domingo, 2 de março de 2008

Retalhos de um Conto



A empregada disse: - serviço e fez o gesto de colocá-lo à minha frente. O senhor esperou bastante, perguntou-me. Não dei pelo tempo... estava muito distraído, respondi com um sorriso e aconteceu como se eu tivesse entrado de novo na sala. Pedi uma terceira cerveja. A sala já não tinha tanta gente.

Peguei na ferramenta e inclinei-me com muito prazer sobre o prato bem composto, coisa, que a Dona Inês sabia fazer muito bem, sem me lembrar da língua de nenhum lambedor no lixo. Não sei como foi que descobri, que sobre a tampa da mesa, no lado oposto, uma mosca estava ali a gatinhar. Não liguei. Mas enquanto comia, olhava para o sítio onde estava. A verdade é que desenrolava-se ali uma luta mesmo a sério. Era uma formiga a pôr em dificuldades uma mosca daquelas. Um caso curioso. Decidi, então, acompanhar o evoluir da situação. Uma mosca presa por uma formiga estava ali aflita sem poder se safar das garras do seu agressor.

Aproximei-me mais do terreiro da luta e apercebi-me das cambalhotas que ambas vinham dando. Rebolavam que nem uma lata de sevenup vazia deixada ao vento. Os chifres da formiga tinham entrado no corpo da mosca pondo-a em apuros. Caramba, como é possível, as asas não servirem para ela levantar o voo e deixar cair a formiga num abismo qualquer, interroguei-me?

Mas não! Aconteceu o contrário. O bicho de asas estava bem bloqueado. O lado direito não mexia derivado a golpes e alçapremas dados pela formiga. A mosca parecia ser macho e a formiga um soldado fêmea. Para mim, almofadado era o terreno da luta, mas para elas, não sei. O certo é que as violentas quedas magoavam muito o insecto de poiso no lixo. De tanto segui-las de perto, aos meus ouvidos pareciam chegar os gemidos e os gritos de afronta do mais prejudicado.

De repente, veio uma outra, possivelmente, atraída pelo barulho da confusão, poisar, mesmo em cima delas e, esta nem teve tempo de se aguentar na canela. Enquanto que a outra tremia de asas coladas ao chão, a visitante teve o mesmo destino. A formiga aplicou-lhe o que sabia. Desta vez, sim, assisti mesmo, como é que a coisa começou. Queda de cachorro, os golpes zero-zero-sete, bolós de cabra Kossera, enfim, a luta virou no quem tem poder a mais. Sem remédio, ela acabou por ficar à mercê do soldado fêmea. Ficaram as duas capotadas no chão da toalha.

A comida tinha virado tão fria e a cerveja tão quente que perdi o prazer de continuar. Fiz o sinal para outra cerveja. Não gostou da comida? Vi que deixava ficar o prato e punha-se a olhar, a olhar longamente para o lugar vazio, comentou a servente, como quem queria obter uma boa explicação. Nada de especial moça. Eu estava a pensar numa coisa, disse-lhe, com simpatia. Mas, não me diga que essa coisa estava mesmo em cima da mesa, ela voltou à carga. Não! Não... eu estava com os olhos postos ali, a pensar, mas, pronto, já achei a resposta certa. Bom o senhor é quem sabe. Então posso levantar a mesa? Com muito prazer respondi. Ela levou as coisas.

Enquanto falávamos tudo tinha desaparecido. Revistei a mesa, o tapete, nada. Não quis acreditar que bateram as asas. Foram levadas para algum lado? Como? Pensei logo. De novo, revistei, rapidamente, o chão, e vi. Dois pontos negros seguiam em direcção à uma fissura no chão, onde se levantava a parede de largas janelas envidraçadas que davam a qualquer um o imenso prazer de ver um lindo panorama do porto da Praia.

Mais do que o prazer da petiscada ou o de ter ficado longe da poeira, foi o de eu ter tido o prazer de assistir a uma cena inédita em pleno Março. O vento, este sim, tinha era o prazer de nada deixar ficar limpo nessa noite.

(Do caderno Kontos di Kastelu Kondi - KB)

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