domingo, 29 de maio de 2016

O Exilado de Azágua

          

Segundo a crença popular Baga-Baga consegue mergulhar nos sete palmos debaixo da terra para devorar finados. Insecto simpático, tipo formigão, que vive exilado em tocas, só sai pressentindo o tempo de azágua.
Afirma-se que o bicho foi trazido da Guiné com a importação de madeira, ou nas raízes das plantas vindas do continente africano. Com a chegada desses seres às ilhas, ocorreram transformações, que ditaram novos rumos para a sua vida e mesmo para a sua saúde, ganhando o nome de Baga-Baga. 
O seu desaparecimento é uma espécie de exílio para depois aparecer em finais de Julho, experimentando deslocações em busca do armazenamento de comida ou procurar outros abrigos longe da invasão da água. A tradição conota a sua aparição com mudança do tempo, isto é, com a aproximação da azágua, o mesmo que dizer período de sementeira, provação que todos os anos alimenta a esperança dos camponeses. Aparição de Baga-Baga é chuva próxima; dizia o meu avô. Em criança, na Vila de Assomada, assistíamos a deslocação destes seres em enormes filas para sítios diversos. Na praça central da vila saíam das rachas do cimentado e vagueavam o dia todo, escondendo-se à noitinha. Amáveis, humildes e inteligentes, mas ferozes se atacados.
Certa vez uma Baga-Baga curiosa entrou nos calções de um menino sentado na borda do canteiro, sentindo-se ela pressionada, ferrou dentada justamente no pirilau do garoto. Os gritos do menino puseram os colegas em pânico, seguindo caminhos diferentes. Momentos depois, tiveram de regressar ao local para socorrer o miúdo que se despira completamente. Primeiro, acreditaram que era coisa do sujo e levaram a vítima para a igreja, mesmo à frente da praça. Ali botaram água benta na cabeça do menino, enquanto o veneno da Baga-Baga actuava no corpinho dele. O garoto queixava-se de muitas dores no baixo-ventre. Instantes depois o bibichinho da vítima avolumou-se de tal ordem, a comparar uma bola de rugby em miniatura. Levado para a Farmácia o enfermeiro de serviço aplicou-lhe o antídoto que, minutos depois, acabou por atenuar as dores e abaixar o inchaço. Da mesma forma, acreditava-se que esfregar Baga-Baga no seio de rapariga, ainda na puberdade, fazia-lhe ter seios grandes e dava mulher depressa. 
Da farmácia saía o menino curado e dava entrada uma menina picada no seio por este ser amável e humilde exilado de azágua.             

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