terça-feira, 2 de outubro de 2012

Letras na Gaveta

No dia seguinte, logo cedo, chegado para trabalhar na estiva, encontrou o maior reboliço do mundo junto ao portão de entrada no porto. No meio da vozearia ali instalada uma mulher clamava ruidosamente: - Ele tinha apenas catorze anos. Ele era uma criança. Assassinos! Autoridade?! Onde está a autoridade?! Chamem a polícia! Desesperada gritava uma outra lá do seu tabuleiro de venda. Coitado do menino! Assassinos! Tiraram vida a um anjo de Deus por causa de uma coisa de nada. A notícia veiculada era que o menino tinha arrebatado o maço de dinheiro das mãos do auxiliar de despachante oficial à entrada da Alfândega e que no grupo que o perseguiu, alguém atirou uma pedrada acertando-lhe fatalmente na cabeça. Ninguém sabia dizer de que mão tinha saído o naco de basalto mortal. Veio a polícia, mas ninguém foi responsabilizado. Estava tudo muito confuso. Dali, o menino foi levado para o hospital. Txitxarrinho era seu nome de rua. O nome próprio ignorava-se. Vivia na vizinhança do porto. De que localidade também ninguém sabia. Após o exame e confirmação médica o cadáver foi mandado colocar na casinha do morto. Passou ali uma manhã inteira sem que ninguém reclamasse o corpo. No mesmo dia, ao fim da tarde, o caixãozinho municipal, azul desgastado, seguia numa velha ambulância para o cemitério da cidade certificados pelo motorista e por um funcionário ligado à casinha mortuária do hospital. No cemitério dois serviçais camarários estavam prontos a mandá-lo para o fundo da abertura num chão ressecado onde nem planta da babosa parecia resistir a tamanha aspereza. Tudo foi rápido. Morte rápida e mais rápido ainda o enterro. Se alguém chorou a perda dessa vidinha em pleno crescimento a cidade não o soube. Ninguém mesmo se viu embaraçado ou impedido de continuar nos seus afazeres ou mesmo na pândega. Também esta tragédia não ia mudar a vida de ninguém, de nenhum bairro e nem da cidade. Os meninos largados no olho da rua iam continuar na mesma. A crescerem e a viverem na rua. Nada ia mudar porque o menino desfeiteado é filho de ninguém. Nem da lei e nem de Deus. Com o morrido aconteceu como lume num pau de fósforo húmido. Faiscou e expirou logo. Melhor seria se o mar o engolisse e levasse o seu corpo para a fundeza das suas águas, guardá-lo, sem campa, sem plantas, nem flores, do que tomado pela terra numa cova ignorada.


                                  Parte do conto NO OLHO DA RUA do livro - Descantes d'Nha Ribeira - não publicado.




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