quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Da Gaveta de Registos

 Vou-vos falar um pouco de uma classe de profissionais muito relevante e ao mesmo tempo muito controversa, os estivadores do porto da Praia e um pouco do seu mundo de relações.

O que toda gente sabe é que em termos físicos o porto da Praia melhorou bastante e melhor ainda vai ficar com o fim das obras de expansão em curso e que em termos organizativos o complexo portuário vai precisar de novas medidas e adequação dos serviços aos novos espaços emergentes e qualificar os recursos humanos a vários níveis. É o visível e o sabível.

Mas, vamos ao invisível e pouco sabível.
Se à frente dos nossos olhos os estivadores parecem uns desgraçados, um grupo profissional sacrificado no altar da exploração laboral, por detrás disso tudo as coisas são bem outras. Registam-se factos inacreditáveis. Morre muito dinheiro em suas mãos. Recebem bom dinheiro, mas gastam-no muito, muito mesmo num só dia em paródias colectivas suportadas por uma única pessoa. Quinze dias depois, ela, a sua casa, os meninos entram em cruel padecimento. Esta é uma verdade nua e crua. Trabalho duro, sim, mas deixa resultado, mesmo bom resultado. Aquele grupo ciente do rendimento do seu trabalho possui casa própria, andares com quartos arrendados, transporte de mercadorias, tratam bem da família, têm filhos no liceu e na universidade, saldam os seus compromissos bancários e têm uma vida decente.
Porém, aqueles, a maioria, entregues ao desleixo acabam vítima do álcool ou da droga e quando assim acontece entram de conta própria na indecência da vida, indo a ponto de alugar a sua vez de trabalho a outrem, a troco de uma quantia acordada, havendo, por vezes, crispamento na hora de pagar ou receber o valor.

Vai um pouco do guardado na minha gaveta de registos:

i) as mulheres negociantes (as sabidas) escolhem juntar-se ou casar com os estivadores idosos ou reformados para conseguirem arrumar haveres domésticos de valor e casa para si, antevendo o fim da vida do marido minado pela vida que levou;

ii) há estivadores sabidos que aceitam antecipar dinheiro a colegas viciados em droga e álcool, cedendo dez para terem de volta quinze contos ou mais conforme as circunstâncias, funcionando como um banco. Fiança documentos e cartão 24;

iii) as mulheres fornecedoras de comida e de bebida tomam de fiança o cartão 24 do seu devedor e sim que o salário do mês é depositado na conta, ambos vão levantar o valor em dívida para não haver fuga;

iv) derivado do sustento de duas ou mais casas alguns acabam ou acabaram sós por maus tratos às companheiras, filhos do casal ou unicamente da companheira;

Enfim, há um submundo onde as relações se processam segundo a lei do “sabido fla dôdu é pa ingana” onde não existe dor nem piedade, onde a tolerancia é zero e onde os compromissos assumidos são pagos no prazo certinho sob pena do ajuste de contas. Quem assiste de fora condói por desconhecer o modus vivendi, outrossim, por não pertencer ao sistema, pelo que, politicamente correcto, tê-los como elo fraco da sociedade (pobres e desprotegidos) é legítimo.

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