segunda-feira, 6 de junho de 2016

Bilhete da Semana

Fogo d’ África é um espaço de convívio e música. Todos os fins-de-semana Nhô Nani ao violino e a banda de suporte estão ali à nossa espera. Vir à Praia sem visitar Fogo d’África é o mesmo que ficar no aeroporto de partida. Nho Nani é um músico entusiasta que todos apreciam. Empenha-se bem com o arco na mão. Tem de se ter ouvidos de bronze para aguentar os decibéis que se cruzam dentro do espaço. 
Eram três horas da manhã quando cheguei à casa. Como de costume dirigi-me ao frigorífico, trouxe a garrafa de água fresca, pus água na minha caneca inox, fui para a janela tomar uns goles, olhar o céu a conferir a posição das estrelas. 
Praia tem mau céu estrelado por causa do reflexo das luzes da cidade. O melhor céu estrelado que já vi na vida foi em Assomada, em Achada Riba. Achada Riba de antigamente. Recentemente foi na ilha Brava, em Senhora do Monte. Fascina-me o céu estrelado. Olho a pensar nas estrelas que não se cansam de cavar o buraco onde moram, deixando ficar de fora o rabinho de luz a abanar, semelhando a artimanha das feiticeiras. 
Olhava para um ponto luminoso. Talvez fosse um planeta. Não cintilava. Mas a minha vista cansada dava a entender que o fazia. Da minha varanda o ceu nocturno não é tão mau.
De repente uma sombra com ar enigmático pôs-se a meu lado. Começou a murmurar aos meus ouvidos: Olá! Voltei a cara para o lado. Repetiu: Olá rapaz! O bafo era de fumador. Fumador que bebeu instantes atrás. À mistura o cheiro de perfume caro, parecido com Madame Dior. Não tinha certeza. Era de perfume de mulher. Quem és tu?  Perguntei. Vim porque apaixonei-me por ti. Murmurou atras de mim. Porra! Eu! Quem és tu! O que queres de mim? Ela: Já não tenho idade para muitas conversas. Senti loucamente atraída por ti. Vais dar-me o prazer de te tocar e de te beijar. Não tenhas medo de mim. Rodei trezentos e sessenta graus para me certificar.
Um calafrio tomou-me conta da espinha a querer tirar-me forças. Ao sentir o aproximar do seu rosto ao meu, defendi com a mão que segurava a caneca de água, acertando na parede ao lado, entornando o resto da água no chão. Afastei-me da janela por uns momentos. Voltei a ficar no mesmo lugar e na mesma posição. Desta vez a olhar para baixo. Resultado, percebi que do chão vinha um cheiro a álcool. Whisky, provavelmente. Para comprovar, trouxe a caixa de fósforo. Aproximei o lume do derrame, e-e-e puufffff, um fogo azulado a cheirar nada. Dai, senti um toque no ombro, virei, e soou um vuuuoooop. Aconteceu como se o vácuo tivesse sugado qualquer coisa dali. Até hoje fiquei por entender o que na realidade terá passado comigo nessa madrugada.

domingo, 5 de junho de 2016

A Importância da Verdade



Se por um lado muita gente boa aqui na nossa terra sabe e muito bem qual o significado da palavra VERDADE, porém, ela, não é muito bem encarada. Os indícios mostram que não há cultura da verdade. Verdade e autenticidade andam alinhadas. Aqui ambas, diariamente, são extorquidas. Diz o povo que a verdade dói. Dói porquê? Pois, fazer justiça é descobrir e pôr a verdade no prato limpo. Ludibriar é tirar vantagens da situação. A sociedade é ludibriada sempre. Então não há gente que, para injustiçar os outros, para criar a pele da sua verdade, falseia, calunia e mente horrendamente. Todo o mundo sabe que é assim. Mas muitos fingem não saber porque ninguém quer ser visto contra ninguém. 
Mas, sabemos, também, o que é ser autêntico, ter autoridade, ter prestígio, o que é ter valor e influência positiva, o que é praticar e defender a verdade. São absolutamente importantes.
Mas a nossa sociedade foi formatada para falar a verdade com verdade?
Hoje, o que é que tem mais importância?
É importante falar verdade?
É importante ser-se autêntico e verdadeiro?    
São perguntas para mil e uma respostas.
    
