber que lá longe haja quem, neste caso o amigo Rui Guilherme Silva, esteja atento a o que os poetas do litoral, como é o meu caso, produzem por estas bandas, cumprindo a sua vocação de escrever e de continuar a escrever sempre.
Fico muito agradecido pela oportunidade e pela confiança em mim depositada.

Escrevo... porque, SIM! Obgdo.

sábado, 11 de novembro de 2017

Poema O Itinerário do Fim



O Itinerário do Fim

o apagamento já ondula
vem com os anos e anda lentamente
trepa na pele e abeira-se do coração
vem para tornar leve os olhos cansados
vem com o sol e desce com as estrelas
para o alívio do pastor e suas crenças
ancoradas na varanda da vida

o apagamento já flutua
vem de forma imprevista mas sentida
nos acordes dissono do peregrino
que guarda a vida vivida os amantes
as cores da alvorada e as serenatas

o apagamento já circula por inteiro
para levar o corpo e salvar a poeira
da excitada fogueira que mata a morte
e deixa ficar na pauta a irrequieta voz
sem súplicas e nem pedidos de perdão

o itinerário do fim em vista é mesmo aqui
na escrivaninha guardiã das madrugadas
de insónia dos solfejos da Osga Rosa
e o que me defrauda e me entusiasma

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

RAPIZIUS




                                                                            RAPIZIUS

Consultei o Professor Leno Mendes Tavares - Biólogo - para me ensinar qual era o nome cientifico de Dondágu - Santiago e Nagóia - Santo Antão. 
O Professor, pesquisando suas fontes, concluiu que aqueles pertenciam à família dos anisópteros, indicando, que no Brasil dizia-se Libélula a Dondágu. De seguida consultei a Wikipédia para melhor me situar e encontrei vários nomes de insectos pertencentes á família dos Anisópteros. 
Libélula, lavadeira, fura-olho, odonatas são nomes atribuídos a estes seres que habitam lagoas ou poças de água consoante os continentes. 
Saltou-me á vista o nome Odonata e logo comparei com o de Dondágu, deduzi, logo, que se tratava de crioulização do nome ... Odonata > Dondágu... outrossim, porque na minha infância dizíamos Dona-Dona a estes seres que enchiam as lagoas e o tanque da Boa Entrada.
Obrigado Professor Leno Mendes Tavares cuja informação me permitiu adivinhar a origem do nome Dondágu ou Dona-Dona.

Eureka.

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Espelho d'Àgua Em Arcos de Pedra em Poesia







e assim termina a coletânea de poemas Espelho d'Água em Arcos de Pedra


XVI

sob o escasso verde
                        o seco sobe
                           e sabe a água

sob a excessiva sede   
                      o róscido desce 
                           e sabe a gáudio

domingo, 29 de outubro de 2017

Poema de Denúncia





Outubro Três

Escuta-me sementeiro moribundo
Os meus versos não cuidam de ti
Vieram para denunciar ao mundo
O que restou do lugar e do que vi

No sope da coragem dos povoados
De Palha Carga a Achada Rincão
Há fauna gente e gado recurvados
Sobre o bater do próprio coração

Escuta-me ó verde do campo seco
Os versos são como grãos de areia  
Que viajam nas agulhas do vento

As folhas secas voantes no terreiro
Não são mortalhas nem melancolia
São refrões no batucar do guerreiro


sábado, 28 de outubro de 2017

Poema Melancólico



Outubro Dois

Foi-se embora deixa abatimentos
saqueia o lugar deixa brumas  
instala no pasto o preço do gado

nos furações a chuva apodreceu
ficou poeira nos olhos da garça
de tão seco e duro o cabo enxuto

é facílimo proclamar esperança
de cada vez que a vida esvai-se
sob o arbitrário poder de deus    

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Poema de Desespero




Outubro

O calendário e seus acenos com o passar dos dias
deixa cenas hesitantes
recados invisíveis
nas caves de outubro e seus armários.

O vento no cimo dos montes com o passar das horas
traz no rosto águas hibernada
e na praça oferta-se gado e carne ao desbarato.

O camponês e seus lamentos com o passar das noites
deixa palavras reditas
rogos aflitivos   
aos altares despidos de santos e vigários.

Enquanto isso…
o verde morre deus foge e tudo fica mascarado. 

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Prefácio da obra Gruta Abençoada


