quinta-feira, 27 de março de 2008

Retalhos de um Conto


(Da Colecção - Kontos de Kastelu Kondi - O Meu Amor pela Joia - em preparação)
........ O caso da menina resolve-se de outra forma: - disse-me categoricamente a dona da mercearia. A hora do jantar interrompeu-nos a conversa que vinha se tornando meio chata.
Não aguentei mais sentado ao lado dela. Pedi licença, e refugiei-me no meu quarto. Aquela noite parecia ter ficado inchada com o esmiuçar do assunto, mas não conseguia tirar da minha cabeça o gozo e o encanto do encontro tido com a menina dos meus sonhos. Sondava, porém, no silêncio, o vozear da minha mãe lá dentro, sendo que o meu regozijo roubava uma parte da sua impetuosidade e significação do que ouvia.
Sentia-me grato ao silêncio da noite que me trazia a voz oculta do amor, recitando dentro de mim frases inéditas, frases de abater o coração de qualquer mulher: «Jóia, Minha querida, deusa do meu profundo coração. Ao pegar desta singela pena para depositar nas folhas em branco deste aromático papel, a primeira coisa que senti foi a voz verdadeira do meu coração, anunciando em palavras doces e carinhosas o som do teu nome Jóia, este lindo nome teu, qual pedra brilhante nas mãos de uma princesa bem-aventurada, qual paraíso montado no céu, qual jóia nas mãos de reis absolutos ou de ousados corsários e piratas. Jóia, nome de ninfa no sonho de um pescador de certezas, de quem na verdade respira o real fogo do amor, de quem ama e se castiga amando, de quem tem forças para amar, sendo, que sou homem são e de muito afecto, para te amar só a ti, porque descobri que o meu fundamento está em poder amar-te desta maneira, eu sem ti e tu sem mim o mundo é paradeiro de ninguém. Jóia sonho um novo sonho para ti e para mim, um sonho de um mundo cheio de nós e dos nossos cheiros. Jóia, amor e alma da minha alma, creia-me com sinceridade, escuta este cordeiro louco que busca em ti a razão de continuar a existir. Teu eterno apaixonado. Luciano Vaz. Até sempre.
Da porta de batentes, entreaberta, vinham na fresquidão cânticos de cigarras e o estrilar de grilos, autênticos bálsamos que não se atrasaram em despachar para a sonolência os meus cinco sentidos.»

No dia seguinte, mesmo antes do café da manhã, de papel e lapiseira na mão, tentava, tentava, mas não conseguia me lembrar da metade do que na noite anterior planejei escrever. Tempo em que rabiscava o papel à minha frente, senti alguém bater á porta. Quis saber. Uma moça entregou-me um envelope, afstando-se de seguida, correndo que nem um pardal em fuga.
Abri, estendi o papel. Eram cinco linhas em tinta azul: «Amigo Luciano. Eis a resposta solicitada. Semear em pó é ventura. Certo, é no molhado. Nada mais. Jóia».
Sentei-me na borda da cama, lendo vezes seguidas o que tinha vindo das mãos de quem eu amava perdidamente. Sem querer relacionava o seu conteúdo com o que me tinha sido dito pela “botadera de sorte” naquele dia.

Pôxa! Nunca a minha cabeça viu-se tão despida de miolo. Parecia rolar: ladeira-riba, ladeira-baixo, enovelado em um passado que insistia em estar sempre presente. Não perdi a cabeça, mas dentro parecia não ter limites. Olhei para fora, e saí. Do pessegueiro, em parafuso, folhas caducas caíam uma atrás da outra como quem desmantelava a razão de viver. Entrei. Sentei-me na borda da cama. Da carteira tirei o papelinho já com sinais de desgaste. Enquanto o lia, relacionava o conteúdo com o que tinha sido dito pela “botadera de sorte” no dia em que nos topamos.
Pôxa! Nunca a minha cabeça viu-se tão despida de miolo, rolando ladeira-riba, ladeira-baixo… só por causa do meu amor pela Jóia. Terá salvação o meu amor por ela?

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