sábado, 25 de março de 2017

Rapizius - Funaná




                                                                      FUNANIGHT

Quando se edita uma obra com base em um projecto pensado o seu autor procura fugir ao óbvio, isto é, incorpora e aproxima, cria e dialoga, expressa e comunica, MEDITA e promulga.
Foi o que aconteceu ontem no Auditório Jorge Barbosa. O músico e compositor Mário Lúcio trouxe-nos a ideia de como se recria e se inova através do som cuja linguagem e fraseamentos melódicos são de simples feitura, mas construtivos e perfeitos num aproveitamento desabusado dos motivos que dão sentido ao Funaná.
Funanight é, em si, um concerto em disco, é uma proposta e uma viagem pelo habitat do funaná, diria, pelos diferentes santuários dos trovadores de Santiago, pela cifra onde a magia da gaita e do ferrinho enfeitiçam a pauta, onde, nós outros, (re)criadores vamos buscar a essência e os motivos para os incorporar nos tempos modernos da musica nacional.
Valeu ter participado da marca Funanight e da ilustração musical que a noite de Mário Lúcio nos proporcionou, valendo, também, em toda a linha, o desempenho dos músicos acompanhantes (executantes) que exibiram técnica e saber estar na música.
Foi uma noite de som nacional e de nacionalização do som.
Criar com arte a liberdade de criar arte é mortalha dos criadores ousados.

Valeu. Kaka Barboza

sexta-feira, 24 de março de 2017

RAPIZIUS A CARA VADIA



                                         A CARA VADIA


O carro seguia na rua principal do bairro quando ela me fez sinal para parar. Parecia quem vinha duma festa. Deu a volta, da janela do lado oposto, disse que precisava de boleia. Eram três e meia da noite. Eu tinha de chegar á casa. Recusei-me. Arranquei o carro. À essa hora da noite, boleia, ninguém. Tomei a rua da Esquadra da Policia para encurtar o caminho. Andei uns metros, senti um movimento estranho dentro do carro. Rodei a cara para a almofada de trás, um braço apoiou-se no meu ombro. Quis parar, mas não conseguia. O carro seguia sem saber para onde estávamos indo. Impacientou-me a situação já que não havia como acertar com o caminho de casa. Senti-me perdido. Não conseguia dominar os sentidos. Encostou-se a mim, com os olhos semi-fechados, a espalhar um perfume estonteante que me tomava conta do comando. Notava através dos sentidos que andávamos por um caminho diferente, a distanciar-nos do bairro. As luzes da cidade afastavam-se cada vez mais. De repente, o carro parou de andar, reparei e percebi que estávamos num descampado em completa escuridão. Olho para o interior do carro, nada. Ao manobra-lo para deixar o lugar, notei que uma cabra preta estava agora à minha frente. Tinha um porte esquisito. Chifres compridos e enrodilhados em espiral, olhos aguçados de brilho a chumbo derretido e voz áspera. Um frio percorreu-me as espinhas quando ela disse: Sai e tira a roupa! Parei sem entender o que estava a acontecer. Recusei. Impaciente, ela gritou novamente: Vá, tira logo a roupa, seu macho! Meu primeiro impulso foi tentar correr, apesar da moleza que sentia invadir-me os músculos. Olhei para um lado, para o outro, para tentar fugir, mais duas cabras pretas surgiram atrás de mim a tapar o angulo. Calma macho, aonde pensas que vais? O frio da nudez mais o calafrio na espinha gelaram por completo as minhas forças. Entregar a cabeça era o único remédio. De repente apareceu um carneiro de muita lã, encorajei-me. Lembrei-me de Nha Diminga, a velha da nossa casa, que nos contava do carneiro lãzudo a atirar-se ao Sujo travestido de cabra preta, para salvar o bom cristão. Os olhos do salvador pareciam uma lanterna grande e os longos chifres a chicotes. Caminhou até mim e falou: Fica descansado. Vou-me entender com essas vadias! Ao agir contra uma, a outra tentou segurar-me pelo braço, mas o lãzudo fulminou-lhe a chicotada. Eu estava nu-prite. Pronto a ser seduzido. As vadias fugiram. O lãzudo aproximou-se, inspeccionou-me e disse-me: Podes ir para casa! Parado, tentei reencontrar-me. Dirigi-me ao carro, entrei, pu-lo a trabalhar, saí para agradecer o lãzudo salvador e ali já não estava. Assim como apareceu, sumiu. Meu corpo todo ardia em gelo, meus braços e pernas doíam, mas meu castigo ainda não havia terminado. Tinha os pneus furados e a casa ficava distante. Forcei as pernas para andar, mas de nada serviram, pareciam estar presas no lodo do medo, enquanto gargalhadas sarcásticas ecoavam na madrugada do descampado. 

quinta-feira, 23 de março de 2017

POEMA EM MARÇO DA MULHER





MUDJER NOTI DI PRIMAVERA 

Di bu corpo un tra camisa di noti
Fetu di purfumo kenti di bu folgo
Rolado na candero di nos boca
Mesmo ora ki ceu sukundi rostu
Mas ninguém sinau mi ku bo - sabe  

Na txon di temporal na nos cama 
Di crer ta djanguano na sangui
Sima bedjera sotido na calmam 
Ta planta utri entri kuato paredi
Mas ninguém sabe di entri mi ku bo  

Marradu pa anel di comprimisso   
Sima cuscus kenti na tabuleiro 
Di kel bejo ta treme di ternura
ku tontura ta mata ku gana mata.