Estas questões deviam ser tão importantes como a água que bebemos. Por esta razão é que a Importância da Verdade tem e deve ser assumida por todos, os de bom e os de mau senso, pelas autoridades e pela sociedade. O prestígio da sociedade é um instrumento de aferição do comportamento individual e colectivo capaz de esclarecer e capaz de produzir efeitos na escola e na família, abrindo o caminho para que em todas as ocasiões cada um e o colectivo dos cidadãos saibam o que é ter o vínculo jurídico-político que, os constituem, perante o estado, em entidades com um conjunto de direitos e obrigações.

Há que transformar de facto esta terra numa outra, onde a verdade e a autenticidade sejam assumidos com espírito empreendedor e alimentador do civismo, em resumo, numa outra realidade em que a maioria comungue do direito à cidadania e o seu exercício pleno. Para que tal aconteça deve-se, por um lado, ensinar e mostrar as regras, por outro lado, reprimir os desvios e as desobediências. 
A transformação e a acção transformadora não são só mudar o aspecto físico do território onde habitamos, é, antes de tudo, moldar e moralizar a sociedade pela via da educação e pela via da repressão contra os maus hábitos. Ensinar para educar e reprimir para orientar. O estado em que as coisas chegou e estão e o grau da intolerância a que a sociedade assumiu há várias décadas têm assento na tolerância incauta por culpa das autoridades, das escolas, da família, sendo, a tolerância desleixada o gerador do desmazelo e da impossibilidade da reconversão dos maus comportamentos, dos abusos e das desobediências, sob o olhar lascivo dos poderes públicos. 
Trabalhar para transformar a mentalidade da sociedade, criar outras noções e outras práticas capazes de gerar e de encubar nos indivíduos o entendimento maduro da necessidade de reflectir e de se agir bem, apropriar das ferramentas postas à sua disposição, não poucas, para levarem por diante essa grande luta pela construção do cidadão inteiro, não terá validade se o exercício do poder pelas autoridades não servir para moldar, educar e orientar as pessoas de todas as idades.

Se transformar não é só estruturar o paisagístico, massificar não é democratizar. Assim como massificar não é alargar sem qualidade, não é difusão do igualitarismo, não é queimar etapas e prejudicar a selecção e a evolução natural das coisas. A verdade e a democracia são exigentes, por isso, incompatíveis com a intolerância e o igualitarismo, doença que os partidos políticos ajudaram a instalar na sociedade caboverdiana. .......... Se a verdade brilha, a hipocrisia ludibria.

sábado, 4 de junho de 2016

Entrevista ao Jornal Expresso das Ilhas


Depois de Vinti Xintido Letrado na Kriolu, Son di ViraSon e Konfison na Finata, todos escritos em cabo-verdiano, Kaká Barboza regressa à poesia com “Gaveta Branca”, obra que será lançada hoje, na Biblioteca Nacional. Perpassam nas páginas deste livro reflecções metafísicas, existenciais e até cabalísticas, temas que apenas tangencialmente tinham merecido atenção do autor.

Expresso das Ilhas – O que quis dizer-nos com o livro “Gaveta Branca”?

Káka Barboza – “Gaveta Branca” é uma metáfora que surgiu do seguinte facto: o quarto onde trabalho é pintado de branco e tem uma janela por fora. Sempre que entrava no quarto, estava a entrar numa espécie de gaveta e abrindo o meu computador, afigurouse-me que eu estava abrindo uma janela para entrar em gavetas à semelhança do nosso cérebro que contém gavetas onde guardamos os factos e os acontecimentos. Então, é essa gaveta recheada de factos, de vivências e de lembranças que eu quis abrir e olhar para dentro. Branca porque a luz é branca. Então eu pensei: a gaveta branca tem que ter a luz branca da palavra. É essa metáfora que eu achei muito forte – gaveta branca - que não é muito usual, mas suponho que nós próprios e toda a humanidade estamos contidos numa gaveta. Essa gaveta universal que é uma gaveta infinita.

Dou-me conta que os seus temas habituais não estão neste livro. Surgem meditações filosóficas, existenciais e até cabalísticas.

