quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - O Pincel Danela

                                                                       O PINCEL DANELA

          Para quem conhece a autora das obras recentemente exibidas no Salão de Arte do Palácio da Cultura – Ildo Lobo – não receará afirmar que assistimos a um desabafo, a um desafio típico de quem tem algo para mostrar e transmitir, aposta de uma jovem que sonha ir mais além. Fomos chamados a conviver com pinturas na tela, a ler o que artista revela de si própria e da observação que faz do mundo à sua volta. A arte de cultivar a arte exige luz e ausência dela, impõe retiro e movimento, ritmo e roturas com o real, mesmo quando a mão do artista parece ser repetitiva. Mas, o que importa neste caso é saber se a artista soube olhar para dentro e para fora de si, se soube voar e criar os lados da sua própria gaveta. Se soube provocar o aparecimento da arte nos seus limites.
          Nela Barbosa é uma jovem do interior da ilha de Santiago, nascida na Vila de Pedra Badejo, no sítio de Salina. A casa onde nasceu tem, ao pé, a Praia Grande de areia negra aberta para o mar imenso, a contrastar com o castanho do lodo da lagoa deixado pelas cheias, com o vegetal seco e o verde da ribeira, com as cores volúveis do mar a espumar nas penedias, bases do universo primário da artista plástica que ora se apresenta publicamente.
          Os quadros mais expressivos deixam-nos a sensação de que existe uma certa onda oscilante na mão silenciosa do pincel que, entre a timidez e a liberdade de criar, procura, através dos diferentes temas escolhidos, libertar ansiedades  e o desejo de não querer parar por ali, isto é, vontade de aprender e evoluir, exercitando a própria arte.  
          Apreciar as soluções encontradas para os diferentes quadros é tentar decifrar, por um lado, a identidade da artista (por definir), por outro lado, as motivações ou os impulsos que a levou a ajustar cores na tentativa de impor ordem a um certo desalinho ditado pela imperícia, conjugado com a paisagem interior, com a arrogância da realidade ambiental vivida pela artista, havendo denuncias e evidências de um certo grau de perspicácia e autenticidade. Por exemplo, a utilização de tonalidades encontradas no maduro da fruta, no claro da espuma do mar, no verdaço, no castanho da terra, no azul do mar e outros tons ditados pelo olho do improviso.
 Nela Barbosa, a pintora, tende a ser produto da conjugação da paisagem campesina e o cenário urbano, processo em caldeação, que na devida ocasião se consolidará, que poderá resultar em um estilo próprio, se primorado, apontará pela obtenção de uma identidade própria.
          Se por um lado as obras de Nela Barbosa têm a ver com visões domésticas ou de retalhos ou disfarces do mundo que a rodeia, mais ou menos atraentes, por outro lado, espelham momentos de retiro, onde o disforme ganha vida e significação próprias, estética e qualidade, ou seja emergência da arte. Todo o criador sonha e procura realizar a sua obra-prima, sonho legítimo de qualquer um.
Será esta iniciação alavanca para graus mais elevados de execução da arte, questiono?.
          Os meus parabéns, o meu respeito e o meu apoio absoluto.  

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