sábado, 28 de setembro de 2013

Lembrando Manuel de Novas


Quatro anos se passaram sobre a morte do grande músico e trovador das ilhas Manuel de Novas, deixando-nos o seu génio de comunicar através da música a mundivivência crioula, pelo que recordá-lo é uma forma de perpectuar a sua memória e seu legado que constitui património cultural nacional.
São as associações cívicas locais de vocação cultural mais o Governo Municipal que têm o dever moral de enaltecer os seus munícipes destacados e de os fazer lembrar, prestando-lhes homenagens em actos de rua, nas escolas e noutros espaços, porque homenagear não é só no dia da morte é fundamentalmente depois dela, celebrando a memória dos filhos destacados como é o caso de Manel de Novas.
Glória eterna à memória do poeta e trovador das ilhas Manuel de Novas.
Minha lembrança a este dia e ao meu inspirador de sempre. KBarboza

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

25SET13 a ACL


E criámos a Academia Caboverdiana de Letras, imortalizando os pioneiros e os fundadores das letras cabo-verdianas, num cerimonial pleno de luz e clarividência.

De se louvar o grupo de trabalho inicial, erigido em núcleo fundador que muito se empenhou, dedicando horas e horas do seu tempo à esta nobre causa que ontem, 25 de Setembro de 2012, viu a ACL de jure ser reconhecida perante uma bela assembleia de personalidades da cultura e de representantes dos poderes públicos, tendo ao centro a figura do Presidente da República, o confrade Jorge Carlos Fonseca, membro dos fundadores da Academia.

Enquanto membro do Conselho dos Fundadores e eleito para o Conselho Consultivo da ACL, ocupando a cadeira 32 do patrono Virgílio Avelino Pires, escritor - contista - de finos recortes literários que deixou em "HERANÇA" colectânea de contos a expressão máxima do seu “engajamento político-social e cultural ao colocar em pauta a verdadeira condição da mulher cabo-verdiana, seus sonhos e expectativas perante uma terra inóspita, quase improdutiva, sem muito ou quase nada a oferecer, numa denúncia de emigração e prostituição” (Sónia Queiroz – Brasileira - estudiosa da literatura contemporânea caboverdiana).
Desta feita tudo farei, na linha do juramento prestado, para conferir dignidade aos propósitos defendidos pela ACL, cabendo-me, especificamente, enaltecer a gesta e o legado literário de Virgílio Avelino Pires, pessoa conhecida em Assomada, ainda criança, em casa dos meus pais, contista santiaguense de qualidades humanas e intelectuais salientes, compelindo-me, no quadro da ACL, emprestar qualidade, pertinência e criatividade às minhas produções literárias.
Bem-haja a Academia Caboverdiana de Letras.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

RAPÍZIU 40


 Há 40 anos atrás, participei das comemorações da Independência da Republica da Guiné-Bissau. A cidade de Bissau, na altura, era uma urbe bonita, de longas ruas e avenidas limpinhas, muitas árvores e jardins bem cuidados, a parte baixa da cidade era linda, bem localizada e bastante movimentada, enfim, cidade africana construída pelos portugueses que de urbanismo nada de nada tinha a ver com as cidades da então Praia e Mindelo. O muito espaço permitiu a construção de habitações baixas, rés-do-chão jardinado, alpendres e varanda mesmo para o clima da região, de primeiro e segundo pisos eram alguns edifícios públicos e estabelecimentos privados.

Em finais de Outubro parti de Mindelo e o 24 de Setembro de 1974 deu-se comigo em Bissau. Os guineenses tinham acabado de tomar em suas mãos a terra, sentindo-a muito sua. Via-se isso em todo o lado da cidade de Bissau. Na periferia era a pobreza escancarada. A população pouco ou nada escolarizada vivia na lufa-lufa da rabidância, próprios de uma sociedade com fossos sociais bastante pronunciados.

