segunda-feira, 10 de março de 2008

EmOtras Palavra

Entre outras precisões básicas na vida de uma criatura, existe a necessidade da autorealização onde a pessoa ou as pessoas lutam por conseguir objectivos, desenvolver seus potenciais e alcançar seus ideais. Sabendo nós que a motivação é um estado íntimo que pode ser fruto de uma urgência que, em geral, se dirige a satisfação de um desafio ou de um aperto, pelo que hão de consentir se disser que a linguagem intimista duma obra de arte é uma necessidade da alma de quem a origina.

Para quem conhece bem a autora das obras recentemente exibidas no Salão de Arte do Palácio da Cultura – Ildo Lobo – não receará em afirmar que presenciámos a necessidade de um desabafo com raízes num desafio típico de quem tinha algo mais para mostrar e ser transmitido, sendo tal amostragem a aposta de uma jovem talento que deseja ir mais além. Todavia, fomos chamados a conviver com as cores das diferentes leituras que a artista tem de si própria e do mundo à sua volta, a avaliar o que valem e significam os seus momentos de retiro na gaveta onde jaz e se renova, tal qual o sol que se põe, para sempre outro aparecer a arejar os nossos sentires, aliás, a arte de cultivar a arte exige luz e afastamento, impõe movimento, ritmo e roturas sensatas, mesmo quando a mão do artista parece ser repetitiva. Mas, o que importa é o artista saber olhar bem para dentro e para fora de si, voar e criar com entusiasmo os lados da sua própria gaveta.

Nela Barbosa é uma jovem do interior desta ilha (Santiago), nascida na Vila de Pedra Badejo, no sítio de Salina e, a casa onde nasceu tem, ao pé, a Praia Grande, um areal negro a contrastar a mancha acastanhada do lodo da lagoa deixada pelas cheias, o vegetal seco e o verde florido da sementeira e ainda as cores volúveis do mar a espumar nas penedias, sendo, estas, para mim, as bases do universo primário desta artista plástica santiaguense.

Os quadros mais expressivos deixam-nos a sensação de que existe uma certa onda inquietante a oscilar a mão silenciosa do pincel que, entre a timidez e a liberdade de criar, procura investir na sua própria passagem para outras margens, deixando em cada retoque os contornos do estado do mundo movente da sua razão sentinte.

Apreciar os arranjos por ela conseguidos é ler e decifrar o que se esconde por detrás da combinação das diversas tonalidades colhidas, por exemplo, na fruta madura, no claro da espuma, no verde seco, no castanho da terra, no azul do mar e noutros tons ditados pelo olho do improviso, cores que tentam impor ordem a um certo desalinho emergente das inquietudes da artista, operando em silêncio, conjugando a paisagem interior com a arrogância da realidade ambiental vivida pela artista, denunciando evidencias num elevado grau de perspicácia e autenticidade.

Nela Barbosa, enquanto artista, tende a ser o produto da conjugação entre a paisagem campesina fortemente em si retida e o cenário urbano actualmente captado, processo em caldeação na sua alma de artista, que na devida ocasião dará lugar ao aparecimento das bases sólidas em que se assentam os conceitos, a atitude, a conduta e a feição, factores consolidativos de um estilo que já se prima pela obtenção de uma identidade própria.

Se as obras de Nela Barbosa, algumas, têm a ver com algo doméstico mais ou menos atraente, quer dizer retalhos claros ou disfarçados do mundo que a rodeia, quadros de fácil leitura, outras, opostamente, espelham o condizente com o estado interior da artista nos seus lances de profundo retiro, já que o disforme costuma reflectir com muito mais rigor os instantes de maior elevação da mão criadora. Todos os quadros têm vida e significação próprias, têm estética e boa qualidade, além disso, revelam um certo sentido de busca da identificação plena da artista com a sua própria criação, evidenciando um certo desassossego de quem procura realizar a chamada obra-prima, sonho que, a servir de alavanca incitadora na obtenção de mais arte, levá-la-á de certeza a graus mais elevados de execução.
Nela... A braveza luz. A bulha é o covil secreto dos burlões.
(texto dedicado à Nela Barbosa no dia em que, pela primeira vez, expôs as suas telas)

2 comentários:

Alex disse...

Como é que se pode contactar a jovem pintora, e aonde é que se podem ver mais trabalhos. Fiquei curioso.
Ab
ZCunha

Anónimo disse...

Oi Alex. Aqui na Praia. Ela já fez várias exposições. Palacio da C.I.Lobo, C.Cult.Francês. Vendeu e provavelmente ela vem preparando outros. Kel Abç.Kb

Textos Exilados

POEMAS DA COLETÂNEA - TERRA DILECTA  - CAMINHOS CANTANTES -  NÃO PUBLICADOS 1 Julho de remotos Julhos. Cíclicos Julho...