segunda-feira, 30 de maio de 2016

Verão & o Mar que Mata



 Todos os anos vêm com a história do Verão - Verron. As empresas fabricantes de bebidas e as das telecomunicações, chegado o tempo quente ou d’as-águas abrem a corneta da propaganda a anunciar Badja ku Sol e Festivais de Musicas de promoção dos seus produtos. É também, tempo de passeios à beira mar, a movimentar o transporte de muita gente comboiada de fogareiros, carvão, lenha, panelas, cães, tabuleiros de vendas diversas, incluindo grogue de todos os calibres, charros e pedras, geradores eléctricos e aparelhagem, tudo para ajudar a beira-mar a ficar mais fenomenal, não faltando bebedeira, gritos, berros, tumultos, furtos, zaragata e morte por afogamento.
Aqui em Santiago é assim. Os populares não têm as praias de mar como lugar de contacto sadio com a natureza, de sossego de espirito, a par do banho solar e da inalação do iodo, bom para a saúde. Não, preferem a batucada. Transformam-nas em estâncias de tumultuo, em palco de arrasar a paciência das pessoas, inclusive, a paciência do mar que, nesta época do ano fica revolto, sedento de matar os desafiadores das correntes marinhas alinhadas para o sudoeste ou o sul do arquipélago, cuja localização sujeita-o a dois períodos do ano, o das brisas ou da seca e o quente ou das as-águas – chuvas, segundo o estudado livro de geografia.
O primeiro é alimentado pelo clima desértico do continente ao lado, valendo de Março a Junho e o segundo é alimentado pelas monções do sul, mais propriamente do golfo da Guiné, com começo em meados de Julho estendendo-se a Setembro e Outubro. É nesta época húmida e quente que a propaganda comercial, com conivência das autoridades e dos mídia, insistem em chamar Verão, chavão que alicia as pessoas a frequentarem as praias, ignorando a condição do mar, as correntes e a deslocação da areia nas praias que o povo apelida "mar a pedir chuva".
 Todos os anos morre gente no mar, adolescentes e jovens por ignorarem as informações correctas sobre o seu estado. Todos os anos temos tragédia. Todos os anos o Verão leva gente para o céu e deixa famílias desesperadas na terra. Todos os anos o resultado da propaganda do Verão inexistente é morte e afogamento nas praias de banho das ilhas. É, assim, o Verão da Morte. Foram quatro jovens mortos por afogamento e dois desaparecidos em São Nicolau. Quatro adolescentes, duas meninas e dois rapazes, com idades compreendidas entre 14 e 17 anos que perderam a vida no mar da Prainha, Ribeira Brava, na ilha de São Nicolau. Dois deles desaparecidos e outros dois resgatados com vida em situação de forte ondulação.
 Todos os anos é a mesmíssima coisa. Todos os anos é o Verão que Mata no mar - mar que mata para dar chuva abundante ao povo. Todos os anos é o mar traiçoeiro, imprevisível, a trazer tristeza, todavia inspirador e amigo, que a trova canta com amargor a triste sina do ilhéu – mar é morada di sodadi.
 Mas o mar está sempre ali pronto para servir e pronto para matar. Prainha e Quebra Canela, garotos que mal sabem nadar e outros sem forças para vencer a corrente são socorridos ou morrem por afogamento diante dos banhistas, também impotentes. O fenómeno repete-se todos os anos. É o mar de azágua que tem de matar para trazer chuvas abundantes, diz a voz do povo. É o mar do Verão a iludir uns e a convir outros. Enfim é o valer da descontra, isto é, da indiferença.
O mar da Prainha, Quebra Canela e de São Francisco, este último, principalmente, todos os anos cumprem a sina de levar gente para a morte. A questão não é ausência de nadadores salva vidas. O principal é não confiar no mar nestas alturas. Neptuno, Deus do mar, não salva quem não se lembra dele quando tem os pés na areia. A sua missão é levar para o Olimpo os desafiadores desleixados. O mar não ama. Mar mata. Em lugar de se propagandear festas e batucadas veronais nas praias, informar com verdade as pessoas de que correm perigo nas praias de mar revolto fazia mais sentido.
A europeização em curso no arquipélago, a alienação cultural irreversível são facto inegáveis, sendo, para todos os efeitos algo que a governação das ilhas não está preocupada, já que passa por cima da afirmação cultural africana do arquipélago. Conivências e ambiguidade é o que abunda.


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