NOTA DE LEITURA

Boa Entrada é tudo menos lugar erótico, mas, sim, uma ribeira exótica e cativante, situada na margem direita da sede da padroeira que dá nome ao Concelho de Santa Catarina, parcela de bela paisagem, ribeira de muita vida e de muita história, guardiã de ricas tradições, de trapiches, de cultivo e de figuras notáveis, enfim, chão de cantadeiras, de músicos, de poetas, de artesãos e de gente renomada. Eis que desta típica ribeira emerge para a literatura cabo-verdiana a aluna prodigiosa, que cedo despertou-se para a vida e para a busca de saberes, próprio dos filhos deste chão. A nossa aproximação deveu-se, talvez, à música e á poesia que faço, facto ocorrido em 2013, período em que a conterrânea Artemisa Ferreira formara-se em Tecnologia de Informação e Comunicação e preparava o Mestrado em Realização Cinematográfica e Televisão, altura em que tive o privilégio de ter em mãos o caderno de poemas da sua autoria. Impressionou-me no imediato a ousadia da linguagem, o tratamento poético dado ao erotismo crioulo, o estilo e a descrição inesperada, tudo a ver com a essência do amor, com o dom femíneo, com a desmistificação do corpo e do sexo, onde a transfiguração do real é explorado com paixão e arte.
A colectânea, Gruta Abençoada, em avaliação contém um ciclo de poemas em que o erotismo é assumido como seres á procura da realização de seus desejos num mundo de ardência constante, único, ante a verdade que a sustenta e a mística da gruta donde tudo parte “Faminto os veados escorregam no abismo da paixão”. A autora presenteia-nos com uma obra rara na literatura das ilhas, justo pela forma como desmascara o corpo e alivia os gestos e os apetites eróticos, elementos usados como símbolos munidos de inquietudes, de momentos excitantes e de sentido extranormal, de vitalidade discursiva, onde o fascínio e o fantástico viajam pela Gruta até o fim do caminho, até a impalpável labareda, onde o trânsito das palavras e o seu vínculo na folha em branco, abandeiram-se em textos sem precedentes, onde o ineditismo, o absurdo das sentenças e a ousadia dos propósitos sobressaem de forma desabusada conferindo arrojo e legitimidade á escrita erótica tal qual ela se nos apresenta “O leite que jorra gesto/ Nos lábios não murcha. Enquanto o gosto cheira/ O paladar consome / O queijo salgado no palato”.
Os poemas são repletos de vida e de sensualidade. “Deixa-me amar-te à flor da pele/ Deixa-me amar-te em gotas” versos dando vida à eternidade do amor, onde o poeta apropria-se do físico, explora-o e livra-se dele em linguagem cuidada expondo o “nun prit” da própria alma “Despe a pele morna que o espirito sustenta”, metamorfoseando o real em inautêntico, dando rumo à perseguição do desejo de amar e ser amado, ateando o fogo erótico, aliciando a morte do possesso para a Gruta Abençoada “Deixa-te ressuscitar nos meus traços”. São de ânsia e de agonia do tempo erótico o respirar profundo de cada verso. São percursos que ganham alcance poético na linguagem extrovertida e na prudência em diferenciar as fronteiras entre o erotismo e a pornografia, optando, a autora, por uma não confusão entre uma e outra coisa. Em toda a narrativa o sexo não conta como órgão pujante, mas como fonte de ardência poética, “Deixa-me amar-te assim, nua, quente e fértil” onde o tacto, o corpo, o amor, o desejo, o folego, o cálice, o anoitecer, o despertar, o leito, a sensualidade, a linguagem e o próprio sexo ardem como candeeiro único, para a salvação do amor verídico, aquele que debitamos a quem amamos de verdade, a quem o sexo é revelação do amor e algo natural praticado pelo par amante do amor.
Eis um dos momentos cativantes da poética de Artemisa Ferreira, onde tudo o que vive se esvai no extasie e na nudez da gruta:
Agarras-me aqui / Bem aqui / Apalpas-me assim …assim
Seguras-me a língua / – Empresto-te o paladar
Suga a seiva embriaga-te em mim / Pedes-me os pedaços
Dou-te os caroços… enfeitiça-te em mim.
Os poemas da presente colectânea são manifestamente poemas de amor, sendo a obra o escrutinar do arrojo de um começante e estreante nas lides poéticas, definindo-se a autora Artemisa Ferreira como pessoa de imensa beleza interior e de espírito inventivo, quiçá, pioneira da poesia lúbrica actual das ilhas, livro que vale a pena ter, ler e apreciar até o último momento.
Pela amizade e pela cumplicidade fica esta nota, símbolo do meu apreço e gratidão pelo ensejo de figurar no pórtico desta bela e complexa obra.
Minhas sinceras felicitações.

Kaká Barboza    

RAPIZIUS

   

As Medalhas e o Dia da Cultura
          Briosas brilham no peitilho do meu casaco minhas medalhas, doiro como dentes do milho da terra. Elas são a jubilação clara duma idoneidade revalidada, talvez, pela simples condição de meus cânticos jamais choveram desamor e hipocrisia no chão da nossa história.
Homenagear, louvar, distinguir e condecorar, são formas patentes de exaltação da moral e da vida de uma nação e, quem as promove executa um dever cívico e nacional. Celebrar com decência outros homens pela dignidade dos seus feitos ou das suas obras é um acto de cultura e de elevado sentido patriótico. Ao se elogiar e agraciar os dignos destes símbolos está-se a dar, seguramente, um passo colossal na elevação do espírito, da moral e da auto-estima dos homens e das mulheres da nossa terra, está-se a conferir reputação aos cidadãos que se destacam pela lucidez e criatividade. Outra coisa é charme político e encenação na esperança de se branquear as chagas dos poderes instituídos.
            É no povo que reside a parte mística e a parte moral duma sociedade, é nele que devemos inspirar para produzirmos as obras que o ajude a formar-se e a reformar-se. É formidável a máxima: dento di alguen k’é alguen, dito popular com conhecimento casuístico; formulação simples mas de forte e profunda significação, dentro de cada pessoa mora o sinete configurador da sua conduta e da sua maneira de ser e de se relacionar com os outros, é onde somos nós, em nós mesmos.
            Os nossos camponeses, antigamente, para provarem o seu reconhecimento e gratidão para com a pessoa prestável oferecia ovos, frango, cereais ou legumes, cabrito, bezerro ou leitão, gesto que funcionava como tributo àquele ou àquela considerada pessoa de bem e estimada na comunidade, ofertas tidas como distinção porque grande o seu valor simbólico, porque plenos de afecto e de sentido humano. Quantas professores ou professoras não receberam dos seus alunos ou dos seus pais estes pequenos tributos em sinal de reconhecimento? Não é por acaso que no momento da declaração de amor sincero à mulher escolhida o homem rebuscava na natureza a exacta comprovação consubstanciada em três pés de Banana Tunga, um para ela, um para o próprio e outro para Senhor Deus lá no céu, justamente, bananeira, planta imperecível, útil e duradoura.
            A pessoa bem notada é aquela que enxerga o valor das coisas, dos homens, dos animais e das plantas, caso contrário não passa de um desatilado que consegue jamais avaliar o chão do seu tacão quanto mais avistar o tempo, o momento e o ambiente que o rodeia.
Sabiam que dagúma significa: afável, gentil, dócil, cortês etc.
           


terça-feira, 17 de outubro de 2017

RAPIZIUS




            Adivinhem!

