terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Rapizius - Ananita

     
                                                                   
                                                                    ANANITA


Sentada na borda do canteiro comprido que servia de divisória da rua, Ananita segurava na mão direita a caixa de fósforo. Queria tanto fumar. Tinha horas que ela não via a cor do fumo de um cigarro. Levantou-se e pediu um ao homem que saía do café, mesmo em frente. Ia suplicar, justo no momento em que o homem recuava uns passos para agradá-la. Pediu-lhe um pau de fósforo, mas o homem tinha isqueiro. Agradeceu na mesma. Começou a maldizer sem olhar a quem. Pois não aguentava ficar calada. Mas antes que ela pudesse falar outra vez viu o toco de cigarro atirado por alguém, fumado acima da metade. Apanhou e acendeu o dela. Ananita vivia da bondade das pessoas. Escolheu ficar nesta parte do bairro desde o dia em que descobriu o café - livraria e a loja de frutas, sítio frequentado, onde podia abordar pessoas e obter auxílios. Ficava durante o dia e ausentava-se ao escurecer. Um dia convidei-a para um café. Sentiu-se bem e encorajada. Achava-se artista. Por acaso tinha jeito para arrumar palavras com alguma rima. Enquanto recitava, gesticulava como mandava as regras do rap. Eu estava a fim de aprender mais da vida com ela. Pelo sim ou pelo não o natural da rua faz falta a uma cidade. Ele ocupa a parte em que vida opera pelo avesso. Precisa da vida para viver à sua maneira. Nunca o contrário. Que seria de uma urbe só com gente saciada e emancipada? Que sentido teria a própria liberdade? Se desdém fosse rio teria como origem abastança. Não ter mata-bicho não é condição para se ser menos digno. Com dezasseis anos de idade levaram-me para uma barraca, dois homens, cada um de um lado, seguravam minhas pernas abertas, o outro abusava-me. Alternavam-se. Emprenhei sem saber de qual deles. A vida tinha perdido sentido. Os nove meses pareceram uma eternidade. Desmaiava todos os dias. Ficava sem força para nada. Tinha findado o internamento hospitalar. Não tinha onde ficar, para me safar esbofeteei o polícia de serviço. Fui detida. Passei uma semana na esquadra. Ali tinha tudo. No dia em que me entregaram a trouxa com minhas coisas senti-me desconsolada. Estava em dias de ter o menino e tinha vontade de entrar na maternidade. Decidi ficar na sala de espera do banco de urgência. As pessoas olhavam por mim, davam-me de comer. Dei entrada na maternidade. Estava ansiosa, mas temia o futuro do meu filho. Após o parto disseram-me que o anjo nasceu com a corda enrolada no pescoço e não se salvou. Vi ele, mas sem sinal de vida. Senti que ia morrer também, mas Santa Ana das Paridas socorreu-me. Larguei o corpo e meti-me na bebida, no fumo e droga leve. Assim como entrei, deixei tudo, sozinha. Podia estar a trabalhar, mas não confiam em mim. Mas, uma coisa, nunca dei meu corpo a mais ninguém. Não sei porquê te contei minha vida. Quantos capítulos têm um livro? Tenho trinta anos, se cada dia for um, faz as contas. 

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Rapizius A Janela e o Rosto


                                                                    A JANELA E O ROSTO

No Tê Três, segundo esquerdo, á Rua do Poeta, ao pé da Esplanada o Cometa, mora a janela que dá para o fresco pátio, que não é bem-dotado, mas agrada. Assentos, canteiros e árvores de adorno fora o planeado. Porém, o raro verde das acácias rubras contrasta o cinza do empedramento. Não há no mundo inteiro canteiros onde as pedras floram para as janelas. Só no pátio. Só ali as pedras florescem e frutificam. O que diariamente fazem os pombos bicando o chão? E a janela que do alto assiste a paisagem? Era sexta-feira à noite. A aba da lua já havia aparecido quando a janela se abriu e foi suavemente abordada pelo trinar dos grilos. Inclinou-se. Demorou até se dar conta de onde ela estava e do que tinha programado fazer nessa noite de mais um dia a afinar o texto. Buscava o esboço dos três últimos versos. À esquerda o Dicionário, o bloco de notas e esferográfica à direita e ao centro a tela do computador. Ao fixar, instintivamente, os olhos no branco da parede, uma mistura de contrastes fascinantes desafiou-lhe a descobrir, a explorar, a ir em frente, pouco a pouco os traços vinham como flashes de uma peça em que ela era o fingidor, o personagem gentil e ao mesmo tempo autoritário, educado e ao mesmo tempo impaciente.
Eram duas horas da madrugada de sábado quando um rosto apareceu na parede do quarto branco, justamente onde a lâmpada de leitura enfraquece a luz, mas perceptível. Levou um bocado de tempo a olharem-se. Na verdade era um momento de cordialidade. Ambos não queriam desapegar do ambiente que criavam. Pareciam rostos numa varanda à luz de velas, ao fundo a lua e as estrelas como testemunhas, e abaixo, o panorama do pátio, o trinar de grilos a aprofundar o silêncio, realmente uma ocasião romântica. Ela sentia-se feliz pelo momento de mais um encontro tão maravilhoso entre duas vidas reveladoras de sentires, como dois pontos provindos da mesma fonte. Não quis desapegar-se dali, a menos que o rosto ocultasse por vontade própria. A essa altura, este já fazia carícias ousadas, enfiando disfarçadamente a mão pelo vidro abaixo. Provavelmente pelo efeito da magia daquela noite enluarada ou pelo efeito do escancarar da janela, que não oferecia nenhuma resistência, apesar de ser o primeiro encontro entre ambos. Sair de lá bruscamente não era atitude certa, pensou. Continuar, estava a provocar o que não queria que acontecesse, unirem-se. Encantado, o rosto andou por mais alguns segundos a procurar os interiores dela. Mas lá havia apenas noite, pirilampos de faróis acesos a bailar e os grilos a pastorearem estrelas. Receosos, ambos, piscaram o olho. Antes de se ocultar o rosto franziu a cara, depois, ocultou-se, e, então o lugar ficou como estava no início e o texto por consumar. A lua tinha transitado para o lado inverso e a raridade da luz tornava apurpurada a copa das árvores, enquanto a janela do quarto branco, desalumiada, adormeceu por detrás da cortina de seda.


domingo, 29 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia



                                                               DOIS POEMAS AO MEU CÃO

10
chega e diz:
bom dia, dono
digo: - olá vírgula
de dia come e dorme
de noite anda pela casa
escuta e obedece as ordens
só se deita em cima da toalha
sabe dos batons e do mau cheiro
topa conversas e o mínimo barulho
conhece bem os seus inimigos
aborrece e resmunga coisas
pensa e sente saudades
é amigo de confiança
vale mais um bicho
que amigo lixo
é tão lúcido
o virgula.

