sábado, 8 de abril de 2017

Nossa Casa em Assomada


NOSSA CASA EM ASSOMADA

A nossa casa era espaçosa e tinha um quintal grande. Ao fundo a capoeira e o chiqueiro. De um lado a despensa de chão empedrado que guardava tambores de mantimento, garrafões de sementes, latas de gordura, tina de salmoura, arranjos de azágua e sacos de mancarra. Do outro lado a cozinha de terra batida, igualmente ampla, tendo ao centro fogões de três pedras, um para caldeirão grande e outro para panela pequena, além do de barro a carvão para o bule e esturrar o louro. Na cozinha de uma parede á outra, justo no ponto da subida do fumo da lenha, havia o travessão de pau de carrapato para fumar enchidos de porco. Temia entrar na cozinha á noite por causa do enegrecido das paredes e da coberta, não com a despensa. A aventura de forçar a porta para entrar e trazer punhados de mancarra para o quarto de dormir bania toda a espécie de medo. Mancarra com açúcar era sustento que tinha fama de desenvolver os cavalos, torna-los fortes e velozes para as corridas, qualidades desejadas pelos jovens para poderem competir com colegas de escola e atacar a disputada da bola. Crendo nesta fama eu comia às escondidas mancarra com açúcar no silêncio da noite, antes de dormir. Nesse dia a lata de graxa onde eu punha o açúcar estava vazia. Com pés de rato saí à procura do boião de vidro com açúcar. A guarda comida estava fechada a chave. Socorri-me duma faca. Não se encontrava ali o recipiente. Fiquei atrapalhado. À luzinha do candeeiro, aproximei-me da porta do quarto do avô, na mesinha de cabeceira, ao lado do bule de chá e das chávenas estava o boião. Pensei duas vezes. Na vez de três, decidi trazer o açúcar. Agachado como um felino ziguezagueei até chegar perto do lugar. Ao esticar a mão para alcançar o vidro, caiu a colher, o avô acordou. Ao pôr os pés no chão, colocou-os em cima de mim. O grito acordou a casa inteira. Meu pai compareceu de manduco numa mão e lanterna noutra mão. Já o problema era outro. Menino desmaiado no chão. Água de pote na cabeça fê-lo vir a si àquela hora da noite. Instado a relatar o que tinha acontecido, o menino começou a contar: senti um barulho no quintal, espreitei pela janela, um vulto vinha da cozinha em direcção ao quartinho, refugiei-me na sala de jantar, armei-me duma faca, ao recuar vi a guarda comida aberta, fugindo á perseguição escondi-me no quarto do avô, senti algo em cima de mim, gritei. Nada mais ouvi. Serenado o ambiente, nada obstou que os despertados dormissem como se nada tivesse acontecido. Amanheceu e cada um pegou nos seus afazeres até o cair da tarde. A avó era quem dava conta de tudo o que se passava em casa. Á hora de esturrar o louro chamava sempre o netinho para se divertirem com passagens. Ela começou a contar do rato que comia mancarra com açúcar para ser robusto como o cão.   
   

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