Há outros aspectos que são recorrentes nos meus poemas, mas estão diluídos de uma forma muito pensada, porque este livro foi escrito ao longo de cerca de um ano. Olhando para a luz, no seu aspecto enquanto grandeza física, é um raio que atravessa todo o universo. Mas a nossa luz, que é a nossa mente, aquilo que nós produzimos enquanto ousadia de poder pensar, reflectir e ir até onde a nossa imaginação alcança é também um outro raio. Esse cruzamento de raios produziu todo o pensamento que o livro contém. Nesse aspecto é um livro reflectido. É um livro que não foi publicado antes justamente porque não tinha idade. Hoje tenho mais idade para o livro se parecer comigo. Mas eu quero chamar atenção para o seguinte facto: o fundamento deste livro é a luz. Nós temos que ser o centro da produção da luz. E essa luz é o conhecimento, é a possibilidade de alcançarmos o máximo em termos daquilo que podemos visualizar. Na poesia é também este o elemento essencial. É conseguir criar imagens através desse olhar, transformando essas imagens em palavras. De modo que é dentro desse campo que me situei para escrever o que está no livro.

Quem tenha lido seus anteriores trabalhos pensará facilmente que o Kaká Barboza se desencontrou com este livro. Pensa isso?

Não há um desencontro. Quando comecei a escrever este livro, passava por uma fase delicada da minha vida, estava desempregado. Com a preocupação de manter a família e as despesas normais da casa, criou-me alguma pressão. E, normalmente, quando há pressões desta natureza, suponho que os criadores estão mais bem preparados para explodirem, no sentido da criação de algo mais expressivo e mais emocional, mas também com uma capacidade reflexiva muito maior. Tratando-se de poesia, houve paz e sossego para que o livro pudesse conter essas reflexões, fugindo, de facto, um pouco daquilo que têm sido as minhas composições musicais e toda a poesia que eu escrevi e que venho escrevendo. Foi minha intenção que este livro fosse um pouco mais reflexivo, por isso o seu arquivamento durante 15 anos.

  
Portanto não foi inocentemente que procurou o filósofo Carlos Bellino para fazer o prefácio?

O racionalismo cristão tem uma carga de livros que não é doutrina racionalista. São livros que reflectem uma emanação do espírito. Eu leio esses livros com muita atenção para poder compreender até que ponto é que eu estaria em condições de elevar-me, cultivando o espírito. Mas um espírito resultante de um país como o nosso. De facto, o espírito é uma entidade universal, mas há também aquilo que eu considero o espírito cabo-verdiano que reside na pessoa e que se formata dentro da nossa realidade e da nossa vivência. Essas reflexões no meu livro baseiam-se justamente nessa possibilidade de nos encontrarmos connosco próprios, numa espécie de feixe de luz. Mas é também uma viagem que se reflecte em todos os poemas do livro.

 Sempre pensei que o espírito cabo-verdiano estivesse contido nos seus livros anteriores, entre eles Vinti Xintido Letrado na Kriolu, Son di ViraSon e Konfison na Finata.

O sândalo é uma árvore/ mas quando o machado fere o sândalo/ há um perfume que exala /e esse perfume contamina toda a atmosfera envolvente./Quem se aproxima do bosque sente esse perfume. Todos os meus livros têm um perfume. Esse perfume é um perfume telúrico, é toda a força da terra, porque penso que o nosso país, a nossa terra, é muito generoso; os homens é que não prestam. A nossa terra é muito generosa e todos cabemos cá, inclusivamente o resto do mundo, se cá vier. Agora, trata-se de dar guarida a todos e convivermos dentro de uma relação sã e depois procurar, assim como os nossos antepassados fizeram, organizar as suas vidas com os escassos recursos disponíveis. Tudo isso é uma força que encontramos nos primeiros escritos da nossa cabo-verdianidade. Por exemplo, num Manuel Lopes, num Baltasar Lopes, num Jorge Barbosa. E essa força sublima-se nos poetas mais actuais. Estou a falar de um Corsino Fortes, de um Mário Fonseca. São esses inputs que nos ajudam a recorrer a esses mesmos recursos e enfatizar a nossa escrita de modo a que ela reflicta toda a cabo-verdianidade possível. O meu livro tem também essa aspiração que é um percurso pela luz e pela voz. Dá-se luz à voz e voz e luz à palavra. É como se estivéssemos a dar voz, luz e palavra a estas ilhas generosas que nós temos.

 Nos seus livros anteriores situa a essência da cabo-verdianidade no interior da ilha ou das ilhas. Continua a pensar desta forma?

