terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Raiva e Mágoa



Em louvor à Bíblica Lei - Olho por olho dente por dente

Vinha pleno de temor o solevar da noite
Vinha o colo da flor extasiado de paixão 
Vinha a oculta lâmina trajada de inocência
Vinha o falso gesto lambuzado de sorriso
Vinha o vazio do sentir torcido de ódio  
Vinha o canino marfim feito homicida
Vinha tudo, mesmo tudo salvo a lei de amar.
É do violador engenhoso – Ódio por ódio óbito por óbito
É do sentenciador virtuoso - “Olho por olho dente por dente”

A lei bíblica de todas as alturas e de todos os tempos. 

sábado, 7 de novembro de 2015

POEMAS DE AZAGUA




Esta cor, este vivo do tempo
Que nos enleva – alvoroço da ilha
No palpitar dos rebentos

Esta flor, este hino intenso
Que nos reforça – morouço da vida
No afastar dos lamentos

Este vigor, este valor imenso
Que nos envaidece – salva e jubila
No entenrecer dos ventos

POEMAS DA AZAGUA




Água dando terra noutra terra
água coração de lama
castelos de trovão
nas margens do sequeiro
ontem pesaroso deserto.
Deixou de ser nómada
o chão raiz de sol á flor da pele.
Água trânsito da folhada
música das rochas
página do porvir
doutros cantos
doutros filhos
doutros afazeres
doutros modos
e doutros inícios.
Água textura das nuvens
disfarce das ribeiras
das pedras e dos carrapatos
Água corpo das monções do sul
que viaja a ilha noutra terra
rumo matando sede às pedras.
Água lençol de água pura
gotejos, fontes e poços
Céu invertido dançando o dondágu.
Água disfarce do oásis na face do lavrador.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O Velho, a Mixórdia e a Mocidade





A forma trivial como os Rabidantes Culturais vêm contribuindo para a educação da sociedade, (sociedade juvenil sobretudo) que se deseja democrática, justa, solidária, instruída, culta e capaz, não passa de intenções doentias, seguindo o caminho que se está a seguir, sem que no túnel haja olho de luz no fundo.
Esta-se numa encruzilhada, numa espécie de nó cego numa corda enrodilhada.
Que fazer numa terra onde discordar do outro e ter opinião própria é crime social e público?
Pois, opinar a sério é vazar água no binde, porque vivemos numa democracia de refractários, intolerante e imbecil.
É neste mundo que se forma a nossa mocidade, toda ela, a todo o tempo.
Os poderes públicos investem, fazem, esbanjam, discursam e nada fica consolidado. Até parece que apreciamos desaprender para que tudo fique sobre joelhos e inacabado. Por exemplo: não existe um programa televisivo consolidado que instruísse e orientasse a sociedade e as diferentes camadas que a compõe no sentido da sua afirmação intelectual, espiritual e nacional. Salvo os noticiários, os programas de debates e de entretenimento oferecidos são prenhes de acasos que o esforço dos discursos não consegue reverter. São acasos baseados em modismos importados, tics espalhafatosos, comunicação sem arte, palavras encenadas, portanto sem valor esclarecedor, ficando a percepção devassada por atitudes e comportamentos comprometedores, sendo gente com canudo e paga pelo estado para trabalhar com competência e mostrar o caminho.
Muita gente em privado me confessa estar de acordo com o que eu disse sobre o Programa Tarde Jovem e muitas das opiniões expressas por escrito nesta rede de intercâmbio de ideias. Muito bem. Mas não têm coragem de dizer de forma clara o que acham não só deste programa, mas, sim, de vários assuntos que afectam a nossa sociedade e as pessoas. Poucos dão a cara. Poucos se manifestam dizendo da sua justiça.
A doença do nha boca ca sta la é cronica e terrível. Autenticidade não é coisa do caboverdiano. Prefere sentar-se no muro e ver passar a caravana. Ele é sempre o outro na sua pele, próprio de refractário.
Sei sempre o que dizer, como dizer e quando o fazer. Contudo há uma juventude por aí, arrogante, por causa duma opinião me graduou de Velhote do Caralho, Gagá, Obsoleto, Ultrapassado, etc. (leia-se Do you... Papia Criolo). Essa gente mais não tem de dizer e nem de discutir com alguém. Respondo, sim. A minha formação não aceita bugigangas, nem plágio, nem copianço de modas. Não aceita modismos. Não nasci para cuidar de bugigangas. Sou Diabo irmão de Deus numa só pessoa, para o mal da minha alma, mas, tranquilo e sem palatal furado. Poucos sabem o que faço e conhecem o meu labor. Nunca gostei de aparecer. Nasci aparecido da minha mãe. O resto é manchete e mixórdia e não corro atrás.
Prefiro mil vezes acompanhar os jovens anónimos de Santa Cruz que cumpriram com sacrifício o ciclo de azágua, que, com o recomeço das aulas celebraram o dia da cultura, o dia do poeta, com um programa vistoso e muito animado, todos eles, alunos do Liceu de Santa Cruz que, pelo teatro, pela dança contemporânea, pela música e pela poesia, demonstram quanta criatividade, quanto talento, quanto discernimento, puseram sobre o vivenciar das suas gentes e do seu concelho, servindo de inspiração para legendar a celebração do dia da cultura, longe das televisões, longe dos jornais, privilégio que a juventude urbana goza com mais frequência.
Foi sem dúvidas a melhor Tarde Jovem que assisti neste Outubro prodigioso.
Bem-haja os alunos do Liceu de Santa Cruz, uma palavra de reconhecimento à Direcção da Escola e a equipa que organizou o evento cultural e um muito obrigado pela oportunidade da minha participação.

sábado, 3 de outubro de 2015

Poema ao Pescador de Imagens


Leitura possível do quadro de David Gomes - Pescador de Imagens

Lustro da água, sono de cegonha, céu inverso, rosto do sol, lençol expectante, silencio na pauta.
Eis o dia em que corre água para o monte, preditas várzeas deixaram de ser deserto nas mãos do morador.
Eis o acontecer da terra, pactos alçados no molhado, cabo esverdinhado, cântico no olho do entardecer.
Homem, pão, gado, aves, estrada, ilha, crenças cativa na água lisa do poema.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poemas de Outubro




(Descrição do panorâmico de Celestino Celesta Kryon - Pastor de Imagens -)

Uma nuvem sem nome
enlaçou o Pico António
outra vida trouxe às covas
outra flor á boca da enxada,
outra cor ao semestre
outro sol às penas das aves
à mesa adormecida
da mulher chefe de família.