11
virgula!
quatro patas 
pararam no ponto final
quatro-olhos
na interjeição.
dois pontos
e vírgula no olhar
reticências na cauda
interrogação no focinho
vírgula e dono
ponto parágrafo.


sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - BATOM NA ALMOFADA



                                                                BATOM NA ALMOFADA


Com o saco do violão a tiracolo desci do carro à porta da casa. As lâmpadas de iluminação pública, da rua, estavam apagadas, apenas luzes interiores dos estabelecimentos vizinhos iluminavam o largo. Não havia escuro, mas era quase impossível identificar à primeira vista qualquer pessoa que cruzasse comigo a essa hora da noite. Os cães que habitam a zona estavam nos seus postos de vigilância como se fossem escutas enviadas por algum comando. A cadela preta veio ao meu encontro enquanto metia as chaves no nariz da portaria de entrada. À guisa de senha falei com ela. Agradecida, afastou-se e parou debaixo do poste, encolhida ao estilo lagarto. Entrementes, vindo não sabe de onde, um sujeito mal-encarado atirou a atenção dos guardiães da zona que ladravam em várias direcções em defesa do território de guarda. Fazem-no com razão, primeiro, para corresponder ao tratamento que lhes damos, comida, água e atenção, segundo, porque eles bem conhecem a couve da sua horta. Não era muito tarde. Faltava para as duas da manhã. Repeti o ritual: água fresca na caneca inox; olhar o céu estrelado da janela; dar tempo para o sono fechar a noite. Acomodei-me no Queen, no lugar de sempre. Em pouquíssimos minutos adormeci. De repente um beco húmido e mal-iluminado a uma distância de uns dez a doze passos aproximava-se de mim. Não havia trânsito. O silêncio era sepulcral. Surgiu um vulto atrás de mim. Olhei á minha volta. Ele seguia-me. Aproximou-se, tomou-me nos braços, logo uma dobradiça gemeu e a porta abriu-se discretamente. Entrámos os dois numa sala pequena e enfumaçada, no centro, via-se uma mesinha cheia de pequenos objectos pessoais. Dali fomos para o quarto de dormir. O vulto não hesitou em me despir e de me colocar na cama protegida por uma belíssima colcha de seda bordada de imagens irreconhecíveis, porém, quando ele se colocou à minha frente não houve outro remédio senão embrulharmo-nos cegamente um no outro, contorcendo-nos como meadas de algodão na meia-luz que tornavam as paredes mais distantes do que estavam na realidade. Arrojadas, as nossas mãos navegavam na superfície morna dos desejos como germe em busca do rociado. Aconteceu o que tinha de acontecer. O sonho entrou numa sonolência brutal. Nem silêncio na tumba do faraó. Mais escuro do que a noite era o caminho do regresso á vida. Assim que o cansaço cedeu lugar ao alívio alcancei uma rua onde latiam cães. O guarda mandou-me parar. Não obedeci. Desatei a correr. Meia hora depois, entrava em casa a berrar para a mulher: Linda! Linda! Consegui escapar.  Enraivecida e sob espanto a mulher veio lá de dentro, acordada daquela maneira a essa hora da noite. As luzes estavam acesas, inclusive a do quarto. Ao aproximarmos da cama, na fronha do travesseiro do meu lado, o batom vermelho, sinalava, vivamente, a presença duma outra mulher. Amedrontado pelo ocorrido, enrolei-me nela, pedindo socorro, incrédula, a mulher não quis saber de explicação nenhuma. Que havia eu de dizer do batom na almofada?

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Falar por Falar



Não era assim noutros tempos. Mas virou, assim. O caboverdiano fala por falar. Fala por necessidade de manter a boca acesa. É exemplo o crioulo parlamentar que rasteja a língua para falar e deixa por dizer o que devia. Basta escutar uma única vez as discussões no parlamento ou então as comunicações diárias dos governantes. Não trazem nada de novo. Pensam que todos são iguais a eles. Todos não são iguais a eles. Nunca. Então há quem não entende o que o outro diz. Então, não há quem descobre quando se fala por falar. Hoje na nossa terra fala-se e fala-se muito. Fala-se a imitar discursos de outras realidades políticas, sociais, económicas e culturais. Os discursos são discursos de neocolonizados. De lamentos e queixumes. Qual autonomia! Quais reformas! Reformas, sim. De cada vez que renova uma legislatura mudam-se as pessoas, as designações dos ministérios, dos serviços e dos institutos públicos, mudam-se as aparências, enquanto as atitudes, os procedimentos e os comportamentos mantêm-se. A reforma nunca acontece porque aqui na terra qualquer barraca é património. Porque não? A reforma não acontece porque o sistema dá leite para meia dúzia de bezerros. Grande ou pequena, a corrupção é património. Como expurgá-la se virou sabedoria? Se virou um dado adquirido? Se virou forma de manter o circuito de interesses?
 Mas o que, de facto, é património estão às lagartixas, toma vento, toma sol e depois hiberna. Exemplo: o conhecimento, o saber fazer, o saber dizer, o saber estar, saber relacionar e saber comunicar, ter bom nome social e boa conduta não é tido por património, não está agendado. Ao invés, a incúria, a desobediência e o oportunismo tornaram-se prática dos cidadãos refractários, apostados na ostentação, nas inverdades e em doutorice, tudo isso, constituído património da mediocridade, dos que de cada vez que o poder passa para as suas mãos fazem o que sabem, o que herdaram do colégio ideológico a que pertencem, falam por falar, apoderam-se dos andaimes da arrogância e tornam-se vaidosos e cegos pelo poder.
Os políticos que temos são produto de uma terra em festa permanente.