O Boeing dos TACV gemia em pleno espaço em direcção às ilhas. Estou a três horas de Boston no seat five B, cinto deslaçado, descalço e encostado à almofada. A cabeça tinha ficado em Randolph, Roxbury, Milton, Dorchester e Brockton, com os amigos, cinco espaços de múltiplos abraços, cinco belas lembranças: Aquário, Biblioteca de Boston, Prudential Tower, Katy Circle e Milton . Many thanks again and again to all friends. Acomodei-me no assento, tirei da pasta o bloco e comecei a rascunhar palavras de agradecimento para os amigos. O tempo passava devagar. Meu corpo molificou e fiquei á deriva. De repente dei conta que estava numa sala cheia de gente, onde decorria uma reunião. O primeiro orador, frenético, insistia em falar de coisas que as pessoas não se mostravam dispostas a ouvir, mas que o orador considerava esplêndidas. Senhor Saltão, queira terminar, por favor. Agora é a vez do Senhor Ratão, disse o apresentador. No entanto, a secretária começou por ler o curriculum do Sr. Ratão, quando uma voz grave modificou o ambiente fazendo parar a apresentação, deixando tudo como no princípio. Um sujeito bem composto apareceu e com uma certa autoridade foi afastando os da frente até chegar ao lugar onde a mesa estava constituída. Todos se interrogavam sobre o que é que esse homem ia fazer. Em posição, pediu e deram-no o microfone. Meus senhores, atenção, vou colocar dois pontos para a vossa ponderação. A minha Doutora morreu por falta de Doutor. E agora? Como arranjar uma nova? Foi-se a fêmea e ficou o macho. Como arranjar outra? Não éramos casados. Mas ela era minha fiel companheira. A sala silenciou-se. Não se sabia o que dizer. Porém, da última fila, uma senhora fina e elegante, trajada de peças multicores, com um macaquinho ao colo, avançava entre a assistência a gritar. Deixem-me passar. Por favor deixem-me passar. Aqui dentro está montes de Dôtor, por acaso algum é veterinário. Não desejo que o meu companheiro tenha a sorte da Doutora. Em lugar do silêncio, gargalhadas e apupos tomaram conta do lugar.
Uma jovem senhora, simples e sorridente, carinhosa, saiu da multidão, apoderou-se logo do microfone, disse com ternura na voz: amigos, alegra-me estar aqui no meio de gente ilustre. Todos sabem que homem é um animal intelectual de intestino longo. Sabem qual é o ser sem intestino? Piolho. Disse alguém! Corrigiu a senhora. Ninguém acertou. O silêncio foi cortado por ela mesma. Corvo! É corvo, gente. É um ser sem intestino. Come, defeca logo! O zuído na sala parecia motor de avião. Cansado naquela posição, endireitei o pescoço e acordei. Os passageiros dormiam enquanto o lusimento trazia o alvor, para dentro da cabine. Subi a cortina da janela. Quatro horas depois, a hóstia laranja voava, devagarinho, da sua jangada de sono, sorvendo o escurinho e lá em baixo umas pintas acastanhadas em série emergiam do mar. Adivinhem!

sábado, 14 de outubro de 2017

RAPIZIUS

                                                          

      BOAVISTA A PEDRA TRÊS
  
Logo nos primeiros dias de Fevereiro de 1966 parti para a ilha da Boa Vista mobilizado pelo Técnico de Obras da Junta Autónoma dos Portos, Manuel Barbosa, meu tio, para trabalhar como apontador nas obras de recuperação do cais de madeira do porto de Sal Rei. O barco de pesca Fada da Ultra - Empresa de Transformação do Pescado - transportou-nos juntamente com o material, cimento, ferro, pregos e madeira para os trabalhos de reparação do cais de madeira. Dona Clarice -  Nha Cakish – deu-nos de arrendamento um quaro grande no primeiro piso onde morava.
 Em pouco tempo já era conhecido de muita gente, principalmente, dos trabalhadores, homens e mulheres, de resto a reduzida população da ilha favorecia a aproximação entre as pessoas de forma rápida. O facto de ser eu a fazer a chamada ao ponto e proceder pagamentos ao pessoal era normal que assim fosse. Outrossim jogava o futebol e ingressaram-me no Benfica de Sal Rei. Com o mar à porta aprendi a remar, a nadar e a gostar mesmo do mar. O areal era infindo, limpo e imperava o sossego.
A terra era seca, rasa e de muito sol. Cedo, a paisagem da ilha convidou-me a perceber quanto determinado era o boavistense, quanto corajoso ele era e o que é que teve de suportar para sobreviver, fazendo das dunas o seu cavalo de esperança e da aridez o bordão do sustento, premissas que moldaram um jeito de estar, de ser e de se relacionar com a natureza, um proceder que influencio a sua maneira de compor, de cantar, de dançar e de se manifestar quer nas praticas domesticas e nos festejos populares, cultura bem diferenciada da das gentes das restantes ilhas do arquipélago. A ilha da Boa Vista influenciou bastante a minha juventude, marcando fortemente a minha forma de tocar violão. Era raro não haver no fim do dia de trabalho tocatina entre amigos. Eu morava bem perto da casa do Sr. Gregório, pai de Herculano Vieira, do Dança e da Maxencia, todos eles tocadores de violão. Quase todos os rapazes da vila eram violinistas. Aos fins-de-semana era serenata ao luar, pois, não havia luz eléctrica nessa altura.
Anos depois, pisando o mesmo chão, revendo a mesma casinha de madeira ali no cais antigo, de olhar ancorado na mesma baía, o longínquo trouxe-me o inolvidável, as gentes de outrora Nha Clarice, Nha Guidinha, Nh’Aguinólde, Vaiss Carpinteiro Naval, Fulim, Nhófa, Dansa, Nery, Bia, Fidélia, Mestre Marcos, irmãos Da Cruz e Fausto Rosario, Firrin, Rosário, Nhunguin, Txunkin, Firmino, Mestre Djon de Ti Pól, Noel Fortes, Ultra, Alfandega, Loja Dona Irene (hoje, Dona Hirondina), os botes carregados de peixe escalado vindos das Gatas e os ensaios do Carnaval no quintalão da Ultra. Anos depois, o sentimento era igual, mas a realidade tinha mudado completamente. Na ilha da Boa Vista, a terceira em dimensão no conjunto do arquipélago, fervilhava a nova era, a dos andaimes e a das grandes construções, a da procura e das migrações, a do aumento populacional, a da edificação da futura cidade de Sal Rei. Além, um pouco para interior a Ribeira do Rabil, a mais virgem bacia hidrográfica das ilhas, o casamento das covas com as sementes, anuído pela gota-gota nas parcelas agrícolas, era oiro sobre o índigo, as grandes obras  em curso, o Aeroporto Internacional do Rabil, de amplo tapete basáltico listrado de branco, era a porta de entrada para os visitantes, os hotéis de grande porte eram, adentro da perspectiva de valorização e revitalização da ilha, acréscimos formidáveis. Vislumbrava-se um futuro promissor, onde o revigoramento das tradições culturais da ilha, acções de redescoberta dos bens culturais e patrimoniais, trunfos fortes a serem trabalhados e exibidos aos forasteiros, àqueles interessados num turismo pacífico, da busca de informações, do conhecimento da história, das figuras destacadas, dos lugares com nome, das curiosidades locais, dos costumes, enfim da identidade de um povo, como disse antes, que fez das dunas o cavalo de esperança e da aridez o bordão do sustento
Boavista está-se desenhando como uma forte região de Rota Turística, mas, para isso acontecer de forma equilibrada e rentável, o poder local terá de ter muita lucidez, muita capacidade de trabalho e de gente capacitada para vislumbrar caminhos a seguir, o que obriga a uma acção inteligente nunca a reboque das modas copiadas para satisfazer pressões e interesses políticos imediatos em detrimento da avaliação correcta de cada projecto e de cada medida a implementar-se. Fala-se em todo o lado: temos potencialidades. Mas a questão é como transformá-las em ofertas e produtos de consumo de qualidade. Turismo não é banhos de mar e pisar praias arenosas e limpas. É antes um fenómeno que gera em si um vaivém de gente de latitudes e culturas diversificadas, de diferentes modos de falar, de estar e de actuar, com aspectos positivos e negativos a impender sobre a realidade física e humana da localidade onde é exercida. Importa reflectir sobre o que tem interesse para vida dos naturais, numa palavra que ganhos de futuro. Muitos vêm no turismo uma espécie de prancha de redenção para muitas das actividades artesanais moribundas, porém, outros pretendem apresentar artefactos imitados como sendo escultura nacional para o consumo dos visitantes.
Que ofertas devem ser trabalhadas para contrapor este estado de coisas?
Agendado estão a preservação dos objectos, do património construído, da cultura urbana, da cultura rural, das artes e dos ofícios tradicionais e um conjunto de coisas, mas não há orçamento, se ele existe desaparece em acções demagógicas do chamado apoio social, enquanto os criadores das artes sofrem do desgaste e da perca do entusiasmo.
A criação do ambiente favorável através de afectação de recursos, medidas legais e administrativas, acções de formação e de promoção das artes é obrigação constitucional, é um direito dos criadores, é obrigação e não favor ou favorecimentos. O papel do sector público e do privado na promoção do turismo, deve ser o mesmo na promoção e protecção das artes e dos seus criadores; a contribuição da comunidade local no desenvolvimento do turismo deve ser a mesma devida à cultura; o bom turismo, os impactes sócio cultural deste, o turismo como agente de mudança sociocultural, os impactes culturais do turismo, o desenvolvimento do turismo cultural, são matérias que estão no âmbito do achismo, ficando por descortinar o que é relevante e como encaminhá-lo. As equipas camarárias, todas elas, tinham de deslaçar da apatia e lançarem-se na criação de ideias motivadoras dos seus munícipes, na criação de redes de promoção e de divulgação da imagem social das localidades, na equiponderação das valências em resultado das transformações que vão tendo lugar, para melhor poderem sugerir caminhos a seguir.              
Valeu muito a estada na ilha pedra três do triângulo da minha existência. 
À Yléh do deserto de Viana um beijo do peregrino.
Sabiam que arrabil é nome da antiga rabeca pastoril de origem árabe.  

