domingo, 9 de agosto de 2009

ESCRITA NA RUA


O MEU AMOR PELA JOIA

A noite estava fresca e a vila rescendia de um mesclado em que o cheiro da buganvília, do eucalipto e de flores dos arbustos que vinha das redondezas, se misturava ao perfume subtil do refogado que a essa hora, na maioria das casas, revigorava o caldeirão de kaxupa a cozer em lume brando. As noites de Assomada ofereciam a qualquer um o mais belo céu estrelado do mundo.
Tinha saído de dentro de casa nesse instante, como era costume, para o quintal, onde um gracioso pessegueiro marcava o seu centro. Desde que vi, pela primeira vez, a moça de Pedra Barro, alguém que passou a representar um pedaço da minha existência, o pilão onde sempre me sentava passara a ser uma espécie de local de estágio das minhas fantasias. As cenas ali recompostas pareciam autocolantes de alta gama e cada vez mais sedutores. Eram películas tão efectivas como se as raízes do meu tutano tivessem urgência em se nutrir dessa obcecação que insistia malhar-me a cabeça em constância.
Tudo começou quando no fim das missas de Domingo colocava-me estrategicamente num ponto, para poder controlar os movimentos dessa moça, para lhe dar a perceber claramente o meu interesse por ela. As raparigas daquela idade davam-se por respingonas, por bravas mesmo. Primeiro pelo medo de serem vistas junto aos rapazes pelos pais ou gente conhecida, e segundo pela forma rígida como eram educadas. Ao sair da igreja ela passava por mim sempre a correr, sempre a correr e não era fácil detê-la, para atender quem quer que fosse. As minhas cartinhas que uma antiga colega de escola levava para ela surtiam pouco ou nenhum efeito. Esta situação manteve-se até o dia em que resolvi mesmo ir esperá-la à esquina da casa de Nha Clara, na boquinha da tarde, a seguir à missa da tarde. Ali fincado, espiando, espreitando vezes sem conta, avistei-a no meio de colegas a vir, e preparei-me para a abordagem. Era a minha primeira tentativa do género.

(Do livro - DESCANTES DA MINHA RIBEIRA -) KB

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