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Fogo d'África



FOGO D’AFRICA É PUJANÇA E DECLIVE

Fogo d’ África é um espaço de permanente convívio e música. Todos os fins-de-semana Nhô Nani ao violino e a banda de suporte estão ali à nossa espera. Vir à Praia sem visitar Fogo d’África é o mesmo que perder o bilhete da viagem no aeroporto de partida. Viver na Praia sem frequentar este lugar é desviver. Fogo d’África é pujança e declive. Nho Nani é um músico entusiasta que todos apreciam. Um amigo e moço de bons modos. Empenha-se muito para tirar boa sonoridade com o arco sobre as cordas do seu violino electrónico. Quem escolhe Fogo d’Africa para se divertir tem de ter ouvidos de bronze para aguentar os altos decibéis que as colunas agitam horas seguidas. Mas o ambiente é fabuloso. Há muito calor humano... Diga-se, masculino e feminino. Os pares amarrados pelo ritmo e pela melodia movem-se como se estivessem a viajar no trem da felicidade.
Eram três horas e tal da manhã quando cheguei à casa. Como de costume dirigi-me ao frigorífico buscar água fresca da garrafa de vidro e coloca-la na minha caneca inox. Dali, dou uns passos, fico à janela, tomo uns goles, paro a olhar o céu, a conferir a posição das estrelas e descobrir se não escorrega nenhuma do seu lugar em direcção ao olho de deus. Praia tem mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado visto foi em Assomada. Recentemente foi na ilha Brava, em Senhora do Monte, onde o escuro é amplo com os astros a mostrarem-se, tranquilos e tiritantes. Fascina-me o céu estrelado. Fico a pensar nas luzinhas que não se cansam de cavar o buraco onde moram ficando de fora o rabinho faiscante a abanar, semelhando fuga de feiticeiras levando consigo os recém-nascidos. O ponto luminoso maior era um planeta. Apostei em Marte. Mas a minha vista cansada dava a entender que se deslocava na direcção oposta à janela. De tanto olhar para o alto, tudo parecia ter entrado dentro da minha cabeça. Se sonhava ou se viajava não pude perceber no imediato.

De repente um gesto enigmático pôs-se a meu lado e começou a murmurar aos meus ouvidos: Olá! Saíste muito cedo de lá! Voltei a cara para o lado. Repetiu-se o sussurro: Olá rapaz! Eu queria tanto ficar contigo. O bafo era cigarro e bebida. Bafo de quem tinha bebido instantes atrás, envolvido em cheiro de perfume caro. Madame Dior, talvez. Não tinha certeza. – Que queres de mim?  Perguntei. A voz respondeu: - Vim! Apaixonei-me por ti. Fugi com a cara. - Porra! Eu! Quem és tu! A voz explicou. – Olha, não estou para muita conversa. Vais-me dar o prazer de te tocar e de te beijar. Não tenhas medo de mim. Explicou-me em voz baixa. – Sai! Vai e deixa-me em paz, vagabunda, filha da noite. Senti uns lábios frios a beijar-me o pescoço. Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu corpo ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado, entornando-se o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição, a querer enxergar algum movimento. Mas, vi nada. Permaneci de pé junto à janela. Instantes depois percebi que do chão vinha um cheiro a álcool. Provavelmente, rum, bebida que uso com frequência. Para comprovar a situação, trouxe a caixa de fósforo, acendi o pauzinho, aproximei o lume do derrame, puufffff... um fogo azulado subiu no ar, cheirando a nada. Dai, senti um toque no ombro. Perdeste! Soou um vuuuoooop... como se o vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até o dia de hoje aguardo por um contacto semelhante sem que tal tivesse acontecido. Quando escrevo a altas horas da noite dou por finados machos a me rondar, mas finado fêmea, creio, ter afastado de vez. Segundo a tradição popular finado fêmea é prestimosa ao seu vidente. 

domingo, 22 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia


DOIS SOM NETOS

12
viu o olho da visão e jamais convenceu
o círculo não tinha centro nos seus olhos
nem circulava o redor em seu claro céu
aguava-se no odor da vela e bebia óleos.

perto passeavam seus mirares e sorrisos
abrindo-se e fechando-se dóceis ao dia
viram jamais outros olhos senão os seus
na menina que sob as pálpebras morava.

ali desabaria qualquer raio na sua fronte
a flor que se abriu um dia fora mais rosa
ao sol do jardim do que na boca da jarra

era menos no vaso a flor que no caule
onde mariposas alavam-se apaixonadas
a sonhar com os sentidos excitados

13
olfa tinha na rua das suas pregas
segredos que adoravam a sua idade
bebia e fumava e depois seduzia-se
nas silhuetas do fôlego que expelia.

do seu amor-próprio caíam desejos
rolando bolas de vapor sedentos
que curiosas abriam as vontades    
ardentes e doentias seus sentires.

caiu o véu e o dedo vagou o interior
húmido a sentir não o cheiro do puro
mas do vício preso nas ruas do olfacto.

na montra as narinas espiavam o dia
farejando curiosas o odor andante 
a sonhar com os sentidos excitados.


sábado, 21 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Picos, Um Altar Garboso



