domingo, 18 de novembro de 2012

Rapízius

                      Rapíziu nº 2/12


Eram três horas da manhã quando cheguei à casa vindo de Fogo d’ África, lugar onde se faz música da terra todos os fins-de-semana com Nho Nani ao violino, um amigo, um músico, um entusiasta que muito aprecio. Empenha-se bem com o arco na mão. Ele é mesmo bom.

Sim, como sempre dirigi-me ao frigorífico para tirar dali a garrafa de água fresca, pôr na minha caneca inox, ir para a janela da sala, tomar uns goles, parar e olhar para cima, para o céu a conferir a posição das estrelas. Praia tem um mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado que já vi na minha vida foi em Assomada, em Achada Riba. Recentemente, foi na ilha Brava, em Senhora do Monte. Fascina-me o céu estrelado. Olho a pensar nas estrelas que não se cansam de cavar o buraco onde moram deixando ficar de fora o rabinho de luz a abanar, semelhando a artimanha das feiticeiras.

De repente uma sombra com um ar enigmático pôs-se a meu lado com suavidade e começou a murmurar aos meus ouvidos: «Olá, Kapa!» Voltei a cara para o lado. Repetiu: «Olá Kapa»! O bafo era de quem fumava e bebia instantes atrás. À mistura o odor de um perfume caro, parecido com Madame Dior, não tenho certeza. Quem és tu? – Perguntei. De novo ela «Vim porque estou apaixonada por ti Kapa». Porra, quem és tu! O que queres de mim? Ela: «Já não tenho idade para estas coisas, mas senti vertiginosamente atraída por ti e vais dar-me o prazer de te tocar e de te beijar. Ficas bem recompensado. Não tenhas medo de mim».

Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu rosto ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado entornando-se o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição, desta vez a olhar para baixo e para o lado para ver se identificava algo. Resultado, nada. Permaneci de pé junto à janela e percebi que do chão vinha um cheiro a álcool, a whisky. Para comprovar, trouxe a caixa de fósforo, acendi, aproximei o lume do derrame, e-e-e-e pefffff. Um fogo azulado cheirando a nada. De repente houve um vuuuoooop a secar o chão. Aconteceu como se um vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até o dia de hoje fiquei por entender o que na realidade terá passado comigo nessa madrugada.

Praia, 17.11.12 - KBarboza

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