Uma nuvem sem nome
singrou a memória da ilha
outra terra trouxe ao mar
outro terreiro ao batuque
outro sonho ao violão
outro amor às arvores e montes
e ao chão de ontem despido
de poços no coração da ilha.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

EXERCITAR DECLIVES






(Cinco recados para a emigração e amigos das ilhas que estão longe)

1.
De árvore ao alto
não há sombra
que não ande o verde chão.

2.
Olha-me outubro
como se não soubesse da cor
que no cabo da ilha cresce.

3.
Quando Brianda
rasga o corpo d'azágua
na estrada repousa a noite.

4.
As achadas coloridas
são orvalho e pássaro
nos cinco sentidos da ilha.

5.
Chão, mão e pão
o lugar das flores e espigas
canto em voz alta do destino.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

EXERCITANDO DECLIVES



Há mudanças, sim!
Em todas as coisas criadas.
Há sacudimentos, sim!
Em todas as direcções da terra.

Os equinócios exilaram-se como baleias
a sensatez implodiu como carvão aceso
o calendário e os tempos de agora
são peixes e aves mortos
na areia com plástico no ventre,
são expatriados sem atalho,
são sonhos e viagens traumatizantes.

Há alterações, sim!
Em todas as coisas geradas.
Há abanões, sim!
Em todos os sentidos da vida.

Os condecorados!
Estão ao dobrar da esquina
Da Avenida Liberdade das Nações
Nas escrivaninhas e mansões.
Mas a grande mutação virá!
Quando
pelo sol o mar subir as árvores.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Tera de Aberações






O Programa Tarde Jovem na nossa TCV é um espaço de demonstração o quanto a CV Landia está no caminho certo da desmantelação da nossa rica pertença cultural (popular). É um programa inconsistente, alienante e vazio, tão vazio que espanta.

Gestos, movimentos, discurso, canto, indumentária, tics enlatados, tudo, tudo isso, reflete a aprendizagem que a juventude dos bairros da capital fazem dos produtos pirateados no pelourinho, protegido pelas autoridades, pelos " Podores de Musica e Donos do Tempo de Antena da televisão paga por nós outros. Faz-se e fala-se e não se tira nada de útil do que o programa dá a ver e a ouvir. E não venham dizer que é um espaço para evitar os jovens a desencaminharem-se e a não se meterem em delinquência. Hoje em dia mete na merda quem quiser e não há como evitar isso, porque a CvLandia é uma terra de disfarces e da indiferença.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Poemas em Setembro 3





Nestas águas acesas
O grão dança delicioso
Bêbedo de chão.

Nestas lavras densas
O sol esperta gracioso
Da cor do mamão.

Nestas covas intensas   
O vivo esponta garboso
Soletrando pão.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Poemas em Setembro 2


 Improvisação para este tempo em que a terra nos oferece o melhor da sua generosidade - água e crença no porvir.

 Erguer-se-á neste retrato
 o amarelo da espiga
 inscrito na banda tricolor
 que deu terra aos braços das ilhas.

 Erguer-se-á nesta palma d’água
 a trova e o canto das enxadas
 e não haverá gaita
 nem violão mais cantável
 do que as enchentes e cachoeiras.

 Erguer-se-á neste ombro da terra
 o rio da vida no riso dos meninos
 e não haverá destino outro
 nem noites e sonhos trevosos
 nos lares e nas manjedouras.

 E não haverá nada mais palpável
 do que dois mares de água
 um na boca das levadas
 e outro na proa do pescador.

 Erguer-se-á neste charco
 a espiga do porvir do chão
 inscrito na banda tricolor
 de sol, suor, verde e o mar.
 no para sempre da terra dos nossos avós.

 Erguer-se-á neste pedaço
 o poema novo do poeta sem nome.

Poemas em Setembro


barragens transbordando
a conjugar o ano de azágua

o calendário em equilíbrio
no cabo das enxadas
as raizes nas mãos da lama
abrem a evidencia das flores
debaixo do sorriso do poeta
o mar engole a palavra - seca

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O Hálito da Cidade em Setembro


Este cheiro
do sovaco do quente do sujo
que o olho do sol
espalha pelas ruas do olfacto
são línguas virosas inscrevidas
no rosto anónimo da cidade.

Este cheiro
do buraco ardente do sujo
que o olho de lua
prateia nos areais
são linguagens registadas
no corpo de posturas da cidade.

Não há tronco
que o suporta
nem pedras majestosas
que aguentem
o colo incauto dos cérebros
desprovidos de caminhos
e de missões cívicas.

Amanhece
e os sorrisos da azágua
submetem-se à enodoação.  

sábado, 22 de agosto de 2015

Improviso em Fa+Dó


O incenso que o ânus produz
na Cocolandia dos Santos e Deuses.
Declaro o bloqueamento,
mais o divorcio.
Declaro o desmembramento
  e óc(d)io.

Declaro o finamento
e vontade ao suicídio.
A tempestade forma e não arrasa,
nem chove.
Tudo indica
e não passa do sul da Brava.
A cocolandia
rescende do incenso do ânus.
O nauseabundo
invade a gaveta branca
É terramoto na terra dos santos e santas.
A água não vem
e o tsunami também.
Cobom, Safende,
Varzea, Paiol e Gamboa
Aspiram desentupimento,
dreno e poda.
Mas os deuses não acordam,
Nem atendem.
Prestes a morrer
todas as canções e poemas das ilhas
No fétido que pela janela penetra e fica.
Oh! Tempestade Tropical
leva tudo deixa ficar o mar
para futuras caravelas,
padres e pastores.
Ontem
Morreu o poeta mais sereno da ilha
É pena
que a terra esteja tão conspurcada.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FLORIS D'IBYAGO


Lendo
os meus primeiros tentames poéticos
Pareciam
bilhetes nas mãos da aragem
a solfejar
pó da orgia das palavras
Pareciam
pedaços do banco da quarta classe
que pecava
em todas as direcções gramaticais
que acertava
numa coisa só…
lápis na mão e papel na tábua.
Eram
como desenhar abóbadas   
duma inocência cansada da sua idade.
Buscar
a declinação dos anos
Distanciar-se
da terra dos comuns.
Peneirar
palavras
Metamorfosear
símbolos e sinais
Trocar
pássaro por esfinge
e colocar-se
à margem de si próprio.

domingo, 2 de agosto de 2015

RAPIZIUS


 
 
 
Qual o estado da maçã? - Perguntou a árvore.
Do galho o papagaio diz: - comestível.
Do lodo o sapo grita: - amargo.
Do prado o gado conclui: - imprestável.
Algures soa uma voz: - carago

sexta-feira, 31 de julho de 2015

CANÇÕES




Quatro canções de louvor ao milho, à sementeira e aos camponeses da minha terra.
(In Terra Dilecta - Caminhos Cantantes - Inédito)

Luzentes pelo alento dos arranjos  
as covas da sementeira marcham
para celebrar a terra molhada   
que dilata a pequeneza dos grãos. 