            PICOS, UM ALTAR GARBOSO

No coração da Ilha de Santiago, para lá da Cruz dos Picos, estende-se o rugoso território do município e freguesia de São Salvador do Mundo, em cerca de trinta e um quilómetros quadrados, tendo por centro Achada Igreja, sede municipal, contornado por bonitos regatos e ribeiras cujas águas pluviais correm veloz para as várzeas de Santa Cruz, município vizinho. O concelho é marcado pelo rochedo Nguli Lança que se transfigura em cavaleiro, perfil basáltico natural que atrai a atenção dos visitantes, símbolo desafiador que cunha de forma ímpar a paisagem desta região ante a altivez do Pico de António, por isso mesmo, Picos, eira de uma identidade própria que vincou nos naturais uma forma peculiar de ser e de estar, Picos – Achada Igreja – terra de boa gente, de bons costume, honrada e trabalhadora, de gente que goza de muito prestígio, atributo herdado do passado que a iliba de ser pedinchão. É na mítica ribeira dos Leitõezinhos que viviam as gigantescas e centenárias árvores o Tamarindeiro e o Poilão motivo de muitos comentários.
A igreja de Nhô São Salvador do Mundo, santo padroeiro da freguesia, ergue-se no centro da Vila de Achada Igreja, monumento apreciado de diversos pontos da estrada nacional que liga o concelho às cidades de Assomada e da Praia. O dia deste Santo é, desde sempre, tido como a maior festa religiosa de Santiago, celebração que congregava participantes de diferentes pontos da Ilha, para pagar promessas, ofertando géneros, aves e pequenos animais, de seguida leiloados pela paróquia. As festas eram uma espécie de romagem aos ritos e às tradições antigas, em que o colorido das vestimentas davam cor e tom ao paisagístico, a música, a gastronomia, o prazer e os galanteios enchiam as pessoas de ânimo, amalgamadas, gozavam a vida abençoada pelo Salvador de todos. A música de salão era produzida pelos instrumentos de corda e clarinete comandada por Cesáreo Boca ou Manuel Clarinete, enquanto nas tabernas e barracas improvisadas era o baile nacional (baile popular) por conta dos tocadores de gaita e ferrinho que, ao ar livre, celebravam na sabura, sem embaraços, a vida vivida.
A vizinha Achada Leitão, belo aldeamento, era terra de Nhô Djonsinho Cabral, grande mestre de serralharia, sabedor famoso dentro e fora da freguesia, importante proprietário de terras, dono de conhecimentos técnicos, principal criador da célebre oficina de Txada Liton, lugar onde se reparava utensílios domésticos e de lavoura, peças de carro, onde se armava tachos e alambiques e se fundia peças de trapiches, se fazia e se reparava armas de fogo, serviços prestados a pessoas de todos os quadrantes da sociedade santiaguense da época, além de ser autêntica escola de artes e ofícios, onde se aprendia a conhecer o teor dos metais, a lidar com a forja, fundição e serralharia, disciplinas obrigatórias para os aprendizes, oficina, também, onde se fabricavam ferramentas e apetrechos para servir os pequenos ofícios, tais como, pesos, medidas, facas, maxins, enxadas, funis, tachos, cunhas, alavancas, martelos de pedreiro, colheres de cal, picaretas, ponteiros, dobradiças, etc.
As chuvas abundantes de outrora e os bons resultados agrícolas conferiam vida desafogada aos salvadorenses que raramente deixavam as suas ribeiras para viverem noutros lugares. No entanto, as mudanças causadas pela carência das águas alteraram um pouco a vida e a fisionomia da região, obrigando alguns à dispersão, mesmo assim, os que ficaram jamais abstiveram-se de lutar pela construção de um futuro melhor para si e para os seus filhos. A penúria de água, o êxodo para as cidades, a emigração, afectaram bastante a vida económica e social do concelho, com impacto nos festejos que se afastaram dos costumes e hábitos antigos, passando a ser oficiosos ou oficiais, programados de acordo com proveitos políticos dos poderes instituídos.  
  Os tempos mudaram e com eles a realidade também. Os festejos são outros porque as pessoas, os hábitos e os costumes, também, viram outros, apesar disso, as celebrações de Nhô São Salvador do Mundo, também, Dia do Município, continuaram muito participadas, com outros conteúdos é claro, destacando-se, além da parte religiosa, programação diversa, desporto, recreação, festival musical, exposição de artesanato, antiguidades, restauração, que se encaradas com realismo e exploradas com inteligência valorizam a cultura e o bom nome do concelho, sendo a civilidade, a singularidade do paisagístico mais-valias que fazem do concelho um destino turístico indiscutível. Picos - Achada Igreja é um altar garboso.


quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Poema ao Dia dos Heróis da Patria



de rosto inclinado para o sueste

de rosto inclinado para o sueste é o busto
do combatente da liberdade da pátria
de feitos foscados pelo castanho saheliano
de corpo e braços avulsos ao vento
de poemas e líricos acantonados
de sangue da morte pela liberdade
exilado pelo triunfo da democracia 
de látego anilado arvorado símbolo
doação informal de raso litígio
de sortilégio e demagogia
do grogue virado vinho
de ti manel virado man bia
ante o destilador tranquilo da história
ante os heróis da luta
ante o povo herdeiro do sol suor verde
e o mar da parição da una liberdade
da grande liberdade que ainda navega
e canta a cor da espiga primeira
o peso do grito levanta o braço
e dança o júbilo de julho
na tropicalizante alegria de viver
e de morrer na pátria das flores da nação
que a luta de séculos fecundou.


RAPIZIUS - Santo Antão Ilha Maiúscula



                          SANTO ANTÃO, ILHA MAIÚSCULA

Foram quatro dias a conhecer os três belos concelhos da Ilha de Santo Antão e a desfrutar da franqueza e espirito acolhedor das gentes, na maior parte camponeses a reivindicar melhores condições de vida e de renda, mas também a juventude e as mulheres membros das associações comunitárias, idosos, professores, funcionários e empresários agrícolas, colocando questões, propondo alternativas, que requeriam muitos recursos financeiros e materiais.  
Santo Antão é uma ilha que pode prosperar depressa. Tem gente capaz, tem atracção, tem grandeza territorial, tem infra-estruturas e tem o que não existe em lado algum: gente que inventa vida sobre a pedra. Nas suas destacadas ribeiras o fumo vertical dos trapiches ladeado pelo colorido claro do bagaço da cana sacarina é um símbolo que faz da ilha Santo Milagreiro. Precisa é de autoridades competentes, de convergência de interesses e organização das energias em torno de causas comuns. Acredito que Ponta do Sol, Povoação e Paul sim que ligados pela estrada do norte origina nova configuração nas relações comerciais, ajudando a comunicação e as transacções, impulsos que mudarão para melhor a vida dos santantonenses, a começar pelo encurtamento das distâncias entre as sedes administrativas, entre os polos populacionais, o interior produtivo e o porto de vazão de mercadorias e de passageiros, favorecendo o aumento de visitantes, gerando iniciativas, criando conforto e segurança, além de conferir aos concelhos e à ilha maior importância, mais nome e mais imagem dentro e fora do arquipélago. Santo Antão é ilha, onde, com sabedoria, a tradição e a modernidade se rematam sem que uma seja vítima da outra.
O convívio com as serranias, os penhascos, os altos das penedias, as ribeiras, com os vales, os sítios, as localidades, o paisagístico, sobretudo com a generosidade duma gente laboriosa, acrescido dos muitos quilómetros de levadas coladas às íngremes ribanceiras, dos milhares de metros cúbicos de murados tecidos à mão pelos varões da enxada reinventando o chão molhado, os caminhos vicinais por passagens intrincadas, a lufa-lufa diária dos obreiros e das mulheres carregadeiras de feixes de cana, a caminhada dos meninos de escola e as alimárias de carreto, fazem com que a vida da ilha seja autentica epopeia e demonstração exacta daquilo que o homem ilhéu é capaz de realizar enquanto construtor e dono exclusivo do seu mundo. Foi, sem dúvidas, uma grande jornada de estágio, de compreensão do todo nacional, pelo que em jeito de conclusão, diria que a fecunda diversidade das ilhas e da sua cultura tornam-nos maiores, bem maiores do que supomos.  
Às residenciais, aos restaurantes, aos acompanhantes, aos excelentes motoristas, aos músicos, ao amigo anónimo o meu reconhecimento. Um abraço amigo ao Homero Fonseca. À mãezinha Isabel Jardim em Ribeiras das Patas um beijo de amor e carinho, aos amigos e amigas de Lagedos, aos professores, às cozinheiras a minha admiração e respeito, às mulheres de “Môtxe” o meu apreço pela frontalidade das palavras e pela amizade. A todos meus agradecimentos. Espero que as reivindicações pelo abastecimento de água potável, melhor estrada e electrificação, mais emprego sejam atendidas a breve trecho. Ao Ruizinho, à Natalina, à jovem Ondina e as senhoras de Cruzinha a minha sincera gratidão e respeito. Obrigado a todos pela atenção e pela amizade. Santo Antão é uma Ilha Maiúscula.  