Eu acho que Cabo Verde é um todo na sua diversidade, mas devemos partir de um ponto. E o ponto de que eu parto para congregar a diversidade é o ponto onde me fiz homem, onde eu senti todo o ambiente envolvente, toda a vivência, toda a aprendizagem aliadas ao paisagístico, ao labor e às ambições…Esse ponto é a Vila da Assomada, no concelho de Santa Catarina, onde cresci e passei toda a minha infância. É um concelho mítico, cheio de história e rico em tradições. De modo que apreendendo bem essa realidade. Nós podemos chegar e penetrar com alguma facilidade nas outras realidades. As nossas localidades são pontos de onde partimos para outras realidades, sejam urbanas ou rurais. Eu acredito que se parto de um ponto para outro, tenho que acrescentar pontes e não subtrair. Portanto, a nossa diversidade é um somatório de pontos que dão um conjunto de pontos que acabam por formar ou uma linha recta, ou um arco. De modo que eu acho que, de facto, devemos é aproveitar tudo aquilo que as nossas realidades locais nos fornecem para contribuirmos no sentido de gerar, na diversidade, uma forma mais capaz de unificar e criar esse todo que é a crioulidade.

 Tinha ficado com a impressão que nos livros anteriores localizou esse ponto, o tal “Aleph” de que fala Bellino no prefácio, em Santa Catarina.

Provavelmente, ou instintivamente, diria que sim, porque o poeta Mário Fonseca, quando lia os meus textos na língua materna, dizia-me sempre que eu apostava muito no vernáculo. Eu acredito que sim, que instintivamente parto desse grande pressuposto. Agora, partir desse pressuposto não quererá dizer que os outros pressupostos que existem nos centros urbanos, toda essa erudição, não são importantes. É que há uma coisa importante: se nós partirmos do campo para a cidade, sobretudo na ilha de Santiago, estaremos a trazer toda a simplicidade, toda a filosofia campesina, toda essa harmonia, toda essa paisagem para a cidade. A cidade é que nos tem que compreender, porque o camponês percebe a cidade, mas a cidade, nessa dinâmica das relações sociais, culturais e económicas tende a qualificar-se deixando um pouco o campo para trás. Mas o campo é fértil em humildade e numa harmonia mais sã. O campo tem acordes próprios que conseguem dar tranquilidade, ao passo que a cidade pode também gozar dessa tranquilidade, mas há uma agitação que não se esconde.

 Na verdade, a magia da água a correr nas ribeiras não existe na cidade.

Eu compus uma canção que reflecte a necessidade dessa água. Eu falo no em Azágua. Mas essa Azágua é uma Azágua ainda mais ampla e tem como ponto de partida a própria água, porque a água tranquiliza. Em Cabo Verde a água tem um valor cultural enorme, porque nós nascemos numa situação de falta ou ausência total da água que significa também a ausência do verde. O pouco verde que nós temos é da escassa humidade. Mas quando vem a chuva, sobretudo quando a água corre numa ribeira, é uma alegria. É uma alegria cantante, porque a água faz-nos reviver para dentro essa fartura com que ambicionamos e sonhamos. Quando a água vai para o mar, ficamos tristes, porque ela passa e vai-se embora. Felizmente hoje conseguimos reter alguma água e não é por acaso que as nossas barragens atraem muitos curiosos e antigamente as lagoas eram visitadas e as crianças iam para aí brincar. Ia-se à ribeira lavar a roupa, apanhar a água e dar de beber aos animais. São momentos interessantes, porque ajuda-nos a resolver muitos problemas interiores que a gente tem.

 É estranho que o milho entre nós tenha uma carga simbólica que a nossa velha água não tem.

Certamente. Eu acho que nós não temos uma cultura da água. Ter cultura da água significa aproveitá-la no máximo, mas também respeitar o seu uso. É muito paradoxal que numa terra onde a água escasseia haja um uso desordenado do precioso líquido, como se fossemos um país de muita água. De facto, as nossas ilhas são cercadas pela água do mar, mas a água potável que nos ajuda a ter uma vida mais apropriada, essa água é ainda muito maltratada, em termos de uso, em termos de respeito e em termos de elemento a ser valorado para fazer parte da nossa cultura. Nós dizemos que a cachupa é um elemento da nossa cultura, mas a cachupa faz-se com água. De modo que o milho e a água estão intrinsecamente ligados. 

Última pergunta. Pela dimensão que alcançou como compositor, considera-se mais músico ou mais poeta?