De Volta ao Blog



É interessante esta mesa violão com a garrafa do vinho na fonte do som e a tentadora taça de cristal a coroar o belo objecto de decoração, a mesa. 
Mas senti-me tocado, altamente ferido, ao ver os braços dos instrumentos partidos lá onde doí a sonoridade das inversões dos acordes. 
Doeu-me o entorse da décima segunda escala onde o Mi esgota-se na sua oitava. 
É como estrangular na pauta a clave de Sol ou do Fá a sílaba que dá inicio à uma canção...claramente, senti dores nas articulações.

terça-feira, 4 de julho de 2017

Textos Exilados




POEMAS DA COLETÂNEA - TERRA DILECTA 
- CAMINHOS CANTANTES - 
NÃO PUBLICADOS


1
Julho de remotos Julhos.
Cíclicos Julhos de águas e de crises
Cinco jurados motivos penhorados
Como é bom crescer a revirar a vida
Como é bravo ver e ouvir o nordeste
A dobrar o látego na pátria tecida.
Dilecto Julho!
Soubesses a valia dos meus sentidos
Noutras covas chuvas tuas choviam.

2
Oh Amado Julho!
Nem sempre os teus recostos
Suavizaram-me a crença, a dor
E os desencantos da terra kretxeu.
Que dizes das minhas sonsices:
Doei às covas por abrir o suor
Domei a evasão e o desprimor
Opus o canto de anos de langor
Doei por ti mais de meia de mim.
Oh dilecto Julho!
Oh vindouro Julho!
Sim, o vindouro!
Que trará ele na petiza do olho?

3
No telhado dos meus muros de grito
Cantam Julhos de todos os gemidos
E bailam ventos de todos os sentidos
Julho! Pensado Julho! Julho sentido!
A hulha dos teus duros vividos dias
Traz-me longas saudades da mocidade
Faz-me caminhar para dentro da idade
E supor na boca o olor do clamor feliz.
Como é seguro o caminhar do Julho
Parece trazer nas ancas o feto do devir
Como amo a flor do tempo que há-de vir.
Como é futuro a rubra flor de Julho
Parece trazer ao colo o riso do porvir
Como amo o tempo que há-de florir.


sábado, 1 de julho de 2017

Poemas Marginais (Julho)



JULHO EM EMERGÊNCIA

Julho de madrugadas e gritos
Julho de antemanhãs de Julho
Julho pátria de todos os sonhos 
Julho berro de luta e liberdade
Julho estandarte de incitação
Hasteado nas praças da ilha 

Julho de idos e vindouros Julhos
Julho de antigos braços erguidos
Julho de cânticos corpo de bronze
Julho de céus e mares das ilhas
Julho voz plantada na memória
Resgatado de noites de vigília

Mesmo que as arbitrariedades
Os atropelos e as injustiças  
Enfermam a terra e os homens   
Mesmo que a bravura esmoreça
Mesmo que tudo desaconteça
Serás sempre o ardor da luta  

Oh! Insígnias de jurado Julho!
Oh! Julho meu! Oh! Julho nosso!
Ainda trazes ritmado nos passos
A trova e a pauta dum canto novo?
Ainda trazes no ventre a certeza
Que me orgulha chamar-te Pátria?


terça-feira, 27 de junho de 2017

Poemas Marginais


MÁS_CARAS EMDE_LÍRIO

Desmascarado sentei-me na gaveta  
A lâmpada acesa a vigiar minha mão
Desinquieto nem pardais-do-telhado