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Entre duas Vidas (2)


                                             ENTRE DUAS VIDAS (2)


Era de madrugada. Exercitava textos no máximo quinhentas palavras, a lembrar o saudoso poeta Mário Fonseca, quem me espertou para este tipo de texto, estilo de Virgílio Pires, cultor deste género literário, tido como pai do conto curto caboverdiano. Ao pé de mim a minha viola – Peregrino - e por detrás do armário a Osga Rosa a cantar no habitual Fá Maior. Concentrado estava eu a formatar as ideias para o texto - Entre duas Vidas – quando apareceu a sombra que sempre me acompanha nestes momentos a movimentar-se na sala: sapato polimento preto, calças escuras, camisa branca manga comprida, passo longo e lento, num vai vem tranquilo. A figura aparece-me sempre do mesmo lado. Do lado do canto do olho direito. Não se lhe ouve a voz. Falávamos por instinto, mas, desta vez, foi desdobramento. Era eu sem ser eu a traçar na tela do computador os contornos da narrativa. De súbito, tive o texto pela frente que começava assim: olha, eu e tu somos o mesmo espirito. Usas nome diferente. Tens tua vida. Eu a minha. Mas interligamo-nos, sempre. O que nos separa é caso menor. Nas condições em que vivo não me é permitido revelar quem e onde estou. Mas, vivo. Podes dar-me nome que pretenderes, não levo a mal. Sempre que posso, venho. Por amizade e afeição. Não te preocupes comigo. Sinto-me bem onde estou. Mas é difícil o teu viver. Acautela-te. Eu morri há algum tempo. Na altura começavas a abrir os olhos. Aquela terra fez-te bem. Deu outro rumo à tua vida. As pessoas das tuas relações eram gente de bem. Os lugares visitados foram benéficos. Tudo isso ajudou-te muito. Mas, o ambiente onde vives é diferente. Há gente e procedimentos inúteis. De todo o modo, vive. Vivo em outra vida, sem ser visto. Mas, vivo, convivo, a cumprir o meu dever de vivo para com os vivos mortos. Sinto que falta óbito aos vivos a caminho da morte. Gostaria de estar morto para não ver os vivos mortos, que sei estarem extintos antes de morrerem. Passei o tempo todo a pensar morrer por eles. Mas, depois de ela acontecer, descobri que viver pelos mortos vivos não vale, nem após a morte. Não me julgues mal. Morri de coisa grave. Fui ao médico, estive internado e medicado por sintomas que não conseguiram diagnosticar. Achou-se que era doença de sono porque não dormia havia meses. De seguida, comentou-se que podia ser obra de espírito encalhado. Mais tarde, reuniu-se a junta médica e acabaram por aumentar a dose do sedativo. Tiveram de consultar o banco de dados, meu ficheiro tinha sumido. O operador confirmou ter registado tudo. Insistiram, nada. Chamaram o técnico informático para proceder a busca. Minutos depois, acharam. A descrição aludia que o paciente tinha morrido uma semana atrás, óbito justificado por insonolência crónica e anemia exacerbada. O confrade foi-se embora assim como veio. Deixou o texto pronto. Li, conferi e apurei. Eram quinhentas palavras. Assim foi a madrugada de ontem. 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Entre duas Vidas

                                                                ENTRE DUAS VIDAS

Estava quase a completar três meses sem conseguir dormir. Insónia? Após várias consultas e exames o médico declarou-me bastante doente e fui internado na quarta enfermaria do hospital, segmento, onde eram colocados doentes crónicos. Havia aqueles que dormiam e não se acordavam, outros em estado de coma e a mim não sabiam identificar o estado. Falava-se em insonolência crónica. O internamento e a medicação não traziam melhoras. Ia para quatro meses sem dormir e sem comer. A junta médica tinha-se reunido e a situação mantinha-se. Não se acertava no diagnostico. O médico não queria que eu soubesse da gravidade do meu  caso. O itinerário estava traçado. Morte certa. Só, não se sabia quando. No hospital todos passaram a saber da situação, menos eu. Quando eu perguntava pela minha situação diziam que eu era forte e que a recuperação viria com o tempo e que brevemente estaria em casa.
De tanto receber visitas de familiares e amigos, pelas suas caras e gestos, desconfiei que algo não estava bem. Certo dia pedi que me trouxessem flores. Branca em caso de alta; amarela fosse para ficar mais tempo; vermelha para estado grave; e, nada em caso de morte eminente. Concordaram com a ideia e todos prometeram cumprir o pedido feito. 
No dia seguinte, pela manhã, alguém deixou ficar na mesinha de cabeceira uma flor amarela, quase sem vida, não dei por isso, porque estava a dormir. Quando acordei, sobre o peito, estava um bouquet de flores vermelhas, tão convidativas que logo me abracei a elas com devoção. Alguém teria deixado ficar o presente sem que nenhum assistente do hospital o visse entrar, nem sair. O estranho não deixou nome, nem morada, nem outra identificação. Chegado a hora do controlo médico a enfermeira de serviço pôs-se a olhar para mim com cara de inquietação. Eu, sempre abraçado às flores, olhava para ela. Perguntou-me se tudo estava bem. Barafustada, tirou-me a temperatura, verificou o pingar do soro,  conferiu o fundo dos olhos, fez uma cara fria como comida de gato, subitamente, desatou a gritar como se ela tivesse visto o morto. Eu, todo caladinho, de olhar fixo nela, abraçado às flores e sem mexer. Ali, imóvel, estava o físico enquanto a alma tinha sumido havia uma semana. O esqueleto aguardava pela visita da pessoa amada, a enfermeira. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Ilha do Sal e o Concorde

       

                                         
                                                 ILHA DO SAL E O CONCORDE

A 19 de Julho de 1984 demiti-me do cargo de Presidente do Sindicato da Indústria, Comercio e Serviços. Em Setembro do mesmo ano entrei para a Agencia Nacional de Viagens – Divisão Aérea – na Praia, a convite do Director Geral da ANV, Guilherme Santos Ferreira, antigo colega de trabalho na Casa Madeira. Fui admitido para exercer o cargo de Director de Divisão. Um mês depois, a nossa representada Air France em Dacar, informou a ANV sobre um programa de formação na área do Ticktyng e Markting e fui indicado para receber esta formação. Foi em Dacar que conheci o Senhor Charles – Director Comercial Regional da Air France para a África Ocidental em que Cabo Verde se insere, sendo a ANV agente da Air France. Findo o curso, consegui mais um curso ministrado pela Swissair, também nossa representada, sobre a organização e encaminhamento de pacotes turísticos e, de seguida, a Alitália aproveitou fez o mesmo, também ela nossa representada. Fiz boas amizades com os Directores Comerciais destas companhias aéreas, convidando-os a visitar Cabo Verde.

