quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Bilhete Xatiadu Si 2


Que venham todas as músicas.
Sou unicamente kaboverdês - Prétu na Branku -.

Antes, os escravos fujões, negros sem religião, eram vadios, depois indígenas, badius (sotaque) e os pardos sem religião, também indígenas, igualados a filho de judeus sana-ava-djuds (sotaque), sanpadjudus (crioulização), ambos, denominações emergentes da conjuntura em que negros, pardos e brancos moldavam a Ilha de Santiago subordinada à catequização. Hoje, somos o que somos: stramadu (misturados). Será que ainda existe quem se dá mal com o rosto que tem? Não a mim, dê resposta amigável ao teu grilo… oh verdiano(a). (Redacção instinto meu).

Conferi “Mas Afinal, Quem é Badio?” com os cavalheirescos lances de gente munida de bons sentires. Mas Djoy, é preciso, sim senhor, de vez em quando turbilhonar, esguicho e fumo, também são precisos, jamais no teu ordeiro Djaroz pró-ambiente saudável. Tá-se bem. Não haverá desbunda nem segmentação. É admirável ser-se do interior (di fora). Nos de dentro, há sim, algo parecido com cobiças insensatas. Há, sim senhor, uma “ilhárgada” detrás das aragens de alguns muros de carne. Sabiam que o Arménio nunca arredou o pé do seu velho Platô, quer dizer, nunca pôs o par de olhos (na fora). Há vários que de fora só ouviram e ouvem falar.

Confiramos por favor as perguntas e as respostas:
1. «Artiletra – Kaka Barboza nas tuas conversas costumas gabar de ser mestiço. O que é ser mestiço neste caso?
Resposta – Não sei se me gabo de o ser, mas a acontecer é no sentido de vincar, assumindo esta minha pele seja onde for. Pele esta que protege o salisukrato que tenho no sangue. Nasci assim. Mudar jamais. Olha, homem é aquele que tem espírito dentro dele. O santiaguês diz que homem é aquele que se sente fincado no seu chão e capaz olhar o outro com a cara levantada e com a fronha que tem. E se eu te disser que há gente aqui nesta terra, complexada e envergonha da fronha que tem, valendo nada o canudo que possui e a educação que recebeu. Isto complica-me o juízo. Por um lado há a ignorância e por outro a hipocrisia. Nem queijo nem requeijão. Há gente assim infelizmente. Saibam que no tambor e na cultura sou musturadu, dito no bom crioulo, mas sem que isso queira dizer outra coisa … leviandade por exemplo. N ka branku /N ka pretu / N ka di pa li/ N ka di pa la/ Ami, é mi /Riba-l mundu nha mi … é a voz da minha ribeira a dizer tudo.»

2. «AL – Como havias de fazer um resumo da tua existência em Mindelo, Assomada e Praia?
R – Um dia em conversa com um amigo meu acerca do homem e da cultura verdianos, ele concluiu: «tu és o homem tipo que Cabo Verde devia ou está para ter. És de todas as ilhas». De facto sou um Sanvicentino sem ser mindelense, um Foguense sem ser do Fogo, mas sinto e sou de Santiago. Sou um santiaguês, destrinçadamente, de Santa Catarina. E, já agora, digo isto sempre: não sou nem badiu nem sanpadjudu, tidos como casta ou então como divisa para ser deste ou daquele lado do arquipélago, para significar e ser gente. Não utilizo esses calços para eu existir. Existo. Sou um Fidju-l Tera, pleno. Sou um arquipélago ainda maior que Cabo Verde. Sou o residente e a diáspora».
3. «AL – Tu nasceste em S. Vicente, muito cedo foste para Santiago e depois voltas outra vez a S. Vicente, e começas a escrever poesia e música. Que recordações guardas de S. Vicente quando eras menino?
R – Nenhumas….. O mar que existe em mim é São Vicente, a energia o Fogo e as ribeiras d’azágua Santiago. Sou esse cântico tradicional vasto. …. Um parêntese para dizer que um Cabo Verde outro e melhor existiria se uma parte significativa dos habitantes de cada ilha pudessem conhecer suficientemente os lugares e as gentes das restantes. Éramos mais cultos, mais cabo-verdianos e mais patriotas. Era o particular e o todo numa só pessoa».

SIM, meus amigos, as minhas andanças por este país fora e a percepção decalcada na memória dada pelo que é vivido e declarado naturalmente pelas gentes humildes das ilhas, (que me desminta o BlogdoPaulino), dizem-me, claramente, que há um défice formidável de erudição por parte de muita gente “dita distinta”, que pouco ou nada de peso têm consigo para evocar honras, a não ser as opulências das suas enfermidades e rústicas insolências.

