quinta-feira, 6 de abril de 2017

Rapizius - Lagrimas de Crocodilo

LÁGRIMAS DE CROCODILO

O encontro do José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, tido há bem pouco tempo com os jovens pertencentes aos gangs dos controversos bairros da capital deu pastagem para muita chacota. Os opositores fartaram-se de blasfemar, os entendidos, alguns, puseram-se em cima do muro, os duvidosos, calados à espera do desfecho da balbúrdia gerada pelo encontro.  
Os taguis que deram a cara mostraram-se "arrependidos", do que fizeram e das consequências daí sobrevindas. Outros com ar de pecadores rodopiavam em palavras sem saberem explicar-se convenientemente qual era o superior interesse dos gangs, do porquê da sua formação e para que prestação.
Dos sociólogos e outros ólogos ouviram-se coisas que os seus livros de formação lhes ensinaram sobre os fenómenos sociais deste género: as doenças sociais em que a violência está inserida, as frustrações, famílias desestruturadas, crise de valores, diagnósticos que todos sabem encontrar cujas soluções ninguém tem por onde começar, justamente porque a autoridade mergulhou-se no paternalismo e no populismo. Proclama-se Tolerância Zero e cada vez mais a acção zera-se no conformismo e na inaptidão das autoridades.

Sigam a conversa tida com um tagui:

Bk. Olá Roy! Como vai a vida? Já te recenseaste?
R. - Sou registado. Já votei algumas vezes.
Bk. Foste ver teu nome no novo caderno?
R. - Não é preciso. Está lá. Só que desta vez vocês têm de me mudar de zona para se evitar o batinbora com os outros. Quero manter-me na minha zona. Sabes a história de marcação de zona.
Bk. Porquê zona marcada?
R. - Ein! Foi uma coisa que veio assim de repente e os rapazes resolveram proteger a sua morada.
Bk. Outros quem?
R. - Dos mais abusados. Abusos há muitos. Os rapazes de outros lugares fazem paródia na zona e abusam de nós. Tomam e não pagam e arranjam confusão, para depois zarparem. Os daqui reagem. Ou não? As coisas começaram do nada. Brigas e desforras. Pelo menos aqui na zona foi assim que começou. Mas há o grupo do fumo. Eles estão sempre juntos para se defenderem também dos que chibam. Cada um tem os seus motivos. Ou não? Os de uma zona não roubam onde moram. Vão para outro lado. Mas nossa zona esta marcada e vigiada pelos que ali moram, para se evitar a invasão.  
Bk. Tu Dony. A tua zona?
D. - A minha zona é calma. A confusão aparece quando algum flaxa por causa da bebida e do fumo. Eu tiro uns fumos para me aliviar. Não é todos os dias. Quando vou levo o trunfo e dou um coche a cada amigo. Rapazes e raparigas de cá dão o alívio para acalmarem o dia. Tudo é na mesma. Nada está a mudar para nós. Não temos nada para fazer entra dia sai dia.
Bk. Viram essa coisa de zona nos filmes ou inventaram isso.
R. - Acho que os verdadeiros tagui sim. Apanham coisas nos filmes. Os filmes americanos mostram a marcação de zona, com grupos de um lado e de outro, combates e outras coisas que fazem para levarem a vida e manter a zona controlada. Vivem como irmãos. Se um sofre todos sofrem e se um tem todos têm. Tás a ver. Não é só filme. É a realidade da vida. Hoje o mundo virou uma coisa só, mas ao mesmo tempo dividido. Ou não? O que dá num sítio longe daqui a gente sabe logo. Tás a ver. É como se tivesse dado aqui. Sentimos. A vida virou uma coisa só em todo o lado. Tás a ver. Os taguis de outras terras têm dinheiro, vivem melhor que nós. Por isso esta influência de tentar alguma coisa, mas de forma diferente, à nossa maneira. De acordo com o que há na terra. Ou não?
Bk. Conheces todos os grupos de taguis?
R. - Não. Conhecer pessoalmente não. Mas eu sei que há Wé Sá (West Side), Sévi Sôdja (Save Soldier), Blé Stá (Black Style), Boss ( Boston), Caixa Baixa, Play Boy, Paralelo, Boca Forno, The Black, Sévi Uaini (Save Wine). Há mais. Esses nomes é que rodam mais entre a malta.
Bk. E kassubódy, agressões e mortes. Como é que é?
R. - Um tagui sozinho não faz mal a ninguém. Juntos, sim. Há um que manda. Quem vai ao caso não é o mais valente. É o sôdja (soldier/soldado). Os outros ficam de olho para no caso de a coisa complicar, quer dizer se a pessoa reagir. Um verdadeiro tagui não pode ser caçado nem pela policia.
Posto isto, fico na minha. Há uma opção quase deliberada para auto marginalização que leva à frustração e ao exercício da desordem, fumo ou bebida, discussão e agressão nos lares, nos bairros e na sociedade, espaços confinados ao feio e longe do harmonioso e da serenidade.
Por mais que a sociedade chore saem lágrimas de crocodilo, lágrimas que não significam sofrimento, porque fingimento, promessas não cumpridas, populismo e crise de responsabilidade não choram, mas sim geram frustração e esta descontentamento e este reação violenta.
BK

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