O Sr. Charles da Air France foi o primeiro a visitar-nos, tendo vindo de São Vicente o DG da ANV – Guilherme Ferreira – para o receber e negociar interesses entre as partes. No entanto o Presidente da Republica, Aristides Pereira, havia sido indigitado para falar em nome dos países menos avançados da Africa na reunião de Paris, presidida por François Miterrand – Presidente da Republica da França. No final de dois dias de visita o Director Geral Guilherme Ferreira havia sugerido ao Senhor Charles a passagem do Concorde pela ilha do Sal para levar o Presidente Aristides Pereira a Paris. Assisti os argumentos do Guilherme Ferreira insistindo que: “era prestigioso para a Air France o avião Concorde vir a Cabo Verde e transportar um dos Presidentes mais respeitados da Africa, porta-voz de vário6s países africanos, sobretudo os da francofonia de que Cabo Verde também fazia parte. O Senhor Charles foi portador deste sonho, para o tornar realidade. Poucos dias depois o Guilherme Ferreira deslocou-se a Dacar, regressando muito esperançado. O assunto foi tratado com muito sigilo. Na altura usava-se o Telex para se comunicar na aviação comercial. Eu era o último a sair da agência e o primeiro a entrar para que a comunicação se mantivesse em sigilo.

Feliz foi o dia em que o longo Telex confirmava o aval da Sede da Air France em Paris em desviar o Concorde para a Ilha do Sal para receber o prestigiado passageiro, Presidente Aristides Pereira. Na mesma semana, o Director Geral Guilherme Ferreira deslocou-se de São Vicente, sede da Empresa ANV, para a Praia, para dar a excelente noticia ao então Ministro dos Transportes, Herculano Vieira, que por sua vez a transmitiu ao Presidente Pereira. Dali em diante, todos os procedimentos foram tidos em conta e o Presidente da Republica de Cabo Verde, Aristides Maria Pereira, acabou por viajar da Ilha do Sal com destino a Paris no supersónico Concorde.
Este coroar a Cabo Verde ficou-se a dever ao amigo destas ilhas Senhor Charles, Director Comercial da Air France para África Ocidental e ao dinâmico gestor e diligente trabalhador, Guilherme dos Santos Ferreira, Director Geral da Agencia Nacional de Viagens, filho de Santo Antão, natural da Ponta do Sol, companheiro da Casa Madeira e de quarto, padrinho do meu casamento, alma crioula que a eternidade guarda para sempre.


domingo, 15 de janeiro de 2017

Em Domingo de Poesia


Dois poemas da coletânea (na gaveta) Terra Dilecta - Caminhos Cantantes -

3
neste lado do mar
nem peixe nem tostão furado
há coisas que dão que pensar
o dilema é não ficar marcado

neste lado da terra
há buraco que gora o andar
há gente que tudo emperra
a calema é o deixar ficar

neste lado da vida
há mil braços p’ra trabalhar
mas ele é vento que assobia
que só acorda para passear

neste lado do povo
se podia ser bem mais feliz
se refém não fosse o voto
d’um molho de porcos xix

neste lado da alma
há filho que o ventre chora
odeia os poderes e a fama 
a sociedade tudo ignora

neste lado do canto
há luta artilhada à espera
há peito despido de pranto
há guerra no vigor da terra

4
tanto expor o acordo assinado
conversa fiada e cifrões à solta
aquele rosto no ecrã plantado
bem maquiado e flores á volta

tele-fingindo agindo com jeito
bla-blá o embrulho p’ra malta
ninguém escuta o tal sujeito
na jorna é manchete sem falta

o que queria e o pretendido
pouco do nada logrou dizer
do conhecido mal escondido
claro ficou e nada a condizer

o povo é rua que não chora
é riso dum orgulho que voga
é coragem que tudo remove
é brado que nunca se afoga

o povo é o lado duro da vida
onde a razão tem destreza
onde o zero é coisa dividida
onde a verdade trai certezas

sábado, 14 de janeiro de 2017

RAPIZIUS - Dois Apontamentos



                                                       DOIS APONTAMENTOS

1.
Estou a ouvir a moça a cantar Djonzinho Cabral, composição gravada pelos Tubarões. 
Vejam com é traiçoeira a oralidade ou seja aprender de ouvido, caso usual e Cabo Verde.

A letra cantada é assim:
Maria di Djonzinho es po'l na cadia
es pol na cadia pamodi é kebra brinco. 
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

A letra original é assim:
Maria di Djonzinho es kre pol na kadia
Po'l na cadia pamo é ka ntrega brinco.
(...)
Pamodi Maria un ta bende boi nta paga.

História:
Maria era mulher di Djonzinho e tinha de arrendamento uma porção de terra para sementeira. Deitou à terra as sementes e não choveu e seu morgado reivindicou o pagamento da renda. Maria não tinha como pagar. Nho morgado insistia no pagamento da renda e quis que ela deixasse ficar o par de brincos de penhora o que ela que recusou fazer. Assim sendo, Nho Morgado ameaçou-lhe com cadeia. Djonzinho Cabral, seu companheiro, conhecendo a situação, mandou dizer a Nho Morgado que, por causa da Maria, vendia o boi para pagar a renda da propriedade semeada e que nada rendeu, por faltar chuva.
Há uma tendência em não perguntar e nem sequer saber a letra e o enredo, resultando dai invenções e deturpações perigosas do sentido da história que o autor do texto contou e musicou, por isso, não devemos cair na tentação de truncar os originais. Música não é só ritmo e melodia. É também mensagem e comunicação. É vinculação de uma realidade expressa, vivida por alguém ou pelo autor.

