segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

A Minha Medalha

Foto: Santo Antão Igreginha

Afinal, hoje, bem do lado esquerdo, brioso, brilha o meu distintivo no peitilho do meu casaco verde. Como ele é doiro da cor dos dentes do milho. Milho da minha ribeira. A minha medalha é a jubilação clara duma idoneidade revalidada, talvez, pela simples condição de jamais meu cântico ter chovido desamor e hipocrisia no chão da nossa história onde tenho penhorado os meus cinco sentidos.
É pura convicção minha que: homenagear, louvar, distinguir e condecorar, são formas patentes de exaltação da moral e da vida de uma nação e, quem as promove e executa luz sem defeito no trono do dever cumprido, já que celebrar com decência outros homens pela dignidade das suas obras é um acto de cultura e de elevado sentido patriótico. É normal o espanto (fingido) manifestado por alguns. Mas a acostumar-nos com tais tratos, elogiando e agraciando os dignos destes símbolos, teremos dado, seguramente, um passo colossal na elevação do espírito, da moral e da auto-estima dos homens e das mulheres da nossa terra, teremos tornado mais cidadãos e mais cientes da nossa reputação. Outra coisa é chuchar com a labuta e a boa fé dos outros, maldizendo e escrevendo futilidades na esperança de se ver branqueado o autêntico sentimento cabo-verdiano.
Devo ter alguma razão quando afirmei algures que; «o povo é a maioria onde reside a parte mística e a parte moral duma sociedade, é onde nos devemos inspirar para produzirmos as reformas apropriadas em nós e, de nós mesmos. Quão formidável é esta máxima: dento di algen k’é algen. O santiaguense diz isso com conhecimento casuístico. É uma formulação simples mas de forte e profunda significação já que é mesmo dentro da criatura a morada do sinete configurador da sua maneira de ser e de se relacionar com os outros, é justamente ali a cave onde dorme e acorda as emoções, é onde os laços afectivos se encolhem e se desencolhem, enfim é onde somos nós, em nós mesmos».
Não sei porque motivo, neste momento de pena no papel, veio-me à razão a imagem do largo quintal da nossa casa em Assomada, do meu avô sentado no poial a deleitar-se, observando o mastigar acelerado do seu liton brába, oferta de um freguês em sinal de reconhecimento e de amizade. O belíssimo e o valente Bala (cão) que não parava de rugir o animalzinho, temendo, talvez, a diminuição da sua porção acabou por se estirar de comprido convicto. Porko Brába apesar de ser porco, é nome de animal caseiro, prezado, nutrido com assiduidade, vivendo em quintal ou numa cerca sob engodo dos da casa. Mas suíno é bicho ruim, rebelde, que morde e derruba a cerca, que devora tudo o que fareja: roupa, sabão, aves, esterco e os próprios leitõezinhos irmãos. Mas o criador atento, ao descobri-lo, separa-o cedo das restantes crias e manda castrá-lo. Em Santiago, pelo menos no meu concelho, falar em suíno, é falar de bicho ruim. Ele come que nem um alarve, não engorda, não dá lucro, não tem a simpatia dos donos e nem tão pouco dos restantes animais. Por isso o seu garganton cai cedo na ponta da faca.
Sabiam que, ainda nos nossos dias, o nosso camponês, para comprovar o seu total reconhecimento e gratidão a outrem, lhe oferece, ovos, frango, cereais ou legumes, um cabrito, um bezerro ou um leitão. Sabiam que este gesto funciona como um tributo àquele ou àquela eleitos pessoas de bem e estimadas pela comunidade. Mas, alguma vez passou pela vossa cabeça que estas simples ofertas são vistas como “distinção” porque grandiosas o seu valor simbólico, porque prenhes de afecto e de sentido humano.
Quantas professoras não receberam dos seus alunos ou dos seus pais estes pequenos tributos em sinal de reconhecimento?
Não é por acaso que ao declarar amor sincero à mulher escolhida para cônjuge o santiaguense foi rebuscar no âmago da natureza a exacta comprovação; tenho três pés de Banana Tunga, um para ti, um para mim e o outro para o Senhor Deus lá no céu. Pois, oh plantão! Bananeira, nesta parte do mundo há-de ser planta a testemunhar o sumiço de muitos suínos, mas também o nascimento de muitas cadelinhas afáveis tal qual a minha querida Bell que diário me condecora com a sua festarola.
Coitado e bem coitado é aquele que jamais recebeu festas dos seus ao levantar-se da cama ou chegado cansado do trabalho. Mas bem e bem notado é aquele que enxerga o valor de cada coisa, dos homens, dos animais e das plantas, caso contrário não passa de um desatilado que consegue jamais avaliar o seu próprio tacão quanto mais avistar o tempo, o momento e o ambiente que o rodeia. Sabiam que dagúma significa: afável, gentil, dócil, cortês etc.
Kaká Barboza


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