quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Celebrar a Terra


PAU DE FINADO
 
Decorridos três anos e nove meses, sobre a data da morte do marido, Luzia resolveu pôr de lado aquela compostura rígida imposta pelos costumes da terra. A vizinhança não recebeu de bom agrado a deposição do luto. Por outro lado, como não era ainda mãe de filho, acabaram por ir-se acostumando à sua decisão. Pouco tempo depois, a mulher começou a sentir perturbações. Noites sem dormir, nervos, ouvido mouco e coisas a escapulir-lhe das mãos. Sentia uma voz a chamar por ela sempre que ia ao olho d’água buscar água. Tudo isso vinha confundindo-lhe a cabeça, complicando-lhe cada vez mais a vida. Decidiu ir visitar os padrinhos em Chão de Carriço. Fizera o percurso com sentido atormentado. De tanto pensar na sua situação, a coisa tomou-lhe a cabeça e desmaiou ao pé duma ribanceira. Ela estava molhada de cabeça aos pés quando a pegaram para traze-la de volta. Os vizinhos aguardavam ansiosamente a chegada do curandeiro e vê-lo trabalhar. Coloquem-na de comprido na cama e deixem-me só com ela: - disse o recém-chegado. Ele começou com aqueles dizeres que pareciam rezas, gesticulando enquanto a mulher tremia, revirando os olhos na cabeça, nem cauda de lagartixa decepada. De súbito, a mulher soltou um valente grito. Levantou-se e pôs-se em fuga como rato perseguido e só parou no fundo da ribeira. Sentada numa pedra arranjava os seios e apalpava o baixo-ventre. O homem tinha recomendado calma aos que ameaçaram segui-la. Pediu que aguardassem pelo regresso dela, confiando que tudo estava bem com ela e que voltaria bem-disposta à casa. A partir dali a jovem viúva passou à vida normal longe do pau de finado que se cria ter entrado nela. ...
(Excerto da coletânea de contos Descantes de Nha Ribeira) KB

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