Inocente não é o canto do lavrador  
que inventa o molhado que não tem
luz o rumor do pau na boca do pilão
esverdinha o sol que lambe a terra
e à sombra do balaio dorme o pão.  

 
2
 
O milho é como um pássaro
que voa dentro de nós a renúncia
ao seu próprio ninho.
É como um barco que de manhã aporta
e à tarde devolve-se à jornada.
Fosse a ilha um barco
e milho bússola  
outras rotas e viagens
outros destinos
teriam as nossas manhãs.

3
O milho semente ilhéu
traz a ancestralidade 
e as milhas do mar insular
que separam e unem memórias.

O milho contém suspiros
origens e glórias
O milho detém caminhos
limites que unem histórias.

4
Milho
Pão
Semente
Somente
Não.
Milho
É canção

 

sábado, 25 de julho de 2015

Julio Mês de Júbilo



Santa Cruz, 24 de Julho de 2015, 10H45. Acabo de chegar a cidade de Pedra Badejo. Olho o telemovel. É minha mulher. “ Olha, a notícia e desagradável. Acaba de morrer o teu amigo, Dr. Corsino Fortes”. Falei quase nada. Dei um até logo. Lá mesmo já se sabia do falecimento do poeta. Helder disse: “Morreu Corsino Fortes. Bom homem”. Na esplanada a rádio anunciava a morte do capitão vestido de branco. Contudo, Santa Cruz preparava-se para celebrar o dia do município. Há muita agitação. Muito entusiasmo na preparacao dos festejos. Precisamente, hoje, a Câmara Municipal vai homenagear figuras que desempenharam um papel de relevo na edificacao do concelho em varios dominios da vida pública, social e politica, personalidades cujo desempenho prestigiaram o bom nome do Concelho. Entre os filhos do concelho agraciados pela Assembleia Municipal, em acto público reunido para o feito, estavam antigos deputados, delegados do Governo, médicos, proprietários, professores, agricultores, agentes sanitários, agentes sociais e culturais, todos merecedores de menção elogiosa pelo papel desempenhado no passado e no presente, gesto nobre da Camara Municipal de agradecimento e de reconhecimento, face de uma nova feição conferida ao interior de Santiago.
O acto contou com sessão musical protagonizado pelo compositor e músico Quim de Santiago sob a directoria musical de Helder Lima, professor de música neste concelho. Várias actividades constam das celebrações, sendo o festival da Areia Grande um dos pontos altos. Estas festas são sempre momentos de exaltacao das realizacoes conseguidas, de convio, de confraternizacao entre os locais e os visitantes, de movimentação dos pequenos negócios, de música, enfim, de celebração da memória. Santa Cruz em festa contrasta o ambiente de pesar que vive Mindelo, círculo dos amigos do poeta, o inclinar da nação inteira que reconhece em Corsino Fortes, o homem de fino trato, diplomata elegante, combatente da liberdade e cidadão singelo e amante do amor.

Inclinado sobre a folha, revivia alguns momentos passados com o poeta em sua casa na Achada de Santo António. Ele era espirita. Partilhávamos do crer na elevação do espírito. “ Eu não falo da morte. Prefiro falar da vida. Ela é como um livro sem a última página.” Nesse dia falava-lhe do livro que estava para sair – Gaveta Branca – e convidá-lo para apresentador da obra. O olhar sereno, os gestos medidos, palavras de estímulo, o intenso amor ao próximo, a fertilidade das suas iniciativas, faziam dele a própria esfinge de luz inscrita na supernal radiação cósmica. Eram luz o sorriso e fragrância as suas considerações. Pela tarde, o Hino Nacional pela Banda Militar, Parada e Bandeira a Meia Haste, o minuto de silêncio solicitado pelo Presidente da Assembleia Municipal, após citar o simbólico eco: “Não há fonte que não beba da fronte deste homem”. Assim o poeta, meu irmão, meu amigo, Corsino Fortes, tomou assento nas celebrações do dia do Município de Santa Cruz, de Nho Santiago Maior, celeiro da ilha e altar de – A Cabeça Calva de Deus – fundão de todos os cumes do mundo.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

RAPIZIUS




Txéki! Txéki! Passa negro! Dobra as asas e desaparece. Teu sítio é lá na ponta do Mau Passo onde tem rocha ruim. É lá que a tua mãe te pariu e te largou vago no mundo. Covarde! Dobra as asas e vai-te poisar lá no lugar de Nho Cirilo que não tem guarda. Úúú-o-o. Desaparece no inferno! Vai, Chico Dias! Txéki! Txéki!
Depois dos exames era assim por todo o lado. Gritos eufóricos tomavam conta do ouvido das pessoas. O quotidiano delas estava virado unicamente para azágua. Nos finais do mês de Julho, as terras do sequeiro traziam sinais de covas semeadas como manchas alinhadas na superfície do futuro. Uma de feijão ou duas de fava e quatro grãos de milho pareciam porções de esperança no abrigo da terra ansiando pela queda da chuva abundante. Tinha gente que por agoiro semeava em pó, isto é, depois da primeira lua de Julho e outras adivinhando a presença das chuvas detrás dos sinais do tempo metiam confiantes os grãos na terra seca. Sementeira é em chão molhado, assim cria Nho Zebedeu, homem conhecedor dos sinais do campo.
Os meninos viviam com entusiasmo a sementeira e o guarda-corvo, tarefa, sem dúvidas, divertida e igualmente muito importante sendo uma das condições essenciais para se garantir a emergência do verde vivo que só o chão molhado sabia pintar. Os guardas da sementeira atiravam fundas para o céu e diziam nomes feios esconjurando os corvos de cada vez que passavam sobre os espaços semeados. A pior coisa que se podia dizer a uma pessoa era que ela se comportava como um corvo. Não tinha poiso certo este viageiro vestido de negro, perseguido por todos onde quer que fosse. Estes daninhos duma figa acabavam sempre familiarizando-se com os espantalhos sobretudo quando a fome os apertava. Poisavam mesmo assim sobre as covas e lá conseguiam esgaravatar e descobrir os grãos de milho deixando os de feijão. Qualquer distracção ou ausência prolongada dos vigilantes era fatal. Remexiam tudo e causavam sérios danos à sementeira. Nem a astúcia de se espalhar os grãos dentro da cova os confundia.
 A guarda ao lugar só terminava quando o milho crescesse e tivesse para cima de quatro folhas. Assim, os pardais não podiam ceifa-los com o afiado bico. Para os afugentar, os guardas serviam-se de latas velhas, pedras ou paus de purgueira para orquestrarem toca-lata, som ruidoso que imitava o ritmo do batuque acompanhado de cântico próprio. Nos lugares mais afastados a guarda prolongava-se até à altura da córta. Havia, pois, que se defender das peladas e dos macacos. Funco, abrigo improvisado dos guardas, era construído de ramos de purgueira ou de outro arbusto resistente, forrado ou coberto de talos de carrapato de Lisboa, em sítios elevados para alargar a visão. Quinze de Agosto, dia de Nossa Senhora da Graça era considerado a altura limite para queda das primeiras e significativas chuvas. Não se registando, as pessoas começavam a encarar a hipótese do ano atrasado, ou de má azágua.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