2.
Não devemos ter medo do moderno desde que ele tenha assento no pensar reflexivo sobre as bases do passado. O presente é todo nosso e ninguém nos tira isso. Mas ele é sempre o passado, o ido, na medida em que inovamos ou criamos o novo. No tocante à nossa música, só com estudo, tratamento adequado das experiencias dos outros e  dos empréstimos úteis podemos construir com segurança o moderno (futuro) dos nossos géneros musicais. O bom compositor não deverá permitir desregramentos, mas, sim, dar continuidade no respeito á memória e às heranças que tornaram a nossa música inimitável.
Afinal a música é uma espécie de literatura escrita por acordes no braço do violão caboverdiano que narra o estado da alma, a estrada das emoções e as relações com a natura e com a vida, sendo o compositor a ponte de ligação entre o sentir e a realidade, conforme o relógio do tempo e a geografia da vida o nortear. Ser fiel às raízes é pedir demasiado, mas ser leal é o que aconselho aos que consideram e amam a nossa música.


quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

TESTAMENTO


Armaram o palanque... é o “delírio dos porcos”, disse o poeta da terra.
O branqueamento da história, dos acontecimentos, das origens, do passado, do capital, da justiça, do socialismo, das revoluções, da pele, do sexo, até das fezes, são necessidades dos tempos modernos, são necessidades dos novos brancos da terra nos seus desejos de embranquiçamento  a todo o custo.
Branquear o processo da luta de libertação dos povos oprimidos por via luta armada é hoje vista como acto terrorista (como antes). As lutas, as reivindicações e os levantamentos populares são tidos, hoje, como actos extremistas contra a paz social e desestabilização. Tenta-se acabar com a ideia de nações, de povos, de identidades e de culturas e impor-se a aldeia dos obedientes.
A tomada do poder pelos movimentos de libertação em Africa pela conquista da dignidade dos seus povos; a defesa da soberania o exercício do poder popular a negar o servilismo social, o neocolonialismo e a ditadura da democracia liberal, virou farsa; o assalto à esperança dos povos africanos, a sua condenação ao sofrimento, à doença e à pobreza pelo próprios africanos vendidos a interesses estranhos, virou apanágio do poder nativo; anestesiar a pátria (que o caboverdiano não tem) pelos democratas brancos da terra com discursos, diversões e acções paternalistas, virou glória;
É esta a nova aliança. A aliança embranquiçadora. É esta a missão em curso que o branco da terra impõe como destino aos crioulos e ás ilhas anestesiadas pela esperança em melhores dia que não vêm. É a disfarçada ditadura pintada de democracia, - a tal dimokransa - hoje, defendida pelos rabidantes no poder, constituindo verdadeiro assalto à autonomia do povo e o seu direito à liberdade e o progresso social, económico e cultural.
É branquear o 5 de Julho, data maior da liberdade do povo de Cabo Verde, e colocar o 13 de Janeiro, dia sem peso histórico, sem glória e sem alma, como data da nação, não passando ela de acto carnavalesco, sem que o trovador das ilhas a invocasse, alguma vez, num género musical seu, tal façanha. Não há vislumbre nem recordações de tais menções. 
Não celebro o dia 13 de Janeiro:
dia de não facto histórico;
dia do assalto às urnas e da fraude eleitoral;
dia da instalação da dimokransa e do liberalismo selvático;
dia da consagração da corrupção;
dia do projecto da destruição do PAICV;
dia de mascarar a liberdade;
dia da demagogia e da perseguição politica;
dia do hino sem chama patriótica;
dia da bandeira azul da negação à Africa;
dia da vinculação de Cabo Verde como neocolónia de Portugal;
Todos vão lá estar a fingirem pátria, a fingirem povo, a pintar a liberdade com as cores da hipocrisia.



RAPIZIUS - O Pincel Danela

                                                                       O PINCEL DANELA

          Para quem conhece a autora das obras recentemente exibidas no Salão de Arte do Palácio da Cultura – Ildo Lobo – não receará afirmar que assistimos a um desabafo, a um desafio típico de quem tem algo para mostrar e transmitir, aposta de uma jovem que sonha ir mais além. Fomos chamados a conviver com pinturas na tela, a ler o que artista revela de si própria e da observação que faz do mundo à sua volta. A arte de cultivar a arte exige luz e ausência dela, impõe retiro e movimento, ritmo e roturas com o real, mesmo quando a mão do artista parece ser repetitiva. Mas, o que importa neste caso é saber se a artista soube olhar para dentro e para fora de si, se soube voar e criar os lados da sua própria gaveta. Se soube provocar o aparecimento da arte nos seus limites.
          Nela Barbosa é uma jovem do interior da ilha de Santiago, nascida na Vila de Pedra Badejo, no sítio de Salina. A casa onde nasceu tem, ao pé, a Praia Grande de areia negra aberta para o mar imenso, a contrastar com o castanho do lodo da lagoa deixado pelas cheias, com o vegetal seco e o verde da ribeira, com as cores volúveis do mar a espumar nas penedias, bases do universo primário da artista plástica que ora se apresenta publicamente.
          Os quadros mais expressivos deixam-nos a sensação de que existe uma certa onda oscilante na mão silenciosa do pincel que, entre a timidez e a liberdade de criar, procura, através dos diferentes temas escolhidos, libertar ansiedades  e o desejo de não querer parar por ali, isto é, vontade de aprender e evoluir, exercitando a própria arte.  
          Apreciar as soluções encontradas para os diferentes quadros é tentar decifrar, por um lado, a identidade da artista (por definir), por outro lado, as motivações ou os impulsos que a levou a ajustar cores na tentativa de impor ordem a um certo desalinho ditado pela imperícia, conjugado com a paisagem interior, com a arrogância da realidade ambiental vivida pela artista, havendo denuncias e evidências de um certo grau de perspicácia e autenticidade. Por exemplo, a utilização de tonalidades encontradas no maduro da fruta, no claro da espuma do mar, no verdaço, no castanho da terra, no azul do mar e outros tons ditados pelo olho do improviso.
 Nela Barbosa, a pintora, tende a ser produto da conjugação da paisagem campesina e o cenário urbano, processo em caldeação, que na devida ocasião se consolidará, que poderá resultar em um estilo próprio, se primorado, apontará pela obtenção de uma identidade própria.
          Se por um lado as obras de Nela Barbosa têm a ver com visões domésticas ou de retalhos ou disfarces do mundo que a rodeia, mais ou menos atraentes, por outro lado, espelham momentos de retiro, onde o disforme ganha vida e significação próprias, estética e qualidade, ou seja emergência da arte. Todo o criador sonha e procura realizar a sua obra-prima, sonho legítimo de qualquer um.
Será esta iniciação alavanca para graus mais elevados de execução da arte, questiono?.
          Os meus parabéns, o meu respeito e o meu apoio absoluto.  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

