segunda-feira, 24 de abril de 2017

Loas ao Grogue

LOAS AO GROGUE

Viva o grogue. Honra e glória à bebida nacional. Hossana, trapiches, alambiques e bois. Odeio esta mania de gostarem do grogue às escondidas. Odeio as novas bebidas que não seja o grogue. Todas elas, incluindo o xarope. Para onde quer que se vá, não há outdoors a promover o grogue. É falta de patriotismo. Grogue é grogue, digo, cana é cana, quer dizer, grogue é cana. Grogue é beleza porque inspira. É perigo porque é transparente. O grogue em si é um bom governo.
O bom grogue não é para nos compreender, nem para nos ajudar, nem para nos fazer felizes. É para nos provocar. Tanto faz. É uma questão de azar ou de sorte. O grogue não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, mas para dentro da nossa gaiatice. O grogue ama o limite. Come o macho, a fêmea e o homossexual. Somos todos bêbados sem beber. Quando bebemos somos santos. A vida às vezes mata a vontade de viver e o grogue não, porque bebê-lo é uma conveniência à morte.
O grogue puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. É caule que nos alimenta. Tem tanto a ver com a vida de cada um de nós como a cachupa. É capa da bafa e faca na boca. É perfume é pistola líquida. O amor pelo grogue não se percebe. Não dá para perceber. O amor por ele é um estado de quem se sente vivinho da silva. O trapiche ama a cana em cio a desabar orgasmo. A desabar e a correr atrás da taberna. Cana é avião, é chão e cemitério. É sogra do garrafão e genro da garrafa e primo-irmão de primeiro grau do copo que por sua vez é compadre do balcão.
O grogue é sempre uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária, é bonita e não faz mal. Que se invente e se minta e se sonhe o que quiser. Grogue é amparo e poesia. É bilhete de viagem que pode matar, pode inspirar, pode dar e tirar vida, pode cortar o calor, pode combater o frio, pode curar, pode ajudar a lembrar, pode fazer esquecer, pode desiludir, pode desinibir, enfim pode levar o homem a ser homem, por muito desesperado que esteja.
Em última instância o grogue propicia uma boa noite conjugal, de serenata ou de guarda cabeça, ajuda a tra spésse y tra boka de morto.
O grogue é o símbolo mais vivo da global-caboverdianidade. É assunto para uma boa assembleia de magistrados, do governo, de deputados, de partidos, de quebrados, dos fofoqueiros e dos videntes do blu. O grogue é o parceiro mais democrático da república. Ele é constituição e direito humano. O grogue dura a vida inteira e a vida dura enquanto pode-se tomá-lo.
Grog é pa kenha ke sabê bibe-l. Cantou Luís Kabel.


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