RAPIZIUS



           
Nhô Xalino foi quem descobriu que finado é que tinha entrado no corpo de Minézio, depois de este ter perdido quase metade do seu peso. Estava muito debatido o seu estado de saúde. Todos conheciam o destino que a doença fraca dava às pessoas que a contraíssem. Depois de avaliar o paciente e ter consultado o seu livrona afirmou sem rodeios para a mulher do doente: - É icterícia. Tudo indica que é isso mesmo. É uma doença que castiga o corpo e o seu tratamento leva tempo. Palha-chá de Racha-Pedra fervida em água limpa amparada no olho d’água ao amanhecer é o primeiro remédio. Ele precisa de tomar também hóstia de limpeza sangue. Pílula de babosa. Olha, no estado em que o corpo está não sei se ele aguenta. O sangue parece estar muito fraco e se tomar qualquer coisa forte de mais, pode ir duma vez. Do meu lado, farei tudo o que souber e se ele se aguentar ficará bom. Enfim, deixemos tudo ficar nas mãos e na vontade de Deus: - disse Nhô Xalino, com ponderação. - Então o meu marido não vai achar as melhoras? Homem! Vê lá o que é que pode fazer por ele. Tira-o desta situação. Pago o que o Senhor me pedir. Procura direito lá no seu livrona de palha-santo se não há nenhum ofício para ele. De esmola, Nhô Xalino, não deixa morrer este homem que toda gente sabe que tinha forças fincadas na canela e que virava dois bois duma pancada para cair neste jeito, que nem dá para se segurar no penico: confessou a mulher da vítima. - Mulher, ele demorou muito tempo para cá chegar. Vocês levaram-no primeiro para a farmácia e o remédio que lhe deram descontrolou um bocado a sua saúde. Mostraram-no àquele doutor indiano? - Sim, levamos: - disse a mulher. - Dizem que ele é bom curador de gente. Mas há doença da terra que não está no livro deles. Só gente que tem olho sem bexiga é que vê a manifestação desta doença. A palma da mão, a língua e a ourela dos olhos é que conta numa pessoa molestada. Doutor tem seu lugar mas é preciso conhecer a terra e suas moléstias. Olha bem, é palha de chá de curativo que está aqui embrulhado. Faz assim: na parte de cedo, ao meio dia e à tardinha dá-lhe o chá; água de nascente, dá-lhe muita água e caldo de miudeza de frango. Usa manteiga da terra ou azeite vindo em colherzinha de alumínio. Apura bem o caldo e dá-lhe de quatro em quatro horas. Leve-leve. Nada de coisa pesada. Prepara-lhe também banho de rebentos novos de marmulano colhidos antes do amanhecer. Tenta tudo isso e esperamos pela reacção dele. Se acontecer algo, manda-me recado. Estou sempre aqui em casa. Tinha assim acabado a consulta ao homem doente de icterícia. Os acompanhantes colocaram aos ombros a jangada de lona com o doente e tomaram a direcção de Pinha de Ngenho. (...)

domingo, 19 de julho de 2015

RAPIZIUS


EXERCITANDO DECLIVES
Fiquei a olhar durante muito tempo o céu nocturno de ontem. A lua parecia um pires colocado justamente na posição de espera da gota de luz que nunca mais caía dentro daquela fortuna panorâmica que Julho concebeu. Julho é prodigioso em oferecer cenas inimagináveis nos céus da ilha.

Sim, aquela florescência navegava na mesma posição em que o sol escaldante se pôs. Aquela horinha tinha terminado o encontro do núcleo vaidoso em gestos e palavras, o Escrevo…. porque sim! 
Sementeira da Catarina Cardoso em Julho mês da sementeira. Ficou semeado que escrever é um acto de loucura porque, a Sophia de Mello Breyner Andresen é poeta do mar, das conchas, da luz, o Manuel António Pina é o poeta maior da casa, dos gatos, das coisas quotidianas e Catarina a ilha que faltava às ilhas, Sara o sopro leve balouçando o verbo, Samory relógio do amor na lamina dos versos cunhados de negritude, e, eu, viciado em anotações e músico do núcleo vaidoso. Tínhamos acabado de firmar na própria canela sem receios de ainda ser nebulosa, um bezerro que desconhece o paradeiro da sombra mais próxima, não nómada, mas cómodo porque há estrada, há luz, há santos e pecadores, pecando por excesso de confiança e de vaidade em si próprios, esse narcisismo que exercita e adoece a alma dos poetas, mas que o salva da vaidade ruim, essa que despreza o humanismo, a coerência e o existir do ser e das coisas.
E a lua tinha-se tornado num parentese curvo desalinhada com a gota que perdia cada vez mais o seu posicionamento. Escrevo… porque sim!

sábado, 18 de julho de 2015

RAPIZIUS


Das pedras mansas alicerçadas nas ribeiras do meu sangue é que naturalmente parto para olhar o Mundo, sondá-lo, julgá-lo e ainda para agir e abraçar a luta universal dos homens de bem, ciente de que a justa causa por eles defendida encerra em si um mundo menos carrasco e mais humano. Tenho como centro do meu mundo e sede do meu sentir, o território de uma região agrícola fundada na esteira de ricas tradições, de grandes fomes, de revoltas, de feiras, de festas populares e de celebração da azágua, enfim uma terra fecunda, de gente grandiosa e dona de uma identidade cultural muito forte.

Foi efectivamente com a idade de vinte e um anos que saí de Assomada para Mindelo, em cumprimento do serviço militar obrigatório, para assim conhecer a ilha e a cidade que honrou o meu nascimento, uma bonita urbe cheia de história e de gente ilustre, terra de memória que mantém viva a casinha onde eu nasci, numa ruazinha escorrendo em direcção ao poente, aonde o sedutor rosto de pedra vindo da madre dos vulcões, efígie de poetas, músicos, escritores e artistas, olha infatigável o céu e escuta os rumores das marés e novas na boca dos ventos.