Bafo adormecido espalhando alma
No caderno aberto à minha frente
Silêncios versos canções ardentes

Olhos a procurar verdades em fuga
Invento o voo de uma nuvem roxeada
Um fio de água o chão de um rebento

Folhas crescendo o despontar do dia 
Subo e desço o braço do violão
Uma mão desenha e a outra arpeja

O violão curva da neguinha que amo
Há ritmar do mar e o cantar do galo
Nos recortes do dia a içar o começo

De caderno fechado à minha frente
Mascarado levantei-me da gaveta
Deix_ando más_caras emde_lírio

segunda-feira, 26 de junho de 2017

ESTE VÓMITO FOI-ME DEDICADO PELO GRANDE ESCRITOR E POETA LUSO-CRIOULO - JOSÉ LUIS TAVARES - DOMINADOR DA LÍNGUA DE BOCAGE E EXÍMIA PENA CAÇADORA DE PRÉMIOS LITERÁRIOS.
QUANDO A ALMA É PRISIONEIRA DA COR DA PELE A BÍLIS É FRUSTRAÇÃO ESCRAVOCRATA.
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RESCALDO E REFUGO DA DESINFESTAÇÃO (OU COMO UMA RATAZANA DEU À COSTA EM FORMA DE KAKA OU CAGALHÃO, QUE É A SUA ESTIRPE MAIS NOJENTA)

José Luiz Tavares
Eu tinha prometido a mim mesmo não voltar, por nada deste mundo, à desinfestante matéria, mas como o biltre teve a desfaçatez pusilânime de tomar as dores da comparsa (que também são um tanto suas, porquanto sempre foi capacho e serventuário de poderes), cá vai um tirinho, apenas para agitar o esgoto. Mas esta é uma não resposta, porquanto um flato fedorento não contém qualquer substância digna da varredura desratizante da minha pena indignada. E também não é um debate de ideias, ainda que viril. É apenas un trotxada, di kes d'un bes.
(Essa gente é louca ou masoquista, ou as duas coisas juntas? Não sabem que quando se armam em santxu matxu ô femia ku mi a única atitude higiénica e cidadã que concebo é baixar desmedida cacetada neles como se não houvesse amanhã? Podem planear patuscas celebrações, manifestações de desagravo, congeminar ou patrocinar peidos como esse, bolçar a raiva impotente aos ouvidos de afectos e desafectos, que a minha determinação não esmorece nem vacila).
A sua posta, não de pescada, mas de merda regurgitada, é o inexaurível retrato da sua pusilanimidade cívica e da sua covardia moral. É certo que, apanhados pela desinfestante bomba, foram pressurosamente a correr com as calças e cullotes borradas de diluviana caganeira tentar atolar de merda a caixa de comentários do online onde o meu texto/manifesto foi publicado. Reacção previsível, por isso foram barrados à entrada. Mas o biltre, com a bomba bem entalada na garganta, impante de vacuidade cívica e espumando de impotência intelectual, ku folgu si di pifa (a expressão é do próprio) ainda conseguiu exalar no Facebook do Nhonhô Hopffer um asqueroso e flatulento «e daí?» Embora em anterior encarnação se achasse quadrúpede (vulgo buru na ladera), a ratazana, vendo-se ao espelho da sua bestialidade, resolveu travestir-se de sapo, na esperança de que o beijo dalguma extraviada ou extenuada musa o transforme em transfronteiriço poeta da portuguesa língua, seu novel e propalado propósito. Talvez lendo o José Luiz Tavares se aperceba do quão difícil é, afinal, a empreitada. Que fique, sem complexos, pela nossa amada, crioula língua, onde, conceda-se com inteira justiça, o seu conseguimento não é dos menores. Talvez, desse modo, a posteridade venha a saudá-lo com bem mais risonha face. Razão porém tinha o enorme João Vário, quando escreveu que a arte ainda não melhorara o homem.
No seu complexo de serventuário de modos totalitários de conceber o mundo e a vida, quando não mesmo industriado em repulsivas técnicas e tácticas bufas, lá se refere, sem mencionar uma única vez o nome, a este poeta de corpo inteiro como «o escriba, e o artista de blazer». Ó barbosa criatura, tanta kaka por um simples blazer, que um março friorento me obrigou a portar, embora saibamos todos que esse cacarejo canalha, esse chungoso e covarde textículo, essa prosa excrementícia exalada a más horas das entranhas envidiosas, tem a ver apenas com a sublime sova que arreei sobre vossas nulidades fraudulentas, travestidas de academistas. Mas seja. Antes janota de blazer do que a alma de lacaio, a espinha dobrada e as barbas conspurcadas pelas migalhas lambidas ora li, ora la.
Eu sei que andas comigo atravessado há muito, ngispadu propi, desde a entrevista que concedi ao Expresso das Ilhas em julho de 2010, na sequência da edição bilingue de Paraíso Apagado por um Trovão. E mesmo assim, no afã ventoso de estares em todas, não te coibiste de aparecer, ressabiado e complexado, no antigo Club Confidencial, no palmarejo, na tertúlia para o qual eu fora convidado. Depois de teres atravessado cutelos e quebradas, descido ladeiras até encalhares nas fundas ribeiras da tua ignorância, despido de orgulho, ou apenas de simples pejo, a meu malicioso convite - uma ratoeira bem urdida - lá aceitaste ler dois esconsos poemas em português, no que constituiu uma propositada, embora subtil, humilhação de que nem te apercebeste. Aliás, esta não foi a única vez que foste obrigado a engolir o teu próprio vómito: aconteceu, volvidos anos, depois de rabiosas declarações em relação aos executantes do género musical hip-hop, demonstrativas da tua aguda intolerância e ignorância estéticas.
(Se dúvida houvesse acerca do carácter de tal criatura, relembre-se o virulento e demolidor retrato, feito há uns anos por um irmão num jornal aqui da praça. Mas que esperar de um pobre de espírito que, pedindo meças aos deuses do desvario, se afirmou certa vez mais poeta do que o nosso imenso Arménio Vieira? Esse mesmo presumido landgrávio, com a peçonha enquistada em todos os recessos da alma, insinuou há dois anos, sem apresentar quaisquer evidências credíveis, que Zezé di nha Reinalda não seria o autor de Guentis d’ázagua, esse monumento de ternura às gentes da nossa terra). Mas a mim tu não chamas «escriba», seu monco delambido, seu escarro abjecto. Eu sou poeta com todas as letras existentes, mais aquelas que o meu engenho reinventa. Escriba és tu, mai-los da tua igualha, que pondes a pena, a voz e a alma ao serviço dos vossos torpes amos, que jamais são a arte, a beleza ou a simples verdade. Eu sirvo somente, e sempre, à poesia e à minha consciência.
Não tendes estatura cívica, moral ou intelectual para falardes comigo, nem para tomares as dores da tua comparsa. (Sagaz foi ela em não piar no meio dos destroços provocados pela desinfestante bomba). Convosco a única forma de (não) conversa é de esgoto para baixo, mas para tal não vou contribuir nem com mais uma simples pitada de DDT (já bastou esta dose de TNT), pois digais o que disserdes, em linguagem de asno ou de roedor, não conseguis dizer nada. Népia. Nicles. Nen flatu ki fari folgu.
Ainda vos dei uma oportunidade, no dia do magnífico espectáculo que haveis citado, de me dizeres na cara o que andastes a refocilar por tocas e tugúrios quando vos deixei, feito estafado espantalho, com as mãos desamparadas à cata da apropriada fossa onde metê-las (a razão mais imediata para o seu asqueroso espumejar) mas, confirmando de que fibra moral sois feito, preferistes ao quinto dia (bem menos levou cristo a ressuscitar) ir onanizar mentalmente para as funduras do Facebook.
Vossa vacuidade fique a saber, se não souberas já, que eu, José Luiz Tavares, escritor e cidadão desta terra e do mundo, não pertenço à laia dos lacaios.
Nenhuma merda que atirardes, com pífia ou pesporrente voz, me fará responder-vos outra vez. Nem que tenteis a calúnia ou a ofensa, inventeis desafios passadistas de macho falho do poder do pensamento, ou mesmo me sairdes de tocaia das alfurjas onde congeminais caninas façanhas para o dia de amanhã. Este viril esbofeteamento verbal, para mim, e sobretudo para os meus, que não querem ver-me a perder o precioso tempo da poesia com o visco dos vermes, é retribuição suficiente, na medida da ofensa praticada. A honra está lavada, o espírito apaziguado.
A resposta está dada duma vez, e para sempre, pela consistência do meu labor criativo, pela exigência do meu posicionamento cívico e intransigente atitude ética. Sempre frontal, dando nome aos bichos, oferecendo o corpo às balas, combatendo com a fúria da razão esclarecida e a sublime violência da poesia, que sempre hão-de sobrepor-se à caca com que nos querem conspurcar.
Escrito na cidade de Boston, Massachusetts, terra de liberdade, aos 10 dias do mês de abril de 2017.

