segunda-feira, 20 de julho de 2015

RAPIZIUS



           
Nhô Xalino foi quem descobriu que finado é que tinha entrado no corpo de Minézio, depois de este ter perdido quase metade do seu peso. Estava muito debatido o seu estado de saúde. Todos conheciam o destino que a doença fraca dava às pessoas que a contraíssem. Depois de avaliar o paciente e ter consultado o seu livrona afirmou sem rodeios para a mulher do doente: - É icterícia. Tudo indica que é isso mesmo. É uma doença que castiga o corpo e o seu tratamento leva tempo. Palha-chá de Racha-Pedra fervida em água limpa amparada no olho d’água ao amanhecer é o primeiro remédio. Ele precisa de tomar também hóstia de limpeza sangue. Pílula de babosa. Olha, no estado em que o corpo está não sei se ele aguenta. O sangue parece estar muito fraco e se tomar qualquer coisa forte de mais, pode ir duma vez. Do meu lado, farei tudo o que souber e se ele se aguentar ficará bom. Enfim, deixemos tudo ficar nas mãos e na vontade de Deus: - disse Nhô Xalino, com ponderação. - Então o meu marido não vai achar as melhoras? Homem! Vê lá o que é que pode fazer por ele. Tira-o desta situação. Pago o que o Senhor me pedir. Procura direito lá no seu livrona de palha-santo se não há nenhum ofício para ele. De esmola, Nhô Xalino, não deixa morrer este homem que toda gente sabe que tinha forças fincadas na canela e que virava dois bois duma pancada para cair neste jeito, que nem dá para se segurar no penico: confessou a mulher da vítima. - Mulher, ele demorou muito tempo para cá chegar. Vocês levaram-no primeiro para a farmácia e o remédio que lhe deram descontrolou um bocado a sua saúde. Mostraram-no àquele doutor indiano? - Sim, levamos: - disse a mulher. - Dizem que ele é bom curador de gente. Mas há doença da terra que não está no livro deles. Só gente que tem olho sem bexiga é que vê a manifestação desta doença. A palma da mão, a língua e a ourela dos olhos é que conta numa pessoa molestada. Doutor tem seu lugar mas é preciso conhecer a terra e suas moléstias. Olha bem, é palha de chá de curativo que está aqui embrulhado. Faz assim: na parte de cedo, ao meio dia e à tardinha dá-lhe o chá; água de nascente, dá-lhe muita água e caldo de miudeza de frango. Usa manteiga da terra ou azeite vindo em colherzinha de alumínio. Apura bem o caldo e dá-lhe de quatro em quatro horas. Leve-leve. Nada de coisa pesada. Prepara-lhe também banho de rebentos novos de marmulano colhidos antes do amanhecer. Tenta tudo isso e esperamos pela reacção dele. Se acontecer algo, manda-me recado. Estou sempre aqui em casa. Tinha assim acabado a consulta ao homem doente de icterícia. Os acompanhantes colocaram aos ombros a jangada de lona com o doente e tomaram a direcção de Pinha de Ngenho. (...)

Sem comentários:

POEMAS MARGINAIS

                                                DEIXEM O PATIO FESTEJAR E DANÇAR Festeja e dança o meu pátio Até embebedar a mã...