sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

RAPIZIUS


Bau & Voginha: Passado e Presente em Anthologia Acústica 
 “Música fonte poderosa de inteligência espiritual”
A meu ver, os dois músicos, Bau & Voginha, são símbolos vivos nas linhas paralelas da imensa pauta em que se assenta o legado musical das ilhas, a música criada pelos nossos mestres e que nos acompanha na infinda viagem da construção da caboverdianidade. Aquela que conserva, transmite valores e memória, mas também, a que realça a criatividade da alma crioula.
Esta Anthologia Acústica revela-nos momentos que já é história, mas sempre presente, momentos reflectidos num projecto que nos faz viajar na riqueza melódica de um tempo em que músicos de renome associados a outros mais recentes, todos cultores do bom violão caboverdiano, cujos temas reflectem música de característica nacional, isto é, aquela que constitui o nosso folclore popular, a saber: solos de Luís Rendall, John Rendall e Tazinho, temas populares dos mestres Morgadinho, Malaquias, Olavo Bilac, Beleza e Fidjinho d’ Chiquinha, seguidos de temas de Kim Alves, Voginha, Bau, Nhelas Spencer e Betu, criações de linguagem musical continuada, devidamente identificadas na obra Anthologia Acústica, constituindo esta plêiade de músicos uma verdadeira constelação de “ nomes sonantes que a todo o instante, pelo nosso universo musical nos tocaram e nos influenciaram pela sua magistralidade suprema do desenvolvimento de todo potencial humano.“ citando a nota de abertura da obra.
Esta obra vale pela organização, pela escolha dos autores e temas, pela sua apresentação gráfica, sobretudo, pelos registos sonoros que a tecnologia de hoje permite ilustrar, facilitando e ajudando os executantes a abordar os instrumentos de apoio com mestria – o violão caboverdiano – tirando deles e das máquinas melhor proveito da sonoridade, melhor qualidade, mais gosto e mais equilíbrio auditivo. Como resultado de um projecto intencional a Anthologia Acústica traz música assente na leveza de cada momento e convida-nos a penetrar na perspectiva de um novo amanhecer para as gentes das ilhas e alicia-nos a servir de ponte entre passado e presente.
Além disso, esta obra musical ajuda-nos a reflectir um pouco sobre a música caracteristicamente caboverdiana em relação a também produzida em Cabo Verde e por caboverdianos, actualmente, produtos diferenciados, sendo uma de valor real e enraizado, e outra episodicamente recreativa alimentada por amadores da música muito a reboque das modas, sendo estas, a meu ver, criações gratuitas em virtude de também atitudes gratuitas, representando o pitoresco e jamais algo emergente do sentir terra-terra do caboverdiano, tocando superficialmente a sensibilidade do ouvidor alheio atento á procura de algo cativante e com implicações nos problemas locais do homem e da terra, algo significante e representativo da maneira de ser e de viver do povo e do pulsar da sociedade.
Sempre foi a paisagem viva das ilhas, o homem com os seus hábitos, seus costumes, suas crendices, seus dramas e a própria terra com as suas vicissitudes e contingências e problemas específicos a influenciar temáticas tanto na música como na literatura nacional. Uma obra de arte não profana. Antes pelo contrário ufana a existência de um povo e as suas glórias.
Quando Bau & Voginha dizem: “ Para nós a música simboliza uma fonte poderosa de inteligência espiritual, que cada ser humano tem o potencial de contribuir para elevar o nível de sentido e valor da alma”. Sendo eles de fibra, alma e sentir caboverdianos estarão, por certo, de acordo comigo ao dizer que os seus nomes fazem parte da partitura em que se assenta a universalidade da nossa música e da cultura.
Carlos Barbosa – Kaka Barboza

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