sexta-feira, 27 de maio de 2016

Encontro com uma Investigadora

                    
                

1)    Como surgiu o teu interesse pela poesia e pela música?
Eu encontrei instrumentos musicais em casa. Acho que vim duma família de músicos e tocadores. O meu avô e o meu pai tocavam e tenho vários tios músicos, de salientar Nho Djonzinho Alves, (pai de Kim Alves), primo do meu pai. Havendo tais condições a atracção e a aprendizagem é fatal. Assim nasceu o meu interesse pela música. Muito mais tarde, com a idade de vinte e dois anos comecei a compor letras para as minhas composições e dai a iniciação poética. Com muita leitura, treino e aprendizagem acabei por chegar onde estou neste momento.

2)   De onde surge a inspiração para escrever poesias e para musicá-las?
Não acredito e nem alinho nessa da inspiração, a rebuscada à beira mar, nas pontas, nos lugares especiais. Estes sítios são agradáveis e convida-nos, por vezes, à meditação e á tomada de notas ou de ideias que vão surgindo, sobretudo quem observa e regista os factos ou então quem lê muito a experiencia dos outros. São necessárias as informações que captamos.
Há períodos que sinto necessidade de escrever para responder a solicitações internas que são uma espécie de necessidade pessoal de preencher lacunas e equilibrar as emoções.
Tanto na música e na poesia acontece o mesmo. Há temas que pela sua importância e acutilância sugerem desenvolvimento de ideias. No caso da música há improvisações seguido de um tempo de construção de frases melódicas mais propriamente dito.

3)   Porque é que compões apenas em crioulo na sua forma mais genuína? Porque é que usas muitas expressões típicas do interior de Santiago?
Escrever em caboverdiano, quer dizer em crioulo, não é imitar o português. A língua que falamos não é tradução do português e nem podia ser, mas em certos casos há estes indícios ou seja as pessoas mais instruídas fazem salada. A nossa língua, a língua materna é ela mesma. Há uma matriz que se enriquece á custa de línguas mais avançadas, mas o vernáculo que este povo criou traz expressões que significam e representam bem aquilo que ele sente, pensa e interpreta a vida e o mundo que o rodeia. Reparando bem, é no interior, (no campo) que reside o pátrio da língua materna. A minha escrita representa a vida que levei na minha infância, diante da qual não posso fugir e nem inventar outra. Aprendi a usar bem a nossa língua, a observá-la e estudar as suas variantes, como se fala em todas as ilhas do arquipélago. Sem este conhecimento é impossível realizar uma escrita avançada da nossa língua sem inventar acrescentos ridículos e plágios do português, coisa que acontece nos centros urbanos desenvolvidos.

4)   Consideras-te um compositor de intervenção?
Pode ser. Desenvolvo temas diversos, temas que têm a ver com as relações sociais e com a vida que levamos. Produzimos muita coisa e importamos muito mais. Há muita coisa que impende sobre nós enquanto sociedade, enquanto colectividade, querendo ou não. É na tentativa de pretender destrinçar temas que servem para cada coisa ou para cada momento que os conteúdos ditam o que é tido por música ou poema de intervenção. Não sou alheio aos problemas da terra e ao estádio do seu desenvolvimento e os que afectam o mundo.

5)   Para ti o que seriam músicas de intervenção?
Há várias designações para isso: música de intervenção, música contestatária ou reivindicativa. Mas uma música traz consigo uma dada mensagem, isto é aquilo que o autor produz para traduzir o seu estado de alma ou de espirito. Suponho que ninguém se incumbe de produzir música contestatária para se tornar músico de intervenção. Para mim, arte é elaborar sobre o que somos e sentimos e ela acontece de forma intuitiva, tão necessária quanto os gestos e as ideias que produzimos num dia de vida. Depois há os acabamentos necessários e a destinação de seja qual for a forma artística.

6)   No período anterior à luta armada as músicas de intervenção tiveram algum papel importante?
Claro. Foram composições saídas da consciência popular e que evidenciaram o estado de coisas e a situação com que o povo se confrontava nos diferentes momentos. Estas composições retractam o sonho de um futuro melhor para si e para a sua terra. Os movimentos independentistas identificaram-nas e beberam nelas o suficiente para enformarem o essencial dos ideias da luta libertadora em prol das classes oprimidas e marginalizadas na nossa terra. Em todos os momentos as músicas de intervenção têm um papel a desempenhar.

7)   De onde veio a inspiração para compor a música “Dimokransa”? E o que quer transmitir com esse termo?
Dimokransa é um jeito crioulo de se estar na política, isto é, na política participada. Essa coisa chamada democracia. É esta coisa que se vê e se vive todos os dias, há uns anos, consubstanciada em factos proporcionados pela conjuntura política surgida nos anos noventa, em que o advento do fenómeno total liberdade de expressão aparece como salvação nacional, como receita de debelação dos males e das angústias do povo, em que uns aparecem como donos da verdade e outros apenas como observadores. O tema por si só explica tudo.

8)   Na actualidade há quem classifique o hip-hop como o novo género musical que mais se usa para fazer músicas de intervenção. Na sua perspectiva porque é que tal se verifica?
Sabe, eu não ligo o hip-hop. Não tenho tempo para o avaliar em todas suas dimensões. Não faço isso porque não é caso do meu interesse. Por isso passo ao largo. Mas género musical caboverdiano não é de certeza. Sabe, hoje em dia, vivemos num mundo em que se dá enfase ao consumo de muita coisa, até de bugigangas. Entra na loja China, e veja. Veja o entretenimento que se faz nas televisões do mundo. Há muita palhaçada. Há de tudo e para todos. Eu prefiro matéria que satisfaça o meu espírito. 
A transparência anda a matar a verdade das coisas e a própria vida. As ruas, os gangues, as rivalidades, a auto marginalização, auto desgraça, passaram a ser temas interessantes de divulgação e até de estudo, porque eles existem  e foram desenvolvidos, sendo, porém, setas disparadas em todos os sentidos, contra raças, contra posses, contra autoridades, contra hábitos e costumes, contra a civilidade, contra tudo que não seja do agrado da chamada cultura de rua ou urbana, provocadores de actos improvisados e sem continuidade. Numa palavra: estilo de vida de grupos com interesses antagónicos que poderá trazer alguma carga reivindicativa, mais no sentido de sobrevivência do ego do que, propriamente dito, luta cívica colectivizada. De denúncias o mundo esta farto.
Fui maltratado por vários Hipopistas por expressar a minha opinião em relação a o que são conteúdos dos temas e a imitação ridícula do americano. Mas não me importo com isso. Todo o mundo tem o direito de inventar o bla bla que entender. Hoje em dia é artista e músico de fama quem aparece nos palcos dos festivais para divertir a massa, com temas que dizem alertar consciência das pessoas para a necessidade de lutarem contra os males sociais e injustiças, usando, críticas virulentas, gestos e coreografia inadequados, tudo importado de outras latitudes. Hip-hop é relato ritmado e pincelado de sons.

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