sábado, 18 de julho de 2015

RAPIZIUS


Das pedras mansas alicerçadas nas ribeiras do meu sangue é que naturalmente parto para olhar o Mundo, sondá-lo, julgá-lo e ainda para agir e abraçar a luta universal dos homens de bem, ciente de que a justa causa por eles defendida encerra em si um mundo menos carrasco e mais humano. Tenho como centro do meu mundo e sede do meu sentir, o território de uma região agrícola fundada na esteira de ricas tradições, de grandes fomes, de revoltas, de feiras, de festas populares e de celebração da azágua, enfim uma terra fecunda, de gente grandiosa e dona de uma identidade cultural muito forte.

Foi efectivamente com a idade de vinte e um anos que saí de Assomada para Mindelo, em cumprimento do serviço militar obrigatório, para assim conhecer a ilha e a cidade que honrou o meu nascimento, uma bonita urbe cheia de história e de gente ilustre, terra de memória que mantém viva a casinha onde eu nasci, numa ruazinha escorrendo em direcção ao poente, aonde o sedutor rosto de pedra vindo da madre dos vulcões, efígie de poetas, músicos, escritores e artistas, olha infatigável o céu e escuta os rumores das marés e novas na boca dos ventos.

Tendo findo o serviço militar obrigatório, fixei-me em Mindelo. Nesta altura preocupava-me mais com o meu primeiro emprego e formação profissional, contentando-me com música e anotações avulsas no caderno de notas, escrevendo rabiscos de juventude, delineados em caboverdês e em português. Carta di Nha Fidju Djuzé Lopi (texto), Nha Funku (poema), Prizão (morna), Somada (funaná), são os desenvolvimentos que marcaram a minha iniciação na arte de escrever e de compor música. Mindelo foi realmente o lugar onde comecei a sentir a necessidade de exteriorizar o que sentia. O facto de ter deixado para trás a minha ribeira - Santa Catarina - algo suficiente e invulgar devia poder saldar o défice que punha em desequilíbrio o fiel da balança da minha vida interior. Qual saudade movente no espírito, qual vontade de regressar ao ponto de origem. Acudir o apelo da razão sentinte e as inquietudes emergentes da realidade vivida, é o que instava a me reencontrar comigo mesmo. Mas a minha estada de cerca dois anos na emigração, incitado pela lonjura e o desaconchego da terra-mãe, doendo silencioso na carne da minha mágoa juvenil, foi que decisivamente contribuiu para despertar do cavalo da palavra em mim oculto. Foi nesta agitação que nasceu o Vinti Xintidu Letradu na Kriolu, o meu primeiro caderno de poemas escrito em caboverdês, a bordo do cargueiro Luise Bornhopffen, cruzando os mares do mundo.

É na língua materna que seguramente aprendi a escrever o que escrevo, e é baseado nela que sei exprimir as emoções mais fortes, vincular as minhas convicções e colocar as pedras nas torres que construo, tanto na música como na poesia, sendo puramente em cabvoverdiano que se afina e se afirma o fio tecedor das mensagens, mesmo quando me transporto para a escrita em português. Ao escrever na língua nativa, faço-o convicto de que é baseado nos seus recursos, nomeadamente, na sua autonomia, na sua força expressiva e na riqueza da sua larga matriz, que encontro a força e a imaginação suficientes para tornar os fortes intentos em poemas e em música. Que dirão, se porventura perguntar:

- para quê então escrever, se a minha voz não for capaz de transformar em canto a voz silenciosa das pedras mansas da minha ribeira?

- para quê escrever uma palavra sequer senão para deixar na epiderme mole duma folha em branco o entendimento do que é que eu quero dizer quando afirmo que: “puezia é razon pornunxadu y xintidu ta kotuma”, poesia é a razão provocada e o sentir apelado;

- para quê compor numa tonalidade alheia, se as palavras não palpitam e não galgam as afinações com a mesma virtuosidade, sabendo que, baseado no Son di Terra, sinto-as explodir e apagarem-se na boca do Peregrino, meu violão, arrastando para dentro a inquietude dos versos varridos pela tempestade das minhas emoções?

- enfim para quê escrever, se a palavra não recupera o seu poder de intimar e de fazer sentir a ressonância da razão e dos intentos que vertem do meu coração verdiano?

 Um dia, num dos terríveis cercos que a vida me impôs, tranquilo desenlacei-me e deduzi, sem o auxílio de ninguém, que não era e nem foi preciso inspirar-me na coragem alheia para me valer da minha. Radicado no meu taganxu é que me livrei do vulgar, para fazer, para cantar e escrever o que escrevo. Aprendi, com o silêncio das pedras mansas da minha ribeira, que nem toda a água vai parar ao mar e que não é todos os dias que as palavras são claras e afagadoras da vida, e que nem sempre ela nos limpa o tino ou nos destapa os olhos, mesmo dita na sua forma mais bela e crua, porque nem sempre ela é via certa para atingirmos o lado preferido. Diante de uma palavrinha, às vezes, não passamos de uma pitada de cinza numa tulha de grãos. Impotentes, sentimos desmoronar os motivos e os sentidos.

Pois, com as pedras mansas da minha ribeira, aprendi a dizer que: cortar no cotôco não dá toco, nem pau, nem varapau. Ou então: a questão reside no saber explorar o meão do sal e do açúcar para se achar o ainda não achado. Eis a leira dos fios com que teço a esteira onde durmo os claros da minh’alma.

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