quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Bilhete para Amanhã


Obs. A caricatura é do poeta-escritor Mel. Lopes

Amanhã comemora-se o Dia da Língua Materna e estarei aqui na primeira língua a divulgar o programa de actividades em que vou tomar parte, a convite da ACRIDES. No entanto, hoje, quis trazer ao conheimento geral estas palavras proferidas em Mindelo por ocasião do - CENTENÁRIO DE SERGIO FRUZONI. Afora as palavras iniciais, eis o que mais interessa.

Ao me curvar diante de sua memória, para, em sinal de reconhecimento, testemunhar o meu apreço pelo valor da sua obra que merece uma superior divulgação, para permitir aos mais novos conhecer o nome, o pensamento e as motivações daquele que no passado movido pelos ideais da liberdade e do progresso contribuiu de forma visível para o flutuar contínuo da bandeira secular da nossa verdianidade, deixo ficar esta voz santiaguêsa, especificamente de um Assomadense, diante da coragem deste peregrino que, seguro de si, assumiu o peso da sua cruz, crente na sê flor de béla sombra erguide e aberte pa luz e na ar fogóde, que, ainda hoje, pendula na linha do tempo.

Foi nos finais dos anos 60 que tive o privilégio de conhecer figuras importantes da sociedade mindelense, sobretudo, João Mariano, Dante Mariano, Manin Strela, Mario Matos, Evandro Matos, Nena d’ Farmácia, Nho Batista, Xikin L. Silva, Nho Balta, Nho Roke, Rendall Leite, Xiku Serra, Manel d’Novas, Frank Kavakin, Luis Morais, Morgadin, Txuff, Kardozin d’Kánbra, Sezária, Malakias, Karaka, Djak Monteiro etc. e o popular distinto Sérgio Fruzoni. Inicialmente, duas figuras cunharam e prenderam a minha amizade, João Mariano, poeta pouco referido entre nós, (omisso por excesso de zelo?) e Nho Baptista, a mão de ouro das sete afinações e grande instrumentista mindelense.

De seguida, interessei-me logo por aquele homem branco, crioulo, que tinha ares de contramestre a vigiar os avisos do tempo, o sopro do nordeste e das as marés que vazavam no convés de Mindelo, homem sedento do aconchego das suas gentes, cujas inquietudes, ele, a seu jeito, melhor do que ninguém, soube traduzir na sua poética pacifista, emprestando à sua escrita um estilo e um sentido de humor únicos, militando de modo simples, observando e arrumando os actos, os factos e os eventos, pincelando-os com naturalidade e acutilância, coisa que só um bom caçante de marés conseguia dar cor e estilo poéticos.

O ser um homem culto conferiu-lhe o respeito generalizado, em cuja revelia morava um ser “pupular distintu”, aliás, Mesquitela Lima no seu introdutório ao livro - A Poética de Sérgio Fruzoni – disse claramente: «Pode considerar-se Fruzoni um membro da 2ª classe, embora se desse com elementos da 1ª. Até eu próprio sair de Cabo Verde, em 1951, nunca vi o poeta numa festa ou reunião social da classe mais elevada». Este poema é elucidativo. Cito:
Quand um palavra sô tâ dzê tude côsa
Um dia Nh’Agusta Infermera desembarca ta bem de Lisboa,
luva, cartera, cabel caracolóde, cara pintóde, ta pscá confundi parcénça.
Um mdjer q’tava ta passá, pará ta spial, cabá el sucdí cabeça el dzê:
Nh’Agusta, nh’armom, PACIENÇA!…
«Paciénça» uma palavra para dizer «tude côsa» e que revela a grandeza e a dimensão espiritual do homem perspicaz que foi Sérgio. Todavia, resta-nos perguntar: Ao tempo, em quê cria Fruzoni com as suas produções literárias na língua da terra? Que tipo de nacionalismo estaria detrás dos rodeios dos seus versos? Que intenções asilavam as farpas que lançava em direcção a sociedade mindelense de então e à vaga de poetas e escritores claridosos ou não, que com ele pouco conviviam?

Tudo me diz que, se por um lado, Fruzoni vivia enterrado na sua Ilha natal e nos sentires dos que submetidos à dor do dar da vida e à sonolência do espernear cansado da esperança e ainda dos que se quedavam resignados na miragem da melhorança que tardava chegar, por outro lado, vivia intensamente a escrita na língua que muito amou e cultivou até o fim – o caboverdiano - variante mindelense, raramente praticado por outrem.

Pois, o celebrado poeta da voz solidária, Sérgio Fruzoni, mais não fez senão cumprir a «sina dos profetas», idos e vivos cujos nomes e feitos incorporam esta nossa teimosa viagem, porque, afinal, enquanto timoneiro fervoroso, ele, de pé, ainda existe no convés deste «naviu di pedra ta busca rumu sen pode atxa-l na si lugar», mas, em busca constante.
A estas rústicas palavras arrancadas à pressa das unhas encravadas deste observador do tempo, aditaria, para terminar, dizendo, que: Ségio Fruzoni é uma proa de luz crioula atracada ao cais flutuante da palavra no marco das ilhas.

Muito obrigado por esta bela oportunidade e pelo favor da vossa atenção.
Assomada-Cidade, 25 AGO 01
- Kaká Barbosa-

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