quarta-feira, 1 de junho de 2016

Excerto do Livro Olho da Rua




(...)
Desde aquela tarde de sol quente de sua meninice em que o Rufino, de nominho Fifi, se revoltou e saiu de casa para não mais pôr lá os pés, altura em que pensava que a rua se podia converter no regaço de uma mãe aconchegante, onde a liberdade de tudo fazer era um claro querer, onde também podia a sua vida encher-se de novos sonhos e a felicidade advir ao dobrar a esquina, jamais teve sossego. 
Mesmo nas horas de calma, em que sonhava com o além especial, com o asilo perfeito das suas ilusões, que o levasse a esquecer os rastos de desamor plantados na sua cabeça de criança, ele não conseguia serenar, não conseguia estar em paz consigo próprio. 
Quando deambulava e lhe perguntavam de onde era e a que se dedicava, respondia sem embaraços: «faço mandados e lavo carros». Mas respondia sem conhecer as intenções ocultas das pessoas que o miravam com olhos de desconfiança. Lá nos confins do mundo que girava dentro dele, esboçavam-se sonhos misteriosos em que ele próprio deixava por vezes de acreditar. Estava claro que fez e desfez durante o tempo em que seu juízo errante o aconselhava que sim, que estava certo. 
Mas a partir do momento em que sentiu na pele as pessoas devolverem-lhe desafeiçoamento, afastando-se dele com pressa, coisa triste de sentir, vendo-se cada vez mais cercado e afastadas as hipóteses de conviver sadiamente com elas, de voltar a estar em casa junto de quem ainda pudesse reavê-lo da triste situação em que se achava, a verdade da vida começou a pesar-lhe na consciência, apesar de o instinto de revolta insistir em mantê-lo longe de qualquer um que o quisesse proteger. (...)

Obs. Uma noveleta sobre a vida num bairro, seus habitantes e o que levou um menino a fugir de casa para viver na rua - olho da rua - título do livro.

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