P.S: Este texto é a resposta a um arroto de Kaká Barbosa no seu facebook a 30 de Março de 2017.

domingo, 25 de junho de 2017

POEMAS MARGINAIS


                                               
DEIXEM O PATIO FESTEJAR E DANÇAR

Festeja e dança o meu pátio
Até embebedar a mão e a viola
Mesmo se tudo parar… dança
Nos braços loucos do Peregrino
Amo e sempre amarei meu pátio
De grilos a romancear a janela
De basalto rubescido de Maio
De sol a escoar como formigas
Festejo e danço com o meu pátio
Até o entardecer das paredes
Mesmo quando tudo para… festejo
O chegamento dos pardais
Olho para dentro do lá debaixo
Há bancos vazios e beatas de charro
Olho demoradamente o envolvente
Sinto-me como eu sou… bailante
Sem mistérios p’ra guardar
Sinto-me cem por cento peregrino
Bêbado de indiferença de como sou
Os vagabundos falam sem sentido
Ouve-se e não se abrange… vazam-se
Palavras até o fim das palavras
Olho para o subido das paredes
O corpo do pátio traz flores no falo
O vapor escarlate no sexo da tarde
Quero lá saber de quem dorme nesta hora
Se o Peregrino tem o Bemol e um Sus
E Dobrado Bemol á espera do tempo
Finjo não saber que sou maestro
Para a terça não sofrer de desafino   
Se acontecer o destoar de mim  
Deixem o pátio festejar e dançar.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Txabeta Em Estado de Alerta

                                                         
                                                        
                                                               Txabeta em Estado de Alerta

Amputado de um pé, sem poder mexer, sem reconhecer direito um amigo, só na maior parte do dia, vigiado pela mulher e pela vizinha Mery que cuida da higiene dele, de-longe-em-longe uma visitinha de amigos de outras paragens, em detrimento dos de São Domingos. 
O ditado bíblico é vero e severo ao mencionar que ninguém é profeta na sua terra. Denti d'Oro é grande por conta própria. Dispensa altares. Ontem vim de lá triste e chocado. Antoni Denti d’Oro está ali, encolhido nos seus 91 anos de idade, por conta de um silêncio trágico e perturbador. Ele reconheceu-me. 
Os olhos dele faiscavam como lamparinas nos terreiros onde improvisava refrão do batuko, onde exaltava as máximas populares no seu invulgar finason, o brilho baço dos seus olhos pareciam de alegria, daquela que denuncia dever cumprido, da que consuma o reconhecimento por parte de tantos quantos o admira, o visita, o apoia e o dá o merecido valor de um santiaguense destacado, que tem nome e figura espalhados pelo mundo. 
O momento critica em que esta lenda do Batuko e do Finason, em que esta figura carismática de São Domingos, em que este talentoso mestre cursado na escola da vida atravessa, põe a Txabeta em Estado de Alerta, põe todas as formações do batuko em stand by, põe todos os amigos e admiradores em estado de vigilância, põe São Domingos, em particular, em cautela permanente, põe santiago em posição de guarda. 
Quando morre um grande, tardiamente, levantam-se vozes de todos os tipos, incluindo a dos familiares, a lamentar dores que não sentiu, outras em elogios fúnebres a enaltecer por umas horas e alguns minutos os feitos, as obras, o valor do seu papel social e outras ficções que os figurões delineiam no papel para empolgar os discursos e alçar o colarinho. 
No entanto, o grande, em estado de padecimento, não tem dos mesmos um recado, um caldo, um sabonete, um olhar, uns minutos de visita, por falta de interesse e ignorância, mas nunca por lhes faltar tempo. Antóni Denti d’Oru precisa, neste momento, da presença e do olhar amigo mais do que qualquer outra dádiva. Saber dele tem importância e dimensão humana, tem a grandeza da sua obra. Sei que dos Estados Unidos, de Portugal, da França, da Holanda, amigos nacionais e estrangeiros ligam a saber do seu estado de saúde. A Mery atende pelo telefone 996 16 54.   