Tendo findo o serviço militar obrigatório, fixei-me em Mindelo. Nesta altura preocupava-me mais com o meu primeiro emprego e formação profissional, contentando-me com música e anotações avulsas no caderno de notas, escrevendo rabiscos de juventude, delineados em caboverdês e em português. Carta di Nha Fidju Djuzé Lopi (texto), Nha Funku (poema), Prizão (morna), Somada (funaná), são os desenvolvimentos que marcaram a minha iniciação na arte de escrever e de compor música. Mindelo foi realmente o lugar onde comecei a sentir a necessidade de exteriorizar o que sentia. O facto de ter deixado para trás a minha ribeira - Santa Catarina - algo suficiente e invulgar devia poder saldar o défice que punha em desequilíbrio o fiel da balança da minha vida interior. Qual saudade movente no espírito, qual vontade de regressar ao ponto de origem. Acudir o apelo da razão sentinte e as inquietudes emergentes da realidade vivida, é o que instava a me reencontrar comigo mesmo. Mas a minha estada de cerca dois anos na emigração, incitado pela lonjura e o desaconchego da terra-mãe, doendo silencioso na carne da minha mágoa juvenil, foi que decisivamente contribuiu para despertar do cavalo da palavra em mim oculto. Foi nesta agitação que nasceu o Vinti Xintidu Letradu na Kriolu, o meu primeiro caderno de poemas escrito em caboverdês, a bordo do cargueiro Luise Bornhopffen, cruzando os mares do mundo.

É na língua materna que seguramente aprendi a escrever o que escrevo, e é baseado nela que sei exprimir as emoções mais fortes, vincular as minhas convicções e colocar as pedras nas torres que construo, tanto na música como na poesia, sendo puramente em cabvoverdiano que se afina e se afirma o fio tecedor das mensagens, mesmo quando me transporto para a escrita em português. Ao escrever na língua nativa, faço-o convicto de que é baseado nos seus recursos, nomeadamente, na sua autonomia, na sua força expressiva e na riqueza da sua larga matriz, que encontro a força e a imaginação suficientes para tornar os fortes intentos em poemas e em música. Que dirão, se porventura perguntar:

- para quê então escrever, se a minha voz não for capaz de transformar em canto a voz silenciosa das pedras mansas da minha ribeira?

- para quê escrever uma palavra sequer senão para deixar na epiderme mole duma folha em branco o entendimento do que é que eu quero dizer quando afirmo que: “puezia é razon pornunxadu y xintidu ta kotuma”, poesia é a razão provocada e o sentir apelado;

- para quê compor numa tonalidade alheia, se as palavras não palpitam e não galgam as afinações com a mesma virtuosidade, sabendo que, baseado no Son di Terra, sinto-as explodir e apagarem-se na boca do Peregrino, meu violão, arrastando para dentro a inquietude dos versos varridos pela tempestade das minhas emoções?

- enfim para quê escrever, se a palavra não recupera o seu poder de intimar e de fazer sentir a ressonância da razão e dos intentos que vertem do meu coração verdiano?

 Um dia, num dos terríveis cercos que a vida me impôs, tranquilo desenlacei-me e deduzi, sem o auxílio de ninguém, que não era e nem foi preciso inspirar-me na coragem alheia para me valer da minha. Radicado no meu taganxu é que me livrei do vulgar, para fazer, para cantar e escrever o que escrevo. Aprendi, com o silêncio das pedras mansas da minha ribeira, que nem toda a água vai parar ao mar e que não é todos os dias que as palavras são claras e afagadoras da vida, e que nem sempre ela nos limpa o tino ou nos destapa os olhos, mesmo dita na sua forma mais bela e crua, porque nem sempre ela é via certa para atingirmos o lado preferido. Diante de uma palavrinha, às vezes, não passamos de uma pitada de cinza numa tulha de grãos. Impotentes, sentimos desmoronar os motivos e os sentidos.

Pois, com as pedras mansas da minha ribeira, aprendi a dizer que: cortar no cotôco não dá toco, nem pau, nem varapau. Ou então: a questão reside no saber explorar o meão do sal e do açúcar para se achar o ainda não achado. Eis a leira dos fios com que teço a esteira onde durmo os claros da minh’alma.

terça-feira, 14 de julho de 2015

RAPIZIUS



.... da noveleta Olho da Rua Cap. Quinto
Ponta Lancha tinha perdido a calma no dia em que o menino tinha levado do pai pontapé no traseiro, embicando-o duas vezes antes de alcançar o outro lado da ruazinha de terra batida, ficando ali instantes abaixado a berrar, incomodado apenas os cães vizinhos que latiam não se sabia em que direcção. Exaurido, Pincel, atirou o boné contra a parede, umas tantas vezes, sem ninguém ligar o que vinha dizendo. Endividado, sem trabalho, encalhado seco-russo, pior que Pedra Bica estava ele. Estava absolutamente sozinho. O olho da rua é que dava melhor com a posição em que se ele encontrava. Não devia fazer aquilo, mas fez. Que esperar de uma criatura que não tinha quatro patas, orelhonas não, que trocou o trabalho certo por vida de porcaria, situação que não valia a pena classificar para não cansar os advérbios à toa! Que fazer de um homem que se transformou numa trouxa errante, em fantasma do olho da rua e de nunca ter deixado de beber! Tinha profissão, tinha trabalho, tinha casa, tinha mulher e filho. Então! Atormentado de quê? Era pintor e ganhava para viver. Mas os pintores tinham essa coisa de irem tirar o cheiro de tinta da garganta nas tabernas, acto típico virado vício que levava alguns deles a ficar com a vida desgastada e desgraçada de vez. Quando ele saía do trabalho era necessário pedir-lhe até a garganta secar que fosse para casa, que voltasse para junto da família. Mas não ouvia. Enquanto não tropeçasse na armação do olho da rua, caminho de casa não era com ele. Nem rebocador de alto mar o movia dos inevitáveis encalhes naquela estrutura de tábuas de caixote feito balcão, bêbado de viciados, cheirando a infortúnio e sepulcrário do salário de um dia de labor bem tirado.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

RAPIZIUS


Exercitando Declives

Listrado caiu o mirar de espanto no pátio vestido de tarde lilás.
O jogar das curvas da tua essência, o breve fantasiado de tua moldura afável prendeu as minhas ânsias, arredondou-me a flor da pele, derreteu-me a boca e o falar.
O brilhar dos teus nos meus modos, o sorrir, a leveza das mãos,
a tua pele cor de noite lobrigou os meus cinco sentidos.
A tarde lilás, fresca e relampejada de paixões fulgiam como raios.
Amei-te logo como o pastor errante ama o longo chão da sua ventura.
Amei-te como sinos da catedral enlaçado ao desbotar do entardecer.
Amei-te como o vigor do verde ama a folha, como o oásis anseia o outono de úmidos alvores.
Amei-te, sim! Amei-te antes do tempo de te amar de verdade.
A colina do tempo que nos separa é cume da sensatez ébria do êxtase daquela tarde lilás em que listrado caiu o mirar de espanto diante dos teus dotes.
Hoje, sem ti, exercito declives na ladeira íngreme das minhas insónias.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

TERRA DE ABERRAÇÕES

"Qualificação para o CAN2017 não se joga só na Praia
O presidente da Federação Cabo-verdiana de Futebol (FCF), Victor Osório, garantiu que a seleção vai jogar partidas em outras ilhas do país".