Mas ninguém sinau mi ku bo - sabe
Di lançol bistidu di nos amor a-dois!
Mudjer primavera di nha morti

domingo, 19 de março de 2017

RAPIZIUS EM DIA DO PAI


SEJAM PAIS-MENINO COMO EU

Era um cachorrinho do mais belo porte que podia haver. Bichinho inteligente, amável e cheio de alegria. A casa maravilhou-se com a sua chegada. Logo, começou a chover afectos e nomes. Pedi que não optassem por nomes vulgares, esses colhidos em revistas e cenas de bonecos animados. Ele merecia um nome adequado, um identificado com os atributos que possuía. Com pedagogia convenci a casa inteira a aceitar o nome Vírgula. Incomum nos animais de estimação. Vírgula é nome distinto. Nome de ordenação que faz acrobacias num texto. Acabou por ficar assim o seu nome de baptismo. Era tanto o entusiasmo que voltamos a ser meninos diante do brinquedo vivo que prendia a atenção de todos. Nos momentos de sisudez ele comportava-se como um detective, dava voltas, cheirava, conferia o espaço e o ambiente que o rodeava, deu uma corridinha para a varanda, num cantinho, agachou-se fez xixi pela primeira vez num chão estranho. Chamei-lhe e mostrei o jornal estendido no chão, lugar onde devia fazer cocó e urinar, logo, para me mostrar que entendeu as indicações, pôs-se de cócoras e pingou dois rolinhos justo em cima do papel, de seguida, de focinho erguido, a abanar o rabo, atirou-se a mim, como que a confirmar a lição, sagrando-se, doravante, membro da família de pleno direito a virgular a vida da casa, caso para dizer, que jamais podíamos passar sem contar com o amigo amável, cheio de alegria, sempre bem-disposto e bom companheiro.
Estava, pois, selada uma aliança efectiva, de infindas vantagens, ou seja, íamos cuidar um do outro enquanto durasse a vida da casa. Belíssimo foi o dia. Anoiteceu. Lá mesmo na varanda coloquei uma toalha de pouco uso no chão para servir-lhe de cama, mas não, escolheu outro lugar. Logo à primeira, não entendi a rejeição. Vendo bem, ele tinha razão. Quis o corredor, ponto estratégico entre a sala e os quartos de dormir, onde coloquei a toalha, farejou-a e posicionou-se. Apaguei as luzes. Leio sempre antes de dormir. Passava da meia-noite. Ao ajeitar-me para apagar a lâmpada de cabeceira, o amiguinho fazia-se de sentinela, olhámo-nos, despedi-me dele. Não dei pelo momento da retirada. A casa caíra no sono profundo.
Assim que me apercebi da luz matinal que se abria tão lívida nesse dia de Maio, ainda na cama, enquanto desmurchava o corpo e dava vivacidade às pernas, o amiguinho aproximou-se, subiu e começou com festinhas, como a querer saber se dormi bem e se estava bem-disposto, assim como ele, na verdade, enquanto não falasse, insistia em ouvir a minha voz. Era a extraordinária e maravilhosa prova da intensa amizade entre os animais e os humanos, quando não somos maus animais. Ali verifiquei que o colorido nos olhos mudava consoante o momento. Quando brincava era tom cinza azulada e quando estava a sério mudava para amarelado claro como a chama dentro de uma lâmpada, e foi então que dei conta que os nossos olhos falavam.
Chega e diz: - bom dia, dono.
Digo: - olá Vírgula.
De dia come e dorme. De noite anda pela casa, escuta e obedece as ordens. Só se deita em cima da toalha. Sabe dos batons e do mau cheiro. Topa conversas e o mínimo barulho e conhece bem os seus inimigos. Quando aborrece e resmunga coisas, pensa e sente saudades. É amigo de confiança. Vale mais um bicho amigo que amigo lixo. É tão lúcido, o Virgula.
Chego e digo: Virgula!
Quatro patas caminham e pararam no ponto final. Quatro-olhos na interjeição. Dois pontos e vírgula no olhar. Reticências na cauda. Interrogação no focinho. Vírgula e dono. Ponto parágrafo. Olhos nos olhos.


Depoimento

LANÇAMENTO DA ANTOLOGIA CABO VERDE PROSA LITERÁRIA PÓS-INDEPENDÊNCIA DEPOIMENTO     Caro confrade Jorge Carlos Fonseca, poeta...