sexta-feira, 7 de abril de 2017

DIVAGAÇÕES


DIVAGAÇÕES

Era no pendon di banana, tronco da bananeira, que os meninos do meu tempo aprendiam a nadar no tanque de rega da Boa Entrada. Água em cinco escadas era a marcação certa para aprender sem perigo de afogamento. Com os pés a tocar o fundo a água ficava pelos ombros. Da Ponta de Maria Simoa, morada de corvos, via-se o tanque de Caniss na Ribeira da Boa Entrada, ponto de controlo da altura da água. Vendo corvos cruzarem sobre nossas cabeças esconjurávamos para ninguém morrer afogado, nem ser apanhado pelo guarda da propriedade. Banhar no tanque da Boa Entra era ritual de segunda-feira, dia em que os pais deslocavam-se para a feira no mercado dos Orgãos. Cada um de nós tomava um pendon, tronco cortado e deixado na horta. Dos talos desta planta, após secagem, faziam-se vários utensílios, assim como, albardas para burros e mulas e cabazes de transporte de produtos do lugar ou farnel para as fainas agrícolas, cordas, rodilhos e esteiras para a cama ou tapetado para actos funerários cuja reza durava dias, tradição de outrora. Hoje em dia, esteira fincada simboliza casa enlutada.
É aliciante recordar como é que as coisas, os lugares, as plantas, os animais, as árvores, o céu e os fantasmas que faziam parte do nosso imaginário mudaram com o tempo e com a erudição. Tais artefactos que faziam parte da vida campesina de outrora, que moldavam a forma de vida da comunidade, que influenciavam, regiam a sua forma de estar e de crer, bem como o proceder das pessoas, hoje, nem peças de museu são, porque o cabo-verdiano não aprendeu a preservar o passado. Passado para ele é carro-bedjo. O que passou é monturo e não legado. Todo o começante ao chegar o poder brada como o corvo “ é a primeira vez que…”. Não havendo legado, o começante acha os três-bintén e gaba-se da sorte de os achar debaixo da ignorância dos outros, atitude que só pode ser comparada a de um corvo. 
No meu tempo de menino a pessoa comparada a um corvo ralhava-se e refilava a ponto de convidar o acusante à pancada. Hoje, não! Ser-se corvo é normal. Não é depreciativo. O corvo divaga e acha-se. Dizia-se que por mais comida metesse dentro não fartava porque da goela à cloaca é linha única. Passa milho e saía praga. Os espantalhos que tomavam conta dos sítios semeados de nada serviam para contrariar estes esfaimados, descarados, daninhos e superlotados de má-fé, estes agoirentos, praguejadores e nojentos que o meu avô dizia ser filho do pecado razão pela qual, até hoje, Noé o espera regressar á arca. Corvo é vítima da praga da sua mãe, daí o corvejar… quatro-quatro… igual ao número de alças do caixão ou as quatro pontas do esquife apoiados sobre os ombros dos que levavam o morto para o cemitério.
Se os corvos jamais sabem de si, porém, a bananeira frutifica, dá broto novo e deixa o pendão para o artesão e para os miúdos aprenderem a nadar.

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