Os bons filhos da nossa terra não fazem mais que sonhar como aumentar as despesas todos os dias numa terra em que se faltar azágua os bons filhos não dão por isso e o governo sai a lamentar aos ouvidos do mundo para salvar o gado que festeja o ano todo.

 Despesas que engordam a dimokransa instalada com Provedor de Justiça, Tribunal Constitucional, Tribunal de Primeira Instancia, Institutos para se Instituir a Instituição etc. Criação de Municípios, Vilas e Cidades, Viagens de Turismo de Estado enfim, terra sustentadora dos bons filhos, onde a divisa nacional é Dipos di Sabi morre á Ka Nada ou K'mê tude cagá dun vex...

sábado, 6 de junho de 2015

Poema de Circunstância


 

Para a presada amiga e Professora Catarina Cardoso,
poetisa em processo adiantado de ser livro.

 

Leio nesta janela, janelas
janelas vidraça de coisas e risos
dos mais sinceros aos mais absurdos
janelas de amizades
janelas de amigos para amigos
repleta de símbolos e sentires.

Anteontem li coisas desgostáveis
Antoje vi fotografias gostáveis
E hoje mensagens amoráveis.

O que na janela ver mais interessa
É a nudez da borboleta a esta hora
Compondo aleares policromos
Sonhando janelas
doutros mundos
doutras gentes
doutros lugares
e doutros corações

Na minha
Tudo é virtual
Na dela
o meu rosto é real
na sempre janela
vidraça de coisas e sentires
dos mais sinceros aos mais absurdos
janelas de amizades
janelas de amigos para amigos
repleta de símbolos e sorrisos.

KB

sexta-feira, 5 de junho de 2015

RAPIZIUS



O falatório dos Pontos nos IS (programa televisivo) foi uma autentica prova de nada mais haver para dizer sobre o tema proposto, aliás, a fofoca politica alimentada pela comunicação social é a premiação da dimokransa instalada.

Como votar em Cabo Verde se o seu povo não se sente e não é africano, não sabe falar de Africa nem de africanos, nem dá conta de que existe o continente ao lado a que este chão pertence;

Como é que as embaixadas africanas entendem a frase: nem os africanos, nem tão pouco os noss...os irmãos PALOP votaram em nós porque não há uma politica africana coerente;

Mas o que é isto: não há trocas comerciais, circulação de bens entre Cabo Verde e África;

São BAD e CAN a mesma coisa ou seja é bola a rolar e um arbitro a apitar;

Cabo Verde, 40 anos depois, está na sua pior encruzilhada de sempre. Que terra que sociedade está em construção, a grande questão.
Eu devo estar a viver fora deste tempo ouvindo José Filomeno ( Ministro dos Negócios Estrangeiros que nunca saiu do ovo)...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

RAPIZIUS

Terá de Aberações
Defender a terra é falar claro e nunca esconder detrás da cortina da hipocrisia e acenar a bandeira azul e brindar ou outros com canta irmão. Defender a terra é agir sem medo dos ciclos eleitoras. É não dizer que estamos na terra da morabeza e outras lérias que o politicamente correcto manda considerar, sabendo que não é assim tão líquido e lúcido.
O fingir crioulo é arte tropical herdada do luso tropicalismo.
Finge-se Terra de santos e santas, nome dado ...às ilhas e padroeiros dos concelhos da terra, exaltados em cada mês do ano, com celebrações, festas e festivais, anunciações e inaugurações, falatório, palanques e microfones e o povo na procissão, crentes nos santos e nas palavras da bíblia que os sacerdotes não se cansam de repetir de há 500 anos aos dias de hoje, estando civilização por acontecer. 
Contudo, não obstante as caras de santo ante os altares, os rostos dos deuses e anjos da guarda, perante a terra e as flores da luta, perante o país de crescimento médio atado a demandas impossíveis, perante a esperança que nunca morre, perante a caboverdianidade da música e da literatura, perante os países amigos, perante as doações canceladas, perante os tempos terríveis que se avizinham, perante o pai que come a filha menor, perante o irmão que mata irmão, perante as modas importadas ( discursos, tiks, valores, vícios, falar, vestir, propagandear, discutir, matar, consumir, gesticular, musicar, escrever, casar, divorciar, exigir, reivindicar, regionalizar, descentralizar, sensibilizar, workShopar e outras macaquices que terra bo sabê acolhe bem e com entusiasmo), perante tudo isso, resta-nos sublinhar ... perante os 40 anos de garganta ao alto, entre que santos e que pecadores a terra está colocada...

sexta-feira, 8 de maio de 2015

RAPIZIUS


O activista cultural Leno Vicente, mais o músico Sílvio Brito da Banda Som do Planalto, organizaram um noite de música e poesia, integrado nas festividades do 14º Aniversário da Criação da Assomada-Cidade, evento ocorrido no dia 07 de Maio de 2015, no Centro Cultural Norberto Tavares, Quintal Pantera, 21H00, momento a romper com um certo marasmo nocturno, a que a cidade se encontra, não obstante hábitos de remanso pender, ainda, grandemente, na maneira de ser dos rural-citadinos de hoje.
De todo o modo a sessão cultural de música e de poesia, algo novo, contou com a sala cheia, assistência, significativamente jovem, que sabendo escutar e apreciar, muito ajudou os participantes a fazerem do momento uma noite especial e de se recordar sempre.
Além de músicos e poetas do Concelho chamados a participar, tomaram parte na noite convidados, designadamente, Daniel Spencer, Dulce Sequeira e o violinista Meca Lima, que em gesto de amizade se juntaram á banda Som do Planalto, orquestra base do momento musical, juntando som ao momento de poesia, empolgando os declamadores no nobre exercício de dizer textos poéticos das suas autorias, onde o telúrico, a energia da terra, a tradição, os proverbiais e máximas do povo desta região inspiraram a construção das imagens transformadas em mensagem poética.
Quem prescinde da sua pertença cai no vazio identitário, pior, perde-se em si próprio, torna-se num ponderar vagabundo, tentando agarrar as ramas de alguma recordação, para se salvar do deserto que a cerca e que criou para si, e, eis porque acções estimulantes da auto estima e da valorização da memória devem ser realizadas com a frequência desejada, além de festividades pontuais, chamando a participar os agentes culturais mais experientes, entrosando-os com os mais novos para que o legado se concretize, para que a chama ancestral se mantenha acesa, para que as mudanças a operarem-se acomodem com ciência e legitimidade o novo, de modo a não destronar as raízes em que se fundam a matriz da caboverdianidade.
Estou ciente de que por mais reboliço faça a cabeça da cheia, a água da lagoa restará limpa e serena, durará transparente enquanto viver o sol da vida.