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Rapizius



A capital da ilha, a cidade da Praia, é a mais festiva, a mais carnavalesca, a mais violenta e a mais mortal das ilhas.
Os tempos modernos apagaram o ditado de Nho Nacho, ditos bíblicos traduzidos para o crioulo da terra: Ali bem tempo ki  dizavensa ku guerra ta subi Praia " Raton ku Raton, Ratinho ku Ratinho" . É o que se assiste na Praia.
Tais acontecimentos remam contra a propaganda entusiástica dos poderes, das estatísticas, dos projectos, dos sonhos, da boa vida , da boa aparência, da morabeza, de menos álcool, de mais requalificação e outras coisas que os democratas  defendem como sociedade livre e culta que dá lições e está em primeiro lugar em muita coisa em África, etc. etc. Os tais laços de gravata no colarinho desbocado.
Estes patrocinadores do liberalismo capitalista consumista, defensores  da difusão massiva de modas e valores que nada têm a ver com a crioulidade das ilhas. Sabem, mas fingem não saber, nem ver, nem agir por causa do futuro do poder.
O Pantano Perfeito está em estado avançado de edificação.
Os que se afastados do pantanal não têm mais para onde ir, nem onde reclamar, nem contar com a justiça e as regras.
Os partidos políticos estão em campanha permanente.
As Câmaras Municipais são cartazes da propaganda do governo.
Os deputados são espectadores de si próprios.
A policia programa, vai, intervém, atua, captura bandidos, dias depois volta a perseguir os mesmos bandidos.
O Tribunal ouve, diz não ter provas e põe fora os bandidos.
O Hospital recebe, coze, cura, interna, presta socorro, trata de graça os bandidos, recompondo-os para novas acções.
Os bairros periféricos tornaram-se escolas de formação de marginais, de assaltantes, de violadores, de passadores e de viciados.
A igreja recebe os assassinados, encomenda, reza, perdoa o bandido que fica de alma limpa até o próximo delito.
O único estabelecimento onde se cumpre é o cemitério.

Os coveiros mandam todos la para baixo sem excepção e são esquecidos e mal pagos
É o romance - O Pantano Perfeito - em construção.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Rapizius




                                               

                                             BILHETE PARA UMA LARVA NO PARAÍSO

Hoje, recordei-me de um caso penoso. Retracto de um autêntico pantanal, Reino natural de uma larva viridente, Chulo do afecto de folhas empilhadas. Um mosaico a metamorfosear modos. No olhar dos quirópteros tudo girava. O tempo parecia romancear saudades. O carpo parecia ter dó da sua origem. O retracto trazia um busto escondido De um ser aflito por louros e láureas, De deliradas falas empilhadas de ódio, A carpintar facas pelo tempo adentro, Sem poder dedilhar e cantar a morna, Sem poder segurar e abraçar o violão.
Que triste fim de um sapo enturvado, Que a todo o tempo olha-se ao espelho, Da água com se fossem pratos de barro, Poiso da cobiça e da própria morte, quiçá seu paraíso.
Amigos e caminhos não me hão-de faltar, Amenos que me falte em alguma parte, Uma margem de silêncio para me repousar.


quarta-feira, 7 de junho de 2017

Floris d'Ibyago


 


SONETO PARA O ASTROLÁBIO

Quem ousa chamar-me de tosco
Se o que sou são apenas marés
Que em mim vive e me treslouca  
E ondula como vento nas galés   

Viver traz-me sonhos e desvairos
Apraz-me ser o arredado vitalício
No longínquo paradeiro de leigos
Sem mercês nem dogmas e vícios

Desconsolei-me ter visto a cabra  
Que conduzia nas tetas pendidas
A saudade do pastejo de outrora

Do pastor mal se ouvia o trác-trác
Do cajado por entre as penedias   
De lado em lado de flora em flora

sábado, 27 de maio de 2017

Soneto na Quinta di Sol




Soneto na quinta de sol
                                     pa Artemisa Ferreira

Na Polon di Baxu ta mora morcego di nh’amor
dipos ki tanki di kaniss ratxa agu perdi rumo.
Na tripitche nhu Dom ta mora boi di nha dor
dipos ki Somada lagadji e praça perdi mundo.

Bentrada éden di nos mininensa morre corpo
na baziu di Arco da Bedja perdedu na Aguas Bela
Na rio di Maria Simoa rosto baxu ta bái pa mar
Pidoti anju da guarda era pa ka morreda fogado.

Ah! Ponta Carrera di Nho João Carrero
Ah! Ôdju di Djobe Djurga na raiz di Monti Tiro
Ah! Sim bá Somada limárias ta bá igreja

Ta raza terço ta comunga tudu dia Dimingo
Ah! Igreja Baxu. Ah! Scola di Nhu Ildo Parrera
Sim bá ti n'bai! Somada ta cai na Cruz di Pico.

terça-feira, 16 de maio de 2017

RAPIZIUS

O convite diz assim:
O IPC promove um encontro se SENSIBILIZAÇÃO com a comunidade da morna, no próximo dia 20 de Maio de 2017, às 09H30, na Escola Fulgêncio Tavares, em São Domingos.
Assunto: Debate aberto de ideias que potencie a criação de condições para o inventário da morna com aqueles que de alguma forma se encontram ligados à produção, transmissão e divulgação do género.
1º O que é SENSIBILIZAR A COMUNIDADE DA MORNA?
2º O que é inventariar a morna?
3º O que é potenciar e criar condições para inventariar morna?
3º Do jeito em que as coisas estão é verdade que a morna pode alguma vez ser candidata a Património Cultural Imaterial da Humanidade?
Vou lá para ver e entender tudo isso.
Sinto-me, por vezes, não pertencer a esta terra.
Ou sofro de atraso mental grave ou vivo ausente daqui.