EXISTE, sim, claramente, certos espíritos enfermos que, cultivando as suas goradas aptidões, kutunbenben tolhem e incham-se, não da ilha ou das ilhas em processamento, mas do nocivo. A tolice de regrar os naturais verdianos em badius e sanpadjudos, como se uns fossem intrusos e estranhos à Pátria, outros não, é no mínimo espalhafato, macaquice.
Que fique claro: o "badiuísmu e o sanpadjudísmu kull" não são utensílios e nem criam recursos de valor estratégico para a obtenção de mais valias que valorizam os espaços, as peculiaridades e a mundivivencia de cada uma das ilhas. Novos ditames sim, mas nunca reciclar perdições. Cultivar destrinças caprichosas, herançadas ou inventadas, é insultar o novo, é arvorar-se em patrão do que é comum – o espaço das ilhas – onde não pode haver trancas nem retrancas. Estava à espera de me expor desta forma nítida e descomplexada.
E nada me estorva dizer que: mi ki é mi, bódi bedju rabu paduku, obu rastera, kífri na txon, ka ta pintadu manta ku el, un soku un kéda, un konbersu un kansera-l xintidu, ka ten konta ku manel mangradu ki fari tôru di piskôs largu, karafu-nhafu, ami é riba-l mundu nha mi, djobe, xinti bu djurga. Uííípúú. (a tradução desvirtua o dito) (Kb)

4 comentários:

djoyamado disse...

Oi Kaká,

Olha, antes de mais, os teus posts são sempre um desafio: de forma, pois é preciso desbravar, pois não dás a papinha toda pronta; de conteúdo, visto que há muitos aspectos emparelhados nas linhas. Depois de uma leitura muito atenta, apraz-me tecer comentários sobre três distintos aspectos:

a) a questão da pele – na verdade, este é um “algo mais” em relação ao meu post, e não fui, no teu dizer, feiticeiro suficiente para tirar-te a pena neste particular. Há uma parte que eu acho que diz tudo e com a qual me revejo plenamente: “N ka branku /N ka pretu / N ka di pa li/ N ka di pa la/ Ami, é mi /Riba-l mundu nha mi …”
b) a interculturalidade (ou “kaboverdesidade”) – Há um trecho formidável e que me reporta à ideia de interculturalidade que defendi recentemente num post sobre a multiculturalidade da Cidade da Praia: “(...)um Cabo Verde outro e melhor existiria se uma parte significativa dos habitantes de cada ilha pudessem conhecer suficientemente os lugares e as gentes das restantes. Éramos mais cultos, mais cabo-verdianos e mais patriotas. Era o particular e o todo numa só pessoa».
c) Sampadjudus e Badius – concordo contigo que esta destrinça nem sempre clarividente – por vezes caprichosa, no teu entender - coloca uma barreira ao “projecto” de interculturalidade.

Só para terminar, eu também sou Santiaguense, da Praia, não me sinto nem badio nem sampadjudu e, como disse o Princezito, “Mi na terra .... n-ka tem kor, n-ka tem rasa, n-sta na nha Kaza”.

GRANDE POST!!!!

Um blogabraço.

kabarboza disse...

Obrigado Djoy pela participação e opinião. Espero que venham mais ideias, mesmo desafiadoras, para a gente equilibar a balança. É um assunto que dá para sacudir até cair o ninho txota. Estou com vontade de trocar os sons contigo Djoy.
Vá malta ess assunt é brób, má el ta dá pa nô instruí konpanher. Já agora hiena pode bem trankuile... ka ten unha nen fakada. Ten é son di Virason .. un bilhete apenas pa tud nhas bródablog. N ta li kun fortr blogabraço pa bzot tude. by by. BKL

João Branco disse...

Kaka, este post merece plágio lá no margoso, garantido! Como te endendo, meu caro amigo, como te entendo! Imagina eu, branco de pele, branco de nome, que me sinto, que me quero sentir também de todas as ilhas e gritar bem alto, o meu arquipélago é vasto e maior que o meu Cabo Verde. Bem hajas! Bem li! («vem cá» em crioulo de soncent!!!) Abraço sentido do Norte. JB

kabarboza disse...

Eh! Pá João... presenti o teu sopro daquela varanda. Gosto de correr riscos. Conferiste o que eu disse. Obrigado pela leitura e plagiação. 1Blogabraço aqui da Grand'Ilha. Bkl

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