sábado, 2 de maio de 2015

RAPIZIUS

A minha netinha Laura é uma península de curiosidade.
Ela - O que é que aquela gente estava a dizer na televisão?
Eles fizeram anos hoje como tu?
Eu - Era uma manifestação.
Ela - O que é anifestação? É gritar e falar alto?
Eu - Não! Eles estavam a pedir trabalho e mais dinheiro para darem os seus filhos de comer, ir á escola, ter coisas para brincar.
Ela - Porquê não estavas lá? Pedias dinheiro para a tua festa de anos, chocolate e brinquedos para mim. Quem dá o dinheiro?
Eu - Não soube responder a isso.
Ela - Então se eu quiser fazer uma coisa e tu não me deixas eu " anifesto" dentro de casa? O que fazias?
Eu - Nada.
Ela - Então não falo mais contigo.
Eu - Porquê?
Ela - Porque não me deixas "anifestar". Não quero mais o teu chocolate, nem beijos, nada. Não fales mais comigo.
Eu - Logo vamos à kebra kanela. Queres?
Ela - Sim! Posso levar as minhas coisas para brincar na areia?
Eu - Levas tudo e vamos anifestar lá os dois... risos...

sexta-feira, 1 de maio de 2015

RAPIZIUS

 
 
Ao amigo Manuel Brito-Semedo, irmão em Mindelo Amilcar Barbosa ( aniversariantes hoje) o que um dia pensei após tomar consciência de que parei nos 50, sem mais dar conta do umbigo que no 1º de Maio sobreveio no calendário cartesiano que teima imputar-me o seu peso sobre os nervos.
Fujam dos anos que o calendário nos impõe gratuitamente.
Ele é ingrato, destemido e implacável. Esmaga sem nada dizer.
Estou sem ele, tranquilo, sem bolo, sem velas, apenas com votos dos meus irmãos, amigos do perto e do longe, (votos amigos e sinceros que não param de chegar e que muito agradeço).
Não me achem despropositado. É que eu descobri a fórmula de longividar a vida que, não sendo receita, convenhamos, não servirá de exemplo.
O máximo que eu posso dizer é o seguinte:
amem-se e amem as boas amizades;
preservem as antigas e boas amizades;
amem o belo;
sejam loucos pelo menos uma vez em cada hora da vida;
amem a infância em vós residente;
vivam intensamente mas sem fantochada;
Invoquem o espírito dos vossos pais e avós;
comam cachupa guisada se possível com ovo mal passado, linguiça da terra ou txitxarro frito, regado com leite condensado, mel de abelha, mel de panqueca (qb), não havendo, açúcar (qb) por cima, composição que longivida;
leiam, tomem notas e escrevinhem coisas, mesmo sem nexo;
sejam delinquentes civilizados e competentes marginais. Mais não digo.
Obgdo a todos.
 
Olhando os anos começo a ver ruas correndo ruas
tantas vezes pisadas
e buracos tantas vezes tropeçados
que de mim não dão conta.
Mas o que tudo isso acrescenta
se os anos são órbitas que não sabem onde vão dar
que rumo e que sortes trazem nas curvas.
Mas o que tudo isso arrende
se a idade que levam às costas e os buracos em que tropecei
são passares que ambulam bons e maus transpores!
Mas o que tudo isso importa
se os anos permanecem sem saber que destino têm dentro
e fora do meu sangue.
Encarando os anos começo a ver fins adiando o tempo
tantas vezes em viagem dentro e fora de mim
que de mim não dão conta.
kb