Eu já li músicos, trovadores ou letristas e já li poetas músicos. Provavelmente eu sou esse lápis que é afiado dos dois lados. Quando um se gasta, você volta para o outro lado para escrever com a outra ponta que está afiada. Nesse lápis eu sou música e poesia, porque a música existe num bom poema. Há uma musicalidade que reside na essência das palavras. A mutação e a musculação dos versos sugerem um ritmo e havendo ritmo é porque existe uma musicalidade. Este é um aspecto. Agora, sendo músico torna-se-me mais fácil a percepção do ritmo e da musicalidade. Existe uma fronteira entre música e poesia, mas depende daquilo que é a pessoa. Acho que em mim essa fronteira é nítida. Por vezes sou mais músico do que poeta. Depois ponho de lado a música para ser mais poeta do que músico. Tenho poemas meus que musiquei e acho que ficaram perfeitas. Por exemplo, Lavrador di nha terra Ntem fé é uma letra muito significativa que transmite muito, mas a melodia acabou por ajudar a expandir muito mais a mensagem e a chamar mais a atenção. Portanto, nesse aspecto eu acho que há uma dose de ousadia, mas também de muita felicidade.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

Um Dia com o Poeta Corsino Fortes



Às 10H00 estava eu em casa do poeta. Ele tinha terminado o café da manhã. Esperei por ele na cadeira de costume. De pijama, sorridente, entrou na sala de estar. Eu e ele não nos saudávamos, celebrávamos a fraternidade.
 Meu caro, tenho uma coisa para te mostrar. Trazia na mão três livros. E começou: Passei a noite a estudar Haicais. Nunca me tinha passado pela cabeça lidar com isso. Há várias formas de dizer. Eu gosto de Haicais. O Haicai é uma forma poética concisa e provocador do espanto. Explicou-me a origem e as várias formas que o Haicai assumiu no ocidente literário. Referiu-se a Bashô expoente inevitável desta arte de escrever. Abriu o bloco de notas e leu-me o seu primeiro haicai. Este é seguramente o primeiro Haicai do poeta irmão, Corsino Fortes.
 Poema perdido
 no pó poalha da palavra
 pavor do poeta.
O seu bloco de notas traça na realidade a trajectória do poeta na sua nova paixão … aprimorar os haicais, hoje, editado em livro. Momentos singulares e de boa conversa guardo comigo, entre outros, os da composição dos últimos poemas, todos eles desenhados na mente, para, depois, transpô-los no bloco de notas. Dentro do automóvel do Sr. Fran Gonzalez, a caminho do aeroporto de Las Palmas, de regresso às Ilhas, o Poeta Maior descrevia-nos como viria a ser o poema que tinha em mente.
 Dias depois dei a conhecer ao poeta o ensaio:
Flores d’Ibyago
alvo jardim de lonjuras
flumes luzentes.
Sorriu. Está bonito. Contou as sílabas. Explicou-me as regras. Trouxe o bloco mostrou-me outros em construção, leu e explicou o conteúdo. Ele estava entusiasmado com isso. Olha, meu caro. Vamos levar a ideia aos académicos e ver se conseguimos um dia fazer uma sessão de Haicais. Haicais nossos. Seria uma coisa bonita e inédita. Vamos pensar nisso. Da minha parte eu quero chegar a uns trinta. Já dá para começar. Nesse dia só falamos de Haicais. Assinou o cheque da Academia, despedimo-nos, com a alegria de sempre. Olha, meu caro. Esta casa é tua. Podes vir a qualquer hora do dia ou da noite. Estou sempre cá. Fecha bem a porta lá em baixo. Bateu o portão de ferro e rodou a chave duas vezes. Nossos encontros eram autênticas celebrações de amizade.
Conviver com Corsino Fortes era celebrar o amor ao próximo.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

O Bilhete do Mês


Escureceu e os violões tinham-se calado no Pôr do Sol. Era um domingo de bom tempo. Música e recordar o passado fizeram parte do passatempo. Tudo passou depressa. Custa partir quando o ambiente é bom. 
Eram vinte horas e poucos minutos quando o automóvel seguia calmamente no piso irregular da estrada. As margens escondiam-se na escuridão com o avanço dos faróis. Subitamente relampejou, depois trovejou. O espanto parou o movimento. Forte foi a pancada. Acidente. Parecia o já visto. Um estrondo perseguindo a jornada. Visualidades! Nunca se sabe. Qualquer viagem contém receios. Aprontam sustos. Neste caso foi um susto valente. Aconteceu o que tinha de acontecer. Só não calhou o que devia calhar. O fim esteve, mas sumiu num ápice no negrume aterrador. Vindo do breu, uma voz segredou á janela: Ele não é daqui. Ele é estrangeiro. Vamos embora. Deixa-o ficar. Gracejaram corvos e lagartos. Uma voz na escuridão alertou: não, ele é mesmo daqui. Apesar de tudo, as peças do esqueleto estavam intactas, mas de coração gelado. Ao lado, o outro que tudo viu e tudo assistiu, resfolgava frígido. Da lista dos condenados ao eterno descanso não constava os esqueletos em viagem. Morreu a morte de angústia e viveu a vida de alívio. Era o mês de Maio. Mês do não enterrar, mas sim de florescer. Tempo do amanhecer e do pôr do sol tropical. Tempo de mudança de estação, de viagens e de lazer. Mês das acácias rubras e da loucura dos pardais e grilos no pátio a inaugurar a tropicalização do calendário. Viver é calar dores e morrer é silenciar amargores.  

