terça-feira, 24 de setembro de 2013

RAPÍZIU 40


 Há 40 anos atrás, participei das comemorações da Independência da Republica da Guiné-Bissau. A cidade de Bissau, na altura, era uma urbe bonita, de longas ruas e avenidas limpinhas, muitas árvores e jardins bem cuidados, a parte baixa da cidade era linda, bem localizada e bastante movimentada, enfim, cidade africana construída pelos portugueses que de urbanismo nada de nada tinha a ver com as cidades da então Praia e Mindelo. O muito espaço permitiu a construção de habitações baixas, rés-do-chão jardinado, alpendres e varanda mesmo para o clima da região, de primeiro e segundo pisos eram alguns edifícios públicos e estabelecimentos privados.

Em finais de Outubro parti de Mindelo e o 24 de Setembro de 1974 deu-se comigo em Bissau. Os guineenses tinham acabado de tomar em suas mãos a terra, sentindo-a muito sua. Via-se isso em todo o lado da cidade de Bissau. Na periferia era a pobreza escancarada. A população pouco ou nada escolarizada vivia na lufa-lufa da rabidância, próprios de uma sociedade com fossos sociais bastante pronunciados.

Apesar de essa realidade chocar muito o visitante atento, bons momentos ali passei, convivendo com guineenses e caboverdianos que ali trabalhavam e viviam com as suas famílias.

Tinha sido o Dr. Boal a me assistir e a medicar no Hospital Simão Mendes, recomendado pelo então Secretário-geral do PAIGC - Aristides Pereira, que me tinha concedido audiência uns dias antes no secretariado-geral do partido na praça dos Heróis Nacionais.

Foi uma experiencia agradável e emocionante, sobretudo porque tive a oportunidade de ver muitos dos que se entregaram à causa da luta de libertação das nossas terras.  

Informei-me bastante nos trinta e poucos dias que ali passei. Regressando, algo latente veio dentro de mim, em resultado do contacto directo com a cultura desse país irmão, dança e ritmo, manifestações coroadas com o espectáculo de honra, o Balé Africano, de Okinka Panpa e a dois grandes concertos musicais de uma das mais prestigiadas bandas africanas de então, o Bembeya Jazz Nacional da Guiné Conacri, tudo isso graças à minha condição de membro do PAIGC – Cabo Verde. Foi decisiva a aprendizagem para o estilo de música que desde então passei a compor - o funanbah - que ainda hoje ando a aperfeiçoar.

Alegra-me o dia de hoje e ao mesmo tempo me entristece saber, ver e ouvir o que por lá se passa e acontece nesta terra africana que encheu de glória a luta de libertação dos povos oprimidos.

Entristece, lembrar as fortes mensagens do poeta e músico Carlos Shwartz prenhe de sonhos e ditames que incomodava a elite instalada, caído por terra, mas que um dia há de, certamente, renascer com a força do tan-tan (adormecido).

Kaka Barboza

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