quinta-feira, 30 de abril de 2015

DIA DO GAVETA BRANCA

TEXTO DA Dra CATARINA CARDOSO

A pedido de amigos, cá está o texto da apresentação do livro "Gaveta Branca" , do meu poeta amigo Kaká Barbosa
Por onde começar senão pelo princípio e pelo fim de tudo?
.......As palavras do poeta
“Esta gaveta
É uma pátria de paciência
Uma voz que não disfarça a inconveniência
Uma luz
Que perverte por florescência
E se me questionassem :
Responderia que a música
é a plena estrada para se chegar à alma”
Numa das muitas viagens que faço com estas duas meninas, aqui sentadas ao meu lado, falou-se do kaká barbosa, logo seguido de uma afirmação clássica da minha filha “ahhhh o do livro Gaveta Branca”. Eu respondi: “-sim, esse, mas como sabes?”, (que estupidez a minha pensar que lhe tinha passado despercebido o facto do gaveta branca atrelado a mim nos últimos dois meses) ao que ela responde prontamente…”porque esse livro anda sempre ao pé de ti mãe”.
Na sequência da conversa lembrei-me de perguntar-lhes o que lhes fazia lembrar este título “Gaveta Branca”. “Quando ouvem o título Gaveta Branca de que se lembram?”
“E o nome Kaká Barbosa? Faz-vos lembrar de alguma coisa?”
“Cacao com barba”
“Sim faz lembrar noiva, nuvem, a morte de deus enterrado numa gaveta branca numa nuvem, uma senhora com um vestido de noiva a dar à luz….”
(…)
…….Na dúvida, eu fico com a pureza das crianças.
O livro e o homem em andamentos desordenados de intensidade
“E agora Catarina, estás tramada, que responsabilidade…não bastava ser um poeta, um escritor, um compositor de uma das músicas que mais te encanta em crioulo….ainda teve a traquinice de te convidar para apresentar este livro, que…também não é qualquer livro…é poesia…poesia que aguardou na gaveta…15 anos. Quem és tu catarina? …..Nada que justifique tamanha honra.”
Só um Homem-Menino teria esta ousadia. Bem hajam os homens-meninos. É uma honra. É uma emoção estar aqui fazer isto”
Do homem (Carlos Barbosa) conhecia aquilo que a opinião pública conhece e mal…defeito meu que vejo menos telejornais do que seria desejável e não presto muita atenção ao que se diz das pessoas. Os amigos brincam comigo dizendo frequentemente “mas tu……não conheces ninguém!”.
Conheço quem me interessa conhecer. Do autor conhecia a figura distinta, o estilo irreverente da boina preta, algumas das suas composições musicais e sabia que além de compositor tinha feito uma passagem pela casa parlamentar, em suma, um delinquente civilizado (como o próprio de auto-intitulou numa das nossas conversas). Confesso que desconhecia as suas publicações anteriores a este Gaveta Branca.
Graças a esse, ora santificado, ora diabolizado facebook, tive a graça de me tornar sua amiga e a partir daí poder conhecer um bocadinho do homem quase sempre numa linguagem ora poética ora crítica. Uma crítica sem grilhões, que não se atém ao politicamente correcto ou às cores políticas, características com que me identifico e que prezo.
Kada un ku si mania
Fla rodondu bira kuadradu
Kada un ku si tioria
Poi razon pendi di si ladu
Esta tarefa, de apresentar esta obra poética e o seu autor é de uma responsabilidade hercúlea.
No tempo que mediou o convite e o dia de hoje encontrei-me duas vezes com o autor. Não com a pretensão de conhecer muito ou de saber muitos pormenores da sua vida. A intenção com um escritor/poeta é talvez conhecer o mínimo possível o homem, comezinho, do dia-a-dia…
somos todos mais ou menos iguais no dia-a-dia, não somos? Somos todos humanos, não somos? Então para quê saber muitas coisas quando o que me interessava até aqui sobretudo era o poeta kaká barbosa e a a sua gaveta branca?
Certo é que nestes dois encontros, tive a confirmação das minhas suspeições- um homem livre, um homem sábio (coisa que só a idade pode oferecer a um homem ou a uma mulher), um homem apaixonado pela criação, pela causa das coisas, ora manifestada em relação à origem das palavras, ao seu significado, como se as palavras fossem entidades tridimensionais ora às outras inquietações do espírito e que perpassam esta “Gaveta Branca” .
“Gaveta Branca
Cabina Noctâmbula da palavra
Gruta íntima
Clara absolutamente branca e clara”
Falamos bastante, sobre palavras. Ele explicou-me coisas muito bonitas sobre as palavras do léxico crioulo- a sua origem…espanhola, mandinga, portuguesa. Sempre com a impressão de ser capaz de ficar horas a ouvir-lo falar sobre palavras.
“Há muita luz…
Não pesa nem maltrata
O pensamento esvoaça
E o sacudir das sílabas
Anuncia sempre clara
A luz da palavra”
Neste dois encontros de hora e meia sensivelmente, fui muito mais ouvinte do que falante e sempre com a sensação de poder ficar horas à conversa com o interlocutor. Um homem com mundo. Andei em tempos a questionar-me sobre o significado desta expressão “fulano ou fulana tem mundo”. Pois bem, encontrei um exemplar desta expressão. Ter mundo não significa viajar (apesar de ele o ter feito por uma boa parte do mundo a bordo de navios mercantes). Ter mundo significa ter capacidade de olhar para o mundo e ainda assim continuar a ter um coração que pulsa, apesar das misérias, das injustiças, ter mundo significa manter o brilho infantil no olhar …apesar….da vida.
“Além um esplendoroso foco me convida
A evadir desta praça de luz minúscula
Em redor o meu tacto palpita e respira
Como graus na girante de uma bússola”
Não sou especialista em literatura e tão pouco em poesia. Sou sobretudo uma leitora. De prosa e poesia. Não percebo de métrica e rima. Percebo daquilo que me faz vivo o coração, numa complexidade incapaz de ser explicada entre as sinapses neuronais e o bater deste músculo involuntário alojado aqui no lado esquerdo.
E agora….a gaveta branca. A gaveta é sítio de armazenamento. De coisas importantes, de pequenos tesouros- folhas secas, pauzinhos com formas curiosas, contas de sibitchi, cartas de amor amarelecidas, sonhos adiados, postais nunca enviados. É um armazém de luz e de penumbra. Do que revelamos, se aberta e do que ocultamos, se fechada.
Esta gaveta branca é de luz, é sem chave. Só demorou a abrir.
Gaveta Branca é um livro que esteve 15 anos…na gaveta.
Não imagino sequer se o título é posterior à obra ou se a obra foi inspirada pelo título. Julgo que o processo criativo da escrita não obedece a rigores deste ou de qualquer outro tipo. Parece-me contudo paradigmática esta coincidência - o título e o facto do livro ter esperado 15 anos para ser publicado, provavelmente numa gaveta, das reais ou das de brincar…também chamadas de pastas digitais.
Fazendo uma analogia com os andamentos musicais, passo de uma morna para um funaná.
A Gaveta Branca de Kaká Barbosa é viva, é de luz, é energia individual que se funde com a energia superior, a do universo, contínua, e que garante continuidade. Perguntei-lhe se é racionalista cristão. Disse-me que não, que quando escreve recebe um espírito de luz em jeito de visitação. Eu chamo-lhe um ego auxiliar, um ego auxiliar da criação.
Na gaveta Branca há uma parte de luz….
A Luz
“Nesta
Cave
Forte
Existe
Um foco.
Emerge
Cresce
Esparge
Foge
Feito
Um louco”
Lembra um Haiku, uma forma de poesia japonesa, que basicamente se define como uma forma poética que possui três versos curtos e, quanto ao conteúdo, expressa uma percepção da natureza.
mais uma vez não me rejo pela métrica característica dos Haikus para assim classificar o poema do autor, mas quando o li foi o que senti e na verdade se atentarmos para a definição do conteúdo de um Haiku não lhe fugimos “O haiku é mais do que uma forma de poesia; é uma forma de ver o mundo. Cada haiku capta um momento de experiência; um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado,
a natureza humana, a vida”. (A. C. Missias,)
É desta Luz, fulgurante, branca, vermelha, de fogo, que a Gaveta é feita, também.
Na gaveta Ouvem-se vozes…..
A Voz
A voz é a do autor, ora tranquila, indolente a lembrar uma morna, ora vivaz, eloquente, num andamento de funaná encorpado. Sempre audível. Nunca sussurrada. A voz e as palavras são como chispas… de alegria, de energia, de luz, de voz destes poemas.
“Claro!
Para me silenciar:
Grito, dou, amo, faço e desafio
Como o riso nos lábios de um tiro.
Claro!
Para me avivar:
Silencio, tomo, calo e canto com brio
Como o trilo luzido dum grilo”
Na gaveta poemam-se pedacinhos de cabo verde……….
“O mar,
Tão depressa se abeira
Do ponto de fremência
Fica mais ela a maresia
O verso
Tão depressa se abeira
Do ponto de ardência
Fica mais ela a poesia”
Na gaveta, poema-se a vida naquilo que é essencial,
“A luz,
À luz do dia ludibria
A vida aviva-se e habilita
A morte avilta-se e gravita
O tempo limita
A sombra delimita
A voz
Explica, pica, plica e implica
E o que dilucida indica?”
O tempo limita mas consola-nos saber que esta/a sua voz que pica, plica e implica não ficará confinada ao espaço de uma gaveta e que a sua pessoa e obra perdurarão através do tempo e das gerações.
Os grandes estarão sempre entre nós, connosco pela mão. Bem haja.

Txabeta Em Estado de Alerta

                                                                                                                                     ...