terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Raiva e Mágoa



Em louvor à Bíblica Lei - Olho por olho dente por dente

Vinha pleno de temor o solevar da noite
Vinha o colo da flor extasiado de paixão 
Vinha a oculta lâmina trajada de inocência
Vinha o falso gesto lambuzado de sorriso
Vinha o vazio do sentir torcido de ódio  
Vinha o canino marfim feito homicida
Vinha tudo, mesmo tudo salvo a lei de amar.
É do violador engenhoso – Ódio por ódio óbito por óbito
É do sentenciador virtuoso - “Olho por olho dente por dente”

A lei bíblica de todas as alturas e de todos os tempos. 

sábado, 7 de novembro de 2015

POEMAS DE AZAGUA




Esta cor, este vivo do tempo
Que nos enleva – alvoroço da ilha
No palpitar dos rebentos

Esta flor, este hino intenso
Que nos reforça – morouço da vida
No afastar dos lamentos

Este vigor, este valor imenso
Que nos envaidece – salva e jubila
No entenrecer dos ventos

POEMAS DA AZAGUA




Água dando terra noutra terra
água coração de lama
castelos de trovão
nas margens do sequeiro
ontem pesaroso deserto.
Deixou de ser nómada
o chão raiz de sol á flor da pele.
Água trânsito da folhada
música das rochas
página do porvir
doutros cantos
doutros filhos
doutros afazeres
doutros modos
e doutros inícios.
Água textura das nuvens
disfarce das ribeiras
das pedras e dos carrapatos
Água corpo das monções do sul
que viaja a ilha noutra terra
rumo matando sede às pedras.
Água lençol de água pura
gotejos, fontes e poços
Céu invertido dançando o dondágu.
Água disfarce do oásis na face do lavrador.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O Velho, a Mixórdia e a Mocidade





A forma trivial como os Rabidantes Culturais vêm contribuindo para a educação da sociedade, (sociedade juvenil sobretudo) que se deseja democrática, justa, solidária, instruída, culta e capaz, não passa de intenções doentias, seguindo o caminho que se está a seguir, sem que no túnel haja olho de luz no fundo.
Esta-se numa encruzilhada, numa espécie de nó cego numa corda enrodilhada.
Que fazer numa terra onde discordar do outro e ter opinião própria é crime social e público?
Pois, opinar a sério é vazar água no binde, porque vivemos numa democracia de refractários, intolerante e imbecil.
É neste mundo que se forma a nossa mocidade, toda ela, a todo o tempo.
Os poderes públicos investem, fazem, esbanjam, discursam e nada fica consolidado. Até parece que apreciamos desaprender para que tudo fique sobre joelhos e inacabado. Por exemplo: não existe um programa televisivo consolidado que instruísse e orientasse a sociedade e as diferentes camadas que a compõe no sentido da sua afirmação intelectual, espiritual e nacional. Salvo os noticiários, os programas de debates e de entretenimento oferecidos são prenhes de acasos que o esforço dos discursos não consegue reverter. São acasos baseados em modismos importados, tics espalhafatosos, comunicação sem arte, palavras encenadas, portanto sem valor esclarecedor, ficando a percepção devassada por atitudes e comportamentos comprometedores, sendo gente com canudo e paga pelo estado para trabalhar com competência e mostrar o caminho.
Muita gente em privado me confessa estar de acordo com o que eu disse sobre o Programa Tarde Jovem e muitas das opiniões expressas por escrito nesta rede de intercâmbio de ideias. Muito bem. Mas não têm coragem de dizer de forma clara o que acham não só deste programa, mas, sim, de vários assuntos que afectam a nossa sociedade e as pessoas. Poucos dão a cara. Poucos se manifestam dizendo da sua justiça.
A doença do nha boca ca sta la é cronica e terrível. Autenticidade não é coisa do caboverdiano. Prefere sentar-se no muro e ver passar a caravana. Ele é sempre o outro na sua pele, próprio de refractário.
Sei sempre o que dizer, como dizer e quando o fazer. Contudo há uma juventude por aí, arrogante, por causa duma opinião me graduou de Velhote do Caralho, Gagá, Obsoleto, Ultrapassado, etc. (leia-se Do you... Papia Criolo). Essa gente mais não tem de dizer e nem de discutir com alguém. Respondo, sim. A minha formação não aceita bugigangas, nem plágio, nem copianço de modas. Não aceita modismos. Não nasci para cuidar de bugigangas. Sou Diabo irmão de Deus numa só pessoa, para o mal da minha alma, mas, tranquilo e sem palatal furado. Poucos sabem o que faço e conhecem o meu labor. Nunca gostei de aparecer. Nasci aparecido da minha mãe. O resto é manchete e mixórdia e não corro atrás.
Prefiro mil vezes acompanhar os jovens anónimos de Santa Cruz que cumpriram com sacrifício o ciclo de azágua, que, com o recomeço das aulas celebraram o dia da cultura, o dia do poeta, com um programa vistoso e muito animado, todos eles, alunos do Liceu de Santa Cruz que, pelo teatro, pela dança contemporânea, pela música e pela poesia, demonstram quanta criatividade, quanto talento, quanto discernimento, puseram sobre o vivenciar das suas gentes e do seu concelho, servindo de inspiração para legendar a celebração do dia da cultura, longe das televisões, longe dos jornais, privilégio que a juventude urbana goza com mais frequência.
Foi sem dúvidas a melhor Tarde Jovem que assisti neste Outubro prodigioso.
Bem-haja os alunos do Liceu de Santa Cruz, uma palavra de reconhecimento à Direcção da Escola e a equipa que organizou o evento cultural e um muito obrigado pela oportunidade da minha participação.

sábado, 3 de outubro de 2015

Poema ao Pescador de Imagens


Leitura possível do quadro de David Gomes - Pescador de Imagens

Lustro da água, sono de cegonha, céu inverso, rosto do sol, lençol expectante, silencio na pauta.
Eis o dia em que corre água para o monte, preditas várzeas deixaram de ser deserto nas mãos do morador.
Eis o acontecer da terra, pactos alçados no molhado, cabo esverdinhado, cântico no olho do entardecer.
Homem, pão, gado, aves, estrada, ilha, crenças cativa na água lisa do poema.


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Poemas de Outubro




(Descrição do panorâmico de Celestino Celesta Kryon - Pastor de Imagens -)

Uma nuvem sem nome
enlaçou o Pico António
outra vida trouxe às covas
outra flor á boca da enxada,
outra cor ao semestre
outro sol às penas das aves
à mesa adormecida
da mulher chefe de família.

Uma nuvem sem nome
singrou a memória da ilha
outra terra trouxe ao mar
outro terreiro ao batuque
outro sonho ao violão
outro amor às arvores e montes
e ao chão de ontem despido
de poços no coração da ilha.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

EXERCITAR DECLIVES






(Cinco recados para a emigração e amigos das ilhas que estão longe)

1.
De árvore ao alto
não há sombra
que não ande o verde chão.

2.
Olha-me outubro
como se não soubesse da cor
que no cabo da ilha cresce.

3.
Quando Brianda
rasga o corpo d'azágua
na estrada repousa a noite.

4.
As achadas coloridas
são orvalho e pássaro
nos cinco sentidos da ilha.

5.
Chão, mão e pão
o lugar das flores e espigas
canto em voz alta do destino.

RAPIZIUS

                                                                                                         MINHAS AMIZADES COM DIAHO ...