domingo, 9 de abril de 2017

Rapizius - Eu, Espelho e Metafora


Caros e assíduos leitores da minha página

Esta é a última publicação RAPIZIUS, exercício de narrar em 500 Palavras. Devo esta aprendizagem ao Poeta Mario Fonseca, quem me indicou Edgar Poe e Virgílio Pires, mestres em Short Story e Corsino Fortes, poeta e narrador épico das ilhas, a me mostrar que escrever é exercitar a memória.


Eu, Espelho e Metáfora

Colocar-me “nun prit” diante do espelho era o exercício da semana. Esperei a hora adequada para o fazer. Duas da manhã, momento de todos na cama e de discreto silêncio. Logo à entrada, o aparador ostenta a bonita superfície polida do vidro há anos, onde, todos os dias, confiro o porte antes de sair. Já me posei vezes sem conta diante do espelho ora bailando, ora treinando os músculos, e nesta madrugada havia de ser calvo para repetir a experiência de Leonardo Da Vinci.
Antes do sério fiz umas caretas a gozar com o parceiro do lado oposto. Logo, pensei. Levantar a superfície da água e coloca-la no vidro é obra de louco. Só podia ser. Não sei se quem se olha no espelho vê tudo o que a imagem oferece.
Será que conferir a parecença diz tudo?
O espelho é minucioso. Sugere nós próprios. Portanto, ele é depositário de privacidades, ele é algo acesso que não se abre e nem se fecha. Se há alguma verdade neste mundo, ela é a nudez diante do espelho. Nascemos nus. A nudez fala-nos da pureza. Perdemo-la ao nascer e ao voltar não damos conta. A nudez do morto é a nudez da vida. Ela é também fornalha do amor que a lua-de-mel exercita até à exaustão. Sendo ela a expressão da verdade ditada pelo calor da pele e pelos vapores da alma, resumidamente, a nudez é nado-mundo em chamas.
Descrever a nudez é materializar a mente calva. As palavras é o movimentar dela. O mesmo se dá com a música. A pauta é movimento da alma no apogeu da sua nudez, sendo a nudez diante do espelho metáfora de um polígono em trânsito.
Nunca a nudez me pareceu estranha. Visito o meu corpo nu, sempre. Nunca perdeu virilidade. Nunca se aterrorizou de si próprio. Amo a nudez do meu corpo no palco do espelho, onde o completo afigura-se uma estátua de bronze erigida no centro de um reino. A nudez verdadeira é insubmissão, entre o começo e o fim de um gesto. Ela é uma espécie de princípio e fim do éden, tal como a viagem de Enoque ou o paraíso de Adão e Eva, onde o nu armou o pecado original e dilatou o prazer cárneo em todos os seres, sendo, por isso, tabu, algo impedido pela moral social, porque atribuído a loucos. A nudez pública é imoralidade. Assim diz a norma. Mas a nudez esmerada é arte, é símbolo da carnalidade explorada e mercantilizada pelos Mídias na suposição de que se trata da prática da liberdade de expressão corporal, coisa atendível em sociedades abertas, que, no entanto, nas acanhadas ou pequenas é ofensiva, porque conotada com putaria. Do ponto de vista artístico a nudez é metáfora, é insubmissão e sensualidade e código do erotismo. Tanto o nu do espelho quanto a nudez de um corpo é dom de desafiar.
Nada é mais sincero do que a nudez da opinião reflectida em forma de Rapízius.

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