sábado, 17 de janeiro de 2009

Loas ao Grogu

Foto: Estes bicinhos foram vistos em Rui Vaz

Odeio esta mania de gostarem do grogue às escondidas. Odeio as novas bebidas. Todas elas, incluindo o xarope. Para onde quer que se vá, não há outdoors a promover o grogue. É falta de patriotismo. Grogue é grogue, digo, cana é cana, quer dizer, grogue é cana. É beleza porque inspira. É perigo porque é transparente. O grogue em si é um bom blogue.
O bom grogue não é para nos compreender, nem para nos ajudar, nem para nos fazer felizes. É para nos provocar. Tanto faz. É uma questão de azar. O grogue não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, mas para dentro da nossa gaiatice. Somos todos bêbados sem beber. Quando bebemos somos santos. A vida às vezes mata a vontade de viver e o grogue não, porque bebê-lo é uma conveniência à morte.
O grogue puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. É veneno que nos alimenta. Tem tanto a ver com a vida de cada um de nós como a cachupa.

Foto: Este Hiaci foi visto em Serra Malagueta - Stª catarina

O amor pelo grogue não se percebe. Não dá para perceber. O amor por ele é um estado de quem se sente vivinho da silva. O trapiche ama a cana em cio a desabar. A desabar e a correr atrás do alambique, já que cana é sogra da garrafão e genra da garrafa e primo-irmão de primeiro grau do copo que por sua vez é compadre do balcão.
O grogue é sempre uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária, é bonita e não faz mal. Que se invente e se minta e se sonhe o que quiser. O grogue é um bilhete de viagem que pode matar, pode inspirar, pode dar e tirar vida, pode cortar o calor, pode combater o frio, pode curar, pode ajudar a lembrar, pode fazer esquecer, pode desiludir, pode desinibir, enfim pode levar o homem a ser homem, por muito desesperado que esteja.
Em última instancia o grogue propicia uma boa noite conjugal, de serenata ou de guarda cabeça, além de ajudar a " tra spésse y tra boka de morto".
O grogue é o símbolo mais vivo da nossa global-caboverdianidade-.
A bafa é uma coisa, o grogue é outra.
O grogue dura a vida inteira e a vida dura enquanto se pode tomá-lo.
Grog é pa kenha ke sabê bibe-l. Cantou Luís Kabel.
Kb.

3 comentários:

Anónimo disse...

Não sou apologista do Grogue (e nem bebo), mas adorei este "ode" ao Grogue.

Vim cá parar por acaso, mas adorei tudo o que li, desde a casa do Mantorras, até ao liton Brabá.

Só queria deixar estas palavras.

Abraço

Anónimo disse...

Obgdº pela vitita.
Vai um cálice p'ra ocê.
Abrç Kb.

Dundu disse...

"é sogra da garrafão e genra da garrafa..."

Essa "genra" é liberdade poética ou o autor terá se esquecido da nora?
De qqer modo gostei do texto.


Abç

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