quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Falar por Falar



Não era assim noutros tempos. Mas virou, assim. O caboverdiano fala por falar. Fala por necessidade de manter a boca acesa. É exemplo o crioulo parlamentar que rasteja a língua para falar e deixa por dizer o que devia. Basta escutar uma única vez as discussões no parlamento ou então as comunicações diárias dos governantes. Não trazem nada de novo. Pensam que todos são iguais a eles. Todos não são iguais a eles. Nunca. Então há quem não entende o que o outro diz. Então, não há quem descobre quando se fala por falar. Hoje na nossa terra fala-se e fala-se muito. Fala-se a imitar discursos de outras realidades políticas, sociais, económicas e culturais. Os discursos são discursos de neocolonizados. De lamentos e queixumes. Qual autonomia! Quais reformas! Reformas, sim. De cada vez que renova uma legislatura mudam-se as pessoas, as designações dos ministérios, dos serviços e dos institutos públicos, mudam-se as aparências, enquanto as atitudes, os procedimentos e os comportamentos mantêm-se. A reforma nunca acontece porque aqui na terra qualquer barraca é património. Porque não? A reforma não acontece porque o sistema dá leite para meia dúzia de bezerros. Grande ou pequena, a corrupção é património. Como expurgá-la se virou sabedoria? Se virou um dado adquirido? Se virou forma de manter o circuito de interesses?
 Mas o que, de facto, é património estão às lagartixas, toma vento, toma sol e depois hiberna. Exemplo: o conhecimento, o saber fazer, o saber dizer, o saber estar, saber relacionar e saber comunicar, ter bom nome social e boa conduta não é tido por património, não está agendado. Ao invés, a incúria, a desobediência e o oportunismo tornaram-se prática dos cidadãos refractários, apostados na ostentação, nas inverdades e em doutorice, tudo isso, constituído património da mediocridade, dos que de cada vez que o poder passa para as suas mãos fazem o que sabem, o que herdaram do colégio ideológico a que pertencem, falam por falar, apoderam-se dos andaimes da arrogância e tornam-se vaidosos e cegos pelo poder.
Os políticos que temos são produto de uma terra em festa permanente.


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