Apesar de essa realidade chocar muito o visitante atento, bons momentos ali passei, convivendo com guineenses e caboverdianos que ali trabalhavam e viviam com as suas famílias.

Tinha sido o Dr. Boal a me assistir e a medicar no Hospital Simão Mendes, recomendado pelo então Secretário-geral do PAIGC - Aristides Pereira, que me tinha concedido audiência uns dias antes no secretariado-geral do partido na praça dos Heróis Nacionais.

Foi uma experiencia agradável e emocionante, sobretudo porque tive a oportunidade de ver muitos dos que se entregaram à causa da luta de libertação das nossas terras.  

Informei-me bastante nos trinta e poucos dias que ali passei. Regressando, algo latente veio dentro de mim, em resultado do contacto directo com a cultura desse país irmão, dança e ritmo, manifestações coroadas com o espectáculo de honra, o Balé Africano, de Okinka Panpa e a dois grandes concertos musicais de uma das mais prestigiadas bandas africanas de então, o Bembeya Jazz Nacional da Guiné Conacri, tudo isso graças à minha condição de membro do PAIGC – Cabo Verde. Foi decisiva a aprendizagem para o estilo de música que desde então passei a compor - o funanbah - que ainda hoje ando a aperfeiçoar.

Alegra-me o dia de hoje e ao mesmo tempo me entristece saber, ver e ouvir o que por lá se passa e acontece nesta terra africana que encheu de glória a luta de libertação dos povos oprimidos.

Entristece, lembrar as fortes mensagens do poeta e músico Carlos Shwartz prenhe de sonhos e ditames que incomodava a elite instalada, caído por terra, mas que um dia há de, certamente, renascer com a força do tan-tan (adormecido).

Kaka Barboza

sábado, 21 de setembro de 2013

Sentires de Um Pastor de Estrelas


              SENTIRES DE UM PASTOR DE ESTRELAS

Tenho por assento a pedra,
por almofada o silêncio,
por música o silvo
e por vereda o tempo que durar os sentires.

Tenho por paixão a viagem conducente à gruta do amor,
uma vez alcançada,
no prado da razão sentinte ininterruptamente se nutre.

Deste assento sondo o tempo interior,
indagando o itinerário da estrela que ontem à tardinha
pastoreava os gestos.

À varanda do tempo debruço-me para me esquecer de mim
e aproximar-me do além de infindos bosques e funduras.

Mesmo nada podendo colher do incerto,
pastor dos teus rastros,
da itinerância do teu perfume,
do teu céu sem limites,
tenazmente continuo.

Mesmo sem poder tocar tua mão,
teu gesto e tua femínea silhueta.
Amo-te com o forte gosto tirado do tanto amar.

Mesmo longe o perto que sonho,
sinto o teu quente olfacto,
o acomodar na cama,
os passos e o café da manhã,
o acender do cigarro,
a roda no asfalto,
o digitar da mensagem,
o desfilar do sol e o suspiro à tarde.

Mesmo nada sentindo,
sinto o apertar e o roer,
o apartar e o doer
do gosto irado de tanto amar.

Mesmo nada desejar,
sinto o silvo do beijo cativo no olhar.
Mesmo nada amar,
sinto-me amar o gostirado de tanto amar.


O Domingo traz sempre o sopro
rolando maduras folhas a um onde qualquer
e por detrás do afumar do dia
é teu os contornos como bagos lácteos.

Agrada-me o silente abraço de mil apertos
e beijos mil de cilíndricos odores.
Agrada-me a loucura de andar o tempo
para a frente e para trás.
Agrada-me a vaidade de amar o perto inatingível do teu peito.
Agrada-me a melífera saudade que me demulce o sentir.
Agrada-me iludir-me adormecendo estrelas em teus níveos seios.
Agrada-me imaginar-te ilha onde tarda o entardecer
e finda a estrada dos meus sentires.
Agrada-me a pétrea almofada do voto “para sempre”.

Praia, 2013-09-20
Kaka Barboza

 


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