RAPIZIUS- Porto de Nhô Raul


PORTO DE NHO RAUL
O porto da Ribeira da Barca fora durante vários anos um dos melhores ancoradouros da Ilha de Santiago, ponto importante de trânsito de passageiros e de escoamento de mantimentos, especialmente, para o Porto Grande de São Vicente e outras ilhas. Em contrapartida recebia mercadorias diversas como cal, madeira, ferragens, sal, tintas, ferramentas e outros utensílios como bidões, vasilhames de metal e de vidro, armações para os trapiches, alambiques etc.  Ribeira da Barca ou simplesmente Porto tinha-se tornado num aldeamento muito afamado. Ao sul era o mar de águas profundas e ao norte era Ganchemba zona agrícola de regadio de bela nascente de água. 
Foi por iniciativa do Céza, (Cesário Semedo) chofer de Nene di Nha Munda, pai do falecido Presidente António Mascarenhas, que eu e Zezé, meu irmão, fomos autorizados a conhecer e banhar-nos pela primeira vez no mar da Ribeira da Barca, no Porto, após tanto ouvir falar do mar do ancoradouro dos afamados veleiros Rex, Maria Sony, Senhor da Areias, Novas de Alegria, Ernestina, Mar Novo, e tantos outros e Santa Rita pertencente aos Santa Rita Vieira comerciantes firmados em Assomada, coube-nos, assim, a sorte grande de ver o mar e apreciar os meninos que nadavam longe da praia.  
Este porto de mar contribuiu bastante para a importância da Vila de Assomada para a sua economia e para o ambiente sociocultural, sendo certo que era através dele que o concelho recebia mercadorias diversas e contactava pessoas e mercadores de outras ilhas, inclusive a tripulação dos navios, muitos deles instruídos e músicos, que a convite de amigos visitavam a Vila em horas vagas. Lembro-me de uma bela tocatina havida em nossa casa. Do grupo apenas o nome Pantxol ficou-me na memória. No entanto, músicos como Luis Rendal, Tazinho, Bana, B. Leza, Bilak, Bala, Djédje Matias, Djódja, Anu Nobu, entre outros, eram músicos conhecidos.
Tinha eu mais ou menos doze anos de idade (1959) quando conheci Nho Raul de Ribeira da Barca, violinista. Ele vinha tocar nas festas dançantes do fim do ano e do carnaval que se realizavam no Cine Clube de Assomada. Eram festas muito concorridas e animadas ora com músicos trazidos da Praia, liderados por Cesáreo e outras vezes por Manuel Clarinete, músicos que traziam muito ritmo nos seus repertórios: tchá-tchá-tchá, mambo, tango, suingue, bolero, morna, coladera, valsa, mazurca, marcha, merengue, etc., havendo impedimento, recorria-se a músicos locais Aristides (pai de Norberto) ou Nho Raul da Ribeira da Barca, violinistas experimentados que sabiam animar as noites dançantes. Nho Raul era um bom executante do violino. Era um entusiasta. Era um músico que vivia ardentemente o que fazia. Torneava o seu corpo conforme fosse o tom da melodia arrancada pelo arco no pequeno braço do instrumento.
Há bem pouco tempo, em visita à localidade, passei uma tarde inteira a ouvi-lo contar coisas do passado, a viagem e estada em Alemanha, as suas actuações, como foi a receptividade das músicas que tocava. Contou de um sujeito que queria tirá-lo o instrumento (violino supostamente Estradivários) por uma bagatela. Disse-me ele: «Um dia eu toquei com músicos estrangeiros e eles admiraram como é que eu, um analfabeto, por assim dizer, sem escola de música, a tocar assim. Expliquei-lhes: música é ouvido e tudo está na minha cabeça. Toquei música da terra deles sem nenhum problema. Mas, eles não. Enrascaram-se quando lhes pedi para me acompanharem numa morna. Olhas, levei este violino aqui que tem para cima de cem anos». Abriu e tirou o instrumento da caixa de protecção e deu-me a ler a etiqueta bem legível, provavelmente, do fabrico. «Olha, este instrumento está cá, comigo, faz anos. Ninguém o tira daqui-p’ra-fora. Esse alemão, que falava espanhol, foi ao meu quarto de hotel e pediu-me para trocar o meu violino com o dele. Estás a ver uma coisa. Dali, o homem pediu-me que fossemos à casa dele. Mas quando vi que ele queria mesmo era tirar-me o meu violino de graça, disse-lhe: - se o senhor quiser o violino terá de me indemnizar convertendo a idade do violino mais a minha em horas multiplicando cada hora por cem do vosso dinheiro. Se tiver esse dinheiro o violino é seu. O homem viu logo que não estava perante um burranco, apesar de, eu, Raul, viver sempre metido neste cantinho à beira mar». Mandou vir a garrafa de circunstância, serviu-me do bom aguardente para visitantes especiais, ele já não usava álcool, apenas fumava.
Nho Raul é um pai músico que conseguiu trazer gente nova para a música e prepará-la para a música, incitando-a aplicarem-se e a tirar o melhor proveito dos escassos instrumentos musicais que o exótico recanto do Porto possuía. Tcheca é um dos músicos emergentes do sossego das noites do Porto. É um dos ouvidos onde o professor depositou as afinações dos primeiros acordes. É um dos saídos do Porto e que ocupa um lugar de destaque no panorama musical das ilhas.
Ribeira da Barca é dona de um mar de águas profundas, é lugar onde o sol cambando repousa diariamente os seus raios no verniz azul-marinho a separar os lábios rochosos de duas ilhas oriundas da mesma cintura vulcânica, Fogo – Mosteiros -, terra natal de Nho Raul e Santiago, terra adoptiva. Nho Raul viveu, cumpriu e deixou Porto senhor e detentor de um património que a memória colectiva deve preservar e as gentes devem acarinhar e imortalizar. Ribeira da Barca, confidência do mar, é onde o Homem distinto e patriota se consagrou, onde soube dar o seu contributo para o bom-nome e na formação de boa imagem social da sua localidade. Porto e o seu mar não pararão de celebrar o nome do músico-violinista, não cessarão de espumar branco no sopé rochoso do fresco planalto, onde, bem alto, em absoluto silêncio, repousa a alma do ardente músico cabo-verdiano Nho Raul de Ribeira da Barca.

                         

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POEMAS DA COLETÂNEA - TERRA DILECTA  - CAMINHOS CANTANTES -  NÃO PUBLICADOS 1 Julho de remotos Julhos. Cíclicos Julho...