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Excerto do Livro Olho da Rua




(...)
Desde aquela tarde de sol quente de sua meninice em que o Rufino, de nominho Fifi, se revoltou e saiu de casa para não mais pôr lá os pés, altura em que pensava que a rua se podia converter no regaço de uma mãe aconchegante, onde a liberdade de tudo fazer era um claro querer, onde também podia a sua vida encher-se de novos sonhos e a felicidade advir ao dobrar a esquina, jamais teve sossego. 
Mesmo nas horas de calma, em que sonhava com o além especial, com o asilo perfeito das suas ilusões, que o levasse a esquecer os rastos de desamor plantados na sua cabeça de criança, ele não conseguia serenar, não conseguia estar em paz consigo próprio. 
Quando deambulava e lhe perguntavam de onde era e a que se dedicava, respondia sem embaraços: «faço mandados e lavo carros». Mas respondia sem conhecer as intenções ocultas das pessoas que o miravam com olhos de desconfiança. Lá nos confins do mundo que girava dentro dele, esboçavam-se sonhos misteriosos em que ele próprio deixava por vezes de acreditar. Estava claro que fez e desfez durante o tempo em que seu juízo errante o aconselhava que sim, que estava certo. 
Mas a partir do momento em que sentiu na pele as pessoas devolverem-lhe desafeiçoamento, afastando-se dele com pressa, coisa triste de sentir, vendo-se cada vez mais cercado e afastadas as hipóteses de conviver sadiamente com elas, de voltar a estar em casa junto de quem ainda pudesse reavê-lo da triste situação em que se achava, a verdade da vida começou a pesar-lhe na consciência, apesar de o instinto de revolta insistir em mantê-lo longe de qualquer um que o quisesse proteger. (...)

Obs. Uma noveleta sobre a vida num bairro, seus habitantes e o que levou um menino a fugir de casa para viver na rua - olho da rua - título do livro.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Prenúncio de um Refractário




Se escrever é álcool, a palavra é cana na calha do trapiche, caneta o boi, papel o alambique e a prosa ou o verso a destilação que embriaga. De cada vez que apronto um bilhete é a taça cheia diante dos olhos do bebedor.
O contrato com a escrita é um tratado efémero que celebrei com o papel, a caneta e o vício de escrever, doença que mata ao de leve. Por isso as roturas. Não sei viver sem roturas. Roturas sensatas. Rompo sempre que o boi se estafa diante do trapiche. Rompo ao falhar o alambique. Rompo quando me enfado da cana. Só os deuses não estafam. Os esperançosos, também não. Nem os livros que carregam as fantasias do mundo.

Escrevam, vocês! Escrevam, escribas, poetas e prosadores que o meu lugar é na taberna onde o violão não pára, onde a algazarra e o som são mais vida que o comboio de letras na frente, desfilando fantasias, sonhos e evasões. O som é concreto. A música é percurso. Quando se erra muda-se o caminho, quando não se acerta, remenda-se e dá-se o salto ou então suspende-se e improvisa-se.
Escrever é escada de degraus esgotantes, enquanto o som é estrada para se chegar à alma, seja que alma for, de santos ou de pecadores. 
A escrever alcança-se o céu. A musicar trilha-se o caminho do inferno da sabura, do esquecimento, do extasie, enquanto poetar é tropeçar na margem do rio que não se conhece, que não tem nome, nem foz, nem mar que trave o perigo das palavras. Música é infinito na pauta. Poesia é desenho do infinito no papel. Não quero ser sepulcro da poesia, antes devorado pelo embalo duma morna ou pelo fervor do funaná até ser pó no terreiro livre sem mandão, longe, mesmo longe dos escribas.


RAPIZIUS

                                                                                                         MINHAS AMIZADES COM DIAHO ...