RAPIZIUS


Santiago - Praia - no seu maior.... depois do CVMA.
Praia: Festividades do dia do município orçadas em 30 mil contos – confirma a vereadora da Cultura da CMP em conferência de imprensa, na Cidade da Praia, no acto de apresentação oficial da programação das festividades do dia do município.
São 30.000 contos, para se gastar incluindo o festival de música da Gamboa. A informação foi dada hoje.
Para um festival que de cultura nada tem.
Para um festival de promoção de música pimba.
Para um festival que não tem Morna como Candidata a Patrimómio Cultural Imaterial da Humanidade.
Para um festival que não tem em conta nenhum outro género artístico, mas sim popularizar a mediocridade.
Na CvLandia é assim que se brinca com o dinheiro e com as coisas sérias.
Depois não desdenhem do Festival da Morna da Boa Vista, nem do Festival de Morna da Brava.
É irreversível a alienação total e perca da matriz.

Depos de sab morre é ca nada...

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Depoimento



LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA
CABO VERDE PROSA LITERÁRIA PÓS-INDEPENDÊNCIA
DEPOIMENTO
  
Caro confrade Jorge Carlos Fonseca, poeta e prestigiado Presidente da Republica, agradeço a aprovação da apresentação da obra - Cabo Verde Prosa Literária Pós – Independência - neste magnifico espaço – Sala Pequim da Presidência da Republica, bem como o programa do ciclo de leitura, gesto honroso, justamente na vizinhança do dia da celebração dos 110º aniversário do nascimento de um destacado patrono da nossa Academia de Letras – Baltazar Lopes da Silva.
 Daqui saúdo a produtiva cooperação com o Banco Interatlântico, instituição benemérito da nossa Academia de Letras, quem suportou por inteiro esta bela obra; louvo as organizadoras desta suculenta compilação de contos curtos: as Professoras Érica Antunes, Fátima Bettencourt e Simone Caputo Gomes,  membros da ACL, pela gentileza, agudeza de espirito e pela capacidade de realização deste belo exemplar em pouco tempo; Realço o belo trabalho da Acácia Editora, na pessoa do Sr. Joaquim Morais, pela minúcia e cuidados dispensados, pela qualidade e boa apresentação desta moderna coletânea de contos. O meu muito obrigado aos cooperadores e á ilustre assistência, sempre nossa seguidora, pela presença e estímulo.
 Permitam-me insinuar que recolher e compilar o melhor nunca foi simples, mas romper estorvos e fazer, é superar hesitações.
As organizadoras foram sensatas na preparação deste autêntico mostruário de novas letras, de novos mensageiros, de novos escultores do verbo, todos eles edificadores da cidadania operante (em crescimento) cujo talento e fantasia fazem-nos viajar pelo mundo e pela sociedade crioulos, mas também para fora dos limites da ilha, invocando ambientes e visões, alegando e narrando intrigas e réplicas, narrativas estas erigidas em marco colateral ao da claridade enraizado no regionalismo e no universalismo, como defendia o poeta e ensaísta Manuel Lopes ao evocar a problemática da literatura nos meios pequenos ou acanhados e nos meios grandes, sendo o marco de agora inserido no tablado global do mundo, distinto em rumo e modelo literários, sem que a pena nacional nascida do sal da terra, têmpera da trova, da poesia e da prosa ilhéus, perdesse emoção e vigor.
 Ao tempo da claridade, pouco parecia muito, ao invés, hoje, tempo das novas letras, vários são pouco, mesmo com a anulação dos limites que a criatividade de outrora se sujeitava, não obstante, editar, ainda é freio a superar. Porém, criar e produzir são tarefas que cabem aos escritores, vulgarizar é empresa das editoras nacionais e externas, mas zelar e conservar o património literário construído cabe, primeiro, aos autores e suas associações de classe, cumprindo ao estado defendê-lo e protege-lo através de medidas e de acções concretas, sabendo que as letras cabo-verdianas são os alicerces da nossa identidade e massa da caboverdianidade no mundo, como tal, devem, todo o tempo, estarem vivas nas escolas, nas universidades, nas livrarias, nas bibliotecas, para estudo e difusão, e também nas mãos dos leitores e traduzi-las em outros idiomas e coloca-las noutros espaços de leitura.
 Estamos perante uma colecção de textos em prosa que espelha o elevado interesse da Academia Cabo Verdiana de Letras em divulgar as criações dos autores nacionais, alguns bem conhecidos, outros, nem tanto, sendo, todos eles, obreiros de estilos e de contares do passar das ilhas, das gentes e dos esquemas de comportamento, reflectindo apegos, visualizações e ponderações, quiçá, revirares da vida, ciente da perpetuação dos seus nomes e das suas obras e ao mesmo tempo presenteá-las aos amantes do livro e da leitura onde quer que estejam.
 A presente Antologia, sem forçar o calendário, refere-se ao período aludido na capa do livro - Cabo Verde Prosa Literária Pós – Independência, e revela com prudência e audácia um percurso prolífico dos autores e das letras cabo-verdianos neste lapso de tempo. Trata-se de um projecto e de uma solicitação da ACL cujo labor foi confiado a um trio notável de cultoras referidas na portada desta comunicação, entidades de confirmada competência e dedicação na valorização e na difusão das letras nacionais, um debruçar aturado sobre prosa diversa de escritores vários, resultando neste bonito indicador do itinerário da palavra nos mais variados sentidos, acomodando iniciativas, crer e querer crioulos, ideando lugares que decerto amaríamos viver perenemente.
 Esta obra identifica um tempo portador de pactos, de retornos e de inícios, envolvendo quarenta e cinco títulos de outros tantos autores com os pés fincados no mesmo centro e de olhos postos nos graus da girante da bússola determinante da aventura crioula, proeza do “navio de pedra que busca o rumo sem poder encontrar-lo no seu lugar”, citando o eloquente poeta Gabriel Mariano, nau, hoje, transformada botão do clik portador de novos rumos e viagens, de pontes sobre o mar que rola novos sonhos, de mãos inventoras do molhado que não se tem, de cultura no corpo da comunicação, mas, também,  terreiro da reconstituição permanente do sujeito poético, cutelo, onde, os poetas e os escritores hasteiam o pendão identitário, abrigo, onde residem, renascem, transformam-se, criando episódios a partir da vida vivida e prenhes de caminhos vindouros.
Ilustres senhores situamo-nos no tempo das novas letras. 
Termino, dizendo, que ao alinhavar estas palavras uma incerteza bailava-me nos sentidos: será que a literatura pós-independência é deveras impactante e portadora da mesma força incitadora tal como a que antecede a este período?


Poemas do Litoral

ESPELHO D'ÁGUA EM ARCOS DE PEDRA Dois retractos do antigo Dezembro à janela do presente mirando